segunda-feira, 26 de setembro de 2011

BAGUNCANDO A ALEGRIA DO POVO


Que Rock in Rio e esse? A proxima capa da Playboy?



Continuo na Holanda, mas sempre atento a tudo que acontece no Brasil. Gracas a internet, claro. Nao quero parecer o chato que saiu do seu pais e que, influenciado pelo “primeiro mundo”, passou a cuspir no prato que comeu, nao e nada disso, eu continuo e continuarei amando e sendo grato a minha terra, a minha patria, mas nao da tambem para fechar os olhos para uma serie de coisas que andam acontecendo ai. Com os poucos amigos brasileiros que fiz por aqui, volta e meia discutimos apreensivos como sera a Copa de 2014 e as Olimpiadas de 2016 no Rio. Me sinto totalmente a vontade para falar do assunto porque quem acompanha meu Blog sabe o quanto fui cauteloso na epoca da escolha do Brasil e do Rio para sediarem esses eventos esportivos. Enquanto a maioria dos meus amigos soltavam fogos, eu apenas dizia “Muita calma nessa hora”. Eu sinceramente acho que o Brasil nao esta preparado. E mesmo se conseguissemos implantar uma politica de tolerancia zero pra corrupcao, num passe de magica, ainda assim ficariamos devendo e muito em termos de estrutura e seguranca. Se a intencao era turbinar o nosso turismo, por que entao nao ficar apenas com a Copa e fazer todas as mudancas necessarias, dentro do prazo e com bastante transparencia? Por que nao investir no esporte para 2020? Vale a pena ser palco apenas para a alegria dos outros? O Rio de Janeiro sempre foi e sempre sera o cartao postal do Brasil, indiscutivelmente. O meu medo e que a cidade se torne um grande canteiro de obras e que o contribuinte pague mais do que deveria pela vaidade de certos politicos, emissoras de TV e principalmente do poderoso chefao da CBF.


E o Rock in Rio, hein? Francamente, nunca vi uma edicao tao cheia de problemas e micos. E nem estou falando especificamente da Claudia Leitte e Ivete Sangalo, porque na edicao anterior teve ate Britney Spears e N`Sinc, mas, vamos combinar? os organizadores conseguiram bater o recorde de trapalhadas, voces nao acham? A estrutura e realmente muito boa, mas misturar roda gigante, tiroleza e ate cartomante virtual ja e um pouco demais. Nao precisava competir com a festa do peao de Barretos, ne? A atriz Barbara Paz foi quem melhor resumiu o espirito da “cidade do rock”: “Nossa, impressionante! Isso aqui parece a Disney!”. E as perolas da atriz Susana Vieira?: “Queria que o Michael Jackson e a Amy Winehouse tivessem vindo / Adorei quando a Rihanna cantou Don’t Stop The Music porque é o toque do meu celular”. Da pra levar a serio um evento que enche a area vip de artistas globais que saem falando essas babaquices por ai? Tudo pra que? Pra gerar essas noticias ridiculas em sites, jornais, revistas e programas de TV de quinta categoria? Mas tambem se um cantor como Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, diz uma asneira dessas: “A gente descobriu que gostava de falar mal de qualquer governo. Fosse ele de direita ou de esquerda, todos são iguais. A regra básica é: nunca confie em político” – pode se esperar mais o que, nao e mesmo? Nao cheguei a ver a cobertura do Multishow, claro, mas li que esta pior que cobertura de carnaval, os apresentadores completamente perdidos, entrevistas fracas e mais perolas bizarras, como esta do Beto Lee sobre um roqueiro: “Lemmy tinha que ser presidente do mundo”. Melhor nem falar do arrastao e do fotografo que teve a sua camera roubada nos bastidores…


E, pra terminar, eu gostaria de registrar aqui o meu repudio a revista Veja desta semana que trouxe na capa o ator Reinaldo Gianechinni. Na minha opiniao, ele foi exposto de forma grosseira, por conta do momento delicado pelo qual esta passando: em pleno tratamento contra um cancer no sistema linfatico. Sempre li a revista e admiro muito alguns dos seus colaboradores, mas tambem nao esqueco de que Cazuza ja passou pelo mesmo constrangimento, Elis Regina e muito recentemente o ator Fabio Assuncao. Nao precisava, ne? Achei a reportagem invasiva, desnecessaria, seria mais digno se o proprio ator autorizasse o uso da sua imagem ou concedesse uma entrevista. Mas infelizmente estamos no auge da superexposicao e isso ja seria pedir demais. Eu, como fa, quero mais e que ele se recupere logo, seja por meio de um tratamento convencional ou espiritual. Tenho certeza de que o Brasil inteiro esta fazendo essa corrente positiva. Bom, pessoal, sei que o post ta meio rabujento, chato, mas eu precisava escrever sobre isso, baguncar a alegria do povo. Abracao e ate a proxima!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

AQUI DE AMSTERDAM...

Um dos lugares mais incriveis da cidade, onde estao os melhores museus





Ah, as bicicletas!

Queria evitar um post com cara de guia de viagem, mas isso vai ser impossível, pessoal. Uma semana em Amsterdam/Holanda e estou adorando a cidade. Sempre quis conhecer outros países, mas não imaginava que viria parar por aqui agora. A viagem foi um presente pra lá de especial do meu irmão do meio e eu que não sou bobo nem nada aceitei imediatamente. Adorei a aventura de sair do Brasil sozinho e vir até a Europa mochilando. Bem, deixarei para falar da vida cultural daqui depois e vou tentar ser bem mais objetivo nessas primeiras impressões. A viagem seguiu tranquila, tirando aqueles incômodos de praxe, 14 horas de viagem e a tensão de ser rejeitado na Comunidade Européia. Todos os documentos em mãos e fui liberado tranquilamente. Apenas um incidente. Como havia esquecido umas moedas de real no meu bolso, o detector de metais apitou e em segundos passei a ser considerado o inimigo público número um da Alemanha rs, durante a minha escala em Frankfurt. Quase me pediram pra ficar pelado rs. Pouco mais de uma hora e já estava em Amsterdam. Meu irmão foi me buscar no aeroporto e revê-lo foi simplesmente emocionante. No caminho para o hotel, tudo que os meus olhos alcançavam me chamava atenção. A limpeza das ruas foi a primeira delas, antes mesmo da dificílima língua holandesa. De cara adorei o transporte publico, o metro e os ônibus são bem mais confortáveis que os nossos. A cidade é cortada por inúmeros canais, o que confere a Amsterdam um charme todo especial. O meu primeiro passeio foi então um tour de barco, logo depois que deixei minhas bagagens no charmoso Rembrandt Classic, um hotel 3 estrelas muito simpático, que fica no centro da cidade, de frente para um dos canais, onde as pessoas se reúnem a tarde para tomar um drink. O passeio foi num barco particular, mas qualquer pessoa pode fazer o mesmo desembolsando no mínimo 10 euros. Foi só ai que realmente caiu a ficha, a cidade é realmente linda, não é exagero. Como a semana anterior tinha chovido bastante, o sol estava se debruçando sobre ela, naquele dia, algumas pessoas até me disseram: “Você trouxe o sol do Brasil para nós”. Muito gentis.

No dia seguinte, já choveu um pouco. O tempo aqui é bem instável, no verão tem uma brisa gostosa no final da tarde, faz um friozinho a noite e pela manha o sol é parecido com o do nosso outono. Mas neste exato momento chove sem parar. Bom, me agasalhei e fiz um passeio delicioso de bicicleta, num final de tarde, com o meu irmão. Aqui as bicicletas tem prioridade, elas são o meio de transporte mais barato, fácil e rápido, mas antes de se aventurar é preciso fazer um reconhecimento mínimo dos itinerários, observar as placas de trânsito, até se entender com o cadeado é importante, alguns são bem diferentes. Ah!, e se esquecer a chave no cadeado, por exemplo, já era, eles roubam e vendem no mercado negro.

A arquitetura como se pode notar é bem bonita, charmosa, basicamente composta por prédios de poucos andares, bem estreitos, mas com espaços bem distribuídos. Aliás, praticidade é o que não falta por aqui. Em todos os sentidos. Se você estiver num bar, num coffeshop ou numa balada, por exemplo, e outra pessoa olhar pra você e quiser apenas uma noite de sexo, ela simplesmente vai se aproximar e dizer: Hey, guy/girl. I'm horny, do you want to fuck me? É assim mesmo, sem enrolação. Eu fiquei um pouco assustado, mas tenho um amigo que adora essa praticidade. Vale lembrar que latinos de modo geral são bem recebidos aqui, brasileiro então..., mas já percebi que existe uma certa resistência aos asiáticos. Tentei descobrir o motivo e ainda não me convenci da resposta, me disseram que eles são muito `grudentos` e tem atributos físicos pouco apreciáveis. Preconceito, claro.

Quando souberam que eu estava aqui, muitas pessoas se surpreenderam, talvez porque ainda existe aquele lugar-comum de que quem quer pirar de vez vai para Amsterdam. Não é bem assim. A cidade de fato é bem peculiar, tem lá seus junkies, a prostituição é respeitada, muitas drogas são legalizadas, mas isso é apenas uma parte do que compõe o jeito espirituoso do lugar. Aliás, com tendência a diminuir, por conta do partido conservador que esta no poder. Mesmo com tudo isso, até agora eu não presenciei sequer uma briga, nem ao menos uma simples confusão. Amsterdam me pareceu uma daquelas cidades cujo melhor cartão de visitas é o seu lifestyle, nem sei se a palavra correta é essa, falo de um certo desprendimento que as pessoas tem aqui, aquela atmosfera mais livre, sempre abertos a novidades, a aceitar o diferente. Bom, pra terminar essas impressões iniciais não poderia deixar de citar o Vondelpark que é lindo, com seu caminho das rosas e os seus salgueiros que parecem ter saído de uma pintura de Monet. Acho um passeio obrigatório, assim como o Van Gogh Museum, mas sobre ele eu posto numa outra oportunidade. E para quem estava cheio de curiosidade como eu, vale a pena ir tambem ao pitoresco Red Light District, mas nada de fotografar as prostitutas nas cabines. Então é isso, pessoal. Vou ficando por aqui cheio de saudades. Espero que vocês curtam as imagens, vou tentar registrar o máximo possível da viagem. Abração!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

GOODBYE, AMY

Queria evitar o lugar-comum do pedido de desculpas pela demora em postar no blog, mas não tem jeito, estou passando por um momento cheio de altos e baixos e vir simplesmente escrever não é muito a minha cara, sem contar que na última semana houve um casamento na minha família e só isso foi suficiente para me fazer desligar do mundo, por conta de pequenas tarefas que me vi obrigado a assumir. Mas, por favor, aceitem as minhas sinceras desculpas, de novo. Em breve, devo estar em viagem e prometo escrever de lá contando as novidades. Como não consegui postar nada no momento da morte da cantora Amy Winehouse, o faço agora, mas não como uma forma de tributo, apenas como uma homenagem simples, um registro da perda de um grande talento e também procurando refletir sobre algumas coisas que me chamaram atenção, a partir da sua morte.

Soube da notícia pelo meu amigo Tiago Cardoso, enquanto recebia visitas em minha casa. Claro que a minha primeira reação foi: “Não é novidade nenhuma, ela já estava ‘planejando’ fazer isso, há muito tempo”. Depois fui tomado por uma tristeza estranha e até uma sensação de impotência: “Por que não fizemos nada, antes?” – pensei. Me lembrei também de que a Amy era sempre um assunto recorrente em minhas conversas com o ator e diretor de teatro Alexandre Acquiste, no MSN. Ora brincávamos com a sua porralouquice e ora nos lamentávamos por ver seu talento sendo tragado pelo uso abusivo de drogas. Num dos intervalos das filmagens do meu novo curta-metragem, “De Corpo e Arte”, paramos também para falar sobre um daqueles episódios deprimentes no qual a cantora sempre se envolvia – se não me engano, a fatídica e última vaia num show na Sérvia. Chegamos à conclusão de que ela estava num processo de suicídio público e a atriz Maria Dias até brincou que tinha vontade de escrever para ela dizendo: “Amy, olha o talento que você tem, deixa eu ser sua amiga, hoje eu passei o dia inteiro ouvindo o seu CD, deixa eu te ajudar!”. Achei linda a demonstração de carinho da Maria.

Na ânsia de buscar uma resposta para a morte dela, a mídia foi unânime em abordar a sua relação íntima com as drogas e a infeliz coincidência com outras perdas memoráveis, aos 27 anos, nas mesmas circunstâncias. Achei bacana o alerta, mas, particularmente, não acredito que ninguém saia se entupindo de drogas – e no caso da Amy de drogas pesadas – por conta de modismos ou simplesmente para fazer um gênero, para ter a sensação de que se pode ir do céu ao inferno, num piscar de olhos. Ficaram devendo essa resposta, se é que ela realmente existe. E, por outro lado, falando agora como fã, ninguém ouvia as músicas dela por que ela era drogada, mas, sim, porque era uma grande cantora, com uma voz excepcional. A impressão que eu tenho é que essas pessoas, apesar do imenso talento, tem um grande vazio dentro de si e que momentaneamente é preenchido pela vaidade, quando a mídia e os fãs as consideram verdadeiros semideuses. Não podemos esquecer que nós é que as colocamos nessas gaiolas de ouro, porque fomos educados só para o aplauso e não para a queda. Quando Elvis Presley começou a engordar, nos anos 70, por exemplo, minha mãe me disse que as pessoas ficaram chocadas. Sempre questionando a forma física dele e muito raramente sobre seus problemas com álcool e drogas. Tudo bem que a mídia não tinha o alcance que tem hoje.

Não acredito muito nessa história de que a Amy quis morrer para se tornar um mito ou coisa parecida. Quando li, meses antes de sua morte, que ela estava preparando um novo disco e que não aceitava que ele fosse inferior ao seu maior sucesso, Back to Black, pra mim isso já foi um pedido de socorro. Hoje ouvimos tantas coisas ruins, em todos os lugares, que os bons artistas não toleram mais erros, equívocos e a cobrança sobre eles é cada vez maior. Ser artista não é nada fácil, fazer parte desse meio é fascinante e ao mesmo tempo muito cruel. Digo isso por estar apenas começando e sentir na pele inúmeras cobranças, mas isso não vem ao caso. Quem não assistiu ao brilhante “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder, deveria assistir, porque esse filme traduz muito bem o quanto os artistas se tornam prisioneiros de suas próprias glórias. É imperdível! Não quero me estender muito, mas só para terminar, ontem mesmo a psicanalista Eleonora Rosset falou uma coisa muito interessante, na TV, quando perguntada sobre o que a tem chamado atenção ultimamente: “As pessoas estão querendo ser felizes com muita urgência” – ela disse quase que automaticamente. Não deu outra, abri há pouco o meu e-mail e lá estava uma mensagem de um amigo aqui da cidade: “Perdemos a Amy, mas temos agora a Adele, ouça esta música...”. Eu, sinceramente, achei assustador esse desejo de substituição. Será que não está na hora de repensarmos essa voracidade por novas emoções? Não dá pra parar um pouquinho, sem que o mundo nos devore? Por que fama e dinheiro tem que ser mais importante que formas mais simples de realização? Bem, temos muito a refletir, então vou me despedindo com essa notinha de tristeza. Espero que a Amy descanse em paz e que a minha e as futuras gerações não tenham que ver apenas o desabrochar de um grande talento, que elas possam até terem tempo para compreender o seu declínio. Abração!

sábado, 11 de junho de 2011

HOMOFOBIA FORA DE MODA

Lambendo a cria


Estive ontem, em São Paulo, no Parque do Ibirapuera, numa passagem relâmpago e GÉLIDA pela 29ª Casa de Criadores, um evento de moda já tradicional na cidade, cuja missão é descobrir novos talentos pra moda brasileira. Assim que soube que eles estavam promovendo um concurso chamado Homofobia Fora de Moda, a minha amiga e leitora deste humilde blog, Angélica Oliveira, sugeriu que eu participasse. Estava cheio de trabalho por conta do curta-metragem novo, mas, mesmo assim, criei o conceito da minha estampa numa madrugada de sábado para domingo e enviei. O concurso buscava uma imagem ou estampa que fosse símbolo de uma campanha contra a homofobia. Segundo o site do evento, foram 122 inscritos e 30 selecionados para a final. Fiquei entre os 30, mas até o momento não sei quem ganhou, provavelmente não levei porque a minha imagem era uma das mais discretas, mas, mesmo assim, foi bacana ver que algumas pessoas paravam e apontavam a camiseta curtindo a minha ideia, que foi toda inspirada na teoria da evolução das espécies de Darwin. Eles pediram também um texto explicativo sobre a minha inspiração, o qual reproduzo abaixo. Seja lá quem tenha ficado com as primeiras colocações, fica aqui os meus sinceros parabéns. Principalmente as secretarias de cultura do Estado e da cidade São Paulo e ao André Hidalgo da CdC por essa iniciativa bacana.


“Trata-se de uma clara alusão àquela imagem da evolução natural das espécies, de Darwin. Quis mostrar que o gay já nasce gay e vai ser sempre assim e que isso é natural. Se o Homem evoluiu como espécie, precisa também evoluir a sua forma de pensar, de agir, acompanhar as mudanças do seu tempo. Simplificando: a imagem tanto pode ter uma mensagem de autoestima ao dizer aos gays que não se aceitam, “se deixem ser”, como também fazer um protesto, uma provocação saudável aos homofóbicos de plantão, “evoluam o seu pensamento”. Tudo isso de forma leve, com um certo humor e uma pegada pop. Vale lembrar que tanto gays quanto a famosa teoria de Darwin sofrem até hoje resistência de algumas religiões”.


Não é demais dizer que ninguém é obrigado também a concordar comigo. Cada um, cada um. Bem, terminado este pequeno merchan, não posso esquecer de desejar a todos um feliz dia dos namorados, amanhã. E, pra quem ainda está solteiro como eu, a dica é a mesma de sempre, aquela que está no encarte do CD “O Chamado”, da Marina: “acreditar e amar até o fim”. Vou ficando por aqui porque este final de semana vai ser cheio de trabalho. Abração!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

DE VOLTA

Numa pausa das gravações de "De Corpo e Arte"

Faz algum tempo que não consigo postar aqui. Não por falta de vontade, mas por falta de tempo e energia mesmo. Gravando o meu segundo curta-metragem, "De Corpo e Arte", e novamente no estilo “faça você mesmo”, estava impossível parar e organizar algumas ideias. Tantas coisas aconteceram nesse período e eu nem pude dar os meus pitacos costumeiros, mas uma delas, imediatamente, me chamou atenção e eu achei que valia a pena o registro no momento (com um certo atraso, mas tudo bem): a passagem da ensaísta ítalo-americana Camille Paglia pelo Brasil.
A primeira vez que ouvi falar dela foi numa entrevista que a Marília Gabriela fez, se não me engano com a Madonna, onde o assunto deveria ser feminismo. Pesquisando na internet, descobri que ela escreve frequentemente sobre cultura pop e arte em geral e o seu jeito franco e polêmico tanto agrada quanto irrita as pessoas. Há duas semanas, num congresso internacional de jornalismo cultural, em São Paulo, ela metralhou a Lady Gaga, rebaixou a ensaísta Susan Sontag – no que eu discordo –, atacou o puritanismo, brincou com o próprio fato de gostar de pornografia e ter vindo de uma família cristã – assim como Madonna e o fotógrafo Robert Mapplethorpe –, se disse apaixonada por música brasileira, fã de Daniela Mercury e Elis Regina, etc... No entanto, o que escolhi pra comentar não tem nada a ver com essa salada verborrágica, mas, sim, uma entrevista que ela concedeu ao jornal Folha de S. Paulo, dias antes de embarcar para o Brasil. Nessa entrevista, ela afirma que a internet empobrece a cultura. De cara, achei o assunto bastante espinhoso e fui correndo conferir o seu ponto de vista.
Selecionei apenas dois trechos, porque a entrevista é longa. “Não estou contente sobre o que está acontecendo no mundo das artes, da literatura. Há uma grande mudança geracional. Jovens estão mergulhados na tecnologia e na internet, se comunicando por mensagens no celular, no Facebook, Twitter, o que tira muita energia criativa das artes tradicionais. / O que acontece é que desde que a web foi globalizada, há um vazio. O tipo de imagens que vêem na tela não têm a mesma qualidade das imagens da história da arte, imagens a óleo”. Levei então o assunto para o set e a discussão se polarizou. Eu mesmo defendi que a internet realmente tem promovido um certo vazio cultural, mas, por outro lado, ela possibilitou o surgimento e a promoção de novos artistas e democratizou o acesso às formas mais variadas de arte. O que vocês acham? Pra mim, tudo depende de uma questão de bom senso mesmo, como tudo na vida, mas é claro que existe, sim, uma mudança negativa no comportamento das pessoas, depois das redes sociais. E nem estou falando só da exposição nossa de cada dia, na rede. A própria Folha de S. Paulo, cujo site sempre acompanho, passou a noticiar também as maiores banalidades do showbizz. Outro dia, por exemplo, me assustou o fato de um trocadilho infame da apresentadora Ana Maria Braga ter virado notícia de destaque. Depois saberia que o assunto tinha sido um dos mais comentados no Twitter.
Nem é preciso dizer que alguns artistas aproveitam também as redes sociais e blogs para criarem polêmicas ridículas. Também, há pouco tempo, o cantor Ed Motta disse meia dúzia de bobagens, no seu Facebook, sobre a “falta” de beleza do povo brasileiro. Claro que ele tem todo direito de ter aquela opinião deselegante, mas será mesmo que ele não imaginava que aquilo iria virar notícia? Que teria aquela repercussão? Bem, exemplos assim não faltam. O pior é que, por mais que você tente se desviar desses assuntos, eles sempre acabam tropeçando em você. Fiquei bem irritado e reduzi as minhas entradas no Twitter, no Facebook, comecei a flertar com Tumblr e parei... Sempre serei um entusiasta da internet, mas, neste momento, estou apenas “apreciando com moderação”, o que não quer dizer também que ficarei longe daqui. Estou voltando aos poucos. Em breve, postarei as novidades do novo curta. Acho que vocês vão gostar! Por enquanto, tentem me aceitar de volta rs. Abração!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

CARETICE À BRASILEIRA

"O Brasil é um país de jecas" - Odete Roitman

Ontem li no blog do escritor e autor de novelas Aguinaldo Silva que um cigarrinho de maconha do personagem César, da novela Vale Tudo (1988), reprisada com sucesso pelo canal pago Viva, causou um tremendo mal-estar, no último final de semana. Parece mentira, né? Um baseado ainda consegue chocar as pessoas. Eu me choco com outras coisas, com essa violência desenfreada – outro dia mesmo um estudante de Letras foi morto brutalmente na frente de casa, praticamente nos braços do pai –, com o corte de R$ 50 bilhões na Educação, com aquela frase racista e homofóbica do deputado Jair Bolsonaro dirigida à cantora Preta Gil, em rede nacional, etc. Talvez essas pessoas desocupadas estejam pensando que o beck de hoje é o crack de amanhã. Tenha a santa paciência! E isso nem é uma defesa em causa própria, muito menos a minha intenção é polemizar, o foco aqui é outro, é a maré de caretice que chegou ao Brasil vinda sabe-se lá de onde (talvez do Irã), a mesma que tem cerceado a criatividade de uma série de autores de TV que sempre admirei.


Tenho insistido que essa classificação indicativa do governo, uma espécie de censura disfarçada, tem tornado a TV brasileira um grande tédio – punição por aqueles excessos malditos dos anos 90: sushi erótico, Latininho, Programa do Ratinho, concurso da boquinha da garrafa, etc. Basta dar uma zapeada no controle remoto para percebermos o quanto os autores estão engessados. Luta, até o momento, inglória. Por isso as apimentadas séries americanas estão ganhando cada vez mais espaço por aqui. Com alguma criatividade, mas enredo lento, Gilberto Braga e Ricardo Linhares tem demonstrado certa ousadia no texto de Insensato Coração, mas nem todos podem comprar essa briga. Por curiosidade, fui ao You Tube e assisti a vários vídeos de Vale Tudo e percebi como o texto é delicioso, crítico, a melhor novela de todos os tempos, sem dúvida, mas um remake hoje não faria o mesmo sucesso. Pelo menos, a megera Odete Roitman jamais poderia dizer aquelas barbaridades sobre o Brasil e os brasileiros, sem que a Globo fosse bombardeada de reclamações. Como humilde escriba que sou, fiquei imaginando como escreveria um personagem racista para a TV, sem que ele pudesse se expressar como tal. Desisti no esboço. Haja criatividade!


E o pior é que existe até uma falta de critério pra essa caretice toda, coisas muito bobas ganham dimensões extraordinárias. Sem fazer muito esforço, me lembrei agora de que a capa de um DVD da Marisa Monte, por exemplo, provocou reboliço entre os xiitas de plantão porque, segundo eles, sugeria “sexo oral” – um verdadeiro absurdo! Não faz muito tempo também que o diretor de teatro Gerald Thomas foi até parar na primeira página do The New York Times porque mostrou o traseiro à meia dúzia de gatos pingados que detestaram uma de suas peças (ele foi até processado por isso). Saiu na imprensa, em fevereiro, que a série Aline, que eu achava bem interessante, na sua segunda temporada, teria sido suspensa pela Globo, faltando ainda 4 episódios, porque numa das cenas havia a sugestão de um ménage à trois. (Ué, e a minissérie “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1998) era o quê então?). Muito recentemente, o jovem cartunista João Montanaro, do jornal Folha de S. Paulo, fez uma charge que ilustrava uma onda gigante sobre o Japão (Não vi nada de ofensivo e nem grotesco. Mesmo!), um dia depois da tragédia que se abateu sobre aquele país, mas a própria classe saiu lhe atirando pedra. Uma expressão que eu achava deliciosa, samba do crioulo doido, foi banida da nossa língua, tornou-se politicamente incorreta e passível até de cadeia. Bem, exemplos não faltam. E eu nem falei do famigerado “beijo gay”. É por essas e outras que, no último Rock in Rio (2001), o baixista do Queens of the Stone Age, decidiu se apresentar pelado e se espantou quando foi retirado do palco pela polícia. “Mas aqui as pessoas não ficam assim, no carnaval” – teria se defendido. O que responder para o rapaz? Que existe pecado, SIM, do lado de baixo do Equador?


O assunto é confuso mesmo, envolve questões culturais, políticas, econômicas, sociais e até geográficas. Uma vez assisti a uma entrevista de um desses comediantes de stand up onde ele afirmava que nos Estados Unidos é diferente, existe lá uma liberdade maior para contar piadas, enquanto aqui há uma certa resistência a determinados assuntos e que por isso ele precisava evitá-los. Não sei se vocês também tem percebido isso, mas achei que seria um assunto interessante para reflexão. E que fique claro também que as pessoas tem todo o direito de serem “caretas”, eu as respeito, até a escritora Marina Colasanti, de quem gosto muito, escreveu uma vez: “Tem gente por aí dizendo que caretice é ruim. Mentira, lá em casa somos todos caretas, e achando ótimo”. Tá certo, Marina, mas isso foi lá nos anos 70!

terça-feira, 29 de março de 2011

CINEMA DE GARAGEM

Ainda bem que bom humor tínhamos de sobra
A estampa do figurino é de... gominhos de tangerina. Luxo!
Passando o texto com os atores
O visual kitsch da casa de Alzira e Orlando
Por aqui eu acompanhava as filmagens
Tony Valentte como "Sérgio Afonso" e Fá Ferreira como "Maria Helena" Final das filmagens, Carlos Tousi, Juh Ferraz, eu e lá atrás, tentando se esconder, Tiago Cardoso


Vocês certamente já ouviram aquela famosa frase do Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Durante muito tempo, ela serviu para romantizar a aventura de se fazer cinema com baixíssimo orçamento e ideal revolucionário. Muito tempo depois, com o surgimento de novas tecnologias e o acesso mais rápido e fácil a elas, o dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira criou um novo termo, “B.O.A.A.”, que se refere aos filmes de “baixo orçamento, mas feitos com alto astral”. Só mesmo o sábio Domingos para ter uma sacada dessas! Vejam bem, filmes que contenham, pelo menos, intenções cinematográficas, não confundir com os vídeos da Sthefany Absoluta e companhia. Aonde eu quero chegar? É que eu e meu amigo e videomaker Tiago Cardoso acabamos de fazer um filme no melhor estilo “B.O.A.A”. Ainda não podemos mostrá-lo aqui, porque está em fase de finalização, mas, mesmo assim, quis dividir com vocês o que aprendi com essa ótima experiência. Em breve, colocaremos o nosso rebento na rede “para que conhecidos e desconhecidos se deliciem” ou “para chatear os imbecis”, vai saber, como diz aquela saborosa canção “Por que você faz cinema?”, da Adriana Calcanhotto e do Joaquim Pedro de Andrade. Por enquanto, só podemos divulgar o que aconteceu nos bastidores.


Assim que recebi o e-mail do Tiago, falando de um festival para curtas de até três minutos – com o prazo para inscrição estourando –, abri o meu editor de texto e escrevi o roteiro de um fôlego só. Não foi nenhum sacrifício. Três minutos na tela exigem no máximo duas páginas de roteiro. Já tinha mais ou menos a ideia na cabeça, bastou apenas dar uma ajustada. Também não imaginava que ele fosse gostar do que escrevi, um kitsch movie com pitadas de humor negro, cheio de referências retrô, nada parecido com o seu estilo bem comportado. Mas ele não só curtiu a ideia como também, durante a montagem do filme, até se emocionou. Beijo de Novela então foi surgindo. A história é bem simples, mas depois foi ganhando nuances bem interessantes e divertidas. Alzira é uma jovem do morro do Reco-Reco, que nunca beijou na boca porque seus dentes são cheios de cáries e ela odeia dentista. Como o bicheiro Orlando tinha uma dívida com o pai dela, ele aceitou desposar a moça, mas com a condição de nunca beijá-la. Ultrajada, Alzira tenta realizar o seu grande sonho, ganhar dele um beijo daqueles de novela, afinal ela é fã ardorosa do gênero. Bem, é tudo que eu posso falar, sem estragar o final. Já agradeço aqui publicamente a Juh Ferraz e ao Carlos Tousi que souberam dar vida a esses dois personagens com muita competência e também ao Tony Valente e a Fá Ferreira que fizeram uma participação especial bem divertida.


Feitos os ajustes no roteiro, partimos para a produção. Aqui começa realmente o nosso trabalho, porque um filme “B.O.A.A.” é realizado basicamente sob a filosofia do “faça você mesmo”. Tinha como referência aqueles filmes pré-históricos do Almodóvar como Labirintos de Paixões (1982), então saí para garimpar um figurino bem retrô e colorido, pensei também num cenário que seguisse essa mesma linha, um barraco de favela, mas que fosse bem charmoso, que tivesse personalidade. Não foi difícil encontrar os móveis e objetos, pior mesmo foi carregar parte do cenário na chuva. Tudo pela arte, claro. Nessa hora tem que ter muito bom humor, caso contrário, você joga tudo no lixo e volta pra casa, para se enterrar nas cobertas e assistir a seus DVDs favoritos. Sobre o cenário é importante ressaltar que não dava simplesmente para chegar à casa do Tiago e dizer que pintaríamos a parede da sua garagem (o nosso modesto estúdio) de vermelho. As coisas não funcionam assim, temos que adequar a nossa fantasia à realidade disponível. Aliás, existe um abismo gigantesco entre o que planejamos e o que conseguimos fazer, mas é preciso não desanimar. Tem que colocar um sorriso no rosto e seguir. Mas até que o resultado estético ficou bastante crível. O problema é que o cenário teve que ser montado duas vezes, o que exigiu uma dose extra de paciência. Uma para testes de luz e câmera e outra para a filmagem mesmo. Dois dias de produção e ainda estava achando tudo muito divertido. A descoberta do chroma key (o fundo verde que na edição ganha o cenário que quisermos), por exemplo, foi o máximo! Bem, até minutos antes das filmagens, quando metros e metros de tecido verde despencaram do teto e eu tive que fixá-los novamente, às pressas, fingindo estar tudo sob controle.


Quando o dia da filmagem chegou, as palavras que mais se ouviam no set eram: “Estou exausto!”. Ditas por mim, claro, que fazia o meu début por trás das câmeras. Dez minutos de atraso dos atores e eu já entrava em pânico. No nosso cronograma, as filmagens deveriam começar às nove da noite e ir até a uma da manhã, no máximo! Por conta de alguns contratempos (e eles sempre existem), chegamos até as três. Não sei se vocês sabem, mas cada cena tem que ser filmada várias vezes, de vários ângulos diferentes, e só na pós-produção é que são montadas em seqüência. Então é como se o mesmo filme fosse feito quatro ou cinco vezes, por isso os atores tem que ter muita concentração, paciência e não deixar a emoção cair um só minuto. Enquanto o Tiago operava a câmera, eu me dividia entre orientá-lo quanto ao enquadramento e a fotografia e a direção dos atores, afinal praticamente não houve ensaio. Entra aqui uma personagem digna de uma comédia do Mauro Rasi, a minha mãe. Se você quer enlouquecer um diretor de cinema, basta despachar a mãe dele para o set. A minha foi assistir às filmagens espontâneamente, mas, por não entender nada do processo, achava que eu exigia demais dos atores e mãe é mãe, né?, elas sempre acham que basta qualquer coisa ser feita pelos filhos que está tudo ótimo. Não é bem assim. De longe, eu ouvia os seus murmúrios e isso muitas vezes me deixava tenso, nervoso.


Já ia até esquecendo, o festival não permite uso de imagens e nem trilha sonora sem autorização, então tivemos que buscar algumas soluções que nem sempre são ideais. Nada de foto do Tarcísio Meira ou do Tony Ramos, por exemplo. Reclamei muito, mas no final deu tudo certo. A pós-produção é muito cansativa também, exige muita dedicação, muita paciência, mérito exclusivo do Tiago. Nessa parte, eu dava apenas alguns palpites. Mas, depois que tudo passa, ficamos com aquela sensação de que poderíamos ter feito melhor, mesmo sabendo de todas as nossas limitações, mas também o quanto foi prazeroso, o quanto aquele convívio foi agradável, o quanto é bom ver algo que nós imaginamos ganhar vida. E a melhor definição para esse estilo de cinema, se é que podemos chamar assim, veio do próprio ator do filme. Lá pelas tantas, o Carlos Tousi me confortou: “Não tem problema nenhum, se precisar a gente fica até de manhã, é assim mesmo, só não pode faltar amor”. Bonito, né? Enfim, queria muito dividir esse momento bacana com vocês.