domingo, 1 de abril de 2012

INSACIAVEL



Assisti na semana passada ao tao comentando Shame, de Steve McQueen, e esperava ser apenas mais um filme com nudez explicita e so por isso faria um certo barulhinho. Ainda bem que quebrei a cara. Tudo que se tem falado ou escrito sobre ele e absolutamente procedente. Fiz uma busca na minha memoria cinematografica, por exemplo, que nao chega a ser tao prodigiosa em termos de numeros, mas bastante seletiva, e nao me lembro de ter assistido a nada mais perturbador e interessante. Pelo menos nao na ultima decada. Fa assumido de classicos como 9 Semanas e Meia de Amor, Ata-me e Intinto Selvagem, nao tenho o menor pudor em colocar Shame entre essas perolas do cinema mais… apimentado. O filme e basicamente sobre o desejo sexual compulsivo. Um viciado em sexo. Assim mesmo, sem rodeios. O diferencial esta na sua abordagem: realista no sentido de expressar o que realmente acontece nos  dias de hoje (a facilidade de se fazer muito sexo, aliada a  uma certa angustia), mas com um olhar absolutamente melancolico, nada comum para filmes dessa natureza.
Faz algum tempo que postei aqui no Blog um conto chamado Aquele e o Outro, onde abordei esse mesmo assunto, por estar  incomodado com esse comportamento, mais ou menos recente, das pessoas “dissolverem trizteza em sexo”, em tentativas quase sempre frustradas de realizacao pessoal e apenas momentaneas. Para minha surpresa, Steve McQueen (que tambem e artista plastico) ja estava de olho no tema. Na revista Dazed and Confused, de fevereiro, ele disse que so fez o filme porque o “assunto pedia”. Nao da mesmo para ignorar essa oferta absurda de prazer a que estamos expostos, todos os dias. A propria internet e responsavel por tornar a vida sexual das pessoas bem mais agitada, mas isso tambem traz la as suas consequencias – o que o filme mostra, sem julgar ninguem. O roteiro e bem intimista, com pouquissimos personagens, a narrativa e das mais lentas, assim como A Single Man, de Tom Ford, mas nem por isso e chata ou se leva a serio demais. Com o perdao do trocadilho,  e um filme sem vergonha, mas na medida certa.
Vamos ao que interessa. Brandon Sullivan, interpretado brilhantemente por Michael Fassbender (melhor ator no Festival de Veneza), e um novaiorquino viciado em sexo e que leva ao pe da letra aquela maxima do Nelson Rodrigues: “O homem comeca a morrer na sua primeira experiencia sexual”. Sim, o cara se masturba varias vezes ao dia, fica grudado em sites eroticos, tem em casa um arsenal pornografico de respeito, prostitutas frequentam o seu apartamento como se fossem amigas de infancia, faz pegacao no metro, na rua, no trabalho e ate vai parar numa boite gay, com direito a receber sexo oral e tudo… Ou seja, vive e transpira sexo, mas felicidade que e bom, nada. Para piorar, recebe em casa a  visita de uma irma bem moderninha e espivitada, que insiste em lhe fazer alguns inocentes agrados carinhosos, fato que o deixa  completamente perturbado. Relacao incestuosa? Bom, tem que assistir pra saber.
Homens viciados em sexo costumam ser tratados pela sociedade como verdadeiros garanhoes e isso vai alimentando o ego deles ao ponto de mal se darem conta de que aquilo realmente e um problema, um vicio como outro qualquer. Lembro muito bem que, quando saiu a noticia de que o ator Michael Douglas estava internado numa clinica em tratamento contra a dependencia de sexo, muitos amigos meus estranharam e ate fizeram aquelas piadas machistas de mau gosto. O filme propoe exatamente essa reflexao, alias, bastante oportuna nesses tempos de Grindr (ja apontado como a nova revolucao sexual) e tantos e tantos outros aplicativos e sites de paquera e sexo, que seduzem cada vez mais pessoas mundo afora. Nao sei exatamente como funciona no Brasil, mas aqui na Europa, por exemplo, e impossivel se falar em relacionamento ou sexo, sem usar a internet. Ja testemunhei, varias e varias vezes, pessoas em bares marcando encontros pela internet, quando poderiam partir para o cara a cara ali mesmo. Questoes que podemos levar pra cama, antes de dormir: essas relacoes servem pra que afinal? Proporcionar apenas prazer? E o afeto onde fica nessa historia toda? Nao fica?
Nao vou me alongar. Gostei muito da fotografia tambem, em tons mais sobrios e com uma luz bem direcionada (prestem atencao na primeira cena, como a luz ajuda a nao expor tanto a nudez do protagonista). E como sou particularmente louco por paisagens urbanas, nao posso deixar de exaltar tambem as cenas externas, muito bem feitas e sacadas. A sequencia do metro tambem e uma das minhas preferidas e as cenas de sexo, embora nao sejam escandalosamente apimentadas, sao bem coreografadas e bonitas. A trilha sonora e uma delicinha. Figurinos muito elegantes. Confiram mesmo. Mas nao facam como alguns blogueiros gays que assistiram apenas para ver o… a genitalia desnuda de Michael Fassbender. O filme tem outros atrativos, e muito mais que um simples detalhe. Bom, nao chega a ser tao simples assim, mas...


Postado por Luis Fabiano Teixeira COMENTARIOS

4 comentários:

Angélica Oliveira disse...

Eu estou morrendo de vontade de assistir a esse filme!
Li várias resenhas ótimas, vi muita gente indignada pelo fato desse filme ter sido esquecido pelos Oscar desse ano, e agora ao ler teu post, minha vontade aumentou consideravelmente.
Tb gosto bastante dessa temática, gosto muito de filmes viscerais/realistas, como por exemplo o "Lua de Fel" de Roman Polanski (nao sei se você assistiu, se nao, vale a pena).E nessa nova decada, com toda tecnologia e a facilidade de encontrar parceiros um filme assim era simplesmente necessário!

Edilson Cravo disse...

Querido Luis:

Fiquei muito curioso a respeito deste filme (ainda mais depois desta resenha sensacional que vc fez).
Linda semana. Abraços.

Luck® disse...

Desde "sempre" (sem medo de errar) o Homem fabrica a realidade. Não há como ser de outra forma: Pensar a realidade resulta, pelo próprio ato, pensar de "segunda mão".

Desde as primeiras necessidades humanas de representar, estão os deuses das civilizações de todos os tempos. Os deuses (toda a mítica) não se restringem a um reducionismo pobre, mas me parece aceitável vê-los como "compensação", como "resposta", tais como proteção, causa ontológica, etc.

A mítica é representação. Eu insistirei nisso.

O filósofo Platão travou críticas severas à arte, aos artistas. Ele teria dito que os artistas deveriam ser expulsos da pólis.

Parece que seu argumento se sustenta até hoje: A arte seria uma forma de conhecimento de "terceira mão" da realidade (uma cópia daquilo que eu "conheço" e, novamente, conhecer é sempre indireto). Mas se fosse grosseira, a arte não traria problemas para a Paidéia; No entanto, é justamente o contrário disso: A arte poderia imitar (mímesis - semelhança) de modo tão fiel a realidade que chegar-se-ia a admitir como verdade aquilo que foi fabricado, ou seja, na indiscriminação entre verdadeiro e falso. Leia-se: Limites para o conhecimento.

Em tempo: A arte, ora bolas, é representação. A catarse do teatro grego é prova disso. Uma imagem, um gesto, representam algo, mesmo e até algo imaterial.

Podemos fingir, meu amigo! Podemos nos mentir igualmente!
O corpo, visto como matéria, é o receptáculo do Homem. É entendido, entretanto, para além disso: Uma forma possível de considerar o corpo é que "ele sou eu". É possível, na nossa relação com o corpo, estabelecer que dele não nos despojamos enquanto vivemos. Outra forma defendida por muitos NÃO considera a dualidade (corpo - alma), mas sim uma unidade.

O corpo figura como algo da nossa intimidade. Não enveredo pelo tema, mas cito o exemplo do estupro para ajudar, talvez. O ato do estupro não é só uma violência ao corpo. As vítimas sofrem violências psíquicas, são moralmente feridas. O corpo pertence ao privado, ao íntimo.

Voltando às necessidades de representarmos aquilo que não podemos ou nos impedimos de alcançar, o sexo seria um modo de nos aproximarmos do íntimo sem precisar "compartilhar" intimidade. Representar permite nos sentirmos conectados, estarmos compartilhando, estarmos realizando necessidades, desejos. Por ela atendemos ao prazer; Vemos e somos vistos; Estamos vivos!

Por outro lado, há uma cultura da individualidade que nos bloqueia, que nos engessa, que nos adoece, apesar de aceitarmos a "realidade" como algo que "é assim e não tem volta" e argumentos pragmáticos similares.

A junção disto que se apresenta, ou melhor, que é captado de modo dicotômico, afastado, carece desta abstração. O sexo que é só sexo, só banal, só corpo, bláblá sequer é visto SINCERAMENTE, deste modo. Mas o discurso sustenta, camufla, essas distorções.

Torna-se capital saber se realmente a pessoa que busca essa relação fugaz no sexo o faz de modo consciente disso ou se se engana para suprir uma carência afetiva.

Como você questiona, essas relações "servem pra que", afinal? Proporcionar "apenas" prazer? E o "afeto onde fica" nessa historia toda?

Nem tudo deve ter uma finalidade, uma serventia. Todavia, não é fato que pensamos e agimos neste sentido em quase todas as esferas de nossa vida?

O prazer pode não ser um "apenas". Ele pode ser muita coisa. Mas o que se esconde nesses caminhos para se chegar ao prazer? No que me torno, que relações travo comigo e com o outro no intuito de experienciá-lo?

Se estamos fadados a representar (=viver), que possamos fazer desta arte algo agradável, interessante, bonito. Me dá um dó perceber que representamos o representar. Isso é tão pouco; É muita banalização!


PS. Seu comentário final sobre "algo" do Michael Fassbender... Vou deixar passar. ;-)

Anônimo disse...

o filme não é tão bom e nem é tão ruim. a abordagem perturba porque o assunto assim é tratado. se vc assisti à saga do eating out (1, 2, 3 e 4) vai perceber que tratam do mesmo tema numa outra ótica, que faz com que o sexo seja consumido dessa maneira. a pergunta é: o que te satisfaz e seduz? vício em sexo, dizem, é doença. doença maior, para mim, é o vício do consumo de bens materiais, do dinheiro e da competição.