quinta-feira, 22 de abril de 2010

A VIDA COMO ESPETÁCULO


Quando soube do outing do cantor Ricky Martin, pela internet, sinceramente não imaginei que fossem fazer tanto barulho. Não se trata de ingenuidade, mas me perguntei exatamente como milhares de pessoas: Quem já não sabia?”. A imagem dele que está na ilustração que fiz, por exemplo, não deixa a menor dúvida. Mas, claro, fui ao blog e li o texto. Achei bonito, honesto, aliás, fiquei até feliz por ter sido dessa forma. Ponto para nós blogueiros. Digo mais, até brindei o fato com uma amiga, de pura sacanagem. E nem pensei em comentar nada aqui, juro. Esse é o tipo de coisa que considero extremamente particular, não importa se a pessoa é anônima ou celebridade. Mas, depois, começaram a pipocar comentários na mídia do tipo: “E o Ricky Martin, hein? Gay. Que desperdício!”. Parecia que o cara tinha deixado inúmeras viúvas inconsoláveis. E, de repente, aquele gesto superbacana virou motivo de piada. Soube até que, aproveitando a oportunidade, os humoristas do CQC espremeram o jornalista Zeca Camargo contra o armário. Fiquei me questionando. Onde está a graça nisso? Pra que essa espetacularização em torno da vida íntima das pessoas? Só por serem figuras públicas? Já não chegam os imprestáveis BBBs e coisas do gênero?

E como se não bastasse toda a especulação sobre o possível dono do coração do cantor, ainda surgiu, em horário nobre de uma TV brasileira, um carioca pra lá de oportunista, que tinha sido muito “amigo” dele, no passado, querendo tirar uma casquinha do fato. Muito tosco, para dizer o mínimo. A pergunta final da apresentadora foi tão previsível quanto a resposta do infeliz. Reproduzo aqui com alguma fidelidade. “E se você fosse convidado para posar nu numa revista gay, você toparia?”. O que vocês acham? Claro, o pobre-diabo respondeu que sim, sem sequer parar pra pensar. Cai o pano. Ah!, já ia me esquecendo. Não assisti também à reportagem do Fantástico, mas soube que nela o cantor baiano Netinho, entrevistado pela repórter Renata Ceribelli, confessou ter tido um relacionamento homossexual, mas, segundo ele, a sua participação no programa foi prejudicada pela edição. Também usou a internet, mas, no seu caso, para protestar. Tentei consolá-lo, via Twitter, com uma frase da escritora Lygia Fagundes Telles, bem apropriada para o momento: “Eu respeito o mistério de cada um, como espero que respeitem o meu”. Ele fez um muxoxo, disse que a frase era muito boa, mas que “isso precisa ser mudado”. Imagino que o Miguel Falabella deva estar se inspirando bastante para a sua “A Vida Alheia”, espécie de prima pobre de uma série norte-americana chamada “Dirt”, a que assisti uma única vez, mas que também não vi muita graça. Pelo menos na nossa versão, tirando pencas de clichês, tem aquele humor ácido e sem vergonha do Falabella, espero que emplaque.

Mas nada disso supera em ignorância, para ser bemmm romântico, uma entrevista que o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, concedeu a diversos jornalistas, na sua recente viagem ao Chile. Ele não só relacionou a pedofilia à homossexualidade como disse estar respaldado em estudos psicológicos e psiquiátricos. Seria interessante o Vaticano tornar públicos esses estudos, porque vi diversos profissionais da área, sérios, competentes, afirmando o que todos nós também já sabíamos: não existe nenhuma relação de uma coisa com a outra. Abro aqui um parêntese. Não quero causar nenhuma polêmica, apenas para efeito de reflexão. No dia do meu aniversário, minha mãe me presenteou com um livro chamado “Quem me roubou de mim?”, do midiático padre Fábio de Melo. Talvez, ela imaginasse que estivessem ali todas as soluções para os meus problemas, mas isso não vem ao caso. Ocorre que, logo no início, ele escreve exatamente assim, mais didático impossível: “A identidade nos diz sobre nós mesmos. / Ao identificar que sou Fábio, naturalmente estou dizendo que não sou Fernando. A identificação é também diferenciação, porque toda afirmação há sempre uma infinidade de negações latentes. / Essa identidade necessita ser cultivada”. Bem, tirem as suas próprias conclusões. Fecho o parêntese. Na semana que vem, aparecerei com novidades a respeito da escritora Clarice Lispector. Não percam! E tenho vários blogs para visitar. Abração a todos e um ótimo final de semana! P.S. Alguém tem aí algum CD do Ricky Martin pra me emprestar? rs.

17 comentários:

Robson Schneider disse...

O problema dos rótulos é que eles sempre limitam seus receptores a tudo o que esta escrito neles...Mudar de idéia por exemplo virou sinônimo de "falta de personalidade"...
Ser escravo da placa que você carrega é o fim...
Abraço

Athila Goyaz disse...

Não sei o que tanto esse povo viu nisso, dexa o cara e ainda ficam levantando especulações com o povo daqui rs.

Gostei da sua montagem, é o tipo de imagem que toda adolescente dos anos 90 queria ter como capa de agenda.

Belissímo texto do P. Fábio de Melo, bom gosto da sua mãe!
Abs

Mauri disse...

Olá, obrigado pelo comentário =) Ajudam muito nos momentos confusos.

E eu nao tenho CD do Ricky, mas tenho twitter hehe.. @mgoncalvs. Te vejo lá, grande abraço.

RAFAEL disse...

O bom da internet e mais precisamente dos blogs, é ter contato com textos tão bem elaborados qto esse que acabo ler.
Concordo contigo que Ricky Martin deu o seu passo mais importante, talvez por algum motivo promocional ou não, isso é problema dele. Mas a especulação feita com outros artistas chega as vias da falta de respeito. Qto ao brasileiro que diz ter sido "amigo", é um pobre coitado que quer 2 minutos de fama, nem 15...pq não vai durar isso.
Prefiro o padre Fabio ao Marcelo Rossi. Não li nada dele ainda, mas fiquei curioso.
Qto a discos do Ricky Martin, engraçado que uma semana antes da revelação bombastica, a menina que trabalha comigo me pediu que baixasse algumas coisas dele da internet. Como não sabia oq, peguei a discografia completa...se quiser é só dizer...rs rs rs...coloco no 4shared e vc vai la baixar...rs rs rs...Não vou fazer comentario algum sobre isso, mas que She Bangs ta tocando no meu playlist, isso tá...rs

abração

Larita disse...

1, 2, 3! Quem nunca se divertiu de alguma maneira com as músicas dele, não é mesmo? Antes de julgar, é bom dar "un pasito" pra trás.

Eu não me assustei com a notícia, pois como você eu já suspeitava disso. Mas, confesso que fiquei triste.

Pra mim, esse assunto não é polêmico, não mais, porém, é bem pessoal. Tanto para ele quanto para cada um que tem sua opinião a respeito, não sobre ele, mas sobre a homossexualidade. A minha opinião acredito que você já imagine pelo o tanto que me conhece e por saber no que e em quem eu creio.

Respeito, como respeitaria qualquer pessoa. Mas, o respeito não me faz concordar e não impede que eu me entristeça.

Confesso que pensei em não comentar, mas...aqui estou. Talvez não dizendo tudo o que eu gostaria, mas que por agora basta.

Amooo vc, Little S.!

!Psiu.: bela arte!! xD
Parece capa de caderno; coisas de "Capricho" !!

Gilson disse...

Luis

Perfeito, o Rick fez o que todo mundo sabia, mas resolveu acabar com especulações, essa é a escolha dele e ponto, quem gostar realmente dele tem que gostar como ele é. Acho que deve ser um grito de liberdade para a pessoa ou uma carta de alforria da sociedade discriminadora. Fico irritado como você quando escuto essas barbaries da midia especulativa e sem assunto. O que o pobre do Zeca Camargo tem a ver com a declaração do outro, ele faz a dele se quiser.
Hoje, embora Católico acho que a igreja é a que menos pode falar sobre qualquer tema de sexualidade, agora fazer uma comparação imbecil dessa de que pedofilia é igual a homossexualismo foi a mais clara identificação de burrice.
Agora vamos a parte mais amena da coisa, esse São Jorge na camiseta do Rick Martin parece estar bem próximo da imagem, gostaria de ver.
Ah e o quadro com o emblema do Botafogo, vai postar quando?????
Amigo Luis, achei o post de uma clareza e com um dialogo com os fatos recentes perfeito.
A frase da Lygia caiu como uma luva ao texto. Já o livro de padre Fabio eu ainda não li, me falaram que ele aborda mais o tema de como o mundo e a sociedade nos acorrentam nessa vida. Mas vou dar uma olhada agora só de curiosidade.
Um cd de Rick...rs..rs....nisso eu não posso te ajudar...rs..rs.....

Tiago Gouveia disse...

É só uma manifestação do nosso espírito da época. Eu poderia dizer que como já exploramos tanto o universo heterossexual, e como não há mais nenhuma novidade em fazer isso, temos que olhar um pouco pro diferente. E também porque estes símbolos representam a crise da heteronormatividade. Foram anos de sex symbols, e sim, foram um disperdício pro mundo hetero. Acho que o Ricky Martin tem algo a mais para nos dizer, algo fabuloso. Ele nos diz: TUDO O QUE PARECE É. Não, não adianta disfarçar, não precisa mais agradar, fazer tipo. Se você me remete a isso, é porque não tem salvação. Ricky é um cupim! Embora eu pense que esmagá-lo assim como o Zeca, ou o Netinho, é uma forma de negar uma natureza homoafetiva que não escapa a nenhum ser humano. Que bom e tomara que vocês saiam do armário, assim eu posso te apontar, te satirizar e ficar feliz com as minhas bucetas e as minhas picas clandestinas.

Paulo Braccini disse...

Mais uma vez brilhante sua proposta e sua contextualização sobre a questão ... O problema do SER é a sua eterna incompetência para SER ... assim, ele se debruça sobre o SER do OUTRO para esconder a sua incapacidade de se reconhecer e se construir como tal ... Abaixo a mediocridade, abaixo a tudo qto seja intromissão no SER do outro ... que cada um cuide do seu EU se é que tem alguma competência para isto ...

bjux

;-)

Visão disse...

Sair do armário é complicado e quando famoso é muito pior. Miguel Farabella disse que estava fora de moda sair do armário, e que ele só se interessa pela sexualidade de quem ele quer pegar.
Enquanto ao Vaticano, você já ouviu falar que o culpado sempre está em busca de alguém ou de algo para por a culpa? Começou com Eva colocando a culpa na serpente e Adão culpando Eva por ter comido a maçã.
Eu sou gay, mas isso não quer dizer que eu fique molestando crianças por ai, ou as pessoas tomam consciência disso, ou quando pensar que não, todos estarão escondendo seus filhos de homossexuais, associando pedolia a homossexualidade. Tenho medo disso.

Marcos disse...

Muita pretensão achar que Ricky Martin é das mulheres ou dos homens... ele é de quem escolheu para estar com ele... Precisamos para de nos preocupar com que as pessoas vão para cama... eu não quero saber o sabonete que as pessoas usam, a marca da cueca, porque essas coisas não mudam como me relaciono com o proximo. A personalidade e o carater da pessoa é mais importante que sua opção sexual. A "midia" é oportunista...rs...rs. O que importa é que o cara é bom, bonito e faz sucesso!!! sorte dele!
Abçs

Fernanda disse...

Nós brindamos mesmo! Pelo Ricky Martin, por você, por mim e por todos que de uma certa forma todos os dias saem do armário! Pessoas famosas ou anônimas que não têm medo de ser o que são, homossexual, hetero,que são declaradamente ciumentos, que sentem e vivem com transparência neste mundo hipócrita onde só querem ver ou saber do seu pequeno mundo "cor de rosa", sem se importar com o ser e sim com o ter, sem se importar em ser feliz e sim com o "aparentemente" felizes!
Não! Basta! Saiam do armário todos aqueles que estão cansados de fazer carinha de bom moço para aquele que fala algo incoveniente e brindem a vida, pq ela passa voando e todo mundo acaba do mesmo jeito!

Richard Mathenhauer disse...

... as pessoas andam pelas ruas desconfiando de tudo, mas desacreditando que todos já saibam.

Creio que no caso dele, falar, é como se diz: liberta. Daqui pra frente, falem o que quiserem.

Agora, digamos, ele possa viver como aquele autor (Gide ou Jenet, não sei) amando às claras e não mais às ocultas (embora todos os holofotes sobre ele desde sempre!

Gosto do seu espaço.
Forte abraço,

Arthur Alter L. disse...

Meu caro faz tempo que não passo aqui...
Achei muito contundente sua postagem, teria tantos aspectos a serem comentados, mas me atenho a questão da identidade pois acho que foi o foco central de sua postagem. Daí, identidade é o que temos de mais sagrado, no entanto por uma série de razões muitas vezes sufocamos nossa identidade, sufocando junto com ela a manifestação de nosso ser. Quanto ao direito de cada um se manifestar, há o princípio do mais sagrado fenômeno, o direito a ser o que se é e ser feliz nessa condição. Ao entendermos isso, entederemos que a vida e nossa identidade e uma sucessão de eventos, e que fatalmente essa sucessão desenboca na manifestação oculta ou revelada daquilo que somos.
E de uma forma ou de outra uma nega a outra e revela caracacterísticas que vão levar à conclusões que ninguém, nem nós mesmos podemos negar sempre, daí a necessidade de se revelar.
Quanto ao CD do R.Martin, eu tb não tenho rsrsrs. (Ainda fico na leitura (Identidade+Luis Fabiano+CD+sucessão de eventos)rrsrs inevitavelmente você consegue ser o melhor de você em tudo que você faz se manifestando na medida e no tempo exatos, tornando se um ser aí, um sendo maravilhoso e sem medo da vida. O que é o mais importante de tudo.
Um abraço e desculpa a divagação filosófica.
Aparece.

pauloveras disse...

Ola Luiz Fabiano, acabei caindo aqui através de outros blogs. Que bom!
Muito oportuno a sua reflexão sobre a sexualidade do Rick. Muito bom mesmo.

Fico contente, quando encontro por aqui bons assuntos pra ser ler e comentar.

Abraços e boa semana.

Jay e Alê disse...

Amigo,
Saudades, saudades imensa!
Seu brilhante post foi muito bem comentado. Vou me dispensar de comentá-lo apenas endossando o todo ja falado. Me lembro de alguns tantos meses atrás quando esse blog recebia 2 ou 3 comentários rsrs eu sempre insistia em passar aqui porque sempre acreditei em seu talento. Ooopss deixa isso pra lá. Acho que na casa de minha mãe tem um LP do Menudo kkk vc quer? o Rick fazia parte kkkk?
abraço com o carinho de sempre.
Jay e Alê

GilsonBicudo disse...

Luis,

Eu tive uma reação bem parecida com a sua. Num primeiro momento achei trivial e me perguntei: “uai .... mas ele já não está “out and about” faz tempo?” Não dei importância. Não considerei notícia.

Num segundo momento, com as primeiras repercussões e lendo o depoimento dele, comecei a achar importante a atitude dele. Afinal, ele tem uma imagem e um comportamento, enquanto artista, bastante positivos. Achei que isso poderia contribuir para melhorar a figura do gay no imaginário coletivo. Um certo contraponto mesmo aos tipos carregadíssimos de estereótipos que o BBB mostrou diariamente à massa por meses a fio.

Num terceiro momento, o atual, com o tamanho que isso tomou e os desdobramentos que ainda vão surgindo, reconsiderei minha idéia anterior. Principalmente porque um ato de coragem, de verdade e de profundo respeito por seus fãs, virou piada e motivo de escárnio, sobretudo por parte dos próprios gays.

Talvez, evidentemente sem cair no teatro da namorada/esposa de fachada, assumir não seja tão relevante assim. Muitos dos meus amigos gays não passaram por esse momento, falado ou escrito, de “revelação”, nem mesmo com suas próprias famílias.

Isso não significa que tiveram ou têm uma vida menos verdadeira nem que caíram na enganação. A verdade da condição foi aparecendo aos poucos no decorrer dos anos e dando tempo pra que todos pudessem ir se ajustando, se aceitando e aprendendo a se respeitar. Era a namorada que nunca aparecia, o amigo íntimo (namorado) que começa a freqüentar a casa, etc.

Eu só temo que no futuro o Ricky Martin venha a ser mais lembrado pelo seu “outing” do que pelos Menudos, o um-dos-tres, etc ....

Abs,
GB

NIEDJA GUEDES disse...

Bem, como vc disse "Quem não sabia?" Tinha lido uma livro da Narcisa Tamborindeguy no qual ela falava sobre a preferência sexual de um canto portoriquenho de forma implícita. Identifiquei logo quem era. Daí isso não era novidade para ninguém. Houve um alarde, sim. mas, também muitos sairam do armário depois dessa revelação do Rick. Gostei muito disso! Fiquei surpresa foi com o Richard Gere. Nossa! Mas é melhor sair do armário, do que se enganar e enganar a muitas mulheres, né? É um desperdício de emoções das mulheres para quem nem quer saber delas! E o mais importante é que sejam felizes! Ficar enganando os outros é covardia, né? Prefiro mil vezes a verdade que dói, do que a mentira que ameniza! Estou fora! Quanto ao Falabella... Amo o Falabella. Ele é devasso! (Oh! Isso é um elogio, hein! Seria ótimo se ele fizesse Calígula). Os textos dele são ótimos, humor inteligente. Gosto disso! Bjs.