
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
ESCAPISMO URGENTE

terça-feira, 18 de setembro de 2007
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
IMPRESSÕES AVULSAS
Tive uma idéia superbacana para o aguardado ensaio fotográfico da Mônica Veloso, na revista Playboy. Ela deveria aparecer na última página comendo uma “inocente” pizza. Pensei até numa foto em PB, tipo aquela da Madonna do livro Sex. Já que, quando se trata de corrupção neste país, tudo termina em pizza mesmo, seria uma forma de reafirmar o óbvio ululante (inevitável o trocadilho com o molusco presidencial). E, cá entre nós, seria uma jogada de marketing e tanto!
ENTRE LIVROS
Recentemente passei por uma fase bem complicada e ler foi uma espécie de “descanso na loucura”. Começo indicando “Werther”, de Goethe, que eu já havia lido na faculdade, mas que nesta releitura vi coisas incríveis como a fluência extraordinária do texto, algo bem atípico em livros românticos. Há trechos saborosos como este: “Por que é que aquilo que faz a felicidade do homem acaba sendo, igualmente, a fonte de suas desgraças?”. “Duas Ou Três Coisas Que Sei Dela, A Vida”, do Domingos Oliveira, é um livro excelente para quem busca algumas respostas da vida, mas não tem idade suficiente para entendê-la (o meu caso) ou não quer ficar enchendo o saco dos pais ou amigos mais velhos perguntando sobre ela (o meu caso também). E o melhor de tudo: não é auto-ajuda. Quando assistia o programa dele no Canal Brasil, ele não me inspirava o menor dos adjetivos, mas agora tenho vontade de conhecer a fundo tudo que ele já fez. Virei fã mesmo. “Solo de Clarineta – Vol 2”, do Erico Verissimo, não chega a ser tão bom quanto o Vol 1, que li no último verão, mas está repleto de boas dicas de viagem para quem deseja conhecer a Grécia, Portugal e Espanha. Reli também “Laços de família”, da Clarice Lispector, acompanhado de um roteiro de leitura, que fez toda diferença na hora de entender alguns contos. Os que mais me impressionaram foram “O Crime do Professor de Matemática” e “O Búfalo”. Do livro “A Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade, li e reli diversas vezes “Consolo na Praia”. Não há um só verso com o qual eu não me identifique ou que não tenha alguma relação com a minha mudança de vida recente. Numa tarde cor de aço, coração opresso, me sentei nas pedras da Ponta da Praia, em Santos, sem me dar conta de que inconscientemente estava protagonizando aquele poema. Um desses raros momentos de beleza triste de nossas vidas. Outro livro que gostei bastante foi “Uma escola para a vida”, de Muriel Spark, escritora escocesa que possui uma sensibilidade incrível. A história do jovem Chris (às voltas com o seu primeiro romance) e do frustrado professor Rowland Mahler (que não consegue terminar o seu) é repleta daquele humor que os anglo-saxões são mestres. Lembra muito Nick Hornby e Sue Townsend. O final surpreende. Comecei também a ler “Neve”, de Orhan Pamuk, o incensado escritor turco ganhador do Prêmio Nobel de Literatura do ano passado. Indicação da minha amiga Fernanda, que tem livros ótimos e que espero ler todos um dia (risos). Há uma frase nele que curti bastante e que tem tudo pra se tornar uma das minhas favoritas: “Se alguém passa muito tempo se sentindo feliz, se torna banal”. Bem, por ora é só.
DOIS CÔMODOS AJEITADINHOS
E o último CD (duplo) da Ana Carolina, hein? Impossível não ouvi-los sem sentir a mesma estranheza de quem lê pela primeira vez “Deus (Revelação Magnética)”, de Alan Poe. Afeito aos diminutivos, comecei pelo “Quartinho”. Não sei por que razão me veio à cabeça a imagem de um quartinho de empregada (e de minha parte não há nada de pejorativo nisso), onde, longe dos olhos dos patrões, o pequeno cômodo serve de cenário a toda sorte de jogos eróticos (e a partir daqui a imaginação é por sua conta). Gostei bastante de “Então Vá Se Perder”, “Carvão”, “Manha”, “Corredores”, “Eu Não Paro” e “Claridade”. Sim, sou um cara romântico e gosto de músicas piegas. Li recentemente que os trabalhos anteriores dela são melhores. Concordo em parte. Só pela coragem de ter lançado um CD (duplo) com músicas inéditas ela já merece quinze minutos de aplauso. As malditas regravações parecem não ter fim neste país, meu Deus! O que houve com os compositores brasileiros? Greve? Bloqueio criativo?... Mas, voltando, o CD não foge a fórmulas já consagradas como as baladas que sempre viram temas de novela, mas também há lá seus experimentos, o que eu acho extremamente positivo. “Quarto” é mais sofisticado, mais dançante, mas também tem o seu quê de “despudor”. Por falar nisso, fico ruborizado de cantar algumas músicas (de ambos os CDs) em público ou mesmo deixar que a minha mãe as ouça na minha presença. Longe de qualquer moralismo, mas ficaria muito constrangido de ouvi-la cantando, por exemplo,... Bom, deixa pra lá.
A PONTE E O ABRAÇO
Antes de sair de casa, ainda relanceei os olhos na direção dos móveis, livros, das flores murchas sobre a mesa, da cama ainda desfeita e, lá fora, do que restou do jardim. Tudo já morto. Tranquei a porta. Pacientemente. Confesso que a única coisa material que temi deixar para trás foi aquela porta. Gosto tanto de portas e janelas. Abertas ou fechadas elas são sempre essenciais. Eu nunca fui essencial. Depois de atravessar a rua, segui para a Ponte da Saudade. Era irônico morrer logo ali, num lugar tão óbvio, mas não havia outro melhor num raio de cinco quilômetros, o máximo que o meu corpo suportava caminhar. O caminho era de chão batido. Toda vez que algum carro passava, deixava aquele rastro vermelho e serpenteado na estrada. De vez em quando eu parava e enchia os bolsos com pequenas pedras. Uma tosse aqui e outra ali. De volta à minha marcha, estranhei a minha mudeza de pensamentos. Melhor assim. Oco.
A ponte já estava dando na vista. O sol indo embora. Eu indo embora. Precisei me certificar de que não vinha nenhum carro, nenhum tropeiro ou vivalma. Agora já estava muito perto de me expulsar do mundo, longe dos olhares piedosos daqueles que me cercavam com negligência. Com o coração repleto de um não querer viver, cheguei à beira do imenso vão que circundava a ponte. Cairia em queda livre e o meu corpo tocaria o rio lá embaixo, sem grande esforço. Houve tempo apenas para o sinal da cruz. De repente, surge uma voz melodiosa atrás de mim: “Com a sua licença. Posso lhe pedir um favor?”. Muito sério, voltei meu corpo em direção àquela criatura que aparecera não sei como, vinda não sei de onde. Ainda esfreguei bem os olhos para ter certeza do que via. O ser era baixote e com uma cara muito descorada, olhos de um verde quase transparente, os cabelos alourados e a pele muito alva como a de um anjo. Trajava uma roupa muito simples de algodão e uma mochila nas costas dava-lhe um ar irresponsável de viajante. Um menino na idade. Meio desconfiado, fui logo lhe pedindo para ser breve.
- Não faça cerimônia porque tenho pressa. Antes me diga apenas uma coisa, você vem de onde? Ainda agorinha olhei pra tudo quanto é canto e não vi sombra.
- Acabo de chegar da cidade, já andei bem umas duas léguas.
- Procurando trabalho?
- Não senhor.
- O que quer da minha pessoa?
- Um abraço.
Quando ele me disse aquilo, assim, numa golfada, tive ganas de mostrar-lhe as minhas forças, mas me contive porque não se bate em doente de cabeça. Idéias do meu pai, seu Sebastião, que Deus mantenha embaixo de glória.
- O amarelo tá brincando comigo? Que história mais besta é essa de abraço? – rebati.
- Abraço é tão bom.
- Eu não sou desses por aí não, viu? Honro muito as minhas vestes.
- Nem pensei...
- É bom mesmo, porque senão iríamos rolar os dois por este chão e só eu haveria de me levantar vivo.
E ainda havia a desagradável sensação de estranheza ao vê-lo ali a suplicar-me um mísero abraço. Um encontro gratuito de corpos, mas que desnudaria a minha fragilidade para o mundo inteiro. “O rei está nu”. Quando, enfim, nos enlaçássemos, talvez a grandeza do meu espírito se restituísse ou então, consciente de que era inútil ser salvo, eu continuasse a me abandonar para sempre. Querendo fugir do meu compromisso, tentei investigar de onde vinha aquela querência por um abraço, mas nenhuma de suas respostas me foi satisfatória.
- Não lhe conheço. Não é meu parente. Não é criança – neguei três vezes.
- E tem idade certa, grau de parentesco ou precisa ser criança para receber um abraço? – ele me contradisse automaticamente.
- É melhor você não insistir, porque estou ficando nervoso.
Diante das minhas negativas freqüentes, o sujeitinho decidiu seguir a sua viagem. Eu é que já tinha me apegado a ele. E reparando nos meus bolsos cheios de pedras, ele achou que eu colecionasse os pequenos seixos. Aquela sua ingenuidade vulgar é que o confundia com um desses muitos sonhadores de estrada. Confesso que ainda lhe disse qualquer coisa de atravessado, no que uma grande culpa logo se desenvolveu dentro de mim. Resolvi então pôr termo naquele sofrimento, apalavrando o tal abraço, mas que ele não se aproveitasse além do permitido. Sorte houve que ninguém passou por aquele caminho, naquela hora e mais meia. A noite também já se achegara.
- Não serve um aperto de mão? – ainda perguntei.
- Não senhor. Apertos de mão são cumprimentos involuntários e abraços são atos de generosidade. Se o senhor acha que eu não mereço...
Não havia mais tempo de voltar atrás. O abraço foi dado e eis o milagre. Perdoem-me a traição da minha memória, mas lembro-me apenas dos meus olhos se rendendo às lágrimas, um arfar de peito e um sorriso franco e largo desenfreando-se na minha boca. Ainda pude ver, enquanto caí estendido no chão, um pequeno halo de luz suave que inquietou os meus olhos e de repente sumiu. Mais nada. Quando tornei a mim, olhei em volta procurando o ser baixote, mas ele já havia desaparecido. E só então compreendi que eu estava nascendo de novo.
domingo, 26 de agosto de 2007
INILUDÍVEL SOLIDÃO
TOMANDO O PULSO
COMO NÃO ESCREVER POEMAS
TERÇA-FEIRA. A obsessiva vontade de escrever um poema começa a me tirar o sono. Passei a madrugada inteira na tentativa e erro. Deu erro de goleada. A folha de papel permaneceu em branco, mas fiz questão de picá-la em mil pedaços.
QUARTA-FEIRA. Chego à conclusão de que escrever poemas não deve ser mais difícil que ir à Lua. Mas também isso não acrescentou uma única palavra numa outra folha em branco que deixei sobre a mesa. Começo a pensar que o problema talvez esteja na cor da folha.
QUINTA-FEIRA. Estou quase desconsiderando a conclusão do dia anterior (somente no que se refere à dificuldade em escrever poemas). Desconfio que poetas são seres divinais. Tornou-se rotina triturar folhas de papéis. Até o envelope cor de laranja foi guilhotinado.
SEXTA-FEIRA. O dia mais irresponsável da semana me afasta momentaneamente da possibilidade de escrever meu único poema. Tomei algumas batidas de frutas para desinibir meus pensamentos. Vomitei todo o meu quarto.
SÁBADO. Dor de cabeça. Recuso o futebol e não me acostumo à idéia de que escrever poemas está me deixando quase louco. Mas ainda não é hora de jogar a toalha. Um sábado à noite pode ser inspirador.
HISTÓRIAS DE QUINTAL
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
SERÁ QUE CONSEGUIMOS?

"É preciso amá-la (a Pátria) gloriosa ou obscura, próspera ou desgraçada".
Lygia Fagundes Telles – "As Meninas (1975)".
SÁBADO DIFERENTE
BLOQUEIO
– Bloqueio?
– Exatamente. É normal. Todo escritor já passou por isso. Sabe aquela luta contra uma folha em branco?
– O senhor escolhe tão bem as palavras, mas a minha luta é comigo mesma. Eu sei. Eu estou obstinada para escrever um grande romance, mas sequer consigo ter uma idéia de que me orgulhe. Nem umazinha. Nada. Eu sou a própria folha em branco, isso sim.
– Você deve estar exausta de extrair de si mesma sempre novas histórias. Tire umas férias. Conheça novas pessoas. Novas emoções vão ser úteis para o seu próximo trabalho. Você é tão jovem...
– E tão imatura, tão sem assunto, tão sem graça. Uma fraude! Não é isso que o senhor ia me dizer? Passar bem.
Clara pensou em chorar, mas achou-se ridícula chorando ali na rua, por causa de um bloqueio criativo. Talvez fosse melhor se desabafar com alguma amiga. Mas que amigos? Os poucos que cambaleavam no seu círculo de amizades não suportavam literatura. Ainda assim tentou a sorte. Quem sabe Catarina, a única que conseguiu concluir o ensino médio, pudesse lançar um ponto de luz naquela sua escuridão sem fim. Terminou ouvindo um conselho nada animador.
– Por que você não deixa para sofrer, no domingo à noite, quando já é inevitável. Eu empurro todos os meus problemas pro domingo à noite. Peço uma pizza. Como feito uma louca, sem culpa, enquanto escuto aquela musiquinha insuportável do Fantástico. Depois tomo os meus comprimidinhos para dormir e só acordo, na terça-feira. Sim, porque segunda-feira me deprime mais ainda...
Saiu decepcionada. Fora incapaz de construir amizades produtivas. Há tempos também não amava. Não conseguia amar a própria mãe. Estava oca em todos os sentidos. Quando conhecia alguém interessante, imediatamente não o imaginava tornando possíveis suas segundas intenções. Até o suicídio fora adiado centenas de vezes. Ao tentar atravessar a rua, completamente presa a suas angústias, Clara sentiu quando alguém lhe puxou o braço. Mal teve tempo de ouvir o motorista vociferando qualquer coisa de dentro do carro e partir.
– O sinal estava fechado.
– Sinal? Que sinal?
– Aquele dali. Agora já abriu. Você está bem?
– Só um pouco assustada. Foi tudo tão rápido.
– Acidentes acontecem num piscar de olhos. Assim diz o meu pai.
– Eu ando tão dispersiva ultimamente. E logo nesta cidade onde as pessoas parecem programadas a fazer só o que é certo. Erros são intoleráveis em São Paulo.
Por alguma razão o rapaz, sim era um jovem de vinte e poucos anos, não conseguiu deixá-la ali, sozinha. O dia indo embora. Tantos perigos. Ofereceu sua companhia até encontrar um táxi. A estação do metrô também não estava longe.
– Obrigada. Eu moro perto.
– Se quiser posso acompanhá-la. Estou sem fazer nada mesmo.
Sentaram-se para um café e nunca mais se deixaram.
100 ANOS DE ENCANTAMENTO
sexta-feira, 20 de julho de 2007
DIAS DE INVERNO

Dia desses, sonhei que um avião se despedaçava, no quintal da minha avó. Acordei ofegante, mas, em seguida, suspirei aliviado. Sonho é sonho. Novamente dormindo, dessa vez com a TV ligada, sou surpreendido com a notícia da tragédia com o avião da TAM. Fiquei e ainda estou perplexo. Aliás, acho que ninguém deveria perder a sua capacidade de indignação, sobretudo nesses momentos. Fica aqui a minha solidariedade às famílias das vítimas.
O REENCONTRO
– Não posso demorar muito. Só vim mesmo porque ainda te considero. Saí de casa feito uma doida. Só fui perceber que tinha esquecido o guarda-chuva, quando já estava no ônibus. Aproveitei que estava por aqui mesmo e fui dar uma espiadinha no mar. Coisa rápida. As ondas tão violentas! Se me atrasei, foi pouco. E que lugarzinho este, hein? Tive que subir em dois pulos. No meio da encosta, uns pedreiros começaram a mexer comigo. Fiquei assustadíssima. Ah, desculpa. Eu e minha mania de falar pelos cotovelos, não é? (seca) O que você quer comigo?
– Você.
– Por favor, Marcelo. Você não me chamou até aqui pra me dizer isso, não é? Francamente.
– Não.
– Ah, fico mais tranqüila. Então desembucha de uma vez, porque daqui a pouco vai escurecer e eu preciso voltar pra casa. Você sabe que eu não tenho condução própria. Ainda. O Mourão prometeu tirar uma moto pra mim. Seminova, pra começar. Eu nem deveria tá te contando essas coisas, porque você pode achar que é pra te fazer ciúme, mas eu juro que não é a minha intenção. (desejando mudar de assunto) Só, ontem, fui me dar conta de que estou namorando, pela segunda vez, um cara com a letra M. Que coincidência, não é?
– Verdade.
Letícia olhou em redor, contemplativa.
– Lembro como se fosse hoje a primeira vez que você me trouxe aqui, naquele fusquinha do seu amigo. Transamos e tudo. Eu era tão boba. A subida foi um sacrifício, mas depois valeu a pena. Tenho até um pouco de saudade daquela época, sabia? Você pode não valer um centavo, mas tem uma pegada! O Mourão que não me ouça, ai meu Deus! Essa chuvinha fina também me deixa nos nervos. Fica esse chove não molha. Ô, São Pedro, se decide né, meu nego? Por que você também gosta tanto de chuva, hein? Que troço estranho.
– Porque ela só vem quando quer. Não é intrometida como o sol.
– Sempre essa mania de ser diferente. Você não muda mesmo.
– Você quer que eu mude?
– Sinceramente? Não. Eu só dou pitaco agora naquilo que é meu. Portanto cada um na sua, meu filho. E eu tô muito bem com o Mourão, obrigada. (desejando mudar de assunto) Nem te conto. Ele vai comprar um carrinho de lanche pra minha mãe. (orgulhosa) É um cara de posses, sabe como é. Dona Zefina tá numa alegria só. Não sabe mais o que fazer pra agradar o genro. Sim, porque nosso casamento é dia menos dia. Fato consumado. No duro.
– Tô sabendo.
– A Claudete acha que a gente tem que ostentar um pouco. Fazer um churrasco maior, com muito mais cerveja, chamar os garotos do Quebra Galho pra dar uma animada, sabe como é? É aquela história, casamento não é todo dia.
– Também acho.
– Só no cartório mesmo. Nada contra casamento na igreja. Nem sou também uma alma perdida. É que eu não quero muitos rapapés, sabe? (com uma ponta de tristeza) Não fica, assim, Marcelo. Eu sei que você queria estar no lugar dele. Mas há males que vem para o bem. O meu caso, por exemplo. Sofri no começo, mas depois veio a compensação. O Mourão é tão... Tão humano. Aprendi isso numa novela. Achei bonito...
Marcelo já não suportava aquela lengalenga. Uma grande raiva foi lhe dominando o espírito.
– Que cara é essa, Marcelo? Pára com isso! Tô ficando nervosa. Com medo...
Letícia ainda lhe estendeu uma mão com humildade. Balbuciou alguma coisa. Provavelmente um último pedido. Uma súplica de socorro. Tudo em vão. Ela reencontraria o mar dali a poucos segundos e Marcelo ainda ficou, lá em cima, rindo com aquele seu jeito ruim de ser. Como um monstro moderno. E, já satisfeito, voltou pra casa. Como se nada tivesse acontecido.
A HORA DE CLARICE

Meu primeiro contato com um texto de Clarice Lispector ocorreu, na minha adolescência. Costumava tomar para mim os livros de literatura do meu irmão mais velho e, num deles, estava o maravilhoso conto “Uma Amizade Sincera”. Li. Reli. Nunca mais parei. Até hoje é um dos textos que mais me tocam. E depois vieram: “Laços de família”, “A hora da estrela”, “Água-viva”, “Uma Aprendizagem ou O livro dos prazeres” e “Um sopro de vida – pulsações”. Fui lendo cada um, sem muito critério, dependendo exclusivamente do meu estado de espírito. Já reservei a “A paixão segundo G. H.”, para um momento de tranqüilidade. E, claro, pretendo continuar descobrindo o mundo de Clarice. Não tenho pressa. Quando soube que o Museu da Língua Portuguesa iria fazer a exposição “Clarice Lispector – A hora da estrela”, fiquei exultante de felicidade. Orgulhoso. E não tenho a menor vergonha de confessar esses pequenos atos gratuitos e apaixonantes da vida. Aproveitei para ir num sábado (sim, porque é de graça). Dia de sol como poucos. Na entrada da Estação da Luz, havia muitos ônibus de excursões. A minha sensação de orgulho ficou ainda maior. A fila não me desanimou. Paciência é uma virtude que cultivo com muito carinho. Meia hora depois, já estava lá dentro. A entrada é emocionante. Penumbra. Tecidos transparentes com lindas imagens de Clarice sobrepostos a algumas de suas frases. Essas frases foram selecionadas pelo poeta Ferreira Gullar. A intenção talvez seja reproduzir visualmente o mistério por traz da “personagem” Clarice Lispector e da sua obra. Não resisti e fiz duas fotos dessa sala (claro que escondido dos muitos monitores). Não me perguntem como. Quando me dei conta, já estava com as duas imagens na câmera e um sorriso de orelha a orelha. E não vou ficar contando tudo porque perde a graça, o legal é ir lá, descobrir os detalhes e se encantar. Mas só para deixar quem não foi com água na boca. Cartas, manuscritos, documentos e fotos da escritora estão ao alcance de todos (pelo menos, de nossos olhos). Dedique um tempo para ler algumas cartas, sobretudo as que ela enviava ao filho, nos Estados Unidos. São textos emocionantes. Belos. Repletos de ternura. E também assistam a entrevista, feita pouco antes de sua morte, em 1977, pelo jornalista Julio Lerner, para o programa Panorama, da TV Cultura. Um dia, ainda terei uma cópia desse vídeo. É de arrepiar. A voz. O olhar indecifrável e penetrante. A elegância. Sou radicalmente contra o tabagismo, mas até o modo como ela fumava possui um certo charme. Há trechos dessa entrevista, no site oficial da escritora www.claricelispector.com.br.
“REVELAÇÕES” DE CLARICE.
“Vi a Esfinge. Não a decifrei. Mas ela também não me decifrou”.
“Escrever uma só linha basta para salvar o coração”.
“Com uma vida pobre (e qual é a vida rica?) com a vida pobre eu me salvo dela através do imaginário”.
“Só me interessa escrever quando eu me surpreendo com o que escrevo”.
“Quem escreve ou pinta ou ensina ou dança ou faz cálculos em termos de matemática, faz milagre todos os dias”.
“Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer”.
“Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa”.
“Nem tudo que escrevo resulta numa realização, resulta mais numa tentativa”.
“Sinto que cheguei quase à liberdade. A ponto de não precisar mais escrever. Se eu pudesse, deixava meu lugar nesta página em branco: cheio do maior silêncio”.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
A BOLSA
– É de bambu?
– Como, assim, de bambu?
– Estou procurando alguma coisa mais sustentável, sabe?
– Temos um sutiã bem diferente. Moderno. Jeans. Pode ser usado também como top. Olha este que lindo.
– Quantas lavagens? Isso é muito importante.
– Mas o produto é novo...
– Quem sabe alguma coisa em algodão. Um algodão limpinho. Nada de agrotóxico.
– As camisetas com aplicações em cristais estão em alta. A estampa é exclusiva. Uma pequena jóia, não acha?
– Depois de “Diamante de Sangue”, revi meu conceito sobre jóias. Talvez, um acessório em couro vegetal. Uma bolsa, por exemplo.
– “Mas couro não é de animal, meu Deus? Essa mulher só pode tá louca”. Temos maxibolsas fabulosas. Esta daqui tá, na capa da VOGUE, deste mês. Crocodilo. Os bichos vieram com tudo, nesta estação.
A socialite apaixona-se pela bolsa. E, grudada à vendedora, implora:
– Diz que é sintética. Diz que é sintética, pelo amor de Deus! Eu compro duas, mas diz que é sintética.
IMPRESSÕES AVULSAS

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DO VAMPIRO
Consegui, enfim, assisti à peça Educação Sentimental do Vampiro, de Dalton Trevisan, muito bem encenada pela Sutil Companhia de Teatro, com direção de Felipe Hirsch. O texto é ótimo, preciso, chegando, muitas vezes, a lembrar Kafka e o próprio Nelson Rodrigues. Cenário maravilhoso de Daniela Tomas e Felipe Tassara. A direção de arte é primorosa e a trilha sonora também. Recomendo. Fica, no Teatro Popular do Sesi, na Av. Paulista, 1.313. Até 18 de novembro. Quartas, quintas e domingos: entrada franca. Se manda!
SIM, EU GOSTO DA VANESSA DA MATA
Sempre gostei das músicas da Vanessa da Mata, mas nunca tinha ouvido um cd inteirinho dela. Fiz isso pela primeira vez com o seu mais recente trabalho, “Sim”. É de uma delicadeza quase inacreditável. Muito bom. E nem precisa estar amando ou sofrendo de amor para se identificar com ele. O que já facilita as coisas. A capa também é incrível! Aliás, eu não me canso de olhar pra ela. Por que será?
UM DIA NO SPFW
quarta-feira, 6 de junho de 2007
IMPRESSÕES AVULSAS
Li meu primeiro livro da Fernanda Young. Comecei por “As Pessoas dos Livros”. É bem interessante. Duas coisas me chamaram atenção. A linguagem que é bem moderna. Precisamos. E o caos psicológico, peculiar a seus personagens, que é abordado com muita leveza e com um humor mais... Eu ia completar com “inteligente”, mas lembrei que toda forma de humor é inteligente. Ou alguém já ouviu falar em humor burro? O programa dela “Irritando Fernanda Young”, no GNT, eu também acho uma grande sacada.
MSF
Devo fazer parte, mais uma vez, do MSF (Movimento dos Sem FLIP). É. Sem grana fica impossível ir a Paraty para participar da feira literária. De qualquer forma, vou acompanhar pela TV Cultura que promete fazer uma grande cobertura do evento. Simplesmente só vou perder a chance de conhecer o escritor e roteirista mexicano Guillermo Arriaga. Só isso. :-(
Ecologicamente-Up-To-Date
E virou moda falar de aquecimento global, sustentabilidade, salvar a Amazônia, os índios, os ursos polares, o Tietê, etc, etc, etc. Até a folha de pagamento do meu aluguel veio em papel reciclado. Muito civilizado! A SPFW vai falar da importância da água. Que chique, não? O documentário do ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, ganhou até dois Oscar. Alguém assistiu? Parece até que vai rolar, em alguns lugares do globo, o Brasil entre eles, um daqueles famosos shows-comoventes, onde todos estão ali pensando em tudo, menos em “salvar o planeta”. Quando muito, têm aqueles cinco minutos de consciência ecologicamente correta. Depois passa. J-Lo no palco. Incrível. O cara sem pregar os olhos. A namorada cutucando: “Carlos Henrique, estou falando com você!”. E ele em seu discurso pra lá de ecológico: “Também acho foda esse lance de jogar bituca de cigarro, na rua. Demora séculos pra se decompor. Que oxigênio ela tem, você não acha?”. Não sou contra as iniciativas em favor da preservação do meio ambiente. Pelo contrário. Só acho que não deve ser um modismo. Uma imitação da Gisele Bündchen. O Sting já teve seus dias de super-herói dos índios do Xingu e, no entanto? O Michael Jackson, então, nem se fala. Reciclagem deveria ser obrigatória. As prefeituras deveriam estar preparadas pra isso. As escolas deveriam se empenhar mais no ensino de cidadania e ecologia. Vocês não têm idéia da quantidade de lixo que se tira de uma sala de aula. Pra ir à esquina tem que tirar o carro da garagem? E, assim, vamos. Pessimismos à parte, se não houver mudanças concretas da parte do governo e da sociedade, o ecologicamente-up-to-date vai dar lugar ao ecologicamente necessário. E não deve demorar muito.
Samba do Crioulo Doido
De um vendedor de água, no Centro de São Paulo: “Depois de matar a jibóia, jararaca deita e rola”. Isso é que é sabedoria popular!
Humor Cáustico
De um simpático atendente de lanchonete, no Centro de São Paulo: “Seus sanduíches vão chegar daqui a pouco, com todo o respeito”. Resposta: “Trocaria o ‘com todo respeito’ por ‘com toda higiene’”. Claro que ele não me ouviu.
Humor Negro de Mãe
De um vendedor-pedante pra minha mãe (também no centro de São Paulo): “Tá precisando de um atendimento especial?”. “Não. Estou precisando de preços especiais”. Que orgulho!
A DIVISÃO
– Faz questão da enciclopédia?
– Não. Você a usa mais do que eu.
– É. Esqueci que você não dá a mínima para aprender coisas novas.
– Está me chamando de burra, Claudionor?
– Foi só uma observação?
– Observação que ofende, não é? (pausa) O que tá fazendo?
– Embrulhando a galinha d’angola. Vou levar a mãe.
– E eu fico só com as filhinhas?
– Só? São três. E depois fui eu que as trouxe de Caruaru.
– Mas a idéia foi minha.
– Tá. Devolvo a mãe. Mas pra não deixar as coitadinhas órfãs.
– Melhor assim.
– Em compensação fico com a tartaruga.
– Por mim tudo bem. Não gosto dela mesmo. Aliás, aquela nossa viagem a Paquetá foi um erro. Que idéia a sua achar que eu me parecia com a Moreninha. Pra começo de conversa, eu nem sou morena.
– Pra você ver como eu estava apaixonado. Mas também não precisava passar a viagem inteira de cara amarrada. (pausa) Pensando bem é melhor deixar a tartaruguinha por aqui. Não vou querer lembrar da sua completa falta de entusiasmo em viagens culturais. Mas o gato não. Presente da minha mãe. Ele tem esse pescoço longo. Diferente.
– Sempre achei esse gato mais parecido com uma girafa que qualquer outra coisa. Pra falar a verdade, nunca entendi esse presente. Você odeia gatos.
– Mas adoro a minha a mãe.
– Pelo menos, nos sobrou alguma coisa em comum. Eu também adoro a velha. Digo, a minha sogra.
– Ex-sogra.
– Isso. Ex-sogra. “Como é bom falar isso. Que mantra delicioso. Ex-sogra. Ex-sogra. Ex-sogra...”.
– Não abro mão do pingüim.
– De forma alguma.
– Por quê?
– Já me afeiçoei a ele. Você sabe como eu sou carente.
– Mas quem comprou fui eu. Paguei uma fortuna.
– Comprou pra depois tirá-lo do seu habitat natural? Anos e anos de National Geographic pra nada?
– Do que você tá falando?
– Da geladeira, oras. Do que haveria de ser? Pingüins só combinam com geladeiras. E a geladeira é minha.
– Eu havia esquecido.
Mais silêncio. É a vez de Janete puxar conversa.
– Você poderia deixar também aquele seu pijama azul de algodão. Sei lá, tá tão velhinho.
– Mas é o meu favorito.
– Quem sabe só ficar com a parte de cima e eu costuro a de baixo... Daí você pode vir pegar quando quiser.
– Você acha?
– É tão civilizado. Vi num filme americano.
– Mas o meu pijama não tá furado.
– Que cabeça a minha, Claudionor! Eu tava pensando era naquela sua calça jeans da idade da pedra, sabe? Aliás, vamos combinar, parece mais um pano de chão. Eu não vou dar conta de consertá-la do dia pra noite. Sou tão caprichosa.
– Aquela calça é assim mesmo, Janete. É uma relíquia. Eu guardo só de recordação. Foi com ela que eu fui ao meu primeiro Rock in Rio.
– Que original.
– Fica com “O Abraço”, tá?
– No começo era “Fica comigo esta noite” e agora só sobrou o “Fica com o abraço”? Que palhaçada!
– Estou falando do quadro do Romero Britto.
– Ah tá, você se refere àquela réplica descarada que você comprou, no centro.
– O que vale é a intenção.
– Eu preferia as suas segundas intenções, logo que me conheceu. É colorido demais. Estou pensando numa decoração mais clean para o nosso apartamento. Retificando: o meu apartamento.
– Ele não cabe na mala.
– E por isso agora é meu? Não aceito esmolas.
– Tá bom. Então, faz o que você quiser com o quadro. Estou mesmo numa fase Beatriz Milhhazes. Difícil não rimar.
Claudionor prepara-se para fechar a mala.
– Já vai fechar o zíper?
– Nem reparei que meu fecho éclair tava aberto.
– Ai, Claudionor, fecho éclair é tão antigo. Estou falando do zíper da sua mala, tonto.
– Desculpa.
– E pára com essa mania de se desculpar por tudo. A única pessoa que tem pena de você é você mesmo.
– Bem, eu já vou indo. Acho que tô levando todas as minhas coisas.
– É melhor conferir. Daqui pra frente, vai ser difícil me achar em casa.
– Só falta o Paul, mas ele também não vai na mala. Nem poderia.
– Como assim o Paul? Paul, o nosso filho?
– Sim. O Paul.
– Você não vai fazer isso comigo, Claudionor. Separar um filho de uma mãe é um crime universal. Inafiançável. Vou ligar pro meu advogado, agora.
– Mas ele é só um cachorro, Janete.
– E daí? Podia ser um camundongo.
– Eu não vou deixá-lo aqui com você.
– E eu não vou deixá-lo ir com você.
Impasse.
– Abro mão dos finais de semana.
– Pra você ir tomar a sua “brejinha” e jogar seu futebolzinho com os seus amigos, enquanto eu fico de babá do cachorro? Não, baby. Não mesmo.
– Tá. Quinze dias com você e quinze comigo.
– Só consigo ser mãe em tempo integral. Claudionor, o Paul acaba de entrar na adolescência, tá namorando a Kelly do 502, logo vai querer constituir família. Já imaginou a bagunça que vai ser a cabeça desse cachorro, se tiver que mudar de casa, terminar o namoro, etc? Puxa, primeiro amor marca pra caramba!
– Cães são flexíveis.
– No cio?
– Não quero saber. Eu não saio daqui sem o Paul e ponto.
– Ótimo.
Claudionor desfez rapidamente a mala e sapecou um beijou em Janete. Paul vendo tudo. Orgulhoso de seus pais.
VISLUMBRE DE FELICIDADE

*Foto tirada numa exposição sobre o poeta Mario Quintana, no centro de São Paulo (2006).
sexta-feira, 11 de maio de 2007
LIBERDADE E ARTE
INVESTIGANDO A LÍNGUA
Outro dia, me peguei pensando por que gosto da palavra “bacana”. Por que “bacana” e não “legal”? Cada pessoa tem afinidade por umas palavras e outras não. Comigo funciona assim. Já tive, por exemplo, muito preconceito em relação à palavra “coisa”. Sempre me pareceu uma palavra menor, vaga, imprecisa. Torcia o nariz, quando alguém resmungava: “Que coisa!”. Tá e daí, que coisa o quê? A impressão é que ela já nasceu pela metade. Por falar nisso, o nascimento das palavras é para mim um grande mistério. Fico pensando quem teria dito certas palavras pela primeira vez. Agora, gostaria de saber quem criou a palavra “bacana”. Teria alguma relação com “bacanal”? Teria um passado nobre ou nasceu da marginalidade da fala? Imagino um figurão do tempo do Império falando à boca pequena: “Viu que mulatinha bacana?”. É. Não combina com aquela época. Mas não importa. Pra mim, “bacana” vai ser sempre uma palavra... bacana. Caetano Veloso fez até uma música chamada “Superbacana”. Mas aí já não é a mesma coisa. “Bacana” soa melhor solitária, ingênua, irresponsável. Costumo criar em cima de títulos e estive pensando em “Bacanas e Babacas”. Daria uma ótima comédia de costumes. Por favor, alguém saberia me dizer qual a origem da palavra “bacana”?
sexta-feira, 27 de abril de 2007
O COLECIONADOR DE HISTÓRIAS
Ignácio de Loyola Brandão
Sexta-feira. Dia irresponsável. O sol inclemente. Como de costume, andava sem grandes ambições pela Av. Paulista, o tapete financeiro da cidade de São Paulo. Anônimos indo e vindo de um lado para o outro. Nada extraordinário. Apenas um casal me chama atenção. Conversavam atentos, encostados a uma mureta, próximos à estação do metrô. E dava pra ver que tinham intimidade. “Qual será o assunto?” – me perguntei de chofre, no alto da minha sutil curiosidade. Fui chegando como quem não quer nada. “Segredos de alcova? Só pode”. Desviando sempre o olhar. Disfarçando. Murmurei um: “Meu Deus, que calor é esse?”. Apenas para aparentar naturalidade. Susto. A moça fez um meneio de cabeça. Em seguida, continuou de onde havia parado. Ufa!
– Ela tinha uma dessas belezas enjoativas, mas suportável. Tipo Ana Paula Arósio, sabe?
– Boneca de porcelana.
– Estava mais pra bonequinha de luxo, se é que você me entende.
O rapaz sorriu sem vontade. Eu comemorei. “Mais. Mais. Mais. Continuem”.
– Namorava um cara humilde. Uma pedra de ouro. Só tinha um único defeito, era pobre. E pobre nasceu condenado à figuração. Infelizmente.
– E ela sonhava com um príncipe. Já vi esse filme.
– Sonhava nada. Queria. De Ferrari e tudo. Só as honestas sonham.
– E se conheceram onde?
– No trabalho. Era patrão dela.
– E o outro?
– O outro era o patrão. O Namorado? Coitado. Ia buscá-la, todo dia, às seis horas da tarde. De vez em quando, ainda passavam numa igreja. Ela dizia que queria se casar de branco e tudo. Pode uma coisa dessas?
– Sem vergonha.
– Põe sem vergonha nisso. Eu os apresentei, na escola. Carrego essa culpa até hoje, Lourival.
– Mas e aí? O namorado descobriu?
– Vamos indo. A nossa hora de almoço já está acabando. Eu te conto, no caminho. Descobriu, sim.
“Logo agora?”. Levantaram e caminharam até um prédio que ficava a poucos metros dali. Fui atrás. Na portaria, me barraram.
– Aonde o senhor deseja ir?
Olhei atônito para os lados, depois para o casal que ainda conversava, enquanto o elevador não vinha. Por sorte, vi o nome de uma imobiliária, numa pequena placa, que enfeitava (ou enfeava?) uma parede morta.
– Imobiliária Cruzeiro do Sul.
– Seu RG.
– Estou com um pouco de pressa.
Enfim, o crachá. Levantei os olhos e ainda os vi entrando, no elevador.
– O elevador! Segurem o elevador! Eu preciso entrar nesse elevador – gritei desesperado.
Ofegante. Coração aos pulos. Gotinhas de suor descendo em cascata pela minha testa.
– Muito obrigado.
Entreolharam-se e nada disseram. Para minha decepção, já não conversavam como antes. Ainda insisti:
– Poderiam repetir o final? Só o final.
*Do perturbador e fascinante “O homem que odiava segunda-feira”, de Ignácio de Loyola Brandão. O escritor também inspirou “O colecionador de histórias”.
segunda-feira, 9 de abril de 2007
PRIMEIRA PESSOA
Fui inaugurado pra vida, no dia 25 de março de 1980. Nasci sob o signo de Áries. **Consegui, hoje, estar em paz com a minha guerra, mas ainda não venci o obstáculo da perfeição. Aceito os protestos, mas ouso declarar. O que dizem os astros só enfeitam a vida. A minha cor favorita é o vermelho.
Nasci para amar e escrever. As minhas duas salvações. Não aprendi direito nem uma coisa nem outra. Amo o que posso e escrevo pra me libertar de ser apenas eu. Atualmente, os meus personagens querem existir. São muitos. E não tenho pressa. Tenho fome é de aprender. E leio sempre. Leio tudo que vocês possam imaginar. Tenho também um caso de amor com a Língua Portuguesa. Digo caso porque vivo flertando, sem sucesso, com outros idiomas. Sou formado em Letras e dei aulas, durante dois anos incansáveis. Experiência que devo voltar a repetir, um dia. Claro, se a minha vida for longe. Ou nem tanto. Já escrevi também, por um bom tempo, resenhas literárias, num portal bacana da internet brasileira.
Domino muito bem o universo das letras, mas me recuso a fazer uma coisa só. E detesto rótulos. Escrever apenas romance, ou contos, ou poesia, ou crítica literária, ou peças de teatro, ou longas, ou curtas, ou novelas, ou séries, etc. Ficaria muito limitado, se escolhesse apenas um caminho. Optei, então, por fazer um pouco de tudo. De escrever um pouco de tudo. De misturar prosa e poesia. De mesclar linguagens. De experimentar o moderno com o barroco. Exemplo. Estou revisando um romance que comecei, em 2001, onde predomina a linguagem cinematográfica. O resultado está sendo fantástico! Marceneiro. Arquiteto. Pintor de telas e de paredes. Cozinheiro. Diretor de teatro. Compositor. Publicitário. Assistente em agência de modelos... Fui e posso ser várias coisas. Graças a Deus.
Por que um blog? Porque acho bacana ter um espaço para debater criação, além de expor minhas opiniões e memórias, sem, necessariamente, estarem ligadas a imagens minhas. Continuo sendo apaixonado por fotografia. Vou manter o fotolog /fauguaruja, mas não devo postar nele com freqüência. Espero que este espaço me cative e não me escravize. E que escrever, aqui, seja mais prazeroso do que constante. Críticas e sugestões são sempre bem-vindas! É isso aí, pessoal!
*Alusão ao poema “Vou-me embora pra Pásargada”, de Manuel Bandeira. Para o poeta pernambucano, Pasárgada é um lugar mítico, símbolo das aspirações que se realizam.
**Referência explícita a uma frase da escritora Lygia Fagundes Telles, em “A disciplina do amor”.