terça-feira, 20 de janeiro de 2009

MR. PRESIDENT


Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

Não por acaso, escolhi esse trecho de “Navio Negreiro” de Castro Alves pra falar desse dia histórico para o mundo, a posse do primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama. Ainda que os ventos do Norte não tenham movido moinhos mundo afora, faz algum tempo, é impossível não se emocionar ao ver essa página da História sendo escrita. Não estou eufórico, como muitos, mas esperançoso. Gosto do discurso agregador dele, porém também tenho receio de que seja apenas uma forma de camuflar a sua insegurança em governar um país que, querendo ou não, governa o mundo. O despreparo dele em relação à política internacional também me preocupa. Bem, mas uma coisa é certa, quem sabe agora as pessoas passam a olhar os pobres, os negros, hispânicos e os gays com outros olhos que não sejam apenas os de sempre, de repúdio ou falsa benevolência. E, cá entre nós, Michelle Obama, a primeira dama, é pra lá de classuda e tem muita personalidade, a primeira coisa que me encanta numa mulher. Uma coincidência feliz é que a imagem POP dele, bastante explorada pela imprensa, é feita com a mesma técnica que uso nos meus quadros. E a vida segue multicolorida.

sábado, 17 de janeiro de 2009

BOM DIA, TRISTEZA


Repórter: Por que você é tão triste?

Maysa: Felicidade é coisa de gente burra.

Um rasante pela bloguesfera e o assunto não poderia ser outro: Maysa. A minissérie da Globo que terminou ontem, com excelente aceitação popular, atingiu em cheio as pessoas, falando ou não ao coração delas. Não perdi um capítulo e ainda ouso cantarolar por aí “Meu Mundo Caiu”. Não li a biografia escrita pelo Lira Neto, por isso quem quiser me emprestar a sua esteja à vontade. Gostei bastante da minissérie, mas poderia ter sido melhor. A direção do Jayme Monjardim, filho da Maysa, foi excelente. Impossível não perceber que tudo ali foi muito bem cuidado: a fotografia (belíssima), a direção de arte, os figurinos maravilhosos da Marília Carneiro, sem falar, claro, na trilha sonora que já se esperava um show à parte. A trágica cena da batida de carro, na Ponte Rio-Niterói, é a melhor que já vi na TV até hoje. A atriz que interpretou Maysa, Larissa Maciel, realmente incorporou a personagem. É maravilhoso ver surgir, assim, uma atriz com tamanho talento. Sucesso pra ela. Óbvio que nem todo o elenco correspondeu às minhas expectativas, no entanto a minha reclamação maior vai para o texto do Manuel Carlos: novelesco demais, excesso de frases feitas e aquele ir e vir no tempo completamente desnecessário. Quem já assistiu a minisséries americanas como Marilyn Monroe percebe logo a diferença. Mas, mesmo assim, o ano começou bem para teledramaturgia brasileira. Que venha agora Carmen Miranda.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

E PRA COMEÇAR...

Primeiro nascer do sol de 2009, na praia do Tombo.


2009 começou bem agitado. São Paulo em peso desceu pro Guarujá. Quase atrasamos a nossa chegada à praia. Faltavam 5 minutos, os fogos já pipocavam no céu e ainda estávamos a poucos metros das Astúrias. Confesso que foi melhor assim, pegamos o melhor da festa e não nos estressamos. Prevendo um ano bem complicado, fiz apenas meus pedidos bem baixinho e mentalizei coisas boas. Não sou daqueles que fazem lista de resoluções de ano novo, prefiro a surpresa, ver aonde a vida me leva. Nunca me senti tão bem entre aquelas pessoas vestidas de branco, sem empurra-empurra, sorrindo, se divertindo, dando boas-vindas ao novo ano. Depois seguimos pra casa, para o tradicional churrasco do meu pai. No dia seguinte, acordei bem cedo e fui a posse da nova prefeita, a professora Maria Antonieta de Brito (uma vez professor, sempre professor, eu que o diga). Estou bastante esperançoso e confiante. Graças ao esforço sobre-humano do Felipe e do Sidney pude entregar em mãos o quadro “Fé e Esperança” que fiz pra ela. Ela não só gostou bastante como também me disse que colocará em seu gabinete. Espero que ele lhe traga ótimas vibrações, porque exercer um cargo dessa natureza não deve ser nada fácil. Principalmente numa cidade como a nossa, cheia de problemas, depois da última gestão. Mas, se depender do esforço e dedicação da equipe dela, acho que vem muita coisa boa pela frente. E eu quero poder noticiar as novidades culturais por aqui. Já posso adiantar que as celebrações dos 100 anos da publicação de “Poemas e Canções”, de Vicente de Carvalho, já começaram. Neste fim de semana, estarei em Sampa no tão esperado casamento da Gilvania e Douglas. Então, pra 2009 começar bem, a ordem é ser feliz!

P.S. Não adianta reclamar mais, agora é se adaptar ao novo acordo ortográfico
.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

SAIDEIRA


O último post do ano vai ser de preguiçoso mesmo, porque já estou recarregando as energias para o ano que vem. Tirei essa semana para descansar. Nem tanto, porque não consigo parar a mente um segundo, mas diminuí bastante o ritmo da produção de pinturas e textos, para só retomar, na segunda semana de janeiro. Talvez role até uma viagem por aí. 2008 foi um ano bem bacana pra mim, não posso reclamar. Claro que o final foi um pouco tumultuado, houve diversas tragédias e crise financeira, para chochar com o nosso humor, mas isso tudo só me deu mais forças para entrar 2009 com mais vontade de vencer. O mais engraçado é que recebi uma mensagem hilária no Natal, de um antigo amigo (se é que posso chamar assim), daqueles como o presidente Lula que só faz pronunciamentos na TV em datas muitos específicas, cujas palavras, entre outras coisas, diziam o seguinte: “(...) que você não espere as coisas acontecerem e corra atrás dos seus sonhos, para que 2009 seja um ano de realizar e blablabla”. Pensei cá comigo: “Caramba, estou fechando o ano com mais de 20 quadros feitos, todos com ótima aceitação pelas pessoas, boas vendas, com o meu curso de História da Arte concluído, com algumas perspectivas de trabalho para o ano que vem...”. Se isso não é correr atrás, eu devo mesmo ter ficado numa rede me balançando e tomando água de coco, em Itacaré rs. Bem, mas chega de papo, desejo a todos um 2009 repleto de coisas boas. Have fun!

E a vida segue tranqüila.

ÚLTIMOS QUADROS DO ANO



De cima pra baixo: "Foi Assim...", "Festa no Mar" e "A Pequena Mariana".

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

NATAL, NATAL, NATAL...


Natal pra mim é sinônimo de união familiar. Ganhar presente é bom, claro, quem não gosta, mas não trocaria todos da minha família, com saúde e paz, reunidos, por nada. Quando tinha uns quatro anos, minha mãe nos pediu que colocássemos um sapato na janela. Também não fantasiou a respeito de Papai Noel. Apenas um pedido seco. No dia seguinte, estava lá um carrinho desses de plástico, bem simples. Conforme andava, um leãozinho girava na corroceria. Achei maravilhoso. Como não tive praticamente brinquedos na infância, essa reminiscência me marcou muito e mais tarde inspiraria um poeminha chamado “Velhos amigos”.

Velhos amigos, não esqueço quando, depois da missa do galo, os coloquei na janela, a pedido de mamãe.
No dia seguinte, estava lá o meu carrinho com o leãozinho em cima.
Natal que não volta mais.
A nossa festa de inocência e união familiar.
Que bom seria tê-lo de volta.
Não em memória, nem no enfeite da porta, mas tão-somente tudo de novo.


Havia também uma espécie de tradição, passar a noite de Natal na casa da minha vó Criza, para ver o Deus Menino sendo colocado na manjedoura. No primeiro dia do ano novo, era a vez de levantá-lo. Não me lembro de ter presenciado nenhum dos dois rituais, porque sempre dormia antes, mas os presépios sempre exerceram sobre mim um certo fascínio porque, inconscientemente, já via ali alguma arte. O da igreja matriz era lindo, imenso, cheio de detalhes e luzes. Sonhava com um dia em que teria um igualzinho. Os enfeites de Natal também divertiam os meus olhos, mas demoramos a ter a nossa primeira árvore. Apenas quando uma prima da minha mãe hospedou-se em nossa casa, nesse período de festas. Fomos a um armarinho e eu mesmo escolhi os enfeites. As bolas ainda eram de vidro e manuseá-las requeria muito cuidado. Completamos o pinheiro com cartões, já que não dava para comprar muitas bolas. Tempos difíceis, de inflação exorbitante, dos fiscais do Sarney. Até então, não havia aquelas guloseimas todas tão bem descritas por Mario de Andrade, no conto “Peru de Natal”. Por outro lado, havia a Mula do Zé do Ovo. Explico. Era uma espécie de mula, aos moldes de um bumba-meu-boi, só que incorporada à uma figura lendária da cidade, um senhor corcunda e que por isso recebera o apelido de Zé do Ovo. No interior, há essas histórias pitorescas. Eu morria de medo dessa manifestação folclórica. Como ele passava de casa em casa, rodeado de pandeiristas e pessoas fazendo aquele banzé, recolhendo suas gorjetas, percebia a movimentação na rua e me escondia embaixo da mesa. Até hoje sou “gongado” por causa desse episódio. Só fui participar de um amigo oculto (usávamos esse termo e não amigo secreto), aos oito anos, porque uma tia que morava aqui no Guarujá importou a “novidade”. Nesse ano, conheci o Natal como ele sempre seria em minha família, todo mundo junto, muitas gargalhadas, música, troca de presentes, pratos diversos (a minha farofa de banana é famosa, assim como o meu lagarto ao molho madeira). Mas nenhum Natal superou em emoção ao do ano passado. O meu irmão Luciano que estava no exterior, há quase dois anos, chegou exatamente na véspera de Natal e fomos buscá-lo em Guarulhos. Chegamos quase à meia noite. Haja coração! Preparamos a casa um mês antes, decorei o seu quarto em estilo safári porque ele adora animais e foram mimos atrás de mimos. A noite parecia não ter fim. Na verdade, não queríamos que tivesse. Esse ano ele não estará conosco, uma nota triste, é verdade, mas ainda passaremos muitos Natais juntos. Bem, pessoal, o tempo está corrido, desejo a todos muita saúde, paz, alegria, felicidade, amigos, solidariedade e, sobretudo, fé. Se elevarmos os nossos sonhos à altura de nossa fé, vai ser fácil realizá-los, vocês não acham?

AQUELA NOITE DE NATAL


A minha versão para o conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis

Nunca pude esquecer aquela noite. Faz dez anos, mas parece que foi ontem. Contava dezessete e ela trinta, embora aparentasse bem menos. Um primo distante da minha mãe, o Meneses, acomodou-me em sua casa, no Rio de Janeiro, pelos idos de 1861 ou 1862. O seu sobrado era modesto, mas não muito, ficava na rua do Senado, onde vivia além dele, a sua esposa Conceição, a sogra dona Inácia e mais dois escravos velhos e obedientes. Em plena noite de Natal, Meneses saiu de casa para dormir com a “outra”, uma senhora separada do marido, espécie de amor avulso que muito lhe agradava e que Conceição fingia não saber. Sobre isso Dona Inácia, às vezes, lhe dizia algumas verdades, no que ele respondia com um muxoxo ordinário e ainda lhe mostrava as contas pagas. Ao final, todos pareciam conviver muito bem com os seus crimes.
Não sou um bom exemplo de cristão e antes era bem menos do que agora, mas uma missa do galo na Corte tinha lá os seus encantos. Combinei com um amigo de irmos juntos à igreja, naquela noite. Não dormiria até a hora marcada, mas, caso ele não aparecesse, é porque não agüentara o sono. Assim foi feito. A casa estava muito silenciosa, todos já haviam se recolhido. Para dar fim ao tédio, peguei um desses romances de capa e espada e me fiei a ler. Os minutos voavam e, de repente, ouvi dar onze horas. Assustei-me apenas com a chegada repentina de Conceição.
– Ainda não foi?
– Não. Ainda não deu meia-noite.
– Ah... Que paciência!
Fechei o livro e ela foi se aproximando devagarzinho até se sentar numa cadeira de frente pra mim. A minha primeira reação foi ficar vermelho, embora não deva ter notado, porque estávamos apenas à meia luz.
– A senhora me desculpe se fiz barulho.
– Não, bobagem. Acordei por acordar.
Mentira. Ela não parecia ter dormido nada. Os seus olhos estavam ainda mais nítidos e tinham um não sei quê de mistério que tanto me atraíam.
– Que paciência esperar pelo vizinho. O que estava lendo? Ah, o romance dos Mosqueteiros.
– Sim, é muito bonito.
– Gosta de romances?
– Gosto.
– Já leu A Moreninha?
– Do Dr. Macedo? Já, mas prefiro aqueles que tenham mais aventuras como O Guarani.
– Eu já gosto dos mais levinhos, mas tenho lido tão pouco ultimamente. Não me sobra tempo.
A conversa não tinha a menor gravidade, mas Conceição me ouvia com tanto interesse e, de vez em quando, ainda passava a língua pelos lábios para umedecê-los. Refez-se o silêncio. “Talvez esteja aborrecida!”, pensei comigo.
– D. Conceição, já é quase meia noite e eu...
– Não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo.
– Sendo assim...
– Permita-me apenas um conselho, não se torne um papa missas. Não fica bem um menino como você ser chamado de carola.
– Não, não. O meu interesse é tão-somente porque nunca fui a uma missa do galo aqui na Corte.
– Ora, é a mesma missa da roça. No fundo, são todas iguais.
– Penso que a daqui há de haver mais luxo, mais gente... Desculpe, devo lhe parecer muito caipira, não é?
– Estou gostando. Continue.
Ao se acomodar na cadeira, num movimento leve de corpo, deixou-me ver metade dos seus braços. Uma visão inesquecível. Cabe aqui uma confissão íntima, caro leitor. Essa visão não era tão nova pra mim, posto também que não fosse comum. O fato é que a presença de Conceição começava a despertar em mim uma inquietação perturbadora. Quando alteava um pouco a voz, ela reprimia-me.
– Fale baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição que me enchia de gosto. Passamos então a cochichar outros assuntos. Não satisfeita, ela deu a volta à mesa e veio sentar-se ao meu lado, no canapé. Nesse momento, vi escapar do seu longo roupão uma nesga de pés tão mimosos.
– É que mamãe tem o sono muito leve. Se acordasse agora, custaria a dormir.
Pensei em sentar na cadeira que ficava ao lado, mas não achei jeito. Ela foi mais rápida e pousou a sua mão sobre a minha. Não posso dizer quanto, mas ficamos por algum tempo calados. Nesses arroubos da juventude, qualquer fração de segundos pode durar uma eternidade. No entanto, tentei manter os olhos fixos na parede, alternando apenas entre uma ou outra gravura antiga, ao passo que já estava pingando de suor e talvez tremesse um pouco também. Conceição então me virou pra si.
– Suas mãos estão geladas, meu anjo.
E foi aproximando o seu rosto ao encontro do meu como quem suplica por um beijo. Não posso dizer que não devaneava. Subitamente ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, seguida de uma voz: “Missa do galo! Missa do galo!”.
– Aí está o seu companheiro, disse ela levantando-se irritada. Vá que hão de ser horas. Adeus.
– Naturalmente.
– Vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Até amanhã.
E, com o mesmo balanço gracioso de corpo, Conceição enfiou pelo corredor adentro, pisando bem de mansinho até sumir entre os outros aposentos.