terça-feira, 7 de abril de 2015

UM MILAGRE PARA A ESTRELA AZUL



In Memoriam de Callebe Garcia

"As estrelas eram um símbolo de pureza, qualquer coisa inatingível que a mão dos homens não havia ainda conseguido poluir. As criaturas que chafurdavam na lama podiam salvar-se se ainda tivessem olhos para ver as estrelas". Érico Verissimo

Saguão de hospital. Tudo muito claro e frio. Ali perto, Heitor entre a vida e a morte. Paula se distrai com um horizonte imaginário, quando Cauê se aproxima.


Cauê (tocando no ombro da amiga)

...Paula? E aí, como é que ele tá?


Paula
...Muito mal. Não sei se o Heitor vai conseguir sair dessa.

Cauê (otimista)
...Temos que ter fé. Agora, é ter fé, minha querida. Ter fé.

Paula
...Ele tinha tanta fé, Cauê. Era sempre o primeiro a invocar o nome de Deus.

Cauê (sentando-se)
...Ele vai ficar bem. Caramba, não é justo!

Paula
...Fizemos tantos planos. Lembra?

Cauê
...Lembro.

Paula
...Uma das últimas coisas que ele me disse foi que queria viajar. Correr o mundo com uma mochila nas costas. Começaria pela Patagônia, vê se pode.

Cauê
...Isso era bem a cara dele. Essas aventuras turísticas sem um tostão no bolso. Nunca esqueço aquela viagem que fizemos a Paraty...

Paula
...Nós tínhamos combinado de fazer um curso de teatro juntos. Fomos até a escola ver como funcionava o lance da matrícula. Eu falei pra ele que ele já era um ator e dos bons. Ele riu como se fosse uma criança.

Cauê

...Adorava passar trotes pelo telefone, lembra? Eu mesmo caí em, pelo menos, uns cinco.

Paula
...Eu não me conformo. Não me conformo, Cauê! Olha, se o Heitor... Se ele morrer, aí é que eu vou pirar de vez mesmo.



Cauê

...Pelo amor de Deus, não vamos pensar no pior. Você já falou com a família dele?

Paula
...Só com uma das irmãs. A mãe dele me detesta.

Cauê
...Eu avisei ao João. Ele ficou tão chocado, mas daquele jeito dele, sabe?

Paula
...Espero que ele consiga passar por cima daquele orgulho besta e faça, pelo menos, uma oração para o Heitor.

Cauê
...Há quanto tempo eles não se falam?

Paula
...Acho que há uns seis meses, sei lá. 

Cauê
...Pra quem andava sempre grudado...

Paula
...Eu não sei direito o que houve. Aliás, eu não sei o que houve com todos nós. Quando nos conhecemos, era tudo tão bom, fazíamos tudo juntos... De uns tempos pra cá, cada um foi ficando na sua...

Cauê
...Tantas cobranças, ciúmes, isolamentos. Para algumas pessoas, a amizade virou até uma espécie de obrigação.

Paula

...Se nós pudéssemos começar tudo de novo...


Cauê
...Você acha que seria diferente?

Paula
...O João e o Heitor, por exemplo. Eles não se largavam, lembra?

Cauê
...Eu tenho quase certeza de que o rompimento deles foi por puro excesso de intimidade.



Paula

...Amigo que é amigo suporta essas coisinhas bobas, Cauê.

Cauê
...Mas um momento de silêncio também é bom. É até necessário.

Paula
...Eu já tenho medo do silêncio. Tenho medo de mim mesma, no silêncio.

Cauê
...Eu nunca me senti, assim, Paula.

Paula
...Assim como?

Cauê
...Assim, com essa sensação de vazio, de ter um buraco aqui dentro, sabe? Eu acho que eu também era dependente do amor dele.

Paula
...Todos nós éramos.

Cauê
...Um amor que beirava até o infantil, né?

Paula
...Ele sempre teve mesmo uma certa pureza.

Cauê

...Pra você deve ter sido difícil se apaixonar por ele daquela forma, não é?


Paula
...Sabe que não? Quando eu descobri que estava apaixonada por ele, eu era muito novinha, imatura. Nem sabia direito o que estava sentindo. Foi mais um impulso, eu acho. Ele também nunca me disse verbalmente que não queria nada comigo. Talvez não quisesse me machucar também. Mas eu logo entendi e segui o meu caminho. Também nunca o vi machucando ninguém, mesmo que a pessoa merecesse.

Cauê
...É verdade.


Paula

...Ele sempre queria o melhor para nós. Quando não podia fazer isso, simplesmente desaparecia. Era como um código. A gente logo sabia que ele estava exilado em algum lugar.

Cauê
...E ninguém conseguia tirá-lo de lá.



Paula

...E quanto mais perguntas, mais silêncio.

Cauê
...Ah, mas com o João ele sempre se abria. O João, por exemplo, foi o primeiro a saber que ele tinha comprado aquela maldita moto.

Paula
...Pois é... E, depois, deu no que deu.

João se aproxima.

João
...Oi pessoal.

Cauê
...Você não morre mais. Estávamos falando justamente de como você e o Heitor eram amigos.

João (sentando-se)
...E como é que ele tá?

Cauê
...Mal, né? Muito mal.

João
...Se eu soubesse...

Paula (num rompante)
...Se nós soubéssemos, tudo seria diferente. Teríamos feito uma festa pra ele.

João
...Na verdade, eu poderia mesmo ter passado por cima do meu orgulho, ter dito a ele: “Cara, vamos começar tudo de novo. Vamos esquecer essas besteiras”.



Cauê

...Agora é um pouco tarde para arrependimentos, você não acha?

João
...Ele não quis entender a minha imperfeição também. Eu errei. Todos erram, não é? Olha, vocês podem achar estranho eu dizer isso só agora, mas eu ainda o amo. Amo.

Paula
...Agora que ele não pode ouvir?

João
...O que vocês querem que eu faça? Eu já admiti que errei.

Cauê
...Mas não basta.

Paula
...Por favor, estamos num hospital.

João
...Dane-se o hospital! Não fui eu que provoquei o acidente.

Cauê
...Mas depois que vocês romperam ele nunca mais foi o mesmo.

João
...Eu faço qualquer coisa por ele... Ele não está precisando de sangue? O que ele está precisando?

Paula
...Não seja ridículo, João!

João
...Eu tentei me reaproximar dele. Enviei um e-mail, mas ele não me respondeu.

Cauê
...Ele me falou desse e-mail.

João
...O que ele te disse? Fala, Cauê!!!

Cauê
...Disse que você precisaria de muito mais alegria para saber que a vida dói.


João

...Não entendi.


Cauê

...É simples...


Paula (interrompendo-o)
...O João quis dizer que você só reconheceria o valor da amizade dele, depois que quebrasse a cara. Pronto, falei.

João
...Vocês acham que se ele ficar bom pode ainda me perdoar?

Cauê
...Não sabemos nem se ele vai ficar bom.

Paula
...Eu tenho por dever acreditar em milagres.

João
...Foi tão grave assim?

Cauê
...A moto entrou debaixo de um caminhão.

João
...Merda!

Paula
...Agora só resta mesmo rezar.

Cauê
...Preciso dar um pulo em casa, tomar banho e comer alguma coisa. Estou na rua desde cedo. Vocês vão ficar?

Paula
...Eu tenho ainda que passar, na faculdade dele. Não sei se eles já sabem. Quanto mais pessoas torcendo pela sua recuperação, melhor.

Cauê
...Eu te dou uma carona.


João fica parado ali mesmo, sem saber o que fazer, como agir, sem poder mudar o tempo. Apenas sentindo aquela dor que agora se transformou em culpa.


Texto escrito em 22/12/2010.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

PELO MUNDO DAS TVS - AMSTERDAM



Só hoje consegui assistir à matéria do Video Show sobre Amsterdam, dentro da série Pelo Mundo das TVs, apresentada pelo Zeca Camargo. Tive o prazer de indicar a maior parte das locações que aparece no video e acompanhar a equipe num dia intenso de trabalho, em dezembro do ano passado. O resultado ficou incrível! ADOREI. Amsterdam em todo o seu charme e beleza. Quem não assistiu é só clicar no link e dar play. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

ANO BOM



video
É a segunda vez que faço isso. Saio de casa meia hora antes da virada e vou me aventurar pelas ruas estreitas e repletas de turistas de Amsterdam, para cruzar aqueles canais maravilhosos, enquanto um filme, com o perdão do trocadilho, passa na minha cabeça, rememorando o ano que se passou. Este ano foi ainda melhor, tudo pareceu ainda mais belo e encantador ou teria sido 2014 um ano espetacular? Fazendo, assim, uma análise geral, o ano passado não foi exatamente incrível, mas foi perfeito. Devo a esse ano a força que me manteve firme para continuar com meus projetos artísticos, não ter morrido de amor (como fui tolo) e seguir com os meus planos de viagem ao Brasil, depois de quase quatro anos, fora de casa. Finalmente chegarei lá, me aguardem. Por tudo isso e mais algumas agradáveis surpresas de última hora, posso dizer que foi um ano muito bom.
Não fiz exposições, mas pude avançar nas pesquisas do meu trabalho e produzir mais de dez quadros, exatamente como eu os imaginei, fora outros tantos que estão inacabados, no ateliê, e que devem aparecer em breve. Ano em que pude escrever mais um novo roteiro, que agora se soma aos outros três engavetados e que, pelo menos, um deles pretendo filmar ainda este ano, no Brasil. Sem contar o projeto de um site cultural e mais a minha adesão ao mundo dos vloggers, que resultou na criação do Fixação, programa de dicas culturais e afins do meu canal do You Tube e que vai melhorar (e muito!), nas próximas edições.
Ano em que abandonei de vez a TV e apenas me dediquei a assistir a poucos e bons filmes, e muito deles nacionais. Claro, está cada vez mais difícil encontrar boas produções brasileiras, mas como não se emocionar com “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” ou dar boas risadas com o desbunde de “Tatuagem” e até mesmo se decepcionar com “Praia do Futuro”. No quesito músicas do ano, eu que já não sou uma pessoa cheia de trilhas favoritas, qual não foi a minha surpresa e prazer ao descobrir, já no final do ano, o talentosíssimo Johnny Hooker, cuja canção “Volta”, do já citado “Tatuagem”, foi uma das que mais escutei junto com “Alma Sebosa”. Depois baixei o CD “Roquestar” e os meus treinos na academia ficaram bem mais interessantes e suportáveis. Viva esse talento pernambucano! Pude ainda realizar o sonho de conhecer, aqui em Amsterdam, a cantora  Daniela Mercury, de quem sou fã confesso e que me fez mergulhar nas minhas raízes baianas, num show memorável com o Olodum, numa das casas de espetáculos mais bacanas da Holanda e ainda pude presenteá-la com um trabalho meu, inspirado no barroco brasileiro e ela se mostrou satisfeita no Twitter e ainda me agradeceu pessoalmente pelo mesmo. Quase morri do coração nesse dia!
O ano que li muitas e variadas biografias. Não é tão fácil encontrar livros em português por aqui e o meu inglês ainda não é uma Brastemp, logo ler um bom romance ou livro de contos é bem complicado. E ainda estou me acostumando com os livros digitais. Fui então emendando uma biografia na outra e quando vi já tinha lido “Daniela Mercury e Malu – Uma história de Amor”, “O Som e a Fúria de Tim Maia”, “Dolores Duran – A noite e as canções de uma mulher fascinante” e, finalmente, “50, Eu?”, que mereceu até uma resenha aqui, no post anterior. Já quase no final do ano, o querido Benjamin Moser autografou a minha biografia da Clarice Lispector, “Clarice,”, e de quebra ainda assistimos a um ótimo documentário sobre Susan Sontag, num prestigiado festival de documentários, aqui de Amsterdam.
A exposição que me marcou profundamente foi, sem dúvida, “Marlene Dumas – The Image As Burden”, no Stedelijk Museum. Por tudo. Pela excelente e indiscutível qualidade do trabalho da artista sul-africana, pela montagem que é precisa e competente, pela companhia especial naquela linda manhã ensolarada de domingo e, sobretudo, pela atmosfera poética e de encantamento que esta exposição nos presenteia. Não é à toa que foi um sucesso de crítica e público. Não posso deixar de falar também no acervo de tirar o fôlego do maravilhoso Centre Georges Pompidou, em Paris, mais até do que a exposição sobre o início da carreira do Marcel Duchamp, que também vi, sem grande entusiasmo, lá mesmo. Ver de perto todas aquelas maravilhas modernas e contemporâneas foi uma experiência inesquecível!
E por falar em Paris... A minha viagem pra lá, mais uma vez, foi maravilhosa. Pela primeira vez, sozinho, pude andar e me perder por aquelas ruas charmosas, no comecinho do outono. Só essa viagem mereceria um post à parte, porque foi muito especial e aproveitei bastante. Logo no primeiro dia, estava acontecendo uma espécie de Virada Cultural chamada “Nuit Blanche”, com várias e inusitadas atrações, que conferi na companhia de um francezinho de alma brasileira que, entre outras coisas, estava lendo Oswald de Andrade em português. Pode uma coisa dessas? Lá também encontrei o meu amigo Rodrigo Fauor e, com outro amigo dele, passamos uma tarde muito divertida juntos. Já em Amsterdam, tive o prazer de receber a minha grande amiga, desde os tempos do colegial, Fernanda Matos e passamos momentos lindos na cidade. Recebi a visita do meu primo Felipe, vindo de Budapeste, e foi ótimo recebê-lo também por aqui.
Nas redes sociais, o ano foi, de longe, do Instagram, com destaque para a nossa sede voraz por selfies (melhor não falarmos do controverso pau da selfie rs), enquanto o Facebook se mostrou cada vez mais autoritário e invasivo, chegando às raias do insuportável com a disputa presidencial, com as pessoas se digladiando em defesas inflamadas por um ou outro candidato. E o que falar do Brasil, nesse sentido, hein? O ano do retrocesso, da inflação voltando, do escândalo da Petrobras, dos crimes homofóbicos, da fraca abertura da Copa... E o que foi aquele terrível 7x1 da Alemanha contra a fraca seleção brasileira? Bom, melhor pararmos por aqui e mentalizarmos um 2015 com mais motivos para a gente se orgulhar. Que não nos falte trabalho e, sobretudo, vontade de superar os desafios. Seja bem-vindo ano bom!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

50 E ZEN


Muitos vão torcer o nariz, mas o livro mais interessante que li neste ano foi “50, Eu?”, o e-book do jornalista e apresentador de TV, Zeca Camargo. Antes que você possa me chamar de louco ou deslumbrado com o mundo das celebridades, sugiro acompanhar o post até o final. Não, não quero convencer você de absolutamente nada, apenas mostrar que esse livro, talvez por questões de mercado ou por puro preconceito, foi promovido de forma errada e muitas pessoas não sabem o quanto ele é bem elaborado, o quanto o texto é saboroso e inteligente. 
Difícil escolher apenas um trecho para deixá-los com água na boca, seguem então três que selecionei ao acaso: “Sei que tenho que aceitar que um dia tudo vai cair mesmo – uma involuntária vingança do corpo feminino, que tenho certeza de que as mulheres comemoram secretamente toda vez que veem o marido sessentão sair do banho”, “Somos um gênero naturalmente competitivo – e, na impossibilidade de competir em outras características físicas mais ocultas (e que, embora menos ainda admitam, é a única competição que realmente conta), é na linha da cintura que secretamente dizemos a nós mesmos: “Estou melhor que ele”, “Sou o brinquedo favorito do filho de 2 anos de um casal de amigos. Aliás, eu não – meu rosto. Mais especificamente a pele do meu rosto. Toda vez que encontro esse garoto, ele avança sobre minhas bochechas com a fome de quem encontrou um balde de massinha de modelar”.
Estava finalizando as pesquisas de um projeto chamado “O Rosto Objeto”, inspirado num artigo do Roland Barthes, onde desconstruo rostos especialmente de ídolos ou ícones do passado, negando essa necessidade voraz que temos de forjar a aceitação inconteste da beleza como algo fundamental (quem não se lembra do espanto com o novo rosto da atriz Renée Zellweger, nas redes sociais, dia desses?), para mostrar que mesmo aparentemente transfigurados, “monstruosos”, a beleza deles está ali, uma vez que reconhecemos neles, imediatamente, o que eles representam culturalmente e isso é o que de fato importa (ou deveria). Li muitas coisas e, nesse contexto, cheguei ao livro do Zeca Camargo. Sim, foi a última leitura. Não esperava um livro muito “sério”, é verdade, e logo no primeiro capítulo levei aquele susto.  “Será que ele escreveu isso mesmo?” – me questionei, ainda desconfiado. E bastou alguns parágrafos para saber que o livro é mesmo muito bom.
Chegar aos 50 anos, gozando de boa saúde e prestígio profissional, não é exatamente uma novidade e muito menos privilégio de alguém famoso, por isso já considero o primeiro grande acerto do autor: registrar a chegada da nova idade  de forma pouco óbvia (fazendo um raio-x do próprio corpo e suas mudanças) e sem se perder no caminho fácil da vaidade extrema. Talvez isso explique a presença constante do humor, ou da “autossacanagem”, como costumo dizer. Desde a ótima foto de capa, onde o rosto do jornalista aparece todo esticado, o que logo me fez lembrar alguns trabalhos do fotógrafo Wes Naman, até o bem sacado capítulo final que traz um dos discursos mais bonitos que já li sobre generosidade e amor, o humor está presente. Brincar com o que viu no espelho, depois de uma comemoração intensa em Istambul, uma de suas cidades favoritas, mas sem protagonizar um dramalhão do tipo: “Em que espelho ficou perdida a minha face?” – só pra lembrar um dos meus poemas favoritos da Cecília Meireles – trouxe uma leveza esperta e, sobretudo, cumplicidade com o leitor. E, cá entre nós, nesses tempos de exposição excessiva, em todos os sentidos, o discurso do livro, apesar do lugar-comum, é bastante pertinente: “envelhecer faz parte do processo”. Não tem jeito.
Não posso dizer que a mídia especializada ignorou o livro, mas todo material que li sobre ele ou vídeos a que assisti e até mesmo entrevistas do jornalista falando desse trabalho, na minha modesta opinião, não destacam a qualidade que me impressionou, a maioria termina sempre refém do perigoso e precipitado julgamento: “Um artista da Globo escreveu, então vamos boicotar”. Aliás, não basta ser apenas da Globo, basta ter um pezinho no pop para sofrer desse mal e na literatura não é diferente. O escritor paulistano Santiago Nazarian que o diga. Fernanda Young também. Mas, pra  felicidade de quem admira um bom texto, as coisas estão começando a mudar e nomes como Fernanda Torres e Gregorio Duvivier estão aí pra marcar território.
No próprio livro (“cada um que descubra as coisas por si”) e em algumas entrevistas de promoção do mesmo, o jornalista se apressa em dizer que não se trata de um livro de autoajuda. De fato, não é, mas é inegável que ele seja “vendido” como tal, o que é uma pena, porque simplifica a mensagem e o ótimo tratamento do texto. Não há fórmulas prontas, dicas para perder peso ou coisas do gênero, apenas o relato honesto de quem chegou aos 50 anos, consciente das mudanças do próprio corpo e feliz por se deixar ser, daquela maneira. É ou não é uma ótima inspiração (a palavra adequada) para quem ainda se sente desconfortável em, digamos, viver mais, com tudo que isso possa trazer de bom ou ruim? E se é pra viver mais, que seja com alegria e entusiasmo, como Zeca Camargo tem feito e tão “zen”.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

BRASIL, JÁ DEIXEI DE TE ENTENDER



Com a correria da minha exposição, terminei só agora lendo o discurso do escritor Luiz Ruffato, na feira do livro de Frankfurt, deste ano, onde o Brasil foi o país homenageado e também as declarações de Paula Lavigne, que representa o cantor Caetano Veloso e outros artistas nessa tentativa ridícula de proibir que biografias não autorizadas sejam lançadas. Vamos por partes. Primeiro o discurso do Ruffato. Fui pegando uma coisa aqui e outra ali, no Facebook, uns contra, outros a favor, mas me mantive em silêncio até ler o discurso dele na íntegra. Bom, pra quem não leu, vou fazer um resumão, mas o melhor mesmo é que cada um leia e tire as suas próprias conclusões. O escritor, bastante premiado, com uma obra traduzida em vários países (nunca li nada dele, tá?), foi um dos poucos escritores brasileiros selecionados para o maior evento literário do mundo e pegou todos de surpresa ao fazer um discurso falando da desigualdade social do Brasil e de como é ser escritor num país, "situado na periferia do mundo", e, cá entre nós, sem leitores. A saia justa foi geral. Aplaudido por muitos e, segundo o próprio escritor, "quase agredido por brasileiros", depois do discurso, o que ficou pra mim desse episódio foi: independente de gostarem ou não, de respeitarem ou não a posição dele, alguém precisava dizer aquilo.  
Essa experiência de morar fora, por dois anos, me fez ver que a imagem que a gente passa do Brasil pro mundo, de modo geral, não reflete a nossa realidade e isso ultrapassa aquele pretenso oportunismo com fins econômicos do tipo "vamos maquiar a pobreza do Brasil, para atrair mais turistas". Isso a gente já está cansado de saber e o resto do mundo faz a mesma coisa. Uma vez dentro do país, salve-se quem puder. O que eu acho um erro grave, por exemplo, é essa manutenção descarada da hipocrisia, a qual ele criticou muito bem. Destaco duas coisas interessantes do discurso: a complexa miscigenação do Brasil, que aos olhos do mundo é maravilhosa, mas que na prática resultou em racismo e exclusão social. Eu ainda entendo a nossa mistura de raças com alguma alegria, porque ela nos favoreceu bastante em termos de aspectos culturais, o único ponto em que discordo do escritor porque, segundo ele, ela foi fruto de um "estupro". OK, a metáfora foi impactante, mas, ainda que os colonizadores tenham apenas se aproveitado de índias e escravas, o resultado desse "estupro", pra mim, foi maravilhoso: um país sem cara definida. Por outro lado, o mesmo negro que samba pra divertir o gringo no carnaval é aquele que é rejeitado em uma vaga de emprego, depois da quarta-feira de cinzas. É ou não é? O x da questão é uma mudança de mentalidade. Mas como isso pode ser possível se o próprio modelo de educação do país é falho, insuficiente e não é prioridade do Governo Federal? Muita, muita contradição.
Outra coisa interessante é quando ele termina o discurso falando que, apesar de todos os problemas, acredita no poder transformador da literatura. Muita gente achou ingênuo da parte dele, utópico, etc, outros até não se sentiram representados, embora me pareceu, sim, um discurso em primeira pessoa. Então alguém me diga qual escritor brasileiro, exceto Paulo Coelho, pode se dar ao luxo de parar de escrever, se quiser, porque seus livros venderam ou continuarão vendendo como pão quente? Num país de sem leitores, pessoal? Eis o desafio. Aqueles que dão a cara a tapa e produzem cultura, no Brasil, sobretudo de forma independente, o fazem por amor ao seu ofício, porque são tantos os entraves no meio do caminho, burocracia, caceteação, que se aquilo não for realmente importante pra si mesmo, ninguém consegue fazer. E depois implicar porque o escritor falou da sua infância pobre… Se ele ascendeu socialmente com o fruto do próprio trabalho, qual o problema? Pior foi o presidente que se elegeu usando e abusando de um discurso populista muito do sem-vergonha e que tinha tudo para promover uma revolução na educação do país e não o fez. Enfim, tenho um pouco mais de esperança, quando vejo atitudes corajosas como essa do Ruffato.
Agora vem o prato indigesto do dia… Paula Lavigne foi à gravação do programa Saia Justa do GNT falar sobre a polêmica em torno da associação Procure Saber que representa medalhões da nossa música como Gil, Caetano, Chico, etc, na tentativa de impedir que biografias não autorizadas (só deles?) sejam lançadas no mercado editorial, a exemplo de um ato claro de censura protagonizado, tempos atrás, pelo cantor Roberto Carlos que conseguiu tirar de circulação uma biografia sua. Pois bem, lá pelas tantas, ela vira pra uma das apresentadoras e diz, assim: Bárbara Gancia, você é gay assumida? querendo provocar um certo constrangimento, para justificar o injustificável. "Então, na prática estamos defendendo isso, o direito do artista não se constranger, não ser pego em flagrante"… A interpretação é por minha conta e risco. Acho um absurdo esses artistas (todos meus ídolos), figuras que assumiram o papel de pessoas públicas, a maioria censurada, exilada pelo governo militar, se prestar a uma atitude mesquinha dessas. E a porcentagem sobre o valor dos livros vendidos que querem pra eles? Tenho amigos biógrafos que passam meses ou anos trabalhando arduamente, pendurados em telefones, viajando atrás de uma única informação, enfurnados em bibliotecas… Tenho certeza de que não o fazem por vaidade e todos são respeitados e admirados no meio artístico. A minha imaginação, que não conhece limites, me fez pensar agora que até a divisão do lucro com os artistas abriria precedente pra um certo sensacionalismo, já que estamos no terreno arenoso das contradições… "Fulano, se você contar que comeu Fulano, vai vender mais, pense bem"… Estou ironizando, tão-somente, porque o assunto me parece uma grande piada.
Se a Justiça já tem os seus próprios mecanismos de punição para aqueles que usam de má fé, que difamam alguém, famoso ou não, por que temerem tanto os biógrafos? Não me lembro de nenhum biógrafo da longa Coleção Aplauso ter sido processado, por exemplo. Ou será que ninguém está vendendo tanto assim e quer ganhar mais dinheiro? Ou será que tudo não passa de uma tentativa de chamar atenção para ser notícia no New York Times? Ou será que divago? A impressão que eu tenho é que esses artistas estão dando as costas a própria história que eles mesmos construíram. Uma pena. Um retrocesso. O próprio Caetano Veloso que escreveu um livro brilhante como Verdade Tropical o escreveria, hoje, nessas condições que ele agora defende? Responda, gentilmente, Caetano. Brasil, são tantas as suas contradições, que eu já deixei de te entender. Juro.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

ORGULHO PRÓPRIO








Ter muito dinheiro ou apenas ser feliz? Terminei me deparando com essa questão, no último final de semana, quando um amigo holandês me sugeriu que eu copiasse o estilo de um artista famoso qualquer e só depois, quando tivesse muita grana, investisse em um trabalho mais autoral. Estávamos numa abertura de exposição, numa galeria de Amsterdam, talvez a única autorizada a vender Picasso na Holanda. A mostra intitulada Homenagem a Picasso tinha lá uma série de gravuras do grande artista e também trabalhos de um outro pintor (que o imita descaradamente), cujos quadros estão à venda acima de 10.000 euros. Achei que fosse uma brincadeira dele, embalada por duas ou três taças de vinho branco, mas ele continuou insistindo naquela conversa e até forjou que uma amiga sua concordasse com ele. Como artista, me senti um tanto ofendido e apenas respondi: "Prefiro seguir fazendo o meu trabalho, que embora não seja genial, é o que me orgulha e me faz feliz".
Achei que tinha encerrado aquela discussão ali mesmo, mas no fundo algo estava me incomodando, principalmente porque acabei uma série nova de trabalhos e vou expor alguns deles junto com mais 13 artistas locais, no próximo sábado. Não foi um trabalho fácil por várias razões, desde o fim de um namorinho (desculpa, sou romântico), passando por mudança de casa, a falta de um atelier e uma dor na coluna que vinha e voltava me fazendo parar por várias vezes. Ainda assim, não fiquei me lamentando, não fiquei chorando pelos cantos, tentei driblar os meus limites e fazer o meu trabalho de forma honesta e do jeito que foi possível, porque eu acho, sinceramente, que o mais importante é fazer, insistir, o ato criador exige essa disciplina. Quem tenta tem mais chances de acertar do que quem fica de braços cruzados. Simples assim. E, se eu ficasse pensando em tendências artísticas ou em quem está bombando nas feiras de arte mundo afora, meu trabalho perderia completamente a sua essência, a sua identidade. E olha que ele já é cheio de referências e intertextualidades. Todas propositais. 
Quantos artistas já não fizeram uma releitura da Mona Lisa, por exemplo? E isso não quer dizer que eles perderam subitamente o seu talento ou que esses trabalhos sejam apenas cópias. Em O Rosto-Objeto eu também trato sobre isso. Não quero me apoiar no trabalho maravilhoso dos mestres e muito menos deturpar essas obras famosas, quero apenas mostrar que essas imagens (especificamente rostos) são tão imperativas que atravessaram séculos ou décadas e, mesmo quando eu as trago para um espaço confuso, esquisito, às vezes até sombrio, cheio de pequenos símbolos, onde tinta e papel convivem livremente sobre a tela, elas mantêm a sua força enquanto imagem. E tudo isso tanto pode perturbar o espectador quanto promover uma reação de puro encantamento. O próprio título eu tirei daquele belo ensaio do Roland Barthes sobre o rosto da atriz Greta Garbo. E depois tem a exposição nossa de cada dia nas redes sociais, o rosto assumindo essa função de nos identificar globalmente, para o bem e para o mal… Teve até aquele episódio na Itália, da dona Cecília, uma senhora que sem querer transformou uma tosca "restauração" do rosto de Cristo em piada e… "arte". Por que não? Então como posso jogar todas essas minhas inquietações no lixo para copiar alguém? Faz sentido?
Ser artista não é fácil em nenhum lugar do mundo e essa questão de dinheiro x realização profissional também não é nenhuma novidade. E, depois, seria muita ingenuidade minha buscar uma aprovação das pessoas para legitimar o que eu faço. Pretendo tão-somente continuar fazendo o que me realiza, enquanto eu puder, até quando for possível me expressar e isso me fizer bem. Se atingir as pessoas, melhor. Se não atingir, não tinha que ser. Não vou me lamentar por isso. 
Faz pouco tempo que assisti a uma entrevista do artista plástico brasileiro Alex Fleming, que mora em Berlim e de quem sou grande fã, onde lá pelas tantas ele diz uma coisa que já se tornou uma espécie de segundo Cântigo Negro, pra mim: "O importante é que eu fiz aquela obra, aquela obra é importante pra mim. Se as outras pessoas vão gostar, não vão gostar, não me interessa". E quer saber? Tudo na vida deveria ser desse jeito. Não se trata de egoísmo ou autoconfiança, apenas autenticidade e um pouco de orgulho próprio. E orgulho próprio, claro, é bem melhor que orgulho ferido.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

ACORDAMOS, MAS ATÉ QUANDO?



A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Vinicius de Moraes

Protestar é legítimo, mas o vandalismo (provocado por um grupo isolado de oportunistas e baderneiros, ontem em São Paulo) não pode também esvaziar o sentido dessa mobilização que é, antes de qualquer coisa, democrática. Essas pessoas são criminosas e se infiltraram no movimento para desviar a atenção do que realmente importa ou até mesmo com fins políticos desconhecidos (por que não?). A passeata do dia anterior, que começou no Largo da Batata, foi pacífica e nos encheu de orgulho e alegria. Quem saqueou, ontem, bancas, lojas e lanchonetes, no centro da cidade, realmente merece ser punido. Li coisas do tipo "vandalismo é meu filho morrer na fila do hospital ou com bala perdida", isso vindo de dois jornalistas bem sérios e respeitados. OK, mas vamos separar as coisas pra não cairmos no simples discurso da falta de discurso. Está mais que comprovado que uma parcela enorme da população está descontente com a corrupção e o mau uso do dinheiro público, a situação caótica da educação, a falta de segurança, o transporte público ruim e caro e por aí vai… Li em posts do meu Facebook, por pessoas que admiro, que os manifestantes estão "atirando pra tudo quanto é lado". Mas isso também é legítimo e, pra mim, não expressa um individualismo alienado. Cada um é livre para expressar a sua indignação de forma pacífica. Achei um barato, por exemplo, ver naquela multidão um cartaz em que se lia "Meu c… é laico". À primeira vista pode parecer uma frase de extremo mau gosto, mas ontem mesmo o babacão Marco Feliciano conseguiu aprovar o seu tão sonhado projeto de "cura gay", na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, da qual preside, a contragosto de milhares de brasileiros e militantes do movimento gay, mas que se mantém lá, imóvel, por ter sido o único que fez a campanha da presidente Dilma em São Paulo. Nada me convence do contrário.
As pessoas estão acordando e não adianta a imprensa tentar vender para a população que se trata simplesmente de um protesto da classe média, como se a insatisfação não doesse no bolso de todo mundo. Até então, o governo petista enchia o peito de orgulho pra dizer que seus programas assistencialistas revolucionaram a distribuição de renda no país, trazendo mais dignidade a pessoas da periferia, etc. Sempre o mesmo papo furado. Ajuda? Ajuda, mas não é preciso ser nenhum gênio da economia também pra saber que programas como o Bolsa Família estão maquiando uma realidade indisfarçável: só comer não basta. Sinceramente, não quero saber se as pessoas que recebem esses benefícios do governo estavam nas ruas ou não (provavelmente não), mas eu me orgulho, sim, de ver o povo brasileiro se mobilizando e mostrando ao mundo que a gente não é só samba, mulata e futebol. E por falar nisso a minha opinião sobre a Copa no Brasil é a seguinte: sempre achei uma escolha errada (quem quiser pode ler meu post de 3 anos atrás), porque o Brasil não tem estrutura mesmo, os estádios custaram bem mais do que o preço estimado, não acho que vá reverter em propaganda turística sem precedentes e resumindo bem foi apenas um capricho, uma vaidade do ex-presidente Lula. Pra quê gastar tanto dinheiro com a Copa se a nossa educação, por exemplo, é uma das piores do mundo? Não vou participar do coro do boicote porque isso não vai resolver nada nos 45 do segundo tempo, os estádios já estão aí, os elefantes brancos vão ficar, mas pode ter certeza de que eu não estarei lá aplaudindo. Se pudesse, estaria vaiando os políticos corruptos, isso sim. 
Que nós acordamos é fato, mas até quando? Será que toda essa revolta vai chegar às urnas, no ano que vem? Estou pagando pra ver. 0,20 centavos.