quarta-feira, 21 de novembro de 2012

É SIMPLESMENTE ISSO



Vai direto pra parede do meu novo studio...

"Os artistas são as pessoas mais motivadas e corajosas sobre a face da terra. Lidam com mais rejeição num ano do que a maioria das pessoas encara durante toda uma vida. 
Todos os dias, artistas enfrentam o desafio financeiro de viver um estilo de vida independente, o desrespeito de pessoas que acham que eles deviam ter um emprego a sério e o seu próprio medo de nunca mais ter trabalho. Todos os dias, têm de ignorar a possibilidade de que a visão à qual têm dedicado suas vidas seja apenas um sonho. Com cada obra ou papel, empurram os seus limites, emocionais e físicos, arriscando a crítica e o julgamento, muitos deles a ver outras pessoas da sua idade a alcançar os marcos previsíveis da vida normal - o carro, a família, a casa, o pé-de-meia. Por quê? 
Porque os artistas estão dispostos a dar a sua vida inteira por um momento - para que aquele verso, aquele riso, aquele gesto, agite a alma do público. Artistas são seres que provaram o néctar da vida naquele momento de cristal quando derramaram o seu espírito criativo e tocaram no coração do outro. 
Nesse instante, eles estão mais próximos da magia, de Deus e da perfeição do que qualquer um poderia estar. E nos seus corações, sabem que dedicar-se a esse momento vale mil vidas." 

David Ackert, empresário e ator

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O EXTASE DO SAGRADO: BASTIDORES











Como prometi no sabado, no Facebook, estou aqui para contar os detalhes da minha segunda exposicao na Holanda. Segunda, mas com cara de primeira. Vou me ater apenas aos bastidores, porque o video acima ja explica bastante o meu processo de trabalho. Quando comecei a fazer essas colagens, no comeco de outubro do ano passado, nao esperava que tivesse uma recepcao tao bacana por grande parte das pessoas que foi a Galerie Lokaal WV 15, no dia 15/09, na abertura. Foi um momento emocionante e unico pra mim. Primeiro por mostrar fora do Brasil, pela primeira vez, da forma como eu gostaria, o meu trabalho e, segundo, porque houve tantos contratempos que a realizacao dessa exposicao se tornou uma questao de honra pra mim. Acho que qualquer artista que expoe fora do seu pais passa pela mesma situacao: a desconfianca dos donos da casa, o medo da desaprovacao, a pressao de ter que vender, a inseguranca de nao dominar a lingua… Comigo nao foi diferente, mas, por incrivel que pareca, eu que costumo ser uma bomba relogio nas vesperas de minhas exposicoes, estava bem tranquilo. Nao totalmente seguro, mas tranquilo. E ja explico o porque.
Um mes antes da abertura, estava no supermercado e dei de cara com a capa da revista Wallpaper* com uma imagem muito parecida com a das minhas colagens. Abri correndo a revista e vi um editorial inteiro saudando o retorno do Barroco. Achei isso de muito bom agouro, afinal a Wallpaper* ainda e um grande referencial para artistas e designer, no mundo inteiro. Alias, ja houve ate uma edicao dedicada ao Brasil. Foi o sinal de que eu precisava para saber que o trabalho que eu tinha comecado, um ano antes, estava no caminho certo. Quando a dona da galeria escolheu todos os 10 trabalhos, sem tirar nenhum!, tambem comemorei bastante. Mas faltava o principal: a aprovacao do publico, dos amigos e tambem do mercado de arte daqui, afinal voce pode ser um genio, o que nao e o meu caso, mas, se nao vender nada, a chance de novas oportunidades fica cada vez mais remota. Tudo isso aconteceu, mas nao sem um pouquinho de tensao.
O tempo que estava otimo, de repente virou. Uma garoa chata ia e voltava, o tempo inteiro. Para quem faz tudo andando de bicicleta nao tem nada mais irritante. Encomedar as molduras foi outra novela tambem. Qualquer servico na Holanda custa uma pequena fortuna e os profissionais daqui sao extremamente voluntariosos, fazem tudo no seu proprio tempo e nem adianta forjar aquele jeitinho brasileiro de resolver as coisas de ultima hora. Tive que ir algumas vezes a loja (que nao fica exatamente no centro da cidade). Gentilemnte, um amigo holandes me emprestou um quarto de sua linda cobertura, numa das principais ruas de Amsterdam, no centro, para que eu fizesse o meu QG. De la, comecei a divulgacao e os preparativos finais. Dias antes, ja tinha finalizado o meu site www.luisfabianoteixeira.com (alias, todos convidados a conhecer). Material grafico em maos (que aqui fica pronto no mesmo dia!), depois foi so levar os quadros para a galeria. A montagem comecou bem cedo, mas tudo correu as mil maravilhas. A dona da galeria, Josilda da Conceicao, propos – e eu aceitei – algo bem desconectado, os quadros dispersos, sem sequencia logica ou combinacao de cores, quebrando aquela pretensa formalidade que geralmente obras de arte costumam ter, quando colocadas lado a lado. Adorei a ideia. No dia seguinte, ainda voltei a galeria para colocar um suporte que faltou em um dos quadros. Mas, quando pensei que, enfim, descansaria, tive uma dor de coluna subita, e isso ja era a vespera da abertura.
Medico aquela altura seria impossivel, entao o jeito foi tomar um banho bem quente e dormir em posicao de… mumia. E nao e que deu certo? Acordei no sabado bem cedo com o sol entrando pela janela e a dor nas costas ja bastante controlada. Diante do espelho, percebi que estava ainda visivelmente cansado, embora inegavelmente feliz. No caminho para a galeria, fui relembrando tudo que tinha acontecido ate ali: as coisas boas e ruins, a minha primeira exposicao na Piola, em Santos… E bastante longe de casa, dos meus pais, dos meus amigos do Brasil, tudo parecia ainda mais melancolico. Mas essa sensacao durou pouco. Entrei na galeria com alguns convidados ja apreciando as obras, me desculpei pelo pequeno atraso, pluguei o meu ipod no aparelho de som e escolhi O Tropicalismo, A Poesia Concreta e o Mar, uma trilha de um desfile elaborada pelo Dj Ze Pedro, anos atras. Um set maravilhoso, cheio de intervencoes sonoras inusitadas. "Confusao!". Respirei fundo e disse a mim mesmo: Valeu a pena! Dai pra frente voces podem imaginar, vieram os cumprimentos, lindas flores, a reacao bacana das pessoas, as vendas comecando, a dona da galeria feliz, os amigos dizendo palavras tao carinhosas... Isso sem contar os inumeros emails lindos que recebi, durante a semana inteira. Uma vez um holandes me disse uma coisa que eu nunca esqueci, “ser artista e dificil em qualquer lugar do mundo”, no que eu concordei imediatamente. Sim, as dificuldades sao enormes, mas os momentos felizes tambem existem. E e principalmente por eles que nos vivemos, nao e? Agradeci pessoalmente a todos aqueles que me ajudaram na realizacao desse primeiro passo, longe de casa. Pessoas muito especiais pra mim. Agora vou sair para curtas ferias em Lisboa, mas depois volto contando as novidades de la. Abracao!

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domingo, 15 de julho de 2012

SALADAO




Faz um bom tempo que nao consigo atualizar o Blog, mas hoje resolvi voltar pro ninho como naquela parabola do filho prodigo. Espero que voces possam compreender a minha ausencia e ate torcer pelas novidades. Antes de qualquer coisa, por aqui ja e verao (nada comparado ao do Brasil, claro) e so por isso e mais facil sorrir. Encarar os desafios com mais leveza. E isso e muito bom. Um dos motivos da minha correria e tao-somente profissional, surgiram dois convites para exposicoes, aqui em Amsterdam, com um intervalo apenas de um mes entre uma e outra, entao logo precisei me concentrar nessas duas excelentes oportunidades e praticamente abandonei Facebook e afins. Tambem porque essas redes sociais todas ja estavam me dando nos nervos com tamanho excesso de banalidades. Porem, como sempre fui a favor da liberdade de expressao, preferi me retirar por um tempo a ter que ficar reclamando o tempo todo ou mesmo escrevendo post para retrucar bobagens, como uma brincadeira que fiz num comentario, sobre um post do Instagram aqui mesmo no Blog, em que afirmei que uma das razoes de usar o aplicativo e que gosto de fotografia e sou “exibido”.  Teve “vizinho” que nao gostou nadinha disso e, sem citar meu nome (e nem precisava), fez la sua reclamacao. Dou de ombros. Vou encerrar essa pendenga boba recorrendo as palavras de Henri-Pierre Jeudy: “A exibicao nao e necessariamente publica, ela e, antes de tudo, essa intimidade do corpo oferecida ao olhar do Outro”. Sem mais.
Tambem encontrei um tempinho pra passar um final de semana em Bruxelas, na Belgica. Trouxe excelentes recordacoes de la. O dia estava ensolarado, conheci pessoas muito bacanas, a cidade e uma graca e o povo e muito acolhedor e simpatico. Sem contar que a lingua francesa e de derreter coracoes. Eu, por exemplo, ouco duas frases e ja fico molinho, molinho. Adoro. Pessoalmente, e tao sensual quanto o portugues e para eles. Foi apenas um final de semana, mas deu para conhecer a famosa La Demence, uma festa diferente de tudo que ja vi em termos de casa noturna e tambem fui ao Museu Magritte que, confesso, nao me empolgou muito. Na verdade, o museu em si e muito bom, mas as obras mais conhecidas do artista nao estao la, mas, mesmo assim, indico o programa, principalmente aos mais chegados ao Surrealismo. Nao e o meu caso. Aproveitei a chance de estar em outro pais e sapequei num muro do centro da cidade outra colagem da minha intervencao urbana Do Lixo ao Muro. A imagem era uma alusao a um casal de gays adolescentes que vi namorando num parque lindo, nos arredores do museu. Por coincidencia, tempos depois, seria convidado para o evento do PAX 2012 para responder a pergunta “O que e uma arte `rosa`?”. Mas falarei sobre isso mais adiante. 
Nao tive muito tempo para cinema, mas abri uma excecao para dois filmes bem interessantes, Paraisos Artificiais e Weekend, respectivamente de Marcos Prado e Andrew Haigh. O primeiro me chamou atencao pelo cenario, Amsterdam, mas apesar de imagens belissimas e de uma atuacao inspirada de Nathalia Dill, o roteiro nao e dos melhores e, dependendo de quem o assista, pode parecer ate uma grande louvacao ao controverso mundo das drogas. Filmes com esse tema prefiro com uma boa dose de radicalismo como Kids e Gia – Fama e Destruicao, ambos dos anos 90 e Mentiras y Gordas, de 2009. Ja Weekend foi uma grata surpresa, o filme e otimo em todos os sentidos. O roteiro e muito bom, as atuacoes, a fotografia… Nao e a toa que ganhou varios premios mundo afora. O roteiro e tao bom e cheio daquelas frases com aquele humor ingles saboroso que ate anotei uma delas: “Sabe como e quando voce dorme pela primeira vez com alguem que nao conhece? E tipo… Voce se torna uma tela em branco e isso te da uma oportunidade de projetar nessa tela quem voce quer ser”. Nao custa nada parar e refletir.
Acompanhei algumas noticias do Brasil com uma certa preguica, porque, sem querer ser pessimista, mas ja sendo, a impressao de que tenho e que a impunidade e a violencia no nosso pais nao tem conserto. Cansei mesmo. Ver Lula e Maluf juntinhos foi de doer. E isso foi so uma dessas lambancas em tempos eleitorais. Mulher que mata e esquarteja marido, assassinato barbaro de gemeo motivado por homofobia, mais uma morte de morador de rua, queimado vivo, ambos na Bahia… Sinceramente nao da! Nao sei como vou me acostumar a tudo isso, quando voltar. Enfim, sei que foi um saladao de noticias, mas pelo menos dei o ar da graca. Vou tentar aparecer mais pra colocar o papo em dia, porque muitas coisas ficaram de fora. Entao, ate ja. Abracao!

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terça-feira, 1 de maio de 2012

QUEEN`S DAY















Ontem foi o Queen`s Day, aqui na Holanda – uma especie de carnaval e 7 de Setembro, para simplificar. Pensei em nao postar nada, afinal ja tinha ate feito um certo barulhinho sobre esse feriado daqui, no Facebook, Twitter e Instagram (o meu mais novo passatempo na internet – ate quando?), mas como a minha vida cultural anda um pouco em baixa, por conta de uma serie de trabalhinhos de imigrante que surgiram nos ultimos dias, resolvi fazer um resumao da festa, mas bem ao estilo “a quem interessar possa”, porque para nos, acostumados com um carnaval interminavel e diverso, nao deve ser la muito convidativo ficar lendo sobre uma festa popular onde todos se vestem de laranja e vao para as ruas bater perna e comprar cacarecos. Mas tambem nao e bem assim. No quesito alegria, eles ainda deixam muito a desejar, mas como estou numa fase muito tranquila, confesso que adorei tudo e me senti completamente integrado.
O Queen`s Day e um feriado em homenagem a Beatrix, a rainha da Holanda, uma simpatica velhinha que adora chapeus extravagantes e um penteado armadao, tipo aquele da Cassandra do Sai de Baixo. Lembram? Figura carismatica, a sua alteza real costuma fazer dois discursos publicos por ano, um na abertura do Parlamento (se nao me engano, em setembro) e outro no final do ano. Nao costuma intervir na politica do pais, apenas em casos muito especificos. E, como a politica por aqui nao tem la grandes sobressaltos e tambem pelo fato da Holanda ser um pais muito rico e estar driblando a crise numa boa, ela tem suditos fieis. Todos a respeitam, a admiram, mas tambem brincam com a imagem dela e sem maiores consequencias. Quando ascendeu ao trono, ela poderia ter mudado o Queen`s Day para o dia do seu aniversario, mas preferiu manter a data no final de abril, em homenagem a sua mae. Isso fez toda a diferenca, porque esse dia e tambem uma especie de celebracao da Primavera, que chega depois de um inverno bastante rigoroso. A cidade se veste de laranja, ha festas por toda a Holanda, mas as mais animadas acontecem mesmo em Amsterdam. Dois ou tres dias antes, os turistas ja comecam a desembarcar por aqui, os hoteis ficam lotados e as ruas intransitaveis. Muda a rotina da cidade, mas geralmente os holandeses gostam muito e celebram o dia.
Moro no centro da cidade e o meu quintal e uma praca muito conhecida por aqui, a Rembrandplein, homenagem ao grande pintor holandes, conhecido por suas imagens bem realistas e uso extraordinario das sombras. A festa, aqui no centro, comecou bem cedo, as 8h:OO, ao som de… Born to Die (pasmem!), da Lana del Rey, num remix duvidoso, nas alturas, para meu desespero e do meu amigo portugues Carlos, que veio nos visitar e passar o feriado conosco. Ja haviamos saido, no domingo a noite e, por causa da barulheira, nao conseguimos dormir no dia seguinte. Decidi levar na esportiva, coloquei um par de oculos escuros, agradeci ao dia de sol, deixei o casaco em casa e fui para o Jordaan, um bairro bem charmoso de Amsterdam, cheio de atelies, brechos, galerias, enfim, um dos lugares mais descolados da cidade. Outro detalhe: como o Qday e um dia que ninguem paga imposto (e aqui os impostos sao astronomicos), ha uma tradicao de vender nas ruas tudo que se possa imaginar, novos e usados, a precos simbolicos (ou nao). Quem tem paciencia para sair bem cedo para as compras pode garimpar muitas coisas legais, mas, sem muito espaco onde moro, tive que me contentar com uma t-shirt e um tenis Nike, ambos bem baratinhos. Mas tambem vi um poster original do filme Um Bonde Chamado Desejo por 500 euros. O dono me disse que estava a venda porque ele estava com a faca no pescoco, mas nao fazia parte do espirito Qday de precos baixos.
Passei tambem por varios palcos montados em diversos lugares, onde se ouvia toda sorte de musica  – de jazz a Michel Telo e a tal Danza Kuduro , para todos os gostos, generos, idade, etc. Tudo de graca. Arrisquei ate alguns passos de danca, depois de dois unicos copos de cerveja, mas nada que possa me orgulhar rs. Terminei o dia na Reguliersdwarsstraat, onde os gays estavam pra la de divertidos e depois fui a um bar na Amstel e voltei pra casa exausto. Mas feliz. Pelo dia ensolarado, pela onda de alegria e laranja que tomou conta da cidade, enfim, por esse momento tao bacana que agora se soma aos outros que tambem vivi por aqui. Espero que voces tenham gostado das imagens. Em breve, estarei de volta. Otimo feriado do trabalhador para todos nos. Abracao.

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terça-feira, 10 de abril de 2012

REPUBLICA DOS SEM LEITORES

Nao estou no Facebook. Lendo um livro.

Ha alguns dias, saiu na imprensa uma pesquisa do Ibope apontando que metade dos brasileiros nao gosta de ler. Os entrevistados reconhecem que a leitura e importante para o desenvolvimento intelectual, profissional e academico, mas preferem outros programas como assistir a TV e acessar a internet. Trocando em miudos: nao gostam e pronto. Quando vi os numeros, entrei em panico. Vejam bem, nessa pesquisa, foi considerado leitor apenas aqueles que leram um unico livro, nos ultimos tres meses anteriores as entrevistas, mas, ainda assim, apenas 47% responderam afirmativamente: “Sim, eu li um livro nesse periodo”. E ou nao e motivo de preocupacao? Que o brasileiro nao goste de ler, isso nao chega a ser nenhuma novidade, mas continuar insistindo no erro, batendo na tecla de que se trata de uma questao socio-cultural como justificou (?) Maria Antonieta Cunha, diretora do programa do Livro Leitura e Literatura do Minc – “A questao e que nos nao temos a leitura como um valor social” – pra mim, ja e um pouco demais.
Muitas pessoas escolhem a ecologia, os animais, os flagelados da Africa, os soropositivos, enfim, nao faltam ao mundo e, sobretudo ao Brasil, boas acoes para se defender ou apoiar, mas eu escolhi essa bandeira, lutar por um pais leitor, porque tenho certeza absoluta de que, se tivessemos um povo mais culto, muitas coisas seriam diferente. Onde ja se viu, por exemplo, eleger um deputado federal que nunca ficou claro se realmente e alfabetizado ou nao? Nao se trata de preconceito, longe disso, mas nunca engoli o Tiririca no Congresso. Pronto, falei. Sem contar o principal: a Educacao no Brasil, que ja era capenga, passou a ser camuflada com varios projetos assistencialistas-bons-de-voto, que apenas empurram a sujeira pra debaixo do tapete. Uma vergonha. E por essas e outras que Thor (19 anos), o filho mais velho do empresario Eike Batista, se gabou ao dizer que o unico livro que leu ate o final foi a biografia do proprio pai. Grave. Se a elite brasileira ja e considerada preguicosa culturalmente, imagina o que vem pela frente.
As iniciativas para o crescimento da leitura, no Brasil, nunca deram certo porque falta vontade politica e a iniciativa privada, que poderia fazer alguma diferenca, ou prefere aderir a outras causas ou nao estao nem ai mesmo. Ha dois anos, mantenho o Amigo Leitor, um blog bem despretensioso sobre o prazer de ler, nao e sobre literatura e muito menos fechado aos apaixonados por livros, e um blog para todos, onde coleciono depoimentos diversos e iniciativas que promovem a leitura. Mesmo com textos curtos e leves, o blog nao emplaca, mas eu nao desisto desse projeto e ainda pretendo amplia-lo, quando chegar ao Brasil. Cada um tem que fazer a sua parte, nao tem outro jeito. A TV, por exemplo, poderia ajudar nessa empreitada, mas sao raros os autores de novelas e diretores de programas que compram a ideia. O fato de um livro pertencer a uma editora X ou Y o impede de aparecer na novela das oito – o que e uma grande mesquinharia, vamos combinar. Mas ainda bem que nem tudo esta perdido. Muito recentemente, o Esquenta, da TV Globo, lancou a sua biblioteca itineraria, uma iniciativa louvavel, sobretudo porque e um programa que fala direto as camadas mais populares. Na TV Brasil, do Rio de Janeiro, existe um outro programa muito bom tambem chamado De La Pra Ca (os videos estao todos na rede, muito bem realizados e com personagens bem interessantes. Ja assisti a quase todos.), mas, por outro lado, a TV Cultura, que ja foi referencia no assunto, com o seu Entrelinhas nao conseguiu aproximar os livros dos telespectadores, porque errou ao apostar numa linguagem “cult”, apenas para "entendidos". Livro e pra ser visto como alimento, deveria estar na cesta basica de todo mundo, ser motivo de conversa no boteco, estar por todos os lados, as criancas deveriam brincar com eles, mas ainda existe essa mentalidade besta de ver o livro como objeto de decoracao, como o opium de poucos afortunados. Sim, livro novo e caro, mas com mais leitores os precos cairiam bastante e tambem existem outras formas de conseguir livros baratos: em sebos, mercado de pulgas, sites como o Mercado Livre, etc. So nao le, mesmo, quem nao quer. Falta de tempo? Sai um pouco do Facebook, oras. Desabafei.
P.S. Para comemorar os 5 anos do Blog, resolvi dar uma reformada na casa. Espero que voces gostem do novo visual.


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domingo, 8 de abril de 2012

ENJOY THE LIBERTY



O alerta veio do blog da minha amiga Angelica: o Instagram, aquela rede social ate entao fechada para usuarios de iPhones (uma especie de fotolog de “bacanas”), agora passou a incorporar tambem os usuarios do Android, o sistema operacional criado pelo Google, para outras marcas de celulares e ate mais acessiveis. Sou totalmente leigo nesse assunto, mas foi o que entendi. O que antes era de um grupo seleto e, digamos, abonado, agora esta disponivel para qualquer pessoa. Vamos ficar nesses termos e aceitar o politicamente correto, para nao ofendermos ninguem. Pois bem, sempre tive vontade de entrar nessa rede social, embora ja me custe atualizar Facebook, Twitter, Flickr, Tumblr, etc, mas, como muitas vezes esqueco a minha camera em casa e vivo registrando street art por ai, vi no Instagram a possibilidade de divulgar, com moderacao, coisas que me agradassem e em tempo real. Nem muito por aqueles filtros-retros porque o Photoshop ja me quebra um galhao, mais pelo fato de tirar a foto e posta-la, instantaneamente, mesmo. Ja estava ate pesquisando o preco do aparelho, quando saiu a “novidade”.
E a gritaria foi geral entre os “hipsters” de plantao: “Vao estragar o Instagram”, “O Bolsa Familia chegou para os usuarios do Android” e por ai vai, na maior demonstracao explicita de preconceito que eu ja vi na internet. Muito embora esse tipo de reacao nao seja assim tao recente. Quando o Orkut comecou a ficar bem popular, acessado pelas camadas mais humildes da populacao e surgiu aquela avalanche de rosinhas e frufrus nos scraps, essa mesma turma foi a primeira a migrar pro Myspace e depois para o Facebook, que por sua vez acabou engolindo os dois. Vem dai o termo “orkutizacao”. Quando uma rede social comeca a ficar bem kitsch, bem trash, e porque, segundo essas pessoas, estao orkutizando a mesma.
Ha algum tempo, estou estudando esse “fenomeno”, para um proximo trabalho, e o que mais me chamou atencao na escolha do tema foi justamente como o mundo virtual incorporou uma das mazelas mais hediondas da vida real: a manifestacao do odio e do preconceito. Aposto que cada um de nos tem uma experiencia pra contar. Esse rapaz que imita a Xuxa, por exemplo, me parece ser a bola da vez. Nao sou de entrar em discusses calorosas, na rede, mas outro dia critiquei uma pessoa da minha lista do Facebook porque um dos albuns dela se chama “Porque pobre nao pode ter maquina fotografica”, onde ela coleciona fotos de gosto pra la de duvidoso, bizarras e algumas simplesmente engracadas, de pessoas anonimas e principalmente de brasileiros. Muitas pessoas temem que o Instagram seja invadido por imagens assim e que deixe de ser "cool". Bom, expliquei as minhas razoes a pessoa, disse-lhe que achava aquilo cafona e que promover essa divisao de classes nao a levaria a lugar nenhum e que ela estava apenas tripudiando da pobreza de espirito alheia. Resultado: ela concordou comigo, apagou o meu comentario, mas preferiu continuar com o seu circo. Dei de ombros.
E chato ter que trombar, todos os dias, com a falta de bom senso das pessoas? E. Mas, por outro lado, voce tem a chance de nao querer receber mais atualizacoes dessas pessoas e ate exclui-las, se for o caso, por isso eu nao me incomodo com essas coisas, nao procuro esquentar a minha cabeca com essas bobagens. E depois eu costumo pensar da seguinte maneira: cada um tem o direito de fazer da sua vida o que quiser, quer ser futil? (e olha que estou farto de ver marcas via Instagram), quer se fingir de rico?, quer fazer a linha nerd?, o pegador?, a periguete?, enfim, seja la o que for, cada um tem o direito de ser o que quiser, usar a mascara que quiser. Pra essas pessoas eu nao dou a menor bola. Nao perco o meu tempo. E outra, todo mundo conhece os perigos a que isso implica. Como diz uma propaganda de bicicleta que faz muito sucesso por aqui: Enjoy the liberty. E, claro, capriche nos cliques do seu Instagram. Seja ele de qual celular for.


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domingo, 1 de abril de 2012

INSACIAVEL



Assisti na semana passada ao tao comentando Shame, de Steve McQueen, e esperava ser apenas mais um filme com nudez explicita e so por isso faria um certo barulhinho. Ainda bem que quebrei a cara. Tudo que se tem falado ou escrito sobre ele e absolutamente procedente. Fiz uma busca na minha memoria cinematografica, por exemplo, que nao chega a ser tao prodigiosa em termos de numeros, mas bastante seletiva, e nao me lembro de ter assistido a nada mais perturbador e interessante. Pelo menos nao na ultima decada. Fa assumido de classicos como 9 Semanas e Meia de Amor, Ata-me e Intinto Selvagem, nao tenho o menor pudor em colocar Shame entre essas perolas do cinema mais… apimentado. O filme e basicamente sobre o desejo sexual compulsivo. Um viciado em sexo. Assim mesmo, sem rodeios. O diferencial esta na sua abordagem: realista no sentido de expressar o que realmente acontece nos  dias de hoje (a facilidade de se fazer muito sexo, aliada a  uma certa angustia), mas com um olhar absolutamente melancolico, nada comum para filmes dessa natureza.
Faz algum tempo que postei aqui no Blog um conto chamado Aquele e o Outro, onde abordei esse mesmo assunto, por estar  incomodado com esse comportamento, mais ou menos recente, das pessoas “dissolverem trizteza em sexo”, em tentativas quase sempre frustradas de realizacao pessoal e apenas momentaneas. Para minha surpresa, Steve McQueen (que tambem e artista plastico) ja estava de olho no tema. Na revista Dazed and Confused, de fevereiro, ele disse que so fez o filme porque o “assunto pedia”. Nao da mesmo para ignorar essa oferta absurda de prazer a que estamos expostos, todos os dias. A propria internet e responsavel por tornar a vida sexual das pessoas bem mais agitada, mas isso tambem traz la as suas consequencias – o que o filme mostra, sem julgar ninguem. O roteiro e bem intimista, com pouquissimos personagens, a narrativa e das mais lentas, assim como A Single Man, de Tom Ford, mas nem por isso e chata ou se leva a serio demais. Com o perdao do trocadilho,  e um filme sem vergonha, mas na medida certa.
Vamos ao que interessa. Brandon Sullivan, interpretado brilhantemente por Michael Fassbender (melhor ator no Festival de Veneza), e um novaiorquino viciado em sexo e que leva ao pe da letra aquela maxima do Nelson Rodrigues: “O homem comeca a morrer na sua primeira experiencia sexual”. Sim, o cara se masturba varias vezes ao dia, fica grudado em sites eroticos, tem em casa um arsenal pornografico de respeito, prostitutas frequentam o seu apartamento como se fossem amigas de infancia, faz pegacao no metro, na rua, no trabalho e ate vai parar numa boite gay, com direito a receber sexo oral e tudo… Ou seja, vive e transpira sexo, mas felicidade que e bom, nada. Para piorar, recebe em casa a  visita de uma irma bem moderninha e espivitada, que insiste em lhe fazer alguns inocentes agrados carinhosos, fato que o deixa  completamente perturbado. Relacao incestuosa? Bom, tem que assistir pra saber.
Homens viciados em sexo costumam ser tratados pela sociedade como verdadeiros garanhoes e isso vai alimentando o ego deles ao ponto de mal se darem conta de que aquilo realmente e um problema, um vicio como outro qualquer. Lembro muito bem que, quando saiu a noticia de que o ator Michael Douglas estava internado numa clinica em tratamento contra a dependencia de sexo, muitos amigos meus estranharam e ate fizeram aquelas piadas machistas de mau gosto. O filme propoe exatamente essa reflexao, alias, bastante oportuna nesses tempos de Grindr (ja apontado como a nova revolucao sexual) e tantos e tantos outros aplicativos e sites de paquera e sexo, que seduzem cada vez mais pessoas mundo afora. Nao sei exatamente como funciona no Brasil, mas aqui na Europa, por exemplo, e impossivel se falar em relacionamento ou sexo, sem usar a internet. Ja testemunhei, varias e varias vezes, pessoas em bares marcando encontros pela internet, quando poderiam partir para o cara a cara ali mesmo. Questoes que podemos levar pra cama, antes de dormir: essas relacoes servem pra que afinal? Proporcionar apenas prazer? E o afeto onde fica nessa historia toda? Nao fica?
Nao vou me alongar. Gostei muito da fotografia tambem, em tons mais sobrios e com uma luz bem direcionada (prestem atencao na primeira cena, como a luz ajuda a nao expor tanto a nudez do protagonista). E como sou particularmente louco por paisagens urbanas, nao posso deixar de exaltar tambem as cenas externas, muito bem feitas e sacadas. A sequencia do metro tambem e uma das minhas preferidas e as cenas de sexo, embora nao sejam escandalosamente apimentadas, sao bem coreografadas e bonitas. A trilha sonora e uma delicinha. Figurinos muito elegantes. Confiram mesmo. Mas nao facam como alguns blogueiros gays que assistiram apenas para ver o… a genitalia desnuda de Michael Fassbender. O filme tem outros atrativos, e muito mais que um simples detalhe. Bom, nao chega a ser tao simples assim, mas...


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domingo, 25 de março de 2012

NAS NUVENS




Como se nao bastasse o meu aniversario este ano acontecer, na Primavera, uma estacao do ano que eu adoro – e isso so foi possivel porque ainda estou aqui na Holanda –, ainda recebi uma tonelada de amor vinda dos quatro cantos do planeta (Alemanha, Argentina, Brasil, Chile, Espanha, Estados Unidos, Holanda, Italia, Reino Unido e… Singapura!). Obrigado mesmo por tanto carinho, pessoal! De coracao. Voces tornaram o meu dia muito mais feliz! Thanks, gracias, dank je wel!


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sexta-feira, 23 de março de 2012

ADEUS, ADEUS...

ilustracao: Lucas Leibholz

Como gostaria de estar em casa, no Brasil, e ouvir o Plantao da Globo dizer que o humorista Chico Anysio teve alta do hospital e que, mais uma vez, resistiu bravamente. Melhor ainda, que esta curado. Infelizmente nao foi assim. Ele partiu hoje, depois de uma longa batalha contra a morte, travada numa cama de hospital, no Rio de Janeiro. Quase completando 81 anos. Acompanhei aqui da Holanda os boletins medicos e sempre fazendo preces e torcendo muito, porque todos na minha casa sempre fomos admiradores do seu talento. Lembro-me, nitidamente, de ficar acordado ate mais tarde, na minha infancia, apenas para assistir ao Chico Anysio Show e poder ver o Jovem, que era o meu personagem favorito, mas morria de medo quando aparecia o Bento Carneiro, aquele vampirao horroroso que ele fazia tao bem. Vai ser dificil ser original ao elogia-lo ou mesmo prestar essa simples e honesta homenagem, mas e melhor correr o risco do lugar-comum do que ficar em silencio, afinal qual pais nao gostaria de ter tido a honra de contar com um artista como ele, nao e mesmo?
Ha pouco tempo, li o Livro do Boni e um dos capitulos mais bacanas e justamente o que fala do humorista. Vou transcrever um trechinho porque resume bem o talento desse genio do humor brasileiro: “Os personagens do Chico sao mais de duzentos. Um nao tem nada a ver com o outro, em carne, osso e alma. E mesmo sem fazer tipo, se apresentando de cara limpa, com sua voz bem colocada e com um ritmo de narracao perfeito, Chico Anysio e imbativel. Quando precisei dele no Fantastico, o Chico tornou-se a principal atracao do programa, narrando de forma impecavel as aventuras do Azambuja. (…) Nao e preciso narrar a trajetoria de sucesso do Chico na Globo e em outras emissoras, mas vale lembrar o curioso programa Linguinha X Mr. Yes, apos o Jornal Nacional e dava mais audiencia que o proprio jornal, e tambem a eterna Escolinha do Professor Raimundo, que tive a ideia de colocar no ar diariamente, de segunda a sexta e, de forma surpreendente, levantou os indices do horario”. Citei esse trecho nao por acaso. Ha alguns anos eu e meu pai sempre discutiamos em casa o fato de, nos ultimos anos da carreira dele, a Globo nao ter lhe dado um espaco maior, digno. Aquelas participacoes em novelas nao eram suficientes para concentrar todo o seu talento, ainda que em Caminho das Indias ele tenha dado um show de interpretacao como um indiano golpista, impagavel.
Fico triste pela ausencia do artista, mas tambem nao esqueco do homem que lancou tanta gente nova e que esta ai brilhando ate hoje na TV e no teatro, da solidariedade que ele tinha com os seus companheiros de trabalho e da generosidade de saber dividir uma cena, mesmo quando o show era feito so pra ele. Consciente do grande valor que o seu nome tinha no mercado e que sozinho daria conta de qualquer programa, a sua preocupacao sempre esteve ligada aos seus companheiros, por isso sempre trabalhava com muita gente, para poder empregar todos esses artistas que, com o surgimento da TV, e praticamente todos oriundos do radio ou das chanchadas, ficariam sem ter onde trabalhar, onde ganhar a vida. A ultima versao da Escolinha do Professor Raimundo, por exemplo, a que a maioria de nos conhecemos, so foi possivel gracas a essa generosidade. Quando a Escolinha acabou, ele falou pro Boni que muitos daqueles humoristas nao durariam mais de um ano e, infelizmente, seis (se nao me engano) morreram nesse periodo, segundo ele mesmo contou em uma de suas ultimas entrevistas, na Globo News. 
Ta na cara que o Chico morreu contrariado, com um no na garganta, querendo mais vida, reclamando mais espaco na TV (sua grande paixao, alem das muitas mulheres que teve e filhos), mais alegria para o povo brasileiro... Sim porque essa onda de humor-agressao, humor-trocadilho-infame, humor-em-pe-com-exibicionismo, enfim, humor-sem-Humor, isso tudo pode ate marcar uma epoca e. para alguns comediantes, marcar a carreira de forma ate negativa, como o autor de “comeria a mae e o bebe”, mas sera que vale a pena carregar nas costas um legado desses? Prefiro me lembrar dos grandes, do criador do Jovem, do Painho, do Haroldo, da Neide Taubate, do Alberto Roberto, do Bozo, do Coalhada, do Tintones e ate do horrivel Bento Carneiro, O Vampiro Brasileiro. E sao tantos personagens inesqueciveis… Sem contar os bordoes, um melhor do que o outro: “Po, mae, jovem e outro papo”, “Aff”, “E o salario, o!”, “E vapt-vupt” e muitos e muitos outros que tambem estao, ate hoje, na boca do povo. O unico consolo possivel, neste momento, e saber que ele vai ficar na nossa memoria para sempre. Ariano tipico, pra mim Chico Anysio saiu de cena cantarolando Adeus, Batucada, como quem quer dar uma cutucada em algumas pessoas: “Adeus, adeus… Vou-me embora chorando… E guardo no lenco essa lagrima sentida. Adeus batucada. Adeus batucada querida…”. Chico, mestre do humor, artista de mil faces, descanse em paz. O Brasil lhe agradece por tantas alegrias.


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quinta-feira, 22 de março de 2012

INFERNO ASTRAL





...Entao o cisne nao quis comemorar o dia da agua, em Waterloplein. Preferiu tirar uma soneca. Porque, as vezes, a vida e assim. Tudo fica chato. Tudo e inferno astral. 


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domingo, 18 de março de 2012

A MELANCOLIA DO RISO


Ontem assisti ao filme O Palhaco, do talentoso Selton Mello. O filme e tao simples que chega a causar uma certa estranheza, mas o tema me tocou profundamente: essa luta ingloria que todo artista trava consigo mesmo, em maior ou menor grau, para conseguir viver do seu oficio, sem maiores traumas. O filme nao tem o mesmo rigor tecnico de Feliz Natal (2008), seu longa anterior, mas nao deixa de fazer parte do que esta se tornando uma marca ou uma linguagem dos filmes que ele assina como diretor: ir na contramao do mainstream. E quando falo contramao e contramao mesmo! Por outro lado, acho que esse e bem mais popular que Feliz Natal, talvez por ter o circo como pano de fundo para a crise existencial do palhaco Pangare, o protagonista, interpretado pelo proprio Selton. O roteiro e centrado num momento crucial da vida desse palhaco lirico criado pelo ator/diretor: quando ele descobre que faz todos rirem, mas “quem o fara rir tambem?”. Um argumento simples, mas que ao longo do filme  vai se desdobrando em situacoes de extrema poesia, delicadeza, passando por dialogos leves, com um humor acido, uma fotografia em tons de terra, quase sepia, ate chegar ao final, num reencontro fascinante do palhaco com ele mesmo.
O filme tem muitos pontos positivos, alem daqueles que eu acabei de citar, mas pra mim o destaque mesmo sao as participacoes especiais: Jorge Loredo, Jackson Antunes, Fabiana Carla, Ferrugem, Danton Mello, Tonico Pereira, enfim, uma galera que entra e rouba a cena na mao grande. Sem do. E ainda bem que Selton nao ve nisso uma competicao desleal, um problema, quer mesmo que esses atores brilhem da melhor forma possivel. O cantor multi talentoso Moacyr Franco, por exemplo, faz tao bem o papel de um subornavel delegado de cidade do interior, que levou, merecidamente, o premio de melhor ator coadjuvante no Festival de Paulinia, do ano passado. A cena realmente e muito boa. Porem, em alguns momentos, cheguei a me perguntar se encher um filme de excelentes participacoes especiais nao tiraria o foco do protagonista. Terminei me convencendo de que eu e que tinha que mandar o meu racionalismo as favas. Foi o que eu fiz e so entao me deixei envolver pelo filme por inteiro. E dai pra frente foi so emocao.
Paulo Jose, que e o meu ator brasileiro favorito, faz muito bem o papel do pai de Pangare, mas senti falta de cenas mais elaboradas para ele. Fica aqui a minha bronca. A atuacao do proprio Selton tambem me despertou uma duvida. Quando Pangare esta no picadeiro, tenho a impressao de que o Joao Grilo, de O Auto da Compadecida, tambem esta por ali, no gestual e ate na intonacao da voz. Nao sei se isso foi proposital, se ele quis flertar com esse lado autobiografico ou se foi uma mancada mesmo, por ter que estar em dois lugares ao mesmo tempo. Achei fraca tambem a solucao do roteiro de mostrar a  busca da identidade (o documento) para reforcar que o Pangare esta em busca da propria identidade como artista, mas nao e nada que comprometa tambem o filme como todo. Gosto mais da ideia de inserir o ventilador como um objeto simbolico, intrigante, que me remeteu aos moinhos de vento do livro Dom Quixote. Mas, ainda assim, o Pangare, com toda sua ternura, ja esta na galeria dos personagens inesqueciveis do nosso cinema. Podem conferir. E, se os ventos do Norte tem mostrado que chegou a hora de reverenciar o cinema, dar a vez a uma certa inocencia – estao ai filmes como O Artista e A Invencao de Hugo Cabret que nao me deixam mentir –, nos tambem temos a nossa homenagem a Chaplin: bem mais original e, o que e melhor ainda, sem que a industria americana nos impusesse. 


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quinta-feira, 15 de março de 2012

LINDA, LOIRA E... INFELIZ


Assisti a bons filmes no ultimo final de semana e escolher apenas um para comentar aqui se revelou uma verdadeira tortura. Alguns ja vinham bem recomendados pelos jornais, revistas e sites especializados como A Invencao de Hugo Cabret, A Dama de Ferro e A Separacao, mas resolvi falar sobre um que, a primeira vista, pode parecer bem bobinho, que foi mais elogiado pelos blogs de moda e afins, mas que nas entrelinhas e bem interessante e atual. Pelo menos eu o percebi dessa maneira. Estou falando, claro, de A Minha Semana com Marilyn, de Simon Curtis, baseado no livro homonimo de Colin Clark. Trata-se da primeira viagem da “mulher mais famosa do mundo” a Inglaterra e os bastidores do filme O Principe Encantado (1957), onde Marilyn Monroe protagonizou (ou pelo menos tentou), ao lado de uma lenda do teatro ingles, sir Laurence Olivier. Durante as filmagens, ela termina se envolvendo com o terceiro assistente da producao, o jovem Colin Clark, interpretado por Eddie Redmayne. Ambos passam uma semana juntos (dai o titulo) e a historia e contada sob o ponto de vista dele.
Li criticas rasas sobre o filme e mesmo alguns amigos mais cinefilos nao conseguiram ver o que pra mim saltou aos olhos: o tragico da criacao do mito. Tambem nem e preciso recorrer a um Roland Barthes para saber que Marilyn Monroe sofreu e sucumbiu por ter se deixado aprisionar naquela personagem de mulher fatal, devoradora de homens, absurdamente linda e que movia multidoes (literalmente). O filme mostra isso de forma clara e bastante convincente. O roteiro e correto, sem nada de extraordinario em termos de estrutura, linear, ate porque se supoe ser baseado em fatos reais, mas o que destaco mesmo sao os dialogos que, em alguns momentos, sao tao espirituosos, abusando do trocadilho com o peculiar senso de humor ingles que e impossivel nao rir. Achei apenas que a personagem da Emma Watson, uma figurinista apaixonada por Colin, fica um pouco apagada, perdida, funcionando mais como coadjuvante de luxo do que uma verdadeira antagonista, mas entendo tambem que uma figura como Marilyn Monroe iria eclipsar involuntariamente qualquer outra mulher que atravessasse o seu caminho. Menos a veterana Judi Dench que, embora tenha pouquissimas falas, prova que com ela nao existe mesmo essa historia de papeis menores. Isso fica claro na modesta cena em que ela presenteia Colin com um cachecol vermelho, na entrada do estudio. Terna. Rica em sutilezas.
Michelle Williams (que eu nao me lembrava mais, desde Brokeback Mountain) interpreta Marilyn e esta muito segura no papel, numa caracterizacao bastante crivel,  mas o que mais me chamou atencao foi mesmo a interpretacao. A mistura de leveza e drama poderia resultar desastrosa, por ser uma atriz jovem, mas ela nao decepciona e ate algumas cenas sao bastante comoventes. Numa delas, por exemplo, Marilyn toma varios comprimidos e se tranca no quarto, para desespero de seus agentes e do proprio Colin. Quando este entra pela janela e a encontra na cama, ela lanca fora um travesseiro e indica que ele se deite. Ambos adormecem entrelacados. Sem usar uma unica palavra, ficamos sabendo que a razao de sua fragilidade era uma incomoda solidao, movida talvez pela falta de confianca nas pessoas. Alias, isso fica bem claro quando as filmagens de Principe Encantado comecam e ela esta um desastre no papel, consciente disso, mas todos a sua volta, abusardamente hipnotizados por sua beleza, afirmam que ela esta maravilhosa. O proprio Colin, ainda na cena do quarto, e questionado por ela se ele a ama. “Sim” – ele responde, para emendar logo em seguida: “Voce e como uma deusa grega pra mim”. Marilyn entao o interrompe: “Eu so quero ser amada como uma garota normal”. Algo que nunca conseguiu. Um filme leve, com algumas pitadas de drama e que, sem dizer muito, deixa um otimo alerta: beleza e fundamental, mas felicidade tambem.


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quarta-feira, 14 de março de 2012

EM NOME DA POESIA



Ninguem tem tempo pra poesia. Hoje e o dia nacional da poesia e nao ha uma notinha sobre o assunto por ai, salvo uma timida materia no site da Folha de S. Paulo. Os milhares de poeteiros que sempre invadiram a rede com seus poemas ruins, suas dores de corno, de amores e o diabo a quatro, mas que estavam sempre por aqui brotando como ervas daninha, hoje se calaram. Parte da classe artistica, que se serve da poesia para ganhar a vida ou simplesmente dinheiro, tambem esqueceu a data. E nao me venham com “Ah, dia da poesia e todo dia. Puxa, ate rimou!”.  Rimar alho com bugalho e facil, agora vai viver de arte, de poesia, seu f%@#0! Nao vai faltar tambem quem me venha com esta: “Meu filho, vai procurar o que fazer. O Brasil e um pais de analfabetos funcionais. A Educacao nao existe aqui. Se manca”. Faco questao de dizer ao Macunaima da vez que ate em “Atirei o pau no gato” existe poesia. Tenta entao viver sem ela, pra ver o que te acontece. Tenta.
O que mais me irrita nisso tudo e que as pessoas passam o dia inteiro tuitando, facebucando e nao sei mais o que, toda e qualquer bobagem, mas sao incapazes de fazer um ato gratuito que va alem do proprio umbigo. E nao e de hoje. Vejam bem, sou totalmente a favor da liberdade de expressao e so por isso a propagacao da burrice e da futilidade tambem, mas custa parar um dia, uma horinha, dois segundos, um haikai, sei la, escrever um versinho seu ou de algum poeta favorito, uma foto poetica, algo assim ao inves de “Bom dia aqueles que tem que ir pra academia as sete da manha”, “Estou em frente ao espelho me achando o maximo”. Tenha santa paciencia, ne? Para um pouco de usar o Facebook para se vingar das pessoas. Nao quero com isso dizer que todos os posts tenham que ser cerebrais, nao e nada disso, odeio intelectualoidismo. E tambem ja postei ate fotos de cueca, me achando o ultimo bis da caixinha, entao tenho telhado de vidro tambem e sou humano, a questao e: bom senso e nao abusar da primeira pessoa. Ja imaginaram que lindo seria acordar e ver um dedo de poesia em tudo que e lado, para quebrar essa realidade massacrante  que ja somos obrigados a aturar, afinal viver nao e facil?
Muitos brasileiros nao tem dimensao de como a nossa cultura e rica, o quanto nos fomos abencoados com tanta diversidade. E nao e aquele papo cliche, tipo musica de Jorge Benjor, nao. Outro dia mesmo fiquei horas e horas ouvindo nossos cantores, Luiz Gonzaga, Roberto Carlos (voces ja pararam para ler as perolas que existem na maioria das letras dele?), Alcione, Paulinho da Viola, Marina, Daniela Mercury, Maria Bethania…  E existem mais e milhares, cada qual com o seu estilo, com sua voz, e tem a danca, o gestual, uma coisa maravilhosa.  Dai Neguinho, como eu, vem pra fora e tem que escutar cada porcaria enlatada, ver cada apresentacao cafona na televisao…  Cai a ficha. Mas nao tenham que fazer o mesmo. Acreditem em mim. A nossa poesia e linda, variada, vai da mais popular, do cordel, ate a mais erudita, refinada, tem gosto pra todos. Escolha a sua, escolha o seu sonho, como diria Cecilia Meireles. Por falar nela, alguem ja leu Romanceiro da Inconfidencia? “A terra tao rica / e – o almas inertes! – o povo tao pobre… / Ninguem que proteste!”… Quer coisa mais linda, mais atual, mais Brasil do que isso? E tem inumeros poetas fascinantes, eu adoro Manuel Bandeira, ja cheguei ate a palestrar sobre a obra dele, Hilda Hilst, Mario Quintana, Drummond, Cora Coralina (isso para ficarmos em poucos exemplos). Fernando Pessoa!, nao posso esquecer.
Quantas e quantas vezes, quando disse aqui que sou formado em Letras, ja emendaram um Carrrlos Durmoon de Andarrde… Isso mesmo, CDA e bem conhecido pelo meio academico aqui da Holanda por conta da ousadia de um tradutor holandes chamado August Willemsen, que se apaixonou pela sua poesia e traduziu um livro com os poemas eroticos de O Amor Natural, que depois ganhou um documentario nas maos da holandesa Heddi Honigman e que tambem fez bastante sucesso por esses lados. Agora uma coisa e certa, se hoje fosse o dia nacional da pornografia, milhares de trocadilhos e besteirinhas iriam pipocar na rede. A proposito, querem entao pornografia?, fiquem com esses versos do proprio Drummond. Meu presente pra voces. Sem o menor ressentimento: "Oh! Sejamos pornográficos / (docemente pornográficos)./ Por que seremos mais castos / Que o nosso avô português?". Surtei um pouco, eu sei. Mas e por uma boa causa. Em nome da poesia. Enfim, um dia poetico a todos, aos que gostam ou nao dela. 

sábado, 10 de março de 2012

AUSENCIA

uma colagem que fiz em homenagem ao escritor, ha dois anos


Estava navegando pela internet e tropecei numa cronica linda do escritor Caio Fernando Abreu chamada Existe Sempre Uma Coisa Ausente, cujo trecho reproduzo a seguir:


Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”, feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Caio F. Abreu – O Estado de S. Paulo, 3/4/1994



As vezes, me sinto aqui na Holanda exatamente como o escritor descreve nesse texto. E ja perdi a conta de quantas vezes me peguei me penitenciando por essa especie de “solidao com vista pro mar”. Nao que eu esteja literalmente de frente para um marzao e agonizando de depressao. Nao e nada disso. Alias, nem de longe e parecido. O sentimento e outro, e apenas o de nao pertencer a um lugar que aos olhos da maioria das pessoas e incrivel. No caso do Caio, ele estava em Paris. Uma estranheza que para quem nao passou pela experiencia fica mesmo dificil de entender, afinal nao se resolve apenas arrumando as malas e voltando pra casa. Entao so me resta fazer o que ele sugere no final da cronica, guardar este recado: “alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo”. Bom, so nao deu pra ficar em segredo rs.

domingo, 4 de março de 2012

UM MENDIGO QUEIMADO E A MINHA PATRIA



Assisti, com algum atraso, a uma reportagem sobre a morte de um mendigo queimado em Brasilia, nesta semana. Imediatamente pensei, “Ue, de novo?!?”. Quem nao se lembra do indio Galdino que foi queimado vivo, em 1997, num ponto de onibus, por um bando de babacas de classe media alta do DF? Pois e, mais uma vez a barbarie se repete (no mesmo lugar e provavelmente por criminosos parecidos) e o mais engracado (pra nao dizer igualmente tragico) e que eu nao vi uma misera nota no meu Facebook, o que me leva a crer que “na geleia geral brasileira”, realmente, se “assiste a tudo e se cala”. Estamos, assim, tao voltados para nos mesmos ao ponto de nao protestarmos contra uma coisa absurda dessas ou estamos tao fatigados que preferimos fechar os olhos? Absurdo. Agora passo a alterar, com todo respeito, claro, aquele verso de Patria Minha do Vinicius, e nao digo mais uma crianca dormindo e, sim, “um mendigo queimado e a minha patria”.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

ESSA DOR CHAMADA ARTE




Depois de acompanhar o nosso carnaval interminavel e xoxo pela TV, a pretexto de matar a saudade do Brasil, a semana seguiu melancolica por essas bandas geladas, mas ontem o sol deu as caras por aqui e eu me animei e fui pra rua comemorar.  O que? O fato de estar vivo, oras. Simples assim. Depois de ler e me emocionar com uma mensagem deixada pela empresaria Eliana Tranchesi, antes de morrer, no blog da sua filha, e tambem a reportagem de capa da revista Epoca desta semana, com o ator Reynaldo Gianecchini (de quem sou fa, admito), percebi que as vezes reclamo demais. Meus amigos mais proximos veem nisso ate um certo charme, uma marca registrada minha, “Ah, Luis, voce e um velhinho. Se voce nao reclamar, nao e voce”. Claro que a maioria das vezes a minha rabugice e pura cena, mas, ainda assim, resolvi ligar o sinal de alerta.  O lema agora e: “Aproveitar o dia”. Mas aproveitar mesmo. E quem sabe ate me distanciar um pouco dessa dor chamada arte.
Bom, depois de caminhar pelo centro de Amsterdam e uma tentativa frustrada de ir ao Jewish Historical Museum, corri para assistir ao Artista, nos 45 do segundo tempo, afinal o Oscar estava chegando e prometia consagrar essa terna obra-prima do cinema. De cara, o filme nao me pegou, demorei um pouco ate me acostumar com essa nova velha linguagem do cinema mudo. Dito assim, a queima roupa, voces podem achar que estou trocando as bolas, mas logo vao me entender. Resumindo bem, O Artista, de Michel Hazanavicius, conta a historia de um ator do cinema mudo, George Valentin, as voltas com as suas frustracoes impulsionadas pelas novas transformacoes do cinema, ao passo em que vive uma torrida paixao por uma aspirante a atriz, Peppy Miller, mais ambiciosa e que pensa exatamente o contrario que ele, ela ve no cinema falado uma otima oportunidade de alavancar sua carreira. Coloque ali varias referencias cinematograficas, varias mesmo!, no visual, na trilha, intertextualidades com varios filmes (De Chaplin a Cinema Paradiso), uma fotografia e figurinos deslumbrantes, uma atuacao impecavel de Jean Dujardin e, pronto, emocao pura. Ah, claro, e um caozinho charmoso chamado Ugiee que, ca entre nos, deveria estar na disputa para melhor ator coadjuvante. Um filme delicado, poetico, que cada um vai assistir e perceber-lo de maneiras diferentes, “Ah, e so uma homenagem boba ao cinema”, “Ah, e legal mostrar as novas geracoes como eram os filmes mudos” e por ai vai. Ledo engano, acho que o filme encanta nao apenas por mostrar que o gesto, a delicadeza, a expressao, o trabalho de ator esta sendo substituido por efeitos especiais e um monte de artificios criados pela propria industria para acompanhar a evolucao do cinema, mas mostra tambem o quanto estamos perdendo a inocencia, o quanto somos expostos diariamente a tantas e tantas informacoes, ao ponto de causar estranheza uma linguagem que de nova nao tem absolutamente nada. Cinema e e sempre sera imagem e, quando houver uma boa historia por tras, o casamento sera perfeito. Acho que as cinco estatuetas do Oscar estao de bom tamanho e viva a inteligencia no cinema.
Depois aceitei a sugestao de um amigo para ver “Estamos Juntos”, um filme nacional de Toni Venturi que eu ja queria muito assistir, desde que sai do Brasil no ano passado, protagonizado e produzido pela otima e jovem atriz Leandra Leal. Esse e um daqueles filmes que nos revira de cabeca pra baixo e nos faz perceber que a vida e mesmo muito rara, como diz a cancao do Lenine e que no final do filme ganhou uma versao excelente, na voz da Elza Soares. O roteiro e sobre a vida de uma jovem medica, Carmem, que descobre que tem uma doenca grave, exatamente quando esta numa otima fase da sua vida. Sem muitos amigos –  apenas um gay, vivido de forma muito ruim por Caua Reymond –, e com uma relacao (imaginaria?) com um homem misterioso, ela conhece o prazer sexual com um jovem musico argentino, mas nao se liga a ele afetivamente. Com o avanco da doenca, Carmem tenta driblar as dificuldades, a medida em que vai conhecendo seus medos, suas angustias e mudancas pelo meio do caminho sao inevitaveis. Em alguns momentos, ele nos remete a “Mentiras y Gordas”, um filme espanhol de 2009, bem interessante por sinal. Duas coisas eu curti muito nesse filme: apesar do tema, ele nao e nem um pouco moralizante (olha, aproveite a vida enquanto ha tempo!) e segundo que ele e tao bem feito (com um que de filme argentino) que so veio a se unir a filmes mais intimistas que estao sendo produzindos agora no Brasil, como o tambem otimo Como Esquecer, de Malu De Martino. E eu que nao esperava que o filme corroborasse essa minha nova urgencia de aproveitar melhor o dia, so posso dizer que a vida nao so imita a arte (e vice-versa), mas principalmente se surpreende com ela.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O LUTO COMO ESPETACULO



Que final de semana, hein? Estava em casa, um frio tenebroso, acordei no meio da madrugada e, de repente, leio a noticia na internet sobre a morte da cantora Witney Houston, aos 48 anos. Eu e meus amigos ate ficamos um pouco abalados, mais pelo fato de ser uma morte precosse do que exatamente uma surpresa, afinal ha mais de uma decada ela vinha se decompondo em publico, por causa da sua estreita relacao com as drogas. Assim como foi na morte da Cassia Eller, do Michael Jackson e da Amy Whinehouse, e comum a gente se questionar sobre as razoes que levaram um artista tao bem-sucedido a passar pro outro lado de forma tao tragica. Tinha tanto talento, dinheiro, fama, era linda, uma voz magnifica, por que?, por que? Eu acho que so mesmo um popstar pra responder isso, mas e evidente que em casos assim, de alguem que passou anos colecionando premios, sempre no topo das paradas, o fato de nao emplacar mais hits, nao ser mais o centro das atencoes, tudo isso deve criar um monstro dentro da propria pessoa, deve pesar muito. Apenas uma especulacao. Sem contar essa pressao louca que existe hoje em dia de acertar, de estar na midia o tempo todo, de querer ser menos um na multidao... Muito complicado. Se o artista nao tiver algum preparo emocional, o popular “amor a propria vida”, cai  em varias tentacoes mesmo, facil facil.
Apesar de nao ser assim fa declarado da cantora, mas sendo o ultimo dos romanticos, na minha adolescencia assisti muitas vezes ao Guarda Costas e ate engrossei o coro daqueles que achavam esse filme o maximo. Arroubos romanticos da adolescencia, claro.  Na verdade, eu sempre admirei mais o poder da voz da Whitney Houston do que propriamente as letras acucaradas das suas cancoes. Tenho duas passagens interessantes em que ela esteve presente. A primeira, ainda na adolescencia, quando inventei de fazer um musical no colegio para homenagear o centenario do cinema e tive a ideia de chamar uma colega de classe para dublar a cantora, numa cena do Guarda Costas. Bem, a garota nao so comprou a ideia como tambem se esforcou para aprender a letra em ingles e a apresentacao foi um sucesso, com direito a beijo na boca e tudo. Um beijo nada tecnico, diga-se de passagem.  Nessa mesma epoca, tinhamos em casa uma fita de video (lembram a febre do videocassete?) de uma apresentacao da cantora num navio, se nao me engano para marinheiros americanos, onde ela cantava o hino nacional dos Estados Unidos de forma espetacular. Sempre assistiamos a esse video. A outra passagem ja foi na sua fase mais dark, eu estava num onibus indo para o Guaruja e me caiu as maos um jornal da Igreja Universal do Reino de Deus, onde li uma nota sensacionalista ao seu respeito, ilustrada por uma foto dela quase irreconhecivel. Segundo a publicacao, devido ao uso do crack e outros demonios. Roguei uma prece para que ela recuperasse logo o tempo perdido e so fui reve-la, em 2009, naquela famosa entrevista a Oprah, onde se acreditava ser, realmente, a retomada da sua carreira.
Fiquei acompanhando a cobertura da morte pela midia e redes sociais e, ai sim, fiquei assustado. Com excecao do Estadao que cobriu de forma precisa, os outros meios ficaram entre “fomos pegos de surpresa e agora?” e “vamos encher linguica”. Na GloboNews, por exemplo, vi uma serie de deslizes: o primeiro a comentar foi o cantor Gabriel O Pensador (que ate onde eu sei nunca foi um profundo conhecedor de musica pop), depois entrou um Ed Motta totalmente perdido “Ah e?, nao sabia” e para finalizar um Zeca Camargo totalmente deslumbrado com o assunto. Acho uma pena veiculos de comunicacao e/ou artistas tao serios transformarem um luto, por mais que seja de uma figura publica, em espetaculo. Nesse quesito, quem acertou mesmo foi o musico Joao Marcelo Boscolli que fez comentarios interessantes sobre a carreira da cantora, ressaltando o DNA artistico dela e o legado musical que ela deixa para as novas geracoes. Destaco tambem as impressoes da jornalista Lucia Guimaraes sobre a morte, direto de Nova York e a agilidade do site TMZ, mais uma vez. Como eles conseguem aquelas imagens e informacoes tao depressa? So. O Facebook mesmo virou um samba do crioulo doido, video pra tudo quanto e lado, piadas sem graca perdidas no meio de varios comentarios mornos, apenas um oba oba no calor da emocao. O assunto pra mim tambem ja se esgotou. Foi uma perda previsivel, mas nem por isso menos triste. Que agora a cantora, enfim, descanse em paz.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

QUEM CANTA O QUE QUER,,,



Depois de meses prometendo ser o lancamento musical do ano, assisti ao clipe novo da cantora Madonna e de cara torci o nariz. A musica e tao chata e grudenta que faz qualquer cantor de axe music parecer o supra-sumo da MPB. O clipe e pior ainda, repete os mesmos cliches de sempre, caroes e autolovacao. Criatividade zero. No desespero de se manter no topo e de causar impacto com suas noticias, a cantora nao mede mesmo esforcos para aparecer e semore que pode manipular a midia. Mas tem passado dos limites. Pedir aos fas que guardem dinheiro para assistir ao seu show foi, de longe, a coisa mais ridicula que ela ja pronunciou em toda a sua carreira. Por outro lado, isso reflete o que todos nos ja sabiamos sobre ela e fingiamos nao perceber, a diva pop so quer mesmo lucrar com os seus fieis seguidores. E nao se trata de implicancia minha,  nao. Reconheco que ela e ainda um grande nome da musica pop, gosto muito do seu trabalho dos anos 80 e 90, mas depois ela so foi despencando e precisa urgente sair da zona de conforto ou simplesmente pendurar as chuteiras, o que deve ser quase impossivel. Pelo menos por enquanto. A apresentacao no Super Bowl foi tao carnavalesca e megalomaniaca que so serviu mesmo para disfarcar o seu cansaco criativo. Sim, porque dar piruetas pra la e pra ca nao e atestado nenhum de qualidade musical. Eu ainda acho antologica a apresentacao do Michael Jackson no mesmo evento, em 1993, a luz do dia, num palco bem menos ornamentado, mas ninguem desgrudou os olhos do artista um unico segundo, um primor de apresentacao  e que se encontra facilmente na internet. 
Passei a semana vendo noticias pipocarem sobre uma nova estrela, Lana Del Rey. Conhecem? Fui correndo atras, avido por uma boa novidade. Nao tive paciencia para garimpar tudo, mas apesar de Born To Die ser extremamente melancolica (e por isso a considero tambem uma representante mor desses tempos bicudos na America), gostei da voz da cantora e ate do seu aparente jeito inseguro. Visualmente tem uma elegancia natural que me agradou. Ainda vamos ouvir muito falar dela, para o bem ou para o mal. Melhor aguardar.
Mas o que me deixou irritado mesmo foi a frase infeliz do estilista Karl Lagerfeld sobre a cantora britanica Adele: “Ela e um pouco gorda demais, mas tem um rosto bonito e uma voz divina”. Ta, mas por que ela nao pode ser gorda? Qual o problema? Depois que choveram criticas, o todo poderoso da Chanel resolveu se desculpar publicamente, mas e aquela historia, uma vez a flecha lancada... Merece ou nao merece um bom “#Cala a boca, Lagerfeld!”? Todos nos sabemos o quanto a industria da moda ignora pessoas acima do peso, mas fazer disso uma condicao para a pessoa ser aceita e um crime. Eu, sinceramente, acho a cantora linda e com aquela voz ela nao precisa de mais nada, apenas ser feliz. Torco para que a apresentacao dela no Grammy seja um sucesso. Ouvi o seu Cd “21”, tao logo cheguei a Amsterdam no ano passado, e de certa forma ele se tornou a trilha sonora dos meus dias cinzentos por aqui. Na minha humilde opiniao, o CD inteiro e muito bom e eu sempre me emociono toda vez que ouco Someone Like You.
Outro aue que teve grande repercussao foi o (ultimo?) show da cantora Rita Lee, em Aracaju, nao e? A cantora que e bastante conhecida por suas letras irreverentes terminou xingando os policiais de “cavalos” e resultou na maior confusao. Ainda que eu concorde com boa parte do discurso dela, afinal todo mundo sabe que nao e a primeira vez e nem vai ser a ultima que alguem fuma maconha em show e realmente e uma hipocrisia esse patrulhamento besta sobre a maconha no Brasil (cheio de problemas maiores, ne nao?), mas tambem nao precisava tanto. Os policiais estavam no cumprimento do seu trabalho e, pelo que eu vi no video divulgado pelos telejornais, nao houve agressao fisica, etc. Com ou sem confusao, vamos sentir saudades da cantora nos palcos. Volta, Rita!
Sem querer puxar brasa pra nossa sardinha, mas ja puxando, o que eu curti mesmo foi o novo CD da Gal Costa, Recanto, que ouvi por aqui no mes passado, na casa de um amigo. Achei de cara a sonoridade estranha e so por isso ja o considerei corajoso e interessante, afinal de contas os artistas hoje estao cada vez mais caretas musicalmente... Quando soube que as letras e a producao eram do Caetano Veloso, exultei de alegria,  porque ele e um dos meus cantores favoritos. Gosto bastante do seu jeito inquieto, culto, um exemplo de artista em atividade. A musica Neguinho e um hino contra a burrice e ao consumismo babaca (ter para aparecer), nao tem como ficar indiferente a ela. No primeiro verso ja tem o dedao na ferida: “Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê”... E nao para por ai, nao, e uma paulada atras da outra:  “Votou, chorou, gozou: o que importa, neguinho? / Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz / Neguinho também só quer saber de filme em shopping”. Genial. Fazia tempo que nao tinhamos nada tao incomodo na MPB e esse disco novo da Gal veio para quebrar esse marasmo. Uma otima pedida, com certeza. Bom, vou ficando por aqui, mas com os ouvidos aquecidos, neste inverno gelado do Hemisferio Norte. Um otimo final de semana a todos!