sábado, 31 de dezembro de 2011

HAPPY NEW YEAR!

sábado, 24 de dezembro de 2011

MERRY CHRISTMAS


Como sempre, todo Natal eu me enrolo todo e fico sem tempo para escrever um post decente e apareco aqui com aquela cara de pau para falar das guloseimas que estou preparando para o jantar. Este ano nao vai ser diferente, me desculpem, pois tive uma semana bem cheia e o tempo que me sobrou investi numa receita de peru, afinal como Mario de Andrade escreveu no seu otimo conto "O Peru de Natal", que indico a leitura, "No Natal, quero comer peru". Eu ganhei esse peru da minha amiga Janete, que curte ferias deliciosas no Brasil, enquanto me hospedo na sua casa e tomo conta da sua gata Fiona, em Leiden (uma cidade que fica a 25 min de Amsterdam). Ontem dei uma vasculhada na internet e achei uma receita de peru bem basica. Descongela o bicho, coloca num saco plastico com uma mistura de sal, cebola, alho, vinho branco e pimenta do reino, leva ao forno com papel aluminio, em temperatura media e por cerca de uma hora e meia. Depois e so rezar para dar certo. Bom, eu acrescentei limpar o bicho com limao siciliano e ir regando com azeite e laranja para nao ficar tao seco. Acabei de abrir o forno e parece que esta tudo OK. Dentro eu sapequei algumas batatas para ele nao desmoronar. Peru feio tambem nao da, ne? Vou fazer uma farofa de banana (aquela famosa do Natal passado) e um arroz a grega para acompanhar. So. Ah, e maionese porque ninguem e de ferro. E acho que vai ter ate guarana do Brasil. Espero. Bom, mas o mais importante nesta data nao e nada disso, eu preferia comer um sanduiche com meus parentes e amigos verdadeiros a ter um banquete sozinho. Gracas a Deus, tenho aqui um pedaco da minha familia, mas penso naquelas varias pessoas que conheci aqui na Holanda, de varios paises, cujos pais e amigos estao longe e devem se contentar apenas com um telefonema. E uma situacao bem complicada, voces nem imaginam. Enfim, Natal pra mim e familia, amigos, estar ao lado de pessoas que amamos e eu desejo tudo isso a voces: muito amor, saude, paz, muita prosperidade no ano que vai entrar e que 2012 seja repleto de grandes realizacoes! Feliz Natal! Feliz Navidad! Merry Christmas!!! Abracao!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CHOVE LA FORA E AQUI...





Faz um tempinho que nao posto nada no Blog e confesso que e por pura falta de vontade mesmo, muito tambem pelo fato de que aqui na Holanda nao acontece nada de tao extraordinario assim e depois ficar escrevendo sobre a crise economica na Europa ou a saida novelesca da Fatima Bernardes do JN, convenhamos, nao da! O fato e que ontem fui dormir cedo e hoje acordei de madrugada, vi o Blog paradao e resolvi passar a limpo as ultimas “grandes” novidades desse finalzinho de outono gelado por aqui. Pra comecar, faz dois meses que praticamente me mudei para um atelier no Westerpark, um bairro bem tranquilo e repleto de studios e artistas, aqui de Amsterdam. Foi la que desenvolvi uma serie de colagens chamada Ecstasy of the Sacred (Extase do Sagrado), inspirada em obras barrocas ou renassentistas e cujo objetivo e mesmo renunciar ao discurso de poder dessas imagens religiosas. Eu ja postei algumas imagens no meu Flickr, mas estou tentando registrar em video como foi o processo desse trabalho e postarei aqui em breve. O que eu posso dizer de mais urgente sobre ele e que me deu muito prazer te-lo feito. Primeiro por produzir arte fora do meu pais (mesmo sem nenhuma previsao de expor esses trabalhos aqui) e tambem por ter feito tudo com uma certa dose de sacrificio, o que no final das contas sempre e mais gostoso.

Com algum esforco, assisti a duas exposicoes de arte contemporanea e que realmente valeram a pena. So. Depois de anos sendo sustentados pelo governo e acomodados, varios artistas daqui estao desesperados com os cortes dessa especie de Bolsa Artista. Muitos tem deixado o pais rumo aos lugares mais promissores (China, Brasil, Alemanha, Belgica...). Nao ficarei nada surpreso se em breve ouvir falar que alguns deles estao em Sao Paulo. Bem, se a arte contemporanea daqui nao chega aos pes do que produzimos no Brasil, por outro lado os museus dedicados aos artistas consagrados como Rembrandt, Vermeere e Van Gogh vivem lotados. De todos eles o que mais me interessa e o Van Gohg, que conheci com minhas amigas Angelica e Sandra, numa tarde deliciosa. Foi um dos passeios mais bacanas que ja fiz na cidade. A companhia agradavel e os altos papos com direito a defesa apaixonada de nossas obras favoritas fizeram toda diferenca. Eu sou completamente apaixonado pelas pinturas de Van Gohg e O Quarto em Arles e a minha favorita. Fiquei um tempao admirando a obra. Depois saimos pela cidade, sob garoa, eu ciceroneando a minha amiga Angelica, que mora na Espanha e nao conhecia a cidade; no final fomos parar num coffeeshop, programa quase obrigatorio para quem visita a cidade pela primeira vez. Apesar de nao usar drogas, o que choca algumas pessoas, acho ate positiva essa liberdade que eles tem aqui. Nunca presenciei uma briga ou coisa do genero, tudo e questao de educacao mesmo.

Tive a oportunidade de ajudar tambem um DJ brasileiro que esta comecando a estourar por aqui, Alex Molinardi, na realizacao de um video promocional de uma festa que aconteceu no ultimo final de semana, a VORTEX. O som dele e bem gostoso, com um perfume retro, e o conceito da festa era unir as varias tribos da cidade, me lembrou bastante as festas do Gloria em Sao Paulo e me diverti muito. Tenho a impressao de que o video esta se tornando a grande novidade do momento entre os moderninhos de Amsterdam. Assisti a varios bem interessantes e alguns com ideias bem simples. E por falar em video, qual nao foi a minha surpresa de chegar aqui e receber a noticia de que aquele meu curta Beijo de Novela fechou o ano com participacao em 6 festivais! So fiquei ainda mais estimulado a produzir outros curtas no ano que vem. Agora vou ficando por aqui, mas espero que estejam todos bem no Brasil e a saudade continua gigante. Abracao!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

BAGUNCANDO A ALEGRIA DO POVO


Que Rock in Rio e esse? A proxima capa da Playboy?



Continuo na Holanda, mas sempre atento a tudo que acontece no Brasil. Gracas a internet, claro. Nao quero parecer o chato que saiu do seu pais e que, influenciado pelo “primeiro mundo”, passou a cuspir no prato que comeu, nao e nada disso, eu continuo e continuarei amando e sendo grato a minha terra, a minha patria, mas nao da tambem para fechar os olhos para uma serie de coisas que andam acontecendo ai. Com os poucos amigos brasileiros que fiz por aqui, volta e meia discutimos apreensivos como sera a Copa de 2014 e as Olimpiadas de 2016 no Rio. Me sinto totalmente a vontade para falar do assunto porque quem acompanha meu Blog sabe o quanto fui cauteloso na epoca da escolha do Brasil e do Rio para sediarem esses eventos esportivos. Enquanto a maioria dos meus amigos soltavam fogos, eu apenas dizia “Muita calma nessa hora”. Eu sinceramente acho que o Brasil nao esta preparado. E mesmo se conseguissemos implantar uma politica de tolerancia zero pra corrupcao, num passe de magica, ainda assim ficariamos devendo e muito em termos de estrutura e seguranca. Se a intencao era turbinar o nosso turismo, por que entao nao ficar apenas com a Copa e fazer todas as mudancas necessarias, dentro do prazo e com bastante transparencia? Por que nao investir no esporte para 2020? Vale a pena ser palco apenas para a alegria dos outros? O Rio de Janeiro sempre foi e sempre sera o cartao postal do Brasil, indiscutivelmente. O meu medo e que a cidade se torne um grande canteiro de obras e que o contribuinte pague mais do que deveria pela vaidade de certos politicos, emissoras de TV e principalmente do poderoso chefao da CBF.


E o Rock in Rio, hein? Francamente, nunca vi uma edicao tao cheia de problemas e micos. E nem estou falando especificamente da Claudia Leitte e Ivete Sangalo, porque na edicao anterior teve ate Britney Spears e N`Sinc, mas, vamos combinar? os organizadores conseguiram bater o recorde de trapalhadas, voces nao acham? A estrutura e realmente muito boa, mas misturar roda gigante, tiroleza e ate cartomante virtual ja e um pouco demais. Nao precisava competir com a festa do peao de Barretos, ne? A atriz Barbara Paz foi quem melhor resumiu o espirito da “cidade do rock”: “Nossa, impressionante! Isso aqui parece a Disney!”. E as perolas da atriz Susana Vieira?: “Queria que o Michael Jackson e a Amy Winehouse tivessem vindo / Adorei quando a Rihanna cantou Don’t Stop The Music porque é o toque do meu celular. Da pra levar a serio um evento que enche a area vip de artistas globais que saem falando essas babaquices por ai? Tudo pra que? Pra gerar essas noticias ridiculas em sites, jornais, revistas e programas de TV de quinta categoria? Mas tambem se um cantor como Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, diz uma asneira dessas: “A gente descobriu que gostava de falar mal de qualquer governo. Fosse ele de direita ou de esquerda, todos são iguais. A regra básica é: nunca confie em político” – pode se esperar mais o que, nao e mesmo? Nao cheguei a ver a cobertura do Multishow, claro, mas li que esta pior que cobertura de carnaval, os apresentadores completamente perdidos, entrevistas fracas e mais perolas bizarras, como esta do Beto Lee sobre um roqueiro: “Lemmy tinha que ser presidente do mundo”. Melhor nem falar do arrastao e do fotografo que teve a sua camera roubada nos bastidores…


E, pra terminar, eu gostaria de registrar aqui o meu repudio a revista Veja desta semana que trouxe na capa o ator Reinaldo Gianechinni. Na minha opiniao, ele foi exposto de forma grosseira, por conta do momento delicado pelo qual esta passando: em pleno tratamento contra um cancer no sistema linfatico. Sempre li a revista e admiro muito alguns dos seus colaboradores, mas tambem nao esqueco de que Cazuza ja passou pelo mesmo constrangimento, Elis Regina e muito recentemente o ator Fabio Assuncao. Nao precisava, ne? Achei a reportagem invasiva, desnecessaria, seria mais digno se o proprio ator autorizasse o uso da sua imagem ou concedesse uma entrevista. Mas infelizmente estamos no auge da superexposicao e isso ja seria pedir demais. Eu, como fa, quero mais e que ele se recupere logo, seja por meio de um tratamento convencional ou espiritual. Tenho certeza de que o Brasil inteiro esta fazendo essa corrente positiva. Bom, pessoal, sei que o post ta meio rabujento, chato, mas eu precisava escrever sobre isso, baguncar a alegria do povo. Abracao e ate a proxima!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

AQUI DE AMSTERDAM...

Um dos lugares mais incriveis da cidade, onde estao os melhores museus





Ah, as bicicletas!

Queria evitar um post com cara de guia de viagem, mas isso vai ser impossível, pessoal. Uma semana em Amsterdam/Holanda e estou adorando a cidade. Sempre quis conhecer outros países, mas não imaginava que viria parar por aqui agora. A viagem foi um presente pra lá de especial do meu irmão do meio e eu que não sou bobo nem nada aceitei imediatamente. Adorei a aventura de sair do Brasil sozinho e vir até a Europa mochilando. Bem, deixarei para falar da vida cultural daqui depois e vou tentar ser bem mais objetivo nessas primeiras impressões. A viagem seguiu tranquila, tirando aqueles incômodos de praxe, 14 horas de viagem e a tensão de ser rejeitado na Comunidade Européia. Todos os documentos em mãos e fui liberado tranquilamente. Apenas um incidente. Como havia esquecido umas moedas de real no meu bolso, o detector de metais apitou e em segundos passei a ser considerado o inimigo público número um da Alemanha rs, durante a minha escala em Frankfurt. Quase me pediram pra ficar pelado rs. Pouco mais de uma hora e já estava em Amsterdam. Meu irmão foi me buscar no aeroporto e revê-lo foi simplesmente emocionante. No caminho para o hotel, tudo que os meus olhos alcançavam me chamava atenção. A limpeza das ruas foi a primeira delas, antes mesmo da dificílima língua holandesa. De cara adorei o transporte publico, o metro e os ônibus são bem mais confortáveis que os nossos. A cidade é cortada por inúmeros canais, o que confere a Amsterdam um charme todo especial. O meu primeiro passeio foi então um tour de barco, logo depois que deixei minhas bagagens no charmoso Rembrandt Classic, um hotel 3 estrelas muito simpático, que fica no centro da cidade, de frente para um dos canais, onde as pessoas se reúnem a tarde para tomar um drink. O passeio foi num barco particular, mas qualquer pessoa pode fazer o mesmo desembolsando no mínimo 10 euros. Foi só ai que realmente caiu a ficha, a cidade é realmente linda, não é exagero. Como a semana anterior tinha chovido bastante, o sol estava se debruçando sobre ela, naquele dia, algumas pessoas até me disseram: “Você trouxe o sol do Brasil para nós”. Muito gentis.

No dia seguinte, já choveu um pouco. O tempo aqui é bem instável, no verão tem uma brisa gostosa no final da tarde, faz um friozinho a noite e pela manha o sol é parecido com o do nosso outono. Mas neste exato momento chove sem parar. Bom, me agasalhei e fiz um passeio delicioso de bicicleta, num final de tarde, com o meu irmão. Aqui as bicicletas tem prioridade, elas são o meio de transporte mais barato, fácil e rápido, mas antes de se aventurar é preciso fazer um reconhecimento mínimo dos itinerários, observar as placas de trânsito, até se entender com o cadeado é importante, alguns são bem diferentes. Ah!, e se esquecer a chave no cadeado, por exemplo, já era, eles roubam e vendem no mercado negro.

A arquitetura como se pode notar é bem bonita, charmosa, basicamente composta por prédios de poucos andares, bem estreitos, mas com espaços bem distribuídos. Aliás, praticidade é o que não falta por aqui. Em todos os sentidos. Se você estiver num bar, num coffeshop ou numa balada, por exemplo, e outra pessoa olhar pra você e quiser apenas uma noite de sexo, ela simplesmente vai se aproximar e dizer: Hey, guy/girl. I'm horny, do you want to fuck me? É assim mesmo, sem enrolação. Eu fiquei um pouco assustado, mas tenho um amigo que adora essa praticidade. Vale lembrar que latinos de modo geral são bem recebidos aqui, brasileiro então..., mas já percebi que existe uma certa resistência aos asiáticos. Tentei descobrir o motivo e ainda não me convenci da resposta, me disseram que eles são muito `grudentos` e tem atributos físicos pouco apreciáveis. Preconceito, claro.

Quando souberam que eu estava aqui, muitas pessoas se surpreenderam, talvez porque ainda existe aquele lugar-comum de que quem quer pirar de vez vai para Amsterdam. Não é bem assim. A cidade de fato é bem peculiar, tem lá seus junkies, a prostituição é respeitada, muitas drogas são legalizadas, mas isso é apenas uma parte do que compõe o jeito espirituoso do lugar. Aliás, com tendência a diminuir, por conta do partido conservador que esta no poder. Mesmo com tudo isso, até agora eu não presenciei sequer uma briga, nem ao menos uma simples confusão. Amsterdam me pareceu uma daquelas cidades cujo melhor cartão de visitas é o seu lifestyle, nem sei se a palavra correta é essa, falo de um certo desprendimento que as pessoas tem aqui, aquela atmosfera mais livre, sempre abertos a novidades, a aceitar o diferente. Bom, pra terminar essas impressões iniciais não poderia deixar de citar o Vondelpark que é lindo, com seu caminho das rosas e os seus salgueiros que parecem ter saído de uma pintura de Monet. Acho um passeio obrigatório, assim como o Van Gogh Museum, mas sobre ele eu posto numa outra oportunidade. E para quem estava cheio de curiosidade como eu, vale a pena ir tambem ao pitoresco Red Light District, mas nada de fotografar as prostitutas nas cabines. Então é isso, pessoal. Vou ficando por aqui cheio de saudades. Espero que vocês curtam as imagens, vou tentar registrar o máximo possível da viagem. Abração!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

GOODBYE, AMY

Queria evitar o lugar-comum do pedido de desculpas pela demora em postar no blog, mas não tem jeito, estou passando por um momento cheio de altos e baixos e vir simplesmente escrever não é muito a minha cara, sem contar que na última semana houve um casamento na minha família e só isso foi suficiente para me fazer desligar do mundo, por conta de pequenas tarefas que me vi obrigado a assumir. Mas, por favor, aceitem as minhas sinceras desculpas, de novo. Em breve, devo estar em viagem e prometo escrever de lá contando as novidades. Como não consegui postar nada no momento da morte da cantora Amy Winehouse, o faço agora, mas não como uma forma de tributo, apenas como uma homenagem simples, um registro da perda de um grande talento e também procurando refletir sobre algumas coisas que me chamaram atenção, a partir da sua morte.

Soube da notícia pelo meu amigo Tiago Cardoso, enquanto recebia visitas em minha casa. Claro que a minha primeira reação foi: “Não é novidade nenhuma, ela já estava ‘planejando’ fazer isso, há muito tempo”. Depois fui tomado por uma tristeza estranha e até uma sensação de impotência: “Por que não fizemos nada, antes?” – pensei. Me lembrei também de que a Amy era sempre um assunto recorrente em minhas conversas com o ator e diretor de teatro Alexandre Acquiste, no MSN. Ora brincávamos com a sua porralouquice e ora nos lamentávamos por ver seu talento sendo tragado pelo uso abusivo de drogas. Num dos intervalos das filmagens do meu novo curta-metragem, “De Corpo e Arte”, paramos também para falar sobre um daqueles episódios deprimentes no qual a cantora sempre se envolvia – se não me engano, a fatídica e última vaia num show na Sérvia. Chegamos à conclusão de que ela estava num processo de suicídio público e a atriz Maria Dias até brincou que tinha vontade de escrever para ela dizendo: “Amy, olha o talento que você tem, deixa eu ser sua amiga, hoje eu passei o dia inteiro ouvindo o seu CD, deixa eu te ajudar!”. Achei linda a demonstração de carinho da Maria.

Na ânsia de buscar uma resposta para a morte dela, a mídia foi unânime em abordar a sua relação íntima com as drogas e a infeliz coincidência com outras perdas memoráveis, aos 27 anos, nas mesmas circunstâncias. Achei bacana o alerta, mas, particularmente, não acredito que ninguém saia se entupindo de drogas – e no caso da Amy de drogas pesadas – por conta de modismos ou simplesmente para fazer um gênero, para ter a sensação de que se pode ir do céu ao inferno, num piscar de olhos. Ficaram devendo essa resposta, se é que ela realmente existe. E, por outro lado, falando agora como fã, ninguém ouvia as músicas dela por que ela era drogada, mas, sim, porque era uma grande cantora, com uma voz excepcional. A impressão que eu tenho é que essas pessoas, apesar do imenso talento, tem um grande vazio dentro de si e que momentaneamente é preenchido pela vaidade, quando a mídia e os fãs as consideram verdadeiros semideuses. Não podemos esquecer que nós é que as colocamos nessas gaiolas de ouro, porque fomos educados só para o aplauso e não para a queda. Quando Elvis Presley começou a engordar, nos anos 70, por exemplo, minha mãe me disse que as pessoas ficaram chocadas. Sempre questionando a forma física dele e muito raramente sobre seus problemas com álcool e drogas. Tudo bem que a mídia não tinha o alcance que tem hoje.

Não acredito muito nessa história de que a Amy quis morrer para se tornar um mito ou coisa parecida. Quando li, meses antes de sua morte, que ela estava preparando um novo disco e que não aceitava que ele fosse inferior ao seu maior sucesso, Back to Black, pra mim isso já foi um pedido de socorro. Hoje ouvimos tantas coisas ruins, em todos os lugares, que os bons artistas não toleram mais erros, equívocos e a cobrança sobre eles é cada vez maior. Ser artista não é nada fácil, fazer parte desse meio é fascinante e ao mesmo tempo muito cruel. Digo isso por estar apenas começando e sentir na pele inúmeras cobranças, mas isso não vem ao caso. Quem não assistiu ao brilhante “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder, deveria assistir, porque esse filme traduz muito bem o quanto os artistas se tornam prisioneiros de suas próprias glórias. É imperdível! Não quero me estender muito, mas só para terminar, ontem mesmo a psicanalista Eleonora Rosset falou uma coisa muito interessante, na TV, quando perguntada sobre o que a tem chamado atenção ultimamente: “As pessoas estão querendo ser felizes com muita urgência” – ela disse quase que automaticamente. Não deu outra, abri há pouco o meu e-mail e lá estava uma mensagem de um amigo aqui da cidade: “Perdemos a Amy, mas temos agora a Adele, ouça esta música...”. Eu, sinceramente, achei assustador esse desejo de substituição. Será que não está na hora de repensarmos essa voracidade por novas emoções? Não dá pra parar um pouquinho, sem que o mundo nos devore? Por que fama e dinheiro tem que ser mais importante que formas mais simples de realização? Bem, temos muito a refletir, então vou me despedindo com essa notinha de tristeza. Espero que a Amy descanse em paz e que a minha e as futuras gerações não tenham que ver apenas o desabrochar de um grande talento, que elas possam até terem tempo para compreender o seu declínio. Abração!

sábado, 11 de junho de 2011

HOMOFOBIA FORA DE MODA

Lambendo a cria


Estive ontem, em São Paulo, no Parque do Ibirapuera, numa passagem relâmpago e GÉLIDA pela 29ª Casa de Criadores, um evento de moda já tradicional na cidade, cuja missão é descobrir novos talentos pra moda brasileira. Assim que soube que eles estavam promovendo um concurso chamado Homofobia Fora de Moda, a minha amiga e leitora deste humilde blog, Angélica Oliveira, sugeriu que eu participasse. Estava cheio de trabalho por conta do curta-metragem novo, mas, mesmo assim, criei o conceito da minha estampa numa madrugada de sábado para domingo e enviei. O concurso buscava uma imagem ou estampa que fosse símbolo de uma campanha contra a homofobia. Segundo o site do evento, foram 122 inscritos e 30 selecionados para a final. Fiquei entre os 30, mas até o momento não sei quem ganhou, provavelmente não levei porque a minha imagem era uma das mais discretas, mas, mesmo assim, foi bacana ver que algumas pessoas paravam e apontavam a camiseta curtindo a minha ideia, que foi toda inspirada na teoria da evolução das espécies de Darwin. Eles pediram também um texto explicativo sobre a minha inspiração, o qual reproduzo abaixo. Seja lá quem tenha ficado com as primeiras colocações, fica aqui os meus sinceros parabéns. Principalmente as secretarias de cultura do Estado e da cidade São Paulo e ao André Hidalgo da CdC por essa iniciativa bacana.


“Trata-se de uma clara alusão àquela imagem da evolução natural das espécies, de Darwin. Quis mostrar que o gay já nasce gay e vai ser sempre assim e que isso é natural. Se o Homem evoluiu como espécie, precisa também evoluir a sua forma de pensar, de agir, acompanhar as mudanças do seu tempo. Simplificando: a imagem tanto pode ter uma mensagem de autoestima ao dizer aos gays que não se aceitam, “se deixem ser”, como também fazer um protesto, uma provocação saudável aos homofóbicos de plantão, “evoluam o seu pensamento”. Tudo isso de forma leve, com um certo humor e uma pegada pop. Vale lembrar que tanto gays quanto a famosa teoria de Darwin sofrem até hoje resistência de algumas religiões”.


Não é demais dizer que ninguém é obrigado também a concordar comigo. Cada um, cada um. Bem, terminado este pequeno merchan, não posso esquecer de desejar a todos um feliz dia dos namorados, amanhã. E, pra quem ainda está solteiro como eu, a dica é a mesma de sempre, aquela que está no encarte do CD “O Chamado”, da Marina: “acreditar e amar até o fim”. Vou ficando por aqui porque este final de semana vai ser cheio de trabalho. Abração!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

DE VOLTA

Numa pausa das gravações de "De Corpo e Arte"

Faz algum tempo que não consigo postar aqui. Não por falta de vontade, mas por falta de tempo e energia mesmo. Gravando o meu segundo curta-metragem, "De Corpo e Arte", e novamente no estilo “faça você mesmo”, estava impossível parar e organizar algumas ideias. Tantas coisas aconteceram nesse período e eu nem pude dar os meus pitacos costumeiros, mas uma delas, imediatamente, me chamou atenção e eu achei que valia a pena o registro no momento (com um certo atraso, mas tudo bem): a passagem da ensaísta ítalo-americana Camille Paglia pelo Brasil.
A primeira vez que ouvi falar dela foi numa entrevista que a Marília Gabriela fez, se não me engano com a Madonna, onde o assunto deveria ser feminismo. Pesquisando na internet, descobri que ela escreve frequentemente sobre cultura pop e arte em geral e o seu jeito franco e polêmico tanto agrada quanto irrita as pessoas. Há duas semanas, num congresso internacional de jornalismo cultural, em São Paulo, ela metralhou a Lady Gaga, rebaixou a ensaísta Susan Sontag – no que eu discordo –, atacou o puritanismo, brincou com o próprio fato de gostar de pornografia e ter vindo de uma família cristã – assim como Madonna e o fotógrafo Robert Mapplethorpe , se disse apaixonada por música brasileira, fã de Daniela Mercury e Elis Regina, etc... No entanto, o que escolhi pra comentar não tem nada a ver com essa salada verborrágica, mas, sim, uma entrevista que ela concedeu ao jornal Folha de S. Paulo, dias antes de embarcar para o Brasil. Nessa entrevista, ela afirma que a internet empobrece a cultura. De cara, achei o assunto bastante espinhoso e fui correndo conferir o seu ponto de vista.
Selecionei apenas dois trechos, porque a entrevista é longa. “Não estou contente sobre o que está acontecendo no mundo das artes, da literatura. Há uma grande mudança geracional. Jovens estão mergulhados na tecnologia e na internet, se comunicando por mensagens no celular, no Facebook, Twitter, o que tira muita energia criativa das artes tradicionais. / O que acontece é que desde que a web foi globalizada, há um vazio. O tipo de imagens que vêem na tela não têm a mesma qualidade das imagens da história da arte, imagens a óleo”. Levei então o assunto para o set e a discussão se polarizou. Eu mesmo defendi que a internet realmente tem promovido um certo vazio cultural, mas, por outro lado, ela possibilitou o surgimento e a promoção de novos artistas e democratizou o acesso às formas mais variadas de arte. O que vocês acham? Pra mim, tudo depende de uma questão de bom senso mesmo, como tudo na vida, mas é claro que existe, sim, uma mudança negativa no comportamento das pessoas, depois das redes sociais. E nem estou falando só da exposição nossa de cada dia, na rede. A própria Folha de S. Paulo, cujo site sempre acompanho, passou a noticiar também as maiores banalidades do showbizz. Outro dia, por exemplo, me assustou o fato de um trocadilho infame da apresentadora Ana Maria Braga ter virado notícia de destaque. Depois saberia que o assunto tinha sido um dos mais comentados no Twitter.
Nem é preciso dizer que alguns artistas aproveitam também as redes sociais e blogs para criarem polêmicas ridículas. Também, há pouco tempo, o cantor Ed Motta disse meia dúzia de bobagens, no seu Facebook, sobre a falta de beleza do povo brasileiro. Claro que ele tem todo direito de ter aquela opinião deselegante, mas será mesmo que ele não imaginava que aquilo iria virar notícia? Que teria aquela repercussão? Bem, exemplos assim não faltam. O pior é que, por mais que você tente se desviar desses assuntos, eles sempre acabam tropeçando em você. Fiquei bem irritado e reduzi as minhas entradas no Twitter, no Facebook, comecei a flertar com Tumblr e parei... Sempre serei um entusiasta da internet, mas, neste momento, estou apenas “apreciando com moderação”, o que não quer dizer também que ficarei longe daqui. Estou voltando aos poucos. Em breve, postarei as novidades do novo curta. Acho que vocês vão gostar! Por enquanto, tentem me aceitar de volta rs. Abração!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

CARETICE À BRASILEIRA

"O Brasil é um país de jecas" - Odete Roitman

Ontem li no blog do escritor e autor de novelas Aguinaldo Silva que um cigarrinho de maconha do personagem César, da novela Vale Tudo (1988), reprisada com sucesso pelo canal pago Viva, causou um tremendo mal-estar, no último final de semana. Parece mentira, né? Um baseado ainda consegue chocar as pessoas. Eu me choco com outras coisas, com essa violência desenfreada outro dia mesmo um estudante de Letras foi morto brutalmente na frente de casa, praticamente nos braços do pai –, com o corte de R$ 50 bilhões na Educação, com aquela frase racista e homofóbica do deputado Jair Bolsonaro dirigida à cantora Preta Gil, em rede nacional, etc. Talvez essas pessoas desocupadas estejam pensando que o beck de hoje é o crack de amanhã. Tenha a santa paciência! E isso nem é uma defesa em causa própria, muito menos a minha intenção é polemizar, o foco aqui é outro, é a maré de caretice que chegou ao Brasil vinda sabe-se lá de onde (talvez do Irã), a mesma que tem cerceado a criatividade de uma série de autores de TV que sempre admirei.


Tenho insistido que essa classificação indicativa do governo, uma espécie de censura disfarçada, tem tornado a TV brasileira um grande tédio – punição por aqueles excessos malditos dos anos 90: sushi erótico, Latininho, Programa do Ratinho, concurso da boquinha da garrafa, etc. Basta dar uma zapeada no controle remoto para percebermos o quanto os autores estão engessados. Luta, até o momento, inglória. Por isso as apimentadas séries americanas estão ganhando cada vez mais espaço por aqui. Com alguma criatividade, mas enredo lento, Gilberto Braga e Ricardo Linhares tem demonstrado certa ousadia no texto de Insensato Coração, mas nem todos podem comprar essa briga. Por curiosidade, fui ao You Tube e assisti a vários vídeos de Vale Tudo e percebi como o texto é delicioso, crítico, a melhor novela de todos os tempos, sem dúvida, mas um remake hoje não faria o mesmo sucesso. Pelo menos, a megera Odete Roitman jamais poderia dizer aquelas barbaridades sobre o Brasil e os brasileiros, sem que a Globo fosse bombardeada de reclamações. Como humilde escriba que sou, fiquei imaginando como escreveria um personagem racista para a TV, sem que ele pudesse se expressar como tal. Desisti no esboço. Haja criatividade!


E o pior é que existe até uma falta de critério pra essa caretice toda, coisas muito bobas ganham dimensões extraordinárias. Sem fazer muito esforço, me lembrei agora de que a capa de um DVD da Marisa Monte, por exemplo, provocou reboliço entre os xiitas de plantão porque, segundo eles, sugeria “sexo oral” – um verdadeiro absurdo! Não faz muito tempo também que o diretor de teatro Gerald Thomas foi até parar na primeira página do The New York Times porque mostrou o traseiro à meia dúzia de gatos pingados que detestaram uma de suas peças (ele foi até processado por isso). Saiu na imprensa, em fevereiro, que a série Aline, que eu achava bem interessante, na sua segunda temporada, teria sido suspensa pela Globo, faltando ainda 4 episódios, porque numa das cenas havia a sugestão de um ménage à trois. (Ué, e a minissérie “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1998) era o quê então?). Muito recentemente, o jovem cartunista João Montanaro, do jornal Folha de S. Paulo, fez uma charge que ilustrava uma onda gigante sobre o Japão (Não vi nada de ofensivo e nem grotesco. Mesmo!), um dia depois da tragédia que se abateu sobre aquele país, mas a própria classe saiu lhe atirando pedra. Uma expressão que eu achava deliciosa, samba do crioulo doido, foi banida da nossa língua, tornou-se politicamente incorreta e passível até de cadeia. Bem, exemplos não faltam. E eu nem falei do famigerado “beijo gay”. É por essas e outras que, no último Rock in Rio (2001), o baixista do Queens of the Stone Age, decidiu se apresentar pelado e se espantou quando foi retirado do palco pela polícia. “Mas aqui as pessoas não ficam assim, no carnaval” – teria se defendido. O que responder para o rapaz? Que existe pecado, SIM, do lado de baixo do Equador?


O assunto é confuso mesmo, envolve questões culturais, políticas, econômicas, sociais e até geográficas. Uma vez assisti a uma entrevista de um desses comediantes de stand up onde ele afirmava que nos Estados Unidos é diferente, existe lá uma liberdade maior para contar piadas, enquanto aqui há uma certa resistência a determinados assuntos e que por isso ele precisava evitá-los. Não sei se vocês também tem percebido isso, mas achei que seria um assunto interessante para reflexão. E que fique claro também que as pessoas tem todo o direito de serem “caretas”, eu as respeito, até a escritora Marina Colasanti, de quem gosto muito, escreveu uma vez: “Tem gente por aí dizendo que caretice é ruim. Mentira, lá em casa somos todos caretas, e achando ótimo”. Tá certo, Marina, mas isso foi lá nos anos 70!

terça-feira, 29 de março de 2011

CINEMA DE GARAGEM

Ainda bem que bom humor tínhamos de sobra
A estampa do figurino é de... gominhos de tangerina. Luxo!
Passando o texto com os atores
O visual kitsch da casa de Alzira e Orlando
Por aqui eu acompanhava as filmagens
Tony Valentte como "Sérgio Afonso" e Fá Ferreira como "Maria Helena" Final das filmagens, Carlos Tousi, Juh Ferraz, eu e lá atrás, tentando se esconder, Tiago Cardoso


Vocês certamente já ouviram aquela famosa frase do Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Durante muito tempo, ela serviu para romantizar a aventura de se fazer cinema com baixíssimo orçamento e ideal revolucionário. Muito tempo depois, com o surgimento de novas tecnologias e o acesso mais rápido e fácil a elas, o dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira criou um novo termo, “B.O.A.A.”, que se refere aos filmes de “baixo orçamento, mas feitos com alto astral”. Só mesmo o sábio Domingos para ter uma sacada dessas! Vejam bem, filmes que contenham, pelo menos, intenções cinematográficas, não confundir com os vídeos da Sthefany Absoluta e companhia. Aonde eu quero chegar? É que eu e meu amigo e videomaker Tiago Cardoso acabamos de fazer um filme no melhor estilo “B.O.A.A”. Ainda não podemos mostrá-lo aqui, porque está em fase de finalização, mas, mesmo assim, quis dividir com vocês o que aprendi com essa ótima experiência. Em breve, colocaremos o nosso rebento na rede “para que conhecidos e desconhecidos se deliciem” ou “para chatear os imbecis”, vai saber, como diz aquela saborosa canção “Por que você faz cinema?”, da Adriana Calcanhotto e do Joaquim Pedro de Andrade. Por enquanto, só podemos divulgar o que aconteceu nos bastidores.


Assim que recebi o e-mail do Tiago, falando de um festival para curtas de até três minutos – com o prazo para inscrição estourando –, abri o meu editor de texto e escrevi o roteiro de um fôlego só. Não foi nenhum sacrifício. Três minutos na tela exigem no máximo duas páginas de roteiro. Já tinha mais ou menos a ideia na cabeça, bastou apenas dar uma ajustada. Também não imaginava que ele fosse gostar do que escrevi, um kitsch movie com pitadas de humor negro, cheio de referências retrô, nada parecido com o seu estilo bem comportado. Mas ele não só curtiu a ideia como também, durante a montagem do filme, até se emocionou. Beijo de Novela então foi surgindo. A história é bem simples, mas depois foi ganhando nuances bem interessantes e divertidas. Alzira é uma jovem do morro do Reco-Reco, que nunca beijou na boca porque seus dentes são cheios de cáries e ela odeia dentista. Como o bicheiro Orlando tinha uma dívida com o pai dela, ele aceitou desposar a moça, mas com a condição de nunca beijá-la. Ultrajada, Alzira tenta realizar o seu grande sonho, ganhar dele um beijo daqueles de novela, afinal ela é fã ardorosa do gênero. Bem, é tudo que eu posso falar, sem estragar o final. Já agradeço aqui publicamente a Juh Ferraz e ao Carlos Tousi que souberam dar vida a esses dois personagens com muita competência e também ao Tony Valente e a Fá Ferreira que fizeram uma participação especial bem divertida.


Feitos os ajustes no roteiro, partimos para a produção. Aqui começa realmente o nosso trabalho, porque um filme “B.O.A.A.” é realizado basicamente sob a filosofia do “faça você mesmo”. Tinha como referência aqueles filmes pré-históricos do Almodóvar como Labirintos de Paixões (1982), então saí para garimpar um figurino bem retrô e colorido, pensei também num cenário que seguisse essa mesma linha, um barraco de favela, mas que fosse bem charmoso, que tivesse personalidade. Não foi difícil encontrar os móveis e objetos, pior mesmo foi carregar parte do cenário na chuva. Tudo pela arte, claro. Nessa hora tem que ter muito bom humor, caso contrário, você joga tudo no lixo e volta pra casa, para se enterrar nas cobertas e assistir a seus DVDs favoritos. Sobre o cenário é importante ressaltar que não dava simplesmente para chegar à casa do Tiago e dizer que pintaríamos a parede da sua garagem (o nosso modesto estúdio) de vermelho. As coisas não funcionam assim, temos que adequar a nossa fantasia à realidade disponível. Aliás, existe um abismo gigantesco entre o que planejamos e o que conseguimos fazer, mas é preciso não desanimar. Tem que colocar um sorriso no rosto e seguir. Mas até que o resultado estético ficou bastante crível. O problema é que o cenário teve que ser montado duas vezes, o que exigiu uma dose extra de paciência. Uma para testes de luz e câmera e outra para a filmagem mesmo. Dois dias de produção e ainda estava achando tudo muito divertido. A descoberta do chroma key (o fundo verde que na edição ganha o cenário que quisermos), por exemplo, foi o máximo! Bem, até minutos antes das filmagens, quando metros e metros de tecido verde despencaram do teto e eu tive que fixá-los novamente, às pressas, fingindo estar tudo sob controle.


Quando o dia da filmagem chegou, as palavras que mais se ouviam no set eram: “Estou exausto!”. Ditas por mim, claro, que fazia o meu début por trás das câmeras. Dez minutos de atraso dos atores e eu já entrava em pânico. No nosso cronograma, as filmagens deveriam começar às nove da noite e ir até a uma da manhã, no máximo! Por conta de alguns contratempos (e eles sempre existem), chegamos até as três. Não sei se vocês sabem, mas cada cena tem que ser filmada várias vezes, de vários ângulos diferentes, e só na pós-produção é que são montadas em seqüência. Então é como se o mesmo filme fosse feito quatro ou cinco vezes, por isso os atores tem que ter muita concentração, paciência e não deixar a emoção cair um só minuto. Enquanto o Tiago operava a câmera, eu me dividia entre orientá-lo quanto ao enquadramento e a fotografia e a direção dos atores, afinal praticamente não houve ensaio. Entra aqui uma personagem digna de uma comédia do Mauro Rasi, a minha mãe. Se você quer enlouquecer um diretor de cinema, basta despachar a mãe dele para o set. A minha foi assistir às filmagens espontâneamente, mas, por não entender nada do processo, achava que eu exigia demais dos atores e mãe é mãe, né?, elas sempre acham que basta qualquer coisa ser feita pelos filhos que está tudo ótimo. Não é bem assim. De longe, eu ouvia os seus murmúrios e isso muitas vezes me deixava tenso, nervoso.


Já ia até esquecendo, o festival não permite uso de imagens e nem trilha sonora sem autorização, então tivemos que buscar algumas soluções que nem sempre são ideais. Nada de foto do Tarcísio Meira ou do Tony Ramos, por exemplo. Reclamei muito, mas no final deu tudo certo. A pós-produção é muito cansativa também, exige muita dedicação, muita paciência, mérito exclusivo do Tiago. Nessa parte, eu dava apenas alguns palpites. Mas, depois que tudo passa, ficamos com aquela sensação de que poderíamos ter feito melhor, mesmo sabendo de todas as nossas limitações, mas também o quanto foi prazeroso, o quanto aquele convívio foi agradável, o quanto é bom ver algo que nós imaginamos ganhar vida. E a melhor definição para esse estilo de cinema, se é que podemos chamar assim, veio do próprio ator do filme. Lá pelas tantas, o Carlos Tousi me confortou: Não tem problema nenhum, se precisar a gente fica até de manhã, é assim mesmo, só não pode faltar amor. Bonito, né? Enfim, queria muito dividir esse momento bacana com vocês.

segunda-feira, 21 de março de 2011

OBAMA NO BRASIL

outdoor de boas-vindas produzido pelo Instituto Maria Preta

Estão na ordem do dia: a visita de Barack Obama ao Brasil e o discurso-show que ele fez no Theatro Municipal, ontem, no Rio. O tom desse discurso foi além do meramente diplomático, com elogios rasgados ao Brasil, sobretudo à nossa democracia, "O Brasil é um país que mostra que uma ditadura pode se tornar uma florescente democracia", com direito à citação de “País Tropical”, de Jorge Benjor, e até menção ao mago das letras Paulo Coelho. Ninguém deve ter falado a ele sobre Machado de Assis, um escritor negro, favelado, e que se tornou o maior símbolo de nossa literatura. Uma pena. Bem, mas nem tudo é perfeito. Aliás, inusitado mesmo foi a presença do pequeno Joaquim, filho dos apresentadores Luciano Huck e Angélica, no Theatro Municipal. De repente, quiseram dar ao evento uma cara de programa familiar. Vai saber, né?

Não consegui assistir ao discurso em tempo real, por isso tive que me contentar com um compacto na TV, mas o que deu pra notar é que sempre seremos tratados, lá fora, como um povo “exótico” e, o que é pior, nós é que incentivamos essa visão pobre de nós mesmos. Convenhamos, não precisava aquele excesso de rapapés e clichês, né?Futebol, feijoada, favela, samba, capoeira, etc. A passagem dele por Brasília, com uma repercussão bem menor, me pareceu mais sensata, com programas menos óbvios. Destaque para a sua visita à exposição "Mulheres Artistas e Brasileiras". A grande verdade é que ainda não encontramos o meio termo entre nos orgulharmos do que somos, da nossa diversidade cultural e como vendermos isso ao mundo. Ou será que isso não influencia nada na maneira que nos impomos às grandes potências?

Não pensem que fui contra a visita do pop Obama ao Brasil, não é nada disso, só esperava que não houvesse tanto exagero. Por outro lado, não me lembro de outro presidente estrangeiro que tenha feito um discurso tão afetivo sobre o Brasil. Obama deve até ter estudado um pouco da nossa história, citou D. Pedro II e Santos Dummont, enalteceu o papel do povo brasileiro contra a Ditadura, falou sobre o passado da presidente Dilma e até o achei com alguma veleidade literária ao romantizar sobre o ex-presidente Lula, "um menino pobre de Pernambuco ascender do chão de uma fábrica de cobre ao mais alto cargo do Brasil". Por falar nisso, dizem que Lula só não o encontrou por pura birra, ciuminho mesmo. Mas não dá pra esquecer que a Líbia está um verdadeiro caos e os norte-americanos esperam de Obama uma posição mais firme, assunto que ele tratou muito superficialmente por aqui. Então é esperar pra ver se essa visitinha meio turística, meio diplomática vai ajudar alguma coisa na sua popularidade. Espero que sim, afinal ele não é “o cara”?

segunda-feira, 14 de março de 2011

BRUNA SURFISTINHA - O FILME

“Gosto das prostitutas. Não há nelas nenhum fingimento. Elas se lavam diante de nós” – quem disse isso foi o excelente escritor Henry Miller, naquela sua obra-prima Trópico de Câncer. Escolhi essa frase justamente porque assisti, num dia desses, ao filme “Bruna Surfistinha”, de Marcus Baldini. Ainda deve estar em cartaz. De cara, já percebi que o filme não seria um sucesso estrondoso quanto se cogitou – mesmo com o furacão Deborah Secco, no seu melhor papel. O tiro no pé foi, sem dúvida, o grande elogio à prostituição, a inegável mensagem do filme. Se não fosse o Brasil este país tão contraditório, que tem uma festa popular como o Carnaval, mas que segue a cartilha das igrejas, talvez fizesse mais barulho.

Pra ser bem sincero, quando Raquel Pacheco, cujo nome de guerra era Bruna Surfistinha, começou a dar entrevistas aqui e ali promovendo o então livro no qual o filme se baseia, achei um grande oportunismo e a coloquei no mesmo balaio das subcelebridades de reality shows. Muito menos esperava que a história dela fosse parar nos cinemas. Talvez porque uma prostituta icônica como Eny, de Bauru, cuja biografia escrita pelo querido Lucius de Mello, com fôlego para TV e Cinema, nunca chegou a tanto. Tudo bem, vai ver esse tipo de prostituição, com mais glamour, tenha perdido o seu espaço. Mas também quem esperava uma versão brasileira de “Uma Linda Mulher” pode esquecer, o filme não tem nada de romântico. Nada mesmo.

Como já foi amplamente divulgado, Bruna Surfistinha é sobre a vida da ex-garota de programa Raquel Pacheco que, depois de estudar em colégios tradicionais de classe média, de São Paulo, decide abandonar o lar para ganhar a vida se prostituindo. E ela gosta do que faz. Detalhe importante. Acrescenta-se aí o drama de sua relação íntima com as drogas, algumas humilhações já previsíveis, cenas abundantes de sexo. Aliás, bem coreografadas. Bem, só isso mesmo. Dito assim, parece pouco atraente, uma história banal para os dias atuais, mas o filme é muito bem realizado, com interpretações oscilantes, porém, a escolha de Deborah Secco como protagonista foi muito feliz, a interpretação dela é bastante convincente, claro que poderia ter rendido mais. A única coisa que me incomodou nela foi o fato de estar muito magrinha. Geralmente garotas de programa são mais corpulentas. Nos momentos finais, Deborah nos remete à Angelina Jolie em Gia – Fama e Destruição. Assistam e comparem. Sem contar que, pela primeira vez, um filme nacional acerta o tom dos diálogos. E sendo ela uma atriz marcada por papéis na TV, inclusive um em que teve que mudar o tom de sua voz porque estava sussurrante demais, acho que o seu casamento com o cinema tem tudo pra dar certo.

Outro destaque do filme é a personagem Larissa, interpretada pela ótima Drica Moraes, uma cafetina que dá a primeira oportunidade de trabalho a Bruna Surfistinha. Parece que a crítica especializada não gostou muito, achei uma injustiça porque a interpretação dela é inteligente, sutil, o gestual na medida certa. A trilha sonora também é bem interessante, passeia por vários gêneros, mas é “Fake Plastic Trees”, do Radiohead, que deve ficar na cabeça dos espectadores. A música melancólica embala as agruras da protagonista. Fotografia sem muito impacto, poderia ter sido mais caprichada. Direção de arte em alguns momentos bem equivocada. O cenário onde Bruna Surfistinha tira as fotos para o seu blog, por exemplo, é de muito mau gosto. Vejam a foto. Mais trash impossível. Bom, vai ver a própria escolheu algo assim.

Poucos espectadores foram ou serão atraídos para o filme com a esperança de ver algo mais sensível, reflexivo, isso é fato, mas, se alguém quiser assistir a um filme sobre o mesmo tema, com um enfoque bem diferente, vale a pena conferir Princesas (2005), de Fernando León de Aranoa, excelente relato sobre a amizade de duas prostitutas, em Madri. E ainda tem a trilha bem sacada do Manu Chao. Mesmo que seja apenas para comparar as duas realidades. Agora o que fiquei com vontade mesmo foi de ver a Deborah Secco em papéis mais dramáticos, no cinema. Não tenho dúvida de que esse filme pode ser considerado um divisor de águas na sua carreira.

segunda-feira, 7 de março de 2011

QUE CARNAVAL É E$$E?



Já no finalzinho do ótimo documentário “Cartola” (2006), de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, sobre o melancólico compositor e cantor mangueirense, Cartola se diz um tanto cansado do carnaval e se retira do morro da Mangueira. Era o ano de 1978, ele morreria dois anos depois. Como alguém que fundou, em 1928, uma escola de samba como a Mangueira poderia se cansar do carnaval? E aqueles velhinhos animados da velha guarda que, geralmente, encerram os desfiles? Só fui entender a sua decisão hoje. Provavelmente ele estaria se poupando de ver a descaracterização radical de algo que ajudou a inventar. No seu lugar, talvez eu fizesse a mesma coisa. Fiquei observando tudo que aconteceu, antes e durante os primeiros dias de folia, e não vi grandes motivos para comemorar.


Na ânsia de atrair mais e mais consumidores de abadás, os principais cantores de Axé, meses antes do carnaval, tratam de seduzir turistas e fãs divulgando suas atrações, que, cá entre nós, salve raríssimas exceções, não tem nada de novidade. Ivete Sangalo cantando com... Luan Santana. Claudia Leitte dando selinho em... Hebe Camargo. Olodum com... Restart. Ai que preguiça. Aliás, nunca entendi porque os abadás desses blocos custam uma pequena fortuna e as pessoas ainda tem que carregar nas costas, no peito ou seja lá onde for tanta propaganda. No caso das celebridades que são contratadas para bombar os camarotes é puro business. Vão lá, dão “pinta”, dizem que a cerveja é ótima, tiram fotos para revistas, falam com o Amaury Junior e depois saem em carros blindados, tudo por conta da cervejaria. Sei também que os custos são altíssimos para fazer um camarote desses na Sapucaí e essa prática de pagar celebridades, para criar a falsa sensação de que um carnaval é mais prestigiado do que outro, não é de hoje, mas fica aqui o alerta, precisa trazer uma atriz em fim de carreira como a Pamela Anderson? A imagem fala por si. Achei uma escolha muito infeliz.


Outra coisa, o que a Sandy tem a ver com cerveja e carnaval? A pergunta é mais do que óbvia, mas como não fazê-la a essa altura? Só mesmo um idiota ou estando muito cheio da tal cerveja para acreditar no lado “devasso” da moça. Não vi o comercial e nem quero ver. Páginas e páginas na rede usando o trocadilho infame para gerar notícia e fazer o nome da bebida se popularizar. Marqueteiros rindo à toa, mais uma vez. A cantora, um milhão mais rica, mais ainda. E o famoso cantor baiano que, depois de 30 anos usando barba, “sucumbiu” a uma oferta milionária de uma empresa de lâminas de barbear e voltou a ter o rosto lisinho lisinho? Mudaram mesmo as estratégias de marketing carnavalescas. Modelo sem calcinha ao lado de presidente da república é coisa do passado. Bem, agora só se for por dinheiro.


As TVs que transmitem a festa, todas, sem exceção, venderam suas cotas de patrocínio. Prometeram transmissão em HD, horas de programação ao vivo, mas o que se vê é bem decepcionante. Prejuízo mesmo só para o telespectador fã de carnaval. Na Globo, por exemplo, Luis Roberto e Glenda Koslowski não se entendem, não empolgam, não transmitem certas informações para que se compreenda os enredos, erram nomes e cores das escolas, ele a deixa falando sozinha várias vezes, quando Chico Pinheiro, Ana Paula Araújo e Maria Beltrão, com talento superior pro posto, são mal aproveitados. As piadas sem graça de Hélio de la Peña só confirmam porque o Casseta e Planeta acabou. Comentários técnicos não existem. A internet, por sua vez, tem dado um banho de informação, com mais criatividade e diversidade de opinião. Em uma recente entrevista ao Roda Viva da TV Cultura, Boni, ex-todo poderoso da Globo, questionado por Marília Gabriela sobre as sofríveis transmissões das escolas de samba, alegou com a franqueza que lhe é peculiar que o espetáculo só funciona mesmo na Sapucaí, na TV fica longo e chato. E tem toda razão. Tá mais do que na hora de se rever isso. Os organizadores do carnaval de Recife, cujo Galo da Madrugada está perdendo o posto para o bloco carioca Bola Preta, precisam parar também com esse discurso bobo de “carnaval cultural” ou “o mais democrático de todos”. É uma tremenda bobagem rivalizar com Salvador e Rio, nesse sentido. Todas tem atrações pagas e também de graça, para a população. Fica ao gosto do freguês. O fato é que o frevo não pegou no resto do Brasil, mas isso não quer dizer também que seja um ritmo ruim ou que mereça status de “cult”. Não serve de consolo, mas a grande verdade é que esse formato de transmissão, carnaval de rua, interessa muito pouco ao telespectador, porque visualmente não agrada. Salvador talvez se destaque porque os baianos inventam sempre uma dancinha, coloca sexo em tudo, tem aqueles cantores rebolativos, enfim, por isso o carnaval de lá consegue ainda gerar algum interesse.


A TV Bandeirantes e o SBT, por exemplo, optaram por Salvador, prometiam até se digladiarem, ambas com o mesmo nome “Folia”, disputando as mesmas fatias do mercado publicitário e telespectadores, mas nada se confirmou. O áudio péssimo, captado fora dos trios, resulta numa grande confusão sonora, muito improviso das estrelas baianas, entrevistas previsíveis em camarotes e piadas sem graça de pseudo-humoristas. Já ouvi todo tipo de barbaridade, até esta pérola do Paulinho Gogó (?): “Eu é que vou tirar essa roupa, está um calor ensurdecedor”. O título de melhor transmissão de um carnaval de rua ainda é da TV Manchete, a pioneira, sob o comando de Jayme Monjardim, no auge da chamada Axé Music, começo dos anos 90, com narração de Paulo Stein e participações de Rosana Hermman, Tânia Rodrigues e Clodovil. Os programas da casa foram transmitidos da capital baiana, num tempo em que não havia ainda essa overdose de alegria forçada e muito menos essa disputa entre as cantoras, fato que só empobreceu a festa. Todos cantavam as músicas de todo mundo e o folião ficava satisfeito, tinha mais espaço pra dançar também, os camarotes baianos não eram tão concorridos. Nesse ano a Veja trouxe na capa: “A Bahia Ganhou”. Nem é preciso dizer que de lá pra cá ficou tudo, assim, tão diferente. Para o bem e para o mal. Enfim, essas são as minhas impressões da folia, até o momento. Vou agora vestir a minha camisa listrada e sair por aí. Até depois da quarta-feira de cinzas!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

LÁGRIMAS DE DIAMANTE


Sei que os holofotes ainda estão sobre a tediosa cerimônia do Oscar, que aconteceu ontem, mas, embora tenha assistido e torcido para algumas produções, escolhi para comentar aqui um filme que não teve a menor repercussão entre nós, mas que também não precisava ser tãããão ignorado assim. Refiro-me a The Loss of a Teardrop Diamond, rebatizado no Brasil com o título novelesco de Tesouro Perdido e dirigido pela atriz Jodie Markell (?), numa empreitada independente orçada em módicos US$ 6,5 milhões, sobre um texto até então inédito do brilhante dramaturgo norte-americano Tennessee Williams.

O que me chamou atenção foi, sem dúvida, o texto de Tennessee Williams, que é um dos meus dramaturgos favoritos, e curiosamente está creditado no filme como autor do roteiro, embora todos saibamos que ele já morreu faz um bom tempo. Veja bem, não é “baseado na obra de” é “escrito por”. No Google, não achei nada sobre. Tampouco acredito se tratar de um roteiro psicografado. Bem, marketing ou não, o fato é que só o texto salva esse filme e, graças a isso, o dramaturgo não precisa se envergonhar dele (seja lá onde ele esteja).

A trama gira em torno da voluntariosa Fisher Willow (Bryce Dallas Howard), que não consegue se adaptar ao estilo simples de Memphis, uma cidade do sudoeste americano, para onde regressa depois de uma temporada na Europa, na segunda metade dos anos 20. Cansada do tédio do lugar e da mentalidade tacanha dos seus moradores, ela não se furta em chocá-los, mas sempre amparada pela sua privilegiada condição social. Porém, para não ter a sua fortuna ameaçada, precisa encontrar um pretendente à sua altura, condição imposta pela tia-avó Cornélia (Ann-Margret), que administra o patrimônio da família. Fischer então recruta o humilde e sexy Jimmy Dobyne (Chris Evans), um funcionário do seu pai, para que finja ser esse homem. Bem, desnecessário dizer que ela se apaixona por ele, mas a perda de um dos seus brincos, uma lágrima de diamante, pode mudar tudo.

Acho perfeita essa metáfora dos brincos, pois concentra na imagem tudo o que é a história, o drama de uma garota rica que quer encontrar um amor verdadeiro. Os diálogos são pontuados por aquelas máximas tão comuns à obra de Tennessee Williams e cabem direitinho na boca dos atores, sem parecer exageradamente teatrais, mas seriam melhor apreciadas, se fossem ditas por atores mais talentosos. Algumas atuações são bem desastrosas, inseguras, sofríveis até, mas, como já disse, vale a pena esperar pelo final, pelo menos para saber como tudo se desenrola. E também porque a história traz alguns temas recorrentes na obra do autor: loucura, alcoolismo, o papel opressor das convenções sociais, etc. Sobre isso o dramaturgo costumava se defender dizendo que o escritor, ao longo da carreira, exprime os mesmos temas por uma necessidade de compreensão.

A fotografia também não empolga tanto, salvo uma ou outra externa das margens do Mississipi. Já a direção de arte se destaca, bem como os figurinos. A dica é: quem aprecia um bom texto, repleto de sutilezas, com diálogos inteligentes ou quem gosta de escrever não pode deixar de assisti-lo. Já quem prefere interpretações mais cativantes, com atores mais experientes, figurões de Hollywood, melhor então passar longe. Enfim, sem a mesma força arrebatadora de “Um Bonde Chamado Desejo”, The Loss of a Teardrop Diamond confirma apenas o poder de encantar com inteligência do texto de Tennessee Williams, mas isso apenas não basta. Alguém poderia ter dito a Jodie Markell.