sexta-feira, 16 de julho de 2010

O INVERNO DE AMAR








Eu não sei como o conto “Days of wine and roses” (Dias de vinho e rosas), do escritor Silviano Santiago, veio parar nas minhas mãos, mas isso também é o que menos importa, o fato é que gostei tanto do texto que não resisti em indicá-lo a vocês como leitura de inverno. Aqui no Guarujá está chovendo bastante, como mostram as imagens que fiz, ontem, na Praia das Pitangueiras. E foi depois desse dia surpreendente, de passear no calçadão vazio, embaixo de chuva e muito vento, quando até ajudei um esportista corajoso a colocar no mar o seu equipamento de kitesurf, que se deu o meu encontro com esse texto maravilhoso. A cópia do conto estava entre as minhas revistas antigas – o que me levou a encontrá-lo por acaso – e foi tirada do livro “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”. Não tenho a menor ideia de quem a teria me presenteado, mas, seja lá quem for agradeço imensamente.

Pesquisando na internet, descobri que o conto foi inspirado numa faixa homônima do disco Keith Jarrett no Blue Note, um CD de jazz que eu também adorei. Narrado em segunda pessoa, o que confere ao texto aquele tom saboroso de conversa entre amigos, ele trata basicamente sobre memória, mas não como Proust que tinha aquela obsessão em reconstruí-la. O recordar em “Dias de vinho e rosas” tem um quê de trágico, melancólico, invernal mesmo. E não poderia ser diferente, o que motiva a lembrança do personagem não é um biscoito que se mergulha num chá, mas, sim, um bate-papo com um ex-amante. Ele acorda numa madrugada fria de inverno e, sentado numa poltrona, de frente para uma janela, se lembra de uma conversa banal que teve ao telefone com Roy, um americano com quem dividiu a cama por seis anos e não o vê há quinze. A partir daí, emergem várias sensações desconfortáveis, próprias de rompimentos mal resolvidos.

Dito assim, à queima roupa, parece muito comum, até sem graça, mas não é. O conto está cheio de pequenos mistérios e para desvendá-los é preciso, pelo menos, uma segunda leitura. E não tenham medo de “chegar mais perto e contemplar as palavras”, para lembrar Drummond, são elas que nos conduzem a um ótimo desfecho, que não é tão revelador, já adianto, mas também não deixa de nos surpreender. Até prefiro esses finais mais epifânicos àqueles com revelações fantásticas. A imagem utilizada para simbolizar a “presença” incômoda do ex-amante, na vida do personagem, é perfeita: “A poltrona é velha e pouco cômoda. Está encardida pelo uso. Ela não combina com você. Você não combina com ela”. Também nunca tinha lido um texto com um narrador tão ambíguo. Dependendo do momento, ele pode ser confundido com um amigo íntimo, um analista, a consciência do personagem e, no finalzinho, até com o próprio escritor brincando num exercício de metalinguagem. Sem contar os tempos verbais passado/presente que se alternam o tempo inteiro. Mas o melhor de tudo é que o texto é leve, poético, de fácil compreensão. No final, fica bem divertido, o leitor se sente o próprio Sherlock Holmes rs. Não vou contar como termina, claro, mas o que posso adiantar é que o final tem a ver com a resposta para pergunta “Ficarei eternamente tirando água do poço com os baldes da memória?”, que o personagem se faz, logo no começo.

Além de toda a beleza do texto, de frases como “As árvores nuas são paus secos cinzentos e amedrontadores”, “Você pensa agora que o telefone é uma forma de encontrar uma pessoa sem verdadeiramente encontrá-la” ou a mais chocante “Ele serviu para me tirar a p.... dos colhões como um fazendeiro ordenha uma vaca leiteira”, enfim, depois de passada a euforia da descoberta do conto, fiquei pensando comigo, tenho três amigos na mesma situação do personagem: ex-amores que são como imensas poltronas velhas e encardidas em suas salas (vidas). Um quer a todo custo reformar a sua, não abre mão, os outros ainda não sabem se encaram um estofamento novo num modelo antigo ou se se desfazem delas de uma vez. A minha sugestão não deixa de ser também sustentável: doar para quem queira. Desapego total. E vocês o que acham? Bem, por hoje é só. Um ótimo final de semana a todos! Abração!!!

20 comentários:

Paulo Braccini disse...

Como são as coisas não é Luiz? Semana passada tomando um café com um amigo ele me referenciou sobre este conto "Days of wine and roses” [Dias de vinho e rosas] de Silviano Santiago. Fiquei super curioso em procurá-lo mas ainda não o tinha feito. E não é que vc vem aqui e agora com esta maravilha de resenha sobre a obra? Pois então, já correndo atrás para, se possível saboreá-la durante este final de semana q se prenuncia cinza e frio.

bjux

;-)

Rute disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rute disse...

Olá Luis , tudo bom?
Adorei a dica de leitura, vou estar procurando para ler também, obrigada.
ótimo final de semana a vc
Beijinhos

Edilson disse...

Boas leituas vão bem em noites tão frias, um bom café e o silêncio como amigo íntimo. Obrigado pela dica. Abraços querido.

Richard Mathenhauer disse...

Oi, Luis.
Confesso que não li seu texto. Voltarei e lerei. Só vi as imagens.
E seguindo-as, pensei que você não iria escrever nada, porque cada uma delas desperta tanta coisa, que é um texto sem palavras.

Grande abraços,

Visão disse...

Uma das qualidades que mais admiro em mim é a seletividade e o desapego. Amo e sou intenso, mas se me faz mal, eu deixo de amar. Sigo adiante e PONTO FINAL.
Vou ler o conto.
Bjs

Cristiano Contreiras disse...

Oi, Lui

Bela dica de leitura intensa...e, pelo que senti, também bastante prazerosa, né?

Engraçado que vinhos e rosas, em seus aspectos gerais, concebem uma noção e sensação de algo relacionado ao sentimento...à libido, ao sentir...

E gostei de saber do "teor" misterioso que encanta esse conto, preciso conferir, sentí-lo.

Um abração pra ti!
Espero conversar com você o mais breve...

Beijos também!

Paulo Braccini disse...

voltando para agradecer o carinho por lá ...

bjux

;-)

pauloveras disse...

Fabiano, seus comentários sao tão bem feitos e com detalhes, que desperta em nós uma vontade enorme de ver. Parabéns mesmo! Obrigado pela visita e já tô te seguindo.

Rodrigo Mendes disse...

Luis!
Vou pegar este conto Dias de vinho e rosas, pra ler! Eu gosto de ler contos, mas o meu gosto é Edgar Allan Poe, rs!

Este inverno em SP está bom demais, embora longe das praias, o centro, no inverno também fica misterioso, rs!. Vinho, um filminho e depois um livro destes. Boa dica!

Abs,
Rodrigo

Rodrigo Teixeira disse...

excelente leitura nessa tarde fria de Porto Alegre.


bom final de semana.
abs

Alex disse...

Adoro pessoas com sensibilidade pra ver a beleza que está à nossa volta, numa simples caminhada.
Vou atrás desse conto do Santiago!
Abração

Alex disse...

Suas fotos são encantadoras!

PS: Sobre as poltronas. Eu doaria. Faria alguém feliz, e me livraria de um incômodo. Tudo que não me é útil ou não me dá prazer, poderá ser útil e dar prazer a outro. E isso me fará feliz.

Fumaça Subindo disse...

me apaixonei por essas fotos

Cleyton Cabral disse...

Linda postagem. Vou agora mesmo atrás desse conto. Aquele abraço de inverno.

Renato Orlandi disse...

Vou anotar a dica para este inverno, já estou me cansando de ver filmes hehe, adorei as fotos, principalmente a dos banquinhos cobertos, dá uma sensação de solidão imensa. Abraçoo, boa semana!

Andrea Pagano disse...

Olá Luis,
Olha se fosse mais novinho até daria para ser mãe de um menino tão criativo como vc! Rsrsrsr
Obrigada pelo elogio ao nome, também achamos lindo e adequado à mesma, pois além de linda é muito tranquila e suave como uma Brisa...
Se aqui em Campinas (inetrior) os ventos e a chuva já estavam deixando tudo fora do lugar, fico imaginando ai...na praia...

Achei lindas as fotos da árvore, bem inverno, bem mistério, nostalgia pura, convidativas à um bom chá, uma poltrona confortável e um livro...Ah meu amigo, ainda levará algum tempo para que eu possa curtir a calmaria destes momentos...

Mas a vida é assim, sentir prazer nas calmarias, nas tempestades, no calor e no frio...Todos esses momentos nos proporcionam aprendizados e sentimentos incomparáveis!

Bjs e aproveita esse tempinho...

Louise Oliveira disse...

Interessante.
“Você pensa agora que o telefone é uma forma de encontrar uma pessoa sem verdadeiramente encontrá-la”
Eu estou nesse momento entre encontrar c a poltrona velha por telefone ou esperar uma nova. rss
Ameio o seu blog e os seus posts. Voltarei com certeza.
Te achei no blog da maravilhosa amiga, Andrea Pagano. rs
Bjs! Lu

Marcos Santiago disse...

Lá vem você aqui de novo e me instiga! agora to louco pra ler esse texto(risos)... Bom, obrigado pela dica... depois passo por aki, e comento dizendo se a leitura foi como proxima ao que espero (outros risos) obs: e espero muito...!
Abç

Fernando de Sá Leitão disse...

As fotos estão lindas, Fabiano. Sensíveis, expressivas, silenciosas e retincentes.

E o texto convidativo.

Abraços.