terça-feira, 6 de julho de 2010

SOBRE O CÉU DE SUELY



“O Céu de Suely” é um daqueles filmes brasileiros que, aparentemente, parecem repetitivos, no máximo uma versão ao contrário do migrante nordestino que tenta a sorte no Sul Maravilha, mas basta um olhar mais curioso para descobrirmos verdadeiras preciosidades. Começando pelo título, que já é bastante poético, inspirado na música “Lucy in the sky with diamonds”, dos Beatles, e que sugere uma espécie de Paraíso que só existe no imaginário da protagonista. Um filme repleto de intencionalidades, com referências a Wim Wenders e Jim Jarmusch e corajoso por abordar um tema incomum no nosso cinema: pessoas que se sentem estrangeiras no seu próprio país.

Suely é o nome de “guerra” de Hermila, o mesmo da atriz que a interpreta, Hermila Guedes. Aos 21 anos, ela deixa São Paulo com um filho nos braços, em direção à sua cidade natal, Iguatu, no sertão cearense, com a esperança de construir lá uma nova vida com o marido. Detalhe, ele só iria pra lá depois. O reencontro dela com a cidade, que guarda ainda várias de suas memórias, é bem complicado. Ela não se sente adaptada à nova realidade e por isso está sempre com um olhar no vazio. Para sobreviver e ajudar a avó Rosário, que a recebe num misto de incômodo e alegria, ela precisa fazer alguns biscates, um deles é vender uma rifa de wisky vagabundo, o que só contribui para sua insatisfação. O reencontro com um antigo amor, Luis Edivan, interpretado pelo excelente João Miguel, aparece também como a possibilidade de fazê-la esquecer o marido, que nunca retornaria a Iguatu. Mesmo assim, por desespero, ela toma uma decisão radical: “vender o próprio corpo” e fugir. A ideia é se rifar, oferecendo aos homens da cidade uma “noite no paraíso”, e, com o dinheiro, comprar uma passagem para o lugar mais longe do Brasil. E a reação das pessoas? Bem, aí tem que assistir pra saber.

Apesar do cenário já gasto em filmes nacionais – lugares pitorescos à beira de alguma BR esburacada, país afora – de uma estética também já empobrecida, sem novidades na fotografia e da trilha propositadamente brega, os diretores Karim Ainouz e Marcelo Gomes foram bem-sucedidos ao apostarem tudo num roteiro intimista. Sem diálogos impactantes, pelo contrário, são bastante simples, o filme também “conversa” com “Paris Texas” e “Down by Law”, filmes com a mesma pegada e que fizeram sucesso nos anos 80, mas “O Céu de Suely” só é o que é por conta da atuação brilhante de Hermila Guedes. É muito mais difícil para um ator fazer coisas simples, porque recai sobre ele toda a responsabilidade de transformar pequenas pedras em verdadeiros diamantes. E é exatamente o que o seu papel lhe permite.

Existem também outros aspectos interessantes que merecem a nossa atenção, mas eu destacaria pelo menos dois: como os bens de consumo contribuem para a ideia do “socialmente aceito” e como o corpo ganha uma dimensão “sagrada”, nesses lugares de extrema pobreza. Possuir uma geladeira ou uma moto, por exemplo, é ainda, por incrível que pareça, sinônimo de status, nesses lugares. Isso fica claro, logo no começo do filme, no diálogo de Suely e Ivonete: “Comprou essa moto, foi? / Emprestada, pra botar banca pra sobrinha”. Isso, em parte, explica também o fato dessas pessoas serem tão corrompidas pelos políticos, em épocas de eleições. Por outro lado, “vender” o próprio corpo para uma noite de prazer é motivo de grande choque. Um paralelo oportuno me ocorreu agora. Vender o próprio voto em troca de uma dentadura, uma caixa d´água, etc, é ilegal, mas socialmente aceito, vender o próprio corpo não. Na visão de dona Rosário, a neta se igualou ao descartável wisky vagabundo e, no “exílio interior” da protagonista, cuja geração é bastante vulnerável à dor, tudo se torna confuso. Só o seu corpo, onde quer que ele esteja, é o lugar da sua felicidade. Se ela de fato existir.

11 comentários:

Cleyton Cabral disse...

Que linda apreciação. Realmente, Hermila é a chave do filme. =D

Andrea Pagano disse...

Luis, bom dia!

Tenho loucura por filmes, adoro tanto quanto muitas pessoas gostam de ler...Os livros me dão um ansiedade e uma impaciência que o filmes não tem, se pudesse "assitiria" à todos os livros ...rsrsrs

Adorei a dica, com certeza vou assitir porque curto demais cinema nacional!

Bjs

Cristiano Contreiras disse...

Lui,

este filme esteve durante um bom tempo nas sessões noturnas e nos cinemas independentes - principalmente quando foi relançado no Cine Unibanco.

Teve um bom público, mas infelizmente acabei nem conferindo.

Gostei da sua seleção das imagens pra compor este belo texto, a premissa me atrai e acho bastante realista com a nossa atualidade de mundo brasileiro, né?

Gostei das referências pontuais a Wenders (que, por sinal, baixei uns filmes dele essa semana aqui, pelo torrent...gosto muito e tem outros pra eu conhecer.) e do teor "intimista" do roteiro que você deixou destacado.

Vou correr atrás e assistir ainda nas minhas férias.

Beijão pra ti!

Alex Martini disse...

Ótima a dica!
Hermila vale o filme, mas gosto muito de tudo, inclusive da "paisagem esburacada". Pra não dizer da atuação do sempre bom João Miguel.
Legal você indicar, especialmente porque, pelo que vi nos comentários, poucos conferiram.
Em tempos de Avatares, é muito gratificante encontrar pessoas que ainda se voltam para a beleza desse tipo de filme.
Parabéns!

Richard Mathenhauer disse...

Sua apreciação desperta interesse em ver o filme, e digo isso porque não sou muito afeito ao cinema nacional.

Grande abraço, Luis!

Rodrigo Mendes disse...

OI cara!

Por mais que este filme tenha ótimas referências e uma fotografia formidável, ainda prefiro o longa anterior do Karim Ainouz, 'Madame Satã. Até mesmo pelo ritmo e movimentos de câmera e aqueles desfoques na lente. Um filme que fala com você!

Este eu achei mais "linearzinho" e até clássico! Talvez remete ao colaborador de Ainouz, Marcelo Gomes, que fez o Cinema, Aspirinas e Urubus!

Mas estou gostando desta seleção de filmes brasileiros. Cada um do seu jeito.

Abs,
Rodrigo

pauloveras disse...

Ainda não vi o filme, do qual você fala. Parece bom. Eu particularmente gosto muito de filmes brasileiros. Sua descrição é muito boa, em espcial quanto cita: "Acredito nas pessoas livres. E parece, existe uma gente que conquistou a sua liberdade e tem coragem para mostrar-se".
Abraços e bom final de semana.

Jay e Alê disse...

Meu caro amigo,
Estou ressurgindo rsrsrs
Estive bem enfermo nos ultimos 2 meses. Estou em fase de recuperação! Passando aqui pra dizer um Oi. Tenho certeza que esse post está interessante pelos comentários que li. Depois venho com calma pra ler e comentar. Pode acreditar!
Bju e saudade enorme! some não ok?
Jay

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Ei!
Adorei sua descrição,
penso que é perfeito
para chamar ao interesse
de forma geral.
Ainda não vi.
Se eu escrever aqui alguma bobagem, vce seus leitires me perdoem?Mas vou me expressar.
As vezes fico pensando como o passado mancha o presente,
mas não deve ser assim.
Houve um tempo que o cinema nacional apesar de libertario,
apesar de tudo que ele passava pra sobre-viver
e sobre-viveu;
ele tinha um audio ruim,
tinha roteiros não bem exporados
e por isso era tão mal visto.
Mas a verdade é que ele SOBREVIVEU
e hj ele brilha com qualidade em todos os aspectos.
Penso que
podemos ter preferências pelo cinema X,Y ou Z.
Mas nunca afirmar que nosso cimema é ruim.
Adoro seu blog
sempre.
Bjins entre sonhos e delírios

Athila Goyaz disse...

Me deu vontade de assistir Paris,Texas . vou baixar!
Abraços L.F!

Alex Gonçalves disse...

Não assisti ao filme, mas depois de sua crítica fiquei com uma imensa vontade de ver. Tentarei baixar na net. Parabéns pelos posts sempre interessantes! abs