
sexta-feira, 12 de junho de 2009
segunda-feira, 25 de maio de 2009
NA ILHA, NA VILA, NO MAR: NUNCA DEIXE DE VOAR
...Para o PalcoConfesso que nunca havia pensado em escrever para crianças, mas acabei descobrindo o quanto é prazeroso criar histórias para elas. Não há aquela cobrança exagerada em acertar, basta escrever com o coração e tudo flui e termina dando muito certo. O convite surgiu através do Alexandre Acquiste, diretor da peça, que eu já conhecia há algum tempo, mas havia perdido o contato. A concepção do espetáculo, no entanto, já existia e, embora isso seja mais arriscado para quem costuma direcionar seus próprios projetos, aceitei a empreitada. Um risco também porque já estava com os quadros da minha exposição em andamento. Temi não dar conta do recado, mas optei por dar um tempo nas telas e pincéis, o que foi bom também, e mergulhei de cabeça no universo dos pássaros, os bichinhos que emprestam suas vidas aos personagens.
A peça é inspirada no livro “Meu Amigo Jim”, da escritora Kitty Crowther, e conta a história da amizade entre dois pássaros, Jack e Jim, um melro e uma gaivota respectivamente, sob o olhar atento de duas vizinhas bem fofoqueiras. Optamos por tratar de forma sensível, poética, com naturalidade, assuntos ainda hoje tabus como preconceito racial e homossexualidade. O incentivo à leitura também aparece com destaque. Sou suspeito, claro, mas não posso deixar de falar que o texto me emocionou bastante e tenho certeza de que vai acontecer o mesmo com quem for assisti-la.
Escolhi um trecho para vocês ficarem com água na boca, o momento em que Jack realiza o seu sonho de conhecer o mar.
JIM
...Chegamos. Que tal, hein? Não é bonito como eu falei?
JACK
...É lindo, Jim!...
JIM
...Você não viu nada ainda. Com bastante sol, o mar fica azulzinho, azulzinho.
JACK
...Quanta água!!!!
JIM
...É, é água que não acaba mais!!!
JACK
...Ainda bem porque eu adoro tomar banho.
JIM
...Mas no outono as águas são geladas, Jack.
JACK
...Eu não me importo.
JIM
...Eu gosto mesmo é desse pôr-do-sol. O céu fica tão bonito com esse tom de laranja e rosa. Parece até que Deus está pintando uma aquarela.
JACK
...E se vem a noite é porque Ele não gostou e escureceu tudo, não é?
JIM
...(num meio sorriso) Isso mesmo.
JACK
...E, no dia seguinte, é como se Ele começasse a pintar tudo de novo.
JIM
...(outro meio sorriso) É verdade. (tom) Você é muito inteligente, Jack.
terça-feira, 12 de maio de 2009
VOANDO, VOANDO
Na bagunça do meu "coração"
Boneco de cera do Madame Trussard rsA praticamente dois meses da minha primeira exposição, a ansiedade começa a dar sinais claros, mas tenho tentado me manter tranqüilo, focado. Pra dar uma animada, ouço o novo CD ao vivo da Vanessa da Mata e também o delicioso “Tropicália”. Recomendo os dois e mais a balada “Agora Eu Já Sei”, da Ivete Sangalo, que promete ser o hit do dia dos namorados. Sem contar que a biografia da Clarice Lispector, escrita por Nádia Gotlib, presente de aniversário da minha querida amiga Fernanda, está sempre ali ao meu lado, me ajudando a desvendar alguns dos mistérios de Clarice e me inspirando sempre.
Num rasante por São Paulo, vi algumas exposições excelentes, mas que já saíram de cartaz, por isso não as comentarei, também não tive tempo de ver ainda “Vik”, no Masp, nem Legér, na Pinacoteca. Mas essas duas eu faço questão de comentar depois. Quero muito assistir também ao filme “Do Começo ao Fim”. Não viu o trailler ainda? Vá correndo ao Youtube e depois me conta o que achou.
Não posso esquecer de fazer uma homenagem ao meu irmão Luis Gustavo que ganhou a Medalha do Mérito do Trabalho, concedida pela Câmara Municipal, no dia 30 de abril. A cerimônia foi no Teatro Procópio Ferreira e foi bem emocionante para nós, familiares e amigos. Parabéns, meu irmão, você é muito especial para nós todos!
Vou ficando por aqui, mas volto voando, eu sempre volto. Beijos e abraços alados!
quinta-feira, 23 de abril de 2009
UM MILAGRE PARA A ESTRELA AZUL

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Saguão de hospital. Tudo muito claro e frio. Ali perto, Heitor está entre a vida e a morte. Paula está sentada olhando um horizonte imaginário, quando Cauê se aproxima.
Cauê (tocando no ombro da amiga)
...Paula? E aí, como é que ele tá?
Paula
...Muito mal. Não sei se o Heitor vai conseguir sair dessa.
Cauê (otimista)
...Temos que ter fé. Agora, é ter fé, minha querida. Ter fé.
Paula
...Ele tinha tanta fé, Cauê. Era sempre o primeiro a invocar o nome de Deus.
Cauê (sentando-se)
...Ele vai ficar bem. Caramba, não é justo!
Paula
...Fizemos tantos planos. Lembra?
Cauê
...Lembro.
Paula
...Uma das últimas coisas que ele me disse foi que queria viajar. Correr o mundo com uma mochila nas costas. Começaria pela Patagônia, vê se pode.
Cauê
...Isso era bem a cara dele. Essas aventuras turísticas sem um tostão no bolso. Nunca esqueço aquela viagem que fizemos a Paraty...
Paula
...Nós tínhamos combinado de fazer um curso de teatro juntos. Fomos até a escola ver como funcionava o lance da matrícula. Eu falei pra ele que ele já era um ator e dos bons. Ele riu como se fosse uma criança.
Cauê
...Adorava passar trotes pelo telefone, lembra? Eu mesmo caí em, pelo menos, uns cinco.
Paula
...Eu não me conformo. Não me conformo, Cauê! Olha, se o Heitor... Se ele morrer, aí é que eu vou pirar de vez mesmo.
Cauê
...Pelo amor de Deus, não vamos pensar no pior. Você já falou com a família dele?
Paula
...Só com uma das irmãs. A mãe dele me detesta.
Cauê
...Eu avisei ao João. Ele ficou tão chocado, mas daquele jeito dele, sabe?
Paula
...Espero que ele consiga passar por cima daquele orgulho besta e faça, pelo menos, uma oração para Heitor.
Cauê
...Há quanto tempo eles não se falam?
Paula
...Acho que há uns seis meses, sei lá.
Cauê
...Pra quem andava sempre grudado...
Paula
...Eu não sei direito o que houve. Aliás, eu não sei o que houve com todos nós. Quando nos conhecemos, era tudo tão bom, fazíamos tudo juntos... De uns tempos pra cá, cada um foi ficando na sua...
Cauê
...Tantas cobranças, ciúmes, isolamentos. Para algumas pessoas, a amizade virou até uma espécie de obrigação.
Paula
...Se nós pudéssemos começar tudo de novo...
Cauê
...Você acha que seria diferente?
Paula
...O João e o Heitor, por exemplo. Eles não se largavam, lembra?
Cauê
...Eu tenho quase certeza de que o rompimento deles foi por puro excesso de intimidade.
Paula
...Amigo que é amigo suporta essas coisinhas bobas, Cauê.
Cauê
...Mas um momento de silêncio também é bom. É até necessário.
Paula
...Eu já tenho medo do silêncio. Tenho medo de mim mesma, no silêncio.
Cauê
...Eu nunca me senti, assim, Paula.
Paula
...Assim como?
Cauê
...Assim, com essa sensação de vazio, de ter um buraco aqui dentro, sabe? Eu acho que eu também era dependente do amor dele.
Paula
...Todos nós éramos.
Cauê
...Um amor que beirava até o infantil, né?
Paula
...Ele sempre teve mesmo uma certa pureza.
Cauê
...Pra você deve ter sido difícil se apaixonar por ele daquela forma, não é?
Paula
...Sabe que não? Quando eu descobri que estava apaixonada por ele, eu era muito novinha, imatura. Nem sabia direito o que estava sentindo. Foi mais um impulso, eu acho. Ele também nunca me disse verbalmente que não queria nada comigo. Talvez não quisesse me machucar também. Mas eu logo entendi e segui o meu caminho. Também nunca o vi machucando ninguém, mesmo que a pessoa merecesse.
Cauê
...É verdade.
Paula
...Ele sempre queria o melhor para nós. Quando não podia fazer isso, simplesmente desaparecia. Era como um código. A gente logo sabia que ele estava exilado em algum lugar.
Cauê
...E ninguém conseguia tirá-lo de lá.
Paula
...E quanto mais perguntas, mais silêncio.
Cauê
...Ah, mas com o João ele sempre se abria. O João, por exemplo, foi o primeiro a saber que ele tinha comprado aquela maldita moto.
Paula
...Pois é... E, depois, deu no que deu.
João se aproxima.
João
...Oi pessoal.
Cauê
...Você não morre mais. Estávamos falando justamente de como você e o Heitor eram amigos.
João (sentando-se)
...E como é que ele tá?
Cauê
...Mal, né? Muito mal.
João
...Se eu soubesse...
Paula (num rompante)
...Se nós soubéssemos, tudo seria diferente. Teríamos feito uma festa pra ele.
João
... Na verdade, eu poderia mesmo ter passado por cima do meu orgulho, ter dito a ele: “Cara, vamos começar tudo de novo. Vamos esquecer essas besteiras”.
Cauê
...Agora é um pouco tarde para arrependimentos, você não acha?
João
...Ele não quis entender a minha imperfeição também. Eu errei. Todos erram, não é? Olha, vocês podem achar estranho eu dizer isso só agora, mas eu ainda o amo. Amo.
Paula
...Agora que ele não pode ouvir?
João
...O que vocês querem que eu faça? Eu já admiti que errei.
Cauê
...Mas não basta.
Paula
...Por favor, estamos num hospital.
João
...Dane-se o hospital! Não fui eu que provoquei o acidente.
Cauê
...Mas depois que vocês romperam ele nunca mais foi o mesmo.
João
...Eu faço qualquer coisa por ele... Ele não está precisando de sangue? O que ele está precisando?
Paula
...Não seja ridículo, João!
João
...Eu tentei me reaproximar dele. Enviei um e-mail, mas ele não me respondeu.
Cauê
...Ele me falou desse e-mail.
João
...O que ele te disse? Fala, Cauê!!!
Cauê
...Disse que você precisaria de muito mais alegria para saber que a vida dói.
João
...Não entendi.
Cauê
...É simples...
Paula (interrompendo-o)
...O João quis dizer que você só reconheceria o valor da amizade dele, depois que quebrasse a cara. Pronto, falei.
João
...Vocês acham que se ele ficar bom pode ainda me perdoar?
Cauê
...Não sabemos nem se ele vai ficar bom.
Paula
...Eu tenho por dever acreditar em milagres.
João
...Foi tão grave assim?
Cauê
...A moto entrou debaixo de um caminhão.
João
...Merda!
Paula
...Agora só resta mesmo rezar.
Cauê
...Preciso ir em casa tomar banho e comer alguma coisa. Estou na rua desde cedo. Vocês vão ficar?
Paula
...Eu tenho ainda que passar, na faculdade dele. Não sei se eles já sabem. Quanto mais pessoas torcendo pela recuperação dele, melhor.
Cauê
...Eu te dou uma carona.
João
...Peraí, gente, vocês vão me deixar aqui sozinho?
Paula
...Vamos, Cauê?
João
...Espera aí...
Paula e Cauê deixam o hospital. João leva as duas mãos ao rosto, num gesto de impaciência. Quem sabe ainda chore.
domingo, 19 de abril de 2009
MÃOS DADAS
E comigo não tem essa de hiato criativo, não. Já comecei a preparar a primeira mostra dos meus quadros. Divulgo a data e o local posteriormente, mas já reservem espaço na agenda para julho. Conto com vocês.
E, enquanto a minha exposição não fica pronta, vou visitando a dos concorrentes. Uma que vi e achei bem “bonitinha” foi “Diálogos com Drummond”, na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos. Vivo reclamando que na Baixada não tem atrações culturais interessantes, mas dessa vez me surpreendi. Apesar de pequena e de alguns trabalhos de qualidade duvidosa, a maioria me agradou. Fãs de Drummond como eu reconheciam facilmente a ligação entre as obras visuais e os poemas que as inspiraram. A de que mais gostei foi uma escultura em resina chamada “Companheiros”, de Vivian Marin, inspirada no poema “Mãos Dadas”. Adoro a força da simplicidade desse poema, desde que o li pela primeira vez na faculdade. “O presente é tão grande, não nos afastemos. / Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. Lindo! Lindo! Lindo!
Assisti também à peça “Avenida Dropsie”, da Sutil Companhia de Teatro, no Teatro do Sesi, em São Paulo. Baseada na obra do escritor de quadrinhos Will Eisner, “Avenida Dropsie” tem um excelente texto, bem enxuto e dinâmico, interpretações preciosas (cada uma melhor que a outra), o cenário mais lindo que já vi da Daniela Thomas e uma trilha sonora urbana e vibrante. Enfim, um casamento perfeito entre linguagem cênica e cinematográfica. Aliás, um caminho que deveria ser seguido pelos nossos dramaturgos. Agora a notícia triste. Infelizmente, já saiu de cartaz.
Termino, então, com um poeminha sacana que fiz especialmente para um leitor e provocador deste blog.
Canibalismo pra sobrevivência
A F.V.A.
É preciso ser diferente
Não anormal propriamente,
Mas canibal pra sobrevivência.
Engula o Tropicalismo
Lembre-se de que a sua pátria é o seu povo
Mastigue os neologismos de Guimarães Rosa
Se não entendeu, lhe explico de novo.
Coma a Psicanálise, devote Freud
Leia Proust
Banqueteie os franceses
É cult.
Saboreie livros
Cultue o Modernismo,
Mas não seja um vegetariano de cadernos culturais.
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domingo, 22 de março de 2009
ADEUS, VERÃO!
Dei uma voltinha pela bloguesfera e Twitter e percebi que a morte do Clodovil suscitou opiniões diversas: tinha desde pessoas com opiniões mais sensibilizadas até piadinhas dispensáveis como “agora o céu está mais purpurinado”. Sinceramente acho que, apesar daquele gênio de cão e daquele personagem afrescalhado, ele era uma pessoa muito inteligente e vai fazer falta sim.
Vai Clô e chega ao Brasil Marc Jacbos. Tá aí um criador de moda que eu realmente admiro, depois de Yves Saint Laurent. O processo criativo dele é muito interessante, assisti num documentário que passou no GNT, há um tempinho. Ele viaja bastante, frequenta galerias, coleciona arte porque gosta e depois todas essas informações são traduzidas de forma bem criativa em seus trabalhos para a Vuitton e para a sua própria marca. Os trabalhos dele que eu mais gosto foram inspirados nas obras de Stephen Sprouse e Richard Prince.
Fui assistir, no Teatro Bibi Ferreira, em São Paulo, com o meu amigo Josh, à peça “A Mulher do Candidato”, texto de Walcyr Carrasco e direção de Cininha de Paula. As pessoas que me conhecem sabem que eu não curto esse tipo de humor, mais expansivo, popular, tipo Zorra Total. Prefiro algo mais sofisticado, mas, mesmo assim, me surpreendi com o texto e me diverti bastante. O ator Anselmo Vasconsellos está impagável como um desses caciques políticos do Nordeste. Vale a pena conferir.
Numa passada rápida pela Fenac percebi que as revistas emagreceram. Resultado da crise econômica global, claro. Em compensação, comprei um pacote com três, entre elas a italiana “Arte”, pela módica quantia de R$ 1,00. Vai entender, né?
Meu aniversário já está quase chegando, dia 25/03. Como sempre, não vai haver festa. É um privilégio estar vivo, mas, quando puder, faço uma viagem ou algo assim. Também não vou fazer como certas pessoas que pedem antecipadamente “comentários”, para bombar a própria comunidade do Orkut. As pessoas que me conhecem e que gostam de mim tem o meu endereço, telefone, e-mail, MSN, Orkut, Facebook, Myspace e, se quiserem, podem me ligar ou enviar uma mensagem. Ah, presentes são bem-vindos também, claro rs.
E a vida segue criativa. Em breve, novidades.
segunda-feira, 9 de março de 2009
AVESSO DO AVESSO


No final do ano passado, tive o prazer de colaborar com o anuário de moda do meu amigo Cristiano Félix, do blog Extra-Ordinário. O resultado vocês conferem agora. Parabéns ao Crico e sua equipe que fazem esse trabalho com muita dedicação, leveza e se divertem muito.
A experiência de estar no backstage de um evento de moda alternativo como a Casa de Criadores é única. Organizado por André Hidalgo, há mais de dez anos, a Casa nasceu na noite paulistana com a intenção de revelar novos estilistas, num momento em que o hype era a música eletrônica, o movimento clubber e as drag queens. Esse espírito underground ainda se mantém até hoje, mas a estrutura em si melhorou bastante, desde que o evento fixou residência no Shopping Frei Caneca, no centro de São Paulo.
Logo no elevador dou de cara com um Léo Áquila, absurdamente desmontado. Calma, a noite estava apenas começando. O esquenta para os desfiles começa num imenso lounge, ao som de música eletrônica e onde se reúne o maior número de pessoas "diferentes" por metro quadrado. Mesmo quem nunca esteve num lugar desses consegue captar aquele clima de descontração. A resposta pra isso é bastante simples, elas estão ali mais para prestigiar os amigos do que qualquer outra coisa. Claro, também para dar muita "pinta", expressão muito usada no meio para dizer que alguém quer apenas ver e ser visto.
Diferente de eventos maiores como SPFW, onde há um backstage para cada marca, na Casa existe apenas um espaço de trabalho para todos e ninguém reclama dessa camaradagem fashion. Modelos, hairstylists, produdores, bookers, fotógrafos e DJs geralmente não cobram cachê, todo esforço é pela causa: promover o trabalho desses novos talentos da nossa moda. Não é demais citar alguns nomes que despontaram lá e que depois alçaram vôos maiores e com sucesso, é o caso de Icarius, Marcelo Sommer, André Lima (que naquele dia estava sendo homenageado), Gisele Nasser, Cavalera, entre outros.
Vendo tudo aquilo, aquele clima de euforia (porque as pessoas estavam completamente felizes ou fingindo ser), de expectativa para os desfiles, não pude deixar de fazer o registro. No entanto, as imagens que fiz não traduzem exatamente o que a maioria dos fashionistas espera de imagens de moda, por isso cabe aqui uma explicação. O meu olhar para a moda é bem diferente. É de desconstrução. De fascínio pelo trash. Não quero me rebelar contra os estereótipos, mas mostrar que existem outras formas de se construir imagens de moda. Se tiverem um quê de estranheza, se apresentarem a possibilidade de um novo ângulo, dinâmico ou incomum, sou seduzido imediatamente para elas. O resultado, quase sempre, é o que chamo de um diálogo curioso entre aparência e identidade. Assim foram feitas as imagens que ilustram esta crônica.
As opostas da Casa recebem uma boa atenção da imprensa. Os jornalistas especializados, treinados para novidades, veem ali um certo frescor, uma vontade de acertar, mas sem aquele comprometimento essencialmente comercial que, muitas vezes, tolhe a criatividade dos estilistas. Todos também costumam aguardar ansiosos pelo desfile de Walério Araújo, uma das figuras mais performáticas e famosas do evento. A cada edição ele procura surpreender os convidados com algo, digamos, no mínimo inusitado. Dessa vez equilibrava-se num salto alto e corria à boca pequena que estaria usando também uma micro calcinha. Não conferi.
As modelos já estão na fila, os desfiles vão começar. Entro pela boca de cena e me coloco no chão, enquanto os fotógrafos se aglutinam no pit, à milhas de distância. A minha visão é privilegiada. Entre os desfiles, três merecem especial destaque. André Lima que abriu o primeiro dia com uma retrospectiva de sua carreira, Moshe Sport, que teve como trilha o pocketshow de Daniel Peixoto, vocalista do Montage e Walério Araújo que fez seu mis an cene costumeiro e, mais uma vez, conseguiu atrair a atenção de todos.
Acabou. As luzes se apagam. Lá fora as pessoas ainda vão comentar "as novidades", por algum tempo. Na saída, percebo no chão uma rosa branca toda pisoteada. Lamento por ela e faço a imagem. Vou embora despretensiosamente reflexivo. Quando se trata de moda, tudo é mesmo muito efêmero.







