
Já, há algum tempo, eu queria contar essa história, mas, pela impossibilidade de atestar a sua veracidade, fui sempre adiando, mas nunca a esqueci. Como acabei de assistir ao ótimo Sexo, Histórias Y Cuentos de Cuba, de Ricardo Figueredo Oliva, achei que esta seria uma excelente oportunidade, afinal o documentário traz também um relato muito comovente e parecido com um que ouvi, um dia, numa padaria, no centro de Santos. Muitos não devem saber, mas em Santos existe uma rua que é famosa por suas prostitutas, a General Câmara. Dizer por aqui que alguma garota é da “General” causa uma enorme confusão. Claro que lá tem também outro tipo de comércio, mas é aquela história, fez a fama... Um dia, parei para tomar um cafezinho por ali, numa padaria bem simples, dessas com azulejos antigos nas paredes. Passou na rua uma dessas “meninas” (de vida fácil?), provavelmente voltando do serviço e todos os marmanjos ficaram de boca aberta. Era uma mulata altona, vistosa, se parecia mais com aquelas mulheres dos quadros do Di Cavalcanti do que com a Bebel. Pois bem, a mulata sumiu na paisagem, depois de vários comentários incentivadores do tipo "gostosa!" ou "puta mulherão". Quando o assunto parecia ter morrido ali, eis que um senhor, bem pitoresco, nos surpreendeu com esta: “As jineteras brasileiras não chegam aos pés de Glorita”. Ji o quê??? Ainda que o atendente me alertasse que aquele senhor, que era cubano, não era nenhum exemplo de sanidade mental, quis saber quem era a tal Glorita. Adoro gente, vocês sabem. Os nomes e outros detalhes eu fui inventando porque minha memória também não é de ferro.
A primeira coisa que me chamou atenção foi o próprio Seu Martín. Um cubano fora de Cuba, pelo menos pra mim, é tão raro quanto uma onça pintada passeando na Paulista. Ele me disse que, quando morava na ilha, conheceu uma moça chamada Glorita, uma “refrescante paisaje del placer”, com seus vinte e poucos anos. Que tinha um corpo esculpido pelo “diablo”. Dizia assim mesmo, com intensidade e gosto em usar aquelas palavras. Essa moça teria se encantado por um lutador de boxe famoso e ambos viveram, num certo período, as mil delícias do amor e do sexo. Pareciam uma “pareja perfecta”. Mas a gente sabe que Cuba é também uma ferida aberta no mundo, que embora a educação, a saúde e a música sejam ótimas por lá, existem também milhares de problemas de ordem política, econômica e social. E mesmo Glorita sendo amantíssima do seu lutador, ela queria se casar com ele com tudo que tinha direito. O que ela fez então? Bingo!!! Isso mesmo. Deitava e rolava com os turistas, à luz do dia, num hotel quatro estrelas, acreditando que ninguém nunca descobriria o seu ofício secreto. O fato é que uma vizinha, que também estava de olho no seu homem, descobriu tudo e a desmascarou. Vou encurtar. Aconteceu o flagra e Glorita teve até que atravessar uma famosa praça de Havana enrolada num lençol, deixando para trás uma turma raivosa que lhe dizia as maiores barbaridades. Aquela história do “taca pedra na Geni” que a gente tanto conhece. O problema maior não era nem o que ela fazia, às escondidas, porque a prostituição em Cuba, de uma forma ou de outra, sempre esteve às barbas de Fidel, o que pegou mesmo foi o fato dela ter “manchado” a imagem de um herói nacional. E desonrar um herói em Cuba é coisa muito séria. O tal lutador teria até perdido uma luta importante por causa disso. Mas o que mais me chocou é que Glorita já teria sido cafetinada pela própria mãe para comprar um vestido de debutante. Um relato parecido consta no documentário supracitado, uma menina de doze anos tomou a decisão de ir pra cama com um homem de 48, para comprar o seu material escolar. Pra ela tudo não passou de “uma troca”. Forte, não? O documentário está disponível no You Tube.
Tenho muita vontade de conhecer Cuba, principalmente aquela famosa escola de Cinema, acho que lá deve ter uma energia bacana, muito parecida com a que senti em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em fevereiro. E depois adorei também “Antes que Anoiteça” (livro e filme), sobre o escritor Reinaldo Arenas, “Trilogia Suja de Havana”, de Pedro Juan Gutiérrez e o açucarado “Morango e Chocolate”, que revejo sempre que posso, e tem ainda aquele CD incrível da Omara Portuondo com a Bethânia... Bem, recomendo todos. E vocês tem vontade de conhecer Cuba também? E o que acham de Fidel Castro? Ditador implacável ou velhinho generoso? Fiquem à vontade para deixar suas impressões. É isso. Tenham todos uma ótima semana. Abração!!! P.S. A linda imagem que encontrei num site dinamarquês, infelizmente sem crédito, se refere tão-somente à Havana.