quarta-feira, 14 de março de 2012

EM NOME DA POESIA



Ninguem tem tempo pra poesia. Hoje e o dia nacional da poesia e nao ha uma notinha sobre o assunto por ai, salvo uma timida materia no site da Folha de S. Paulo. Os milhares de poeteiros que sempre invadiram a rede com seus poemas ruins, suas dores de corno, de amores e o diabo a quatro, mas que estavam sempre por aqui brotando como ervas daninha, hoje se calaram. Parte da classe artistica, que se serve da poesia para ganhar a vida ou simplesmente dinheiro, tambem esqueceu a data. E nao me venham com “Ah, dia da poesia e todo dia. Puxa, ate rimou!”.  Rimar alho com bugalho e facil, agora vai viver de arte, de poesia, seu f%@#0! Nao vai faltar tambem quem me venha com esta: “Meu filho, vai procurar o que fazer. O Brasil e um pais de analfabetos funcionais. A Educacao nao existe aqui. Se manca”. Faco questao de dizer ao Macunaima da vez que ate em “Atirei o pau no gato” existe poesia. Tenta entao viver sem ela, pra ver o que te acontece. Tenta.
O que mais me irrita nisso tudo e que as pessoas passam o dia inteiro tuitando, facebucando e nao sei mais o que, toda e qualquer bobagem, mas sao incapazes de fazer um ato gratuito que va alem do proprio umbigo. E nao e de hoje. Vejam bem, sou totalmente a favor da liberdade de expressao e so por isso a propagacao da burrice e da futilidade tambem, mas custa parar um dia, uma horinha, dois segundos, um haikai, sei la, escrever um versinho seu ou de algum poeta favorito, uma foto poetica, algo assim ao inves de “Bom dia aqueles que tem que ir pra academia as sete da manha”, “Estou em frente ao espelho me achando o maximo”. Tenha santa paciencia, ne? Para um pouco de usar o Facebook para se vingar das pessoas. Nao quero com isso dizer que todos os posts tenham que ser cerebrais, nao e nada disso, odeio intelectualoidismo. E tambem ja postei ate fotos de cueca, me achando o ultimo bis da caixinha, entao tenho telhado de vidro tambem e sou humano, a questao e: bom senso e nao abusar da primeira pessoa. Ja imaginaram que lindo seria acordar e ver um dedo de poesia em tudo que e lado, para quebrar essa realidade massacrante  que ja somos obrigados a aturar, afinal viver nao e facil?
Muitos brasileiros nao tem dimensao de como a nossa cultura e rica, o quanto nos fomos abencoados com tanta diversidade. E nao e aquele papo cliche, tipo musica de Jorge Benjor, nao. Outro dia mesmo fiquei horas e horas ouvindo nossos cantores, Luiz Gonzaga, Roberto Carlos (voces ja pararam para ler as perolas que existem na maioria das letras dele?), Alcione, Paulinho da Viola, Marina, Daniela Mercury, Maria Bethania…  E existem mais e milhares, cada qual com o seu estilo, com sua voz, e tem a danca, o gestual, uma coisa maravilhosa.  Dai Neguinho, como eu, vem pra fora e tem que escutar cada porcaria enlatada, ver cada apresentacao cafona na televisao…  Cai a ficha. Mas nao tenham que fazer o mesmo. Acreditem em mim. A nossa poesia e linda, variada, vai da mais popular, do cordel, ate a mais erudita, refinada, tem gosto pra todos. Escolha a sua, escolha o seu sonho, como diria Cecilia Meireles. Por falar nela, alguem ja leu Romanceiro da Inconfidencia? “A terra tao rica / e – o almas inertes! – o povo tao pobre… / Ninguem que proteste!”… Quer coisa mais linda, mais atual, mais Brasil do que isso? E tem inumeros poetas fascinantes, eu adoro Manuel Bandeira, ja cheguei ate a palestrar sobre a obra dele, Hilda Hilst, Mario Quintana, Drummond, Cora Coralina (isso para ficarmos em poucos exemplos). Fernando Pessoa!, nao posso esquecer.
Quantas e quantas vezes, quando disse aqui que sou formado em Letras, ja emendaram um Carrrlos Durmoon de Andarrde… Isso mesmo, CDA e bem conhecido pelo meio academico aqui da Holanda por conta da ousadia de um tradutor holandes chamado August Willemsen, que se apaixonou pela sua poesia e traduziu um livro com os poemas eroticos de O Amor Natural, que depois ganhou um documentario nas maos da holandesa Heddi Honigman e que tambem fez bastante sucesso por esses lados. Agora uma coisa e certa, se hoje fosse o dia nacional da pornografia, milhares de trocadilhos e besteirinhas iriam pipocar na rede. A proposito, querem entao pornografia?, fiquem com esses versos do proprio Drummond. Meu presente pra voces. Sem o menor ressentimento: "Oh! Sejamos pornográficos / (docemente pornográficos)./ Por que seremos mais castos / Que o nosso avô português?". Surtei um pouco, eu sei. Mas e por uma boa causa. Em nome da poesia. Enfim, um dia poetico a todos, aos que gostam ou nao dela. 

2 comentários:

RAFAEL disse...

Nunca fui fã de poesia, talvez por não saber escreve-las. Mas admiro quem consegue, que transporta para as letras os sentimentos universais. O que me irrita talvez são centenas de pessoas se achando poetas, copiando as formulas e as construções de grandes autores e pensando estarem enganando ou criando algo novo...assim como a poesia, a ficção copiada tb me irrita.

Uma coisa concordo contigo, qdo falamos de cultura, são poucas as manifestações de apoio, e qdo aparece um idiota qualquer de sunga molhada e transparente, ou uma garota que abriu demais as pernas pra sair do carro, chovem posts a respeito. Aqui no Brasil nos ultimos dias não se fala outra coisa a não ser um moleque imbecil que imita a xuxa...algo bizarro, mas que o povo adora comentar...

o Brasil é rico, concordo plenamente contigo, mas o povo é pobre. Uma pobreza de espirito, de alma. Não adianta dar estudo, por que se fizer uma pesquisa a ignorância está nos mais abastados, por que os que não tem acesso, coitados, nunca poderão debater o que é bom ou ruim.

Abração pra ti...boa sorte aí na Holanda.

Luck® disse...

Eu sinto que poesia não tem muito a cara do Mundo. Estamos menos humanos... (eu sei que dizer isso é utilizar-se de um jargão super- elástico e até mesmo incoerente, não é? Mas penso que há um espaço de verdade nele e talvez consiga sinalizá-lo).

A poesia não é o óbvio mesmo quando trata dele bem de pertinho. E aí reside toda a dó: Não nos permitimos mais termos a sensibilidade de descolar as palavras da celulose e da grafite; Não sabemos mais animar as imagens estáticas que ganhavam vida outrora.

Poesia, irmã da arte, se torna rara porque na verdade ela precisa de um elemento também raro: um Homem minimamente artista. Sem o seu olhar, ela "desbota", envelhece e, por fim, morre.

A poesia já escrita, já declamada, guarda fósseis aos olhos deste Homem racionalista-sem-metafísica.

Este Homem que eu disse ser pouco humano faz, pouco a pouco, sucumbir o pensar pelo pensado;Substitui a abstração metafórica, por exemplo, pela binária.

Ora, se a ideia de criar é a partir do criável (restrita a isso), é claro que a arte e a poesia se retraem! Talvez este seja um dos motivos para que aquele universo que já foi vasto, vá se extinguindo.

...

Dizer que a poesia deve ser sempre nova é, ainda que não se perceba, restringi-la a um objetivo e isso já mata alguma novidade.

A poesia acontece, creio, em fórmulas novas e velhas, porém, admitindo que há poesia ruim, admite-se que alguma poesia se faz! E mais: Que alguns críticos estão lá ressuscitando-as mais que matando-as.

Em direção oposta, a morte vem sendo anunciada pela cegueira da banalidade e frivolidade, pelo anestesiamento proporcionado pelo pragmatismo, pela opinião esvaziada de sentido (falação).

o doutrinamento da Ciência tem fabricado cópias, clones obedientes. E os obedientes menos insurgentes são aqueles que confundem liberdade e prisão. Como desejar aquilo que não parece faltar?

Destarte, concordo com o Rafael quando escreveu que não adianta ter estudo quando houve morte do espírito.

Creio, pois, que Drummond está distante; Seu convite referia a um muito outro problema.