segunda-feira, 21 de junho de 2010

VESTIÁRIO


























E a bola continua rolando por aqui. Como havia prometido, vou postar alguns trabalhos que fiz para a exposição Vestiário, que ficará no meu ateliê até o próximo mês. Também quero comentar algumas coisas que estão me incomodando, na Copa. Mas antes de partir para o ataque ao técnico Dunga e a raivosa extrema direta norte-americana, quero registrar também a minha grande tristeza pela morte do escritor José Saramago. O único livro dele que li foi Ensaio Sobre a Cegueira, que considero fundamental. Eu estava no primeiro ano da faculdade e fui logo me deparando com aquele realismo-bofetada, aqueles períodos a perder de vista, aqueles questionamentos maravilhosos que estão na sua obra. Ele vai nos fazer muita falta. Não é nenhum consolo, claro, mas que possamos, então, tomar como meta as suas últimas palavras: “pensar, pensar”.

Ontem, durante o jogaço Brasil x Costa do Marfim, abri a exposição Vestiário, para poucos e fiéis amigos. Dessa vez, não divulguei e nem distribuí convites, simplesmente montei a exposição no meu próprio ateliê e as pessoas que vierem assistir aos jogos, na minha casa, poderão também conferir os meus novos trabalhos. Talvez, envie apenas um release para alguns veículos de comunicação daqui mesmo, porque a exposição nasceu de forma bastante informal e não poderia existir de outra maneira. O primeiro trabalho é de junho/2008, uma colagem bem simples, onde o destaque são as pernas de uma moça entrelaçadas as de um jogador da seleção brasileira. Ambos chutam uma imensa bola verde e amarela, sobre um fundo com indicadores preocupantes da educação, na Baixada Santista. Com a recente e ótima campanha do Santos, no Paulistão, vendo aquela alegria toda dos meninos da Vila, aquelas dancinhas absurdas nas comemorações dos gols, enfim, me motivei a fazer uma série de, no máximo, 12 quadros. Acontece que futebol é um tema tão fascinante que as ideias foram surgindo aos borbotões. Só tive que escolher uma direção para não virar uma bagunça. No final, sempre vira rs, mas quero ter a sensação de ter sido “coerente”, para usar um termo muito em moda ultimamente. Pois bem, optei por retratar a paixão pelo esporte, os seus ídolos e escândalos, com humor, leveza e sempre de olho na crônica esportiva do dia. Tudo isso com aquele olhar pop que é bastante característico dos meus trabalhos. Um detalhe que considero importante: praticamente todos eles, 36 no total, entre quadros e colagens, foram feitos com material alternativo, reciclado, recolhido de lixos da minha cidade ou mercado de pulgas. Antes que algum engraçadinho possa torcer o nariz por causa disso, vou logo lhe atropelando: acho fundamental fazer algo também que possa contribuir com o planeta. E já faço isso desde 1997, não virei eco-friendly da noite pro dia. Mas tem também um fator criativo nessa história. Os times de futebol, geralmente, não fabricam os seus craques, mas os recolhem de periferias e os tornam grandes ídolos. Vi nisso uma ótima sacada. Espero que vocês curtam.

Agora a parte chata, mas impossível de ser ignorada. Deu no blog da jornalista Patrícia Campos Mello, do Estadão: “Extrema direita dos EUA declara guerra contra a Copa do Mundo”. Fiquei indignado com o que li. Vou resumir para facilitar as coisas. Nos Estados Unidos, vários comentaristas de direita estão malhando a Copa da África do Sul usando argumentos discriminatórios e até racistas. Chamam o esporte de “coisa de pobre”, de sul-americanos, fazem até uma associação negativa com as políticas sociais de Barack Obama. Um dos autores dessas barbaridades atende pelo nome de Dan Gainor, que não se intimidou em dizer em rede nacional: “Futebol é um jogo de pobre. A esquerda está impondo o ensino de futebol nas escolas americanas, porque a América está se ‘amarronzando’ (referência ao crescente número de hispânicos no país). Será que ninguém disse a ele que, se expulsarem os hispânicos da Califórnia, por exemplo, o estado inteiro para? E outra, por quanto tempo eles impuseram a cultura deles ao resto do mundo, sem que ninguém morrecesse por causa disso? Se o futebol está se popularizando por lá, que o basquete e o baseball corram atrás do prejuízo, oras.
Pra fechar, outro assunto espinhoso, mas vocês hão de concordar comigo. O que está acontecendo com os jornalistas esportivos, hein? Estão todos virando engraçadinhos, fofinhos, dançarinos de Rebolation? Desde já, a cobertura do SporTV, pra mim, é a melhor da Copa. Na medida. Menção honrosa para o ESPN Brasil. Os outros precisam voltar pra escola e aprender com o Nelson Rodrigues, que escrevia maravilhosamente bem sobre futebol, com humor, sem precisar tirar a atenção do que é essencial, o jogo. Mas estou convencido de que tudo isso é reflexo dessa cultura “internetês” que prega que, para chamar atenção, vale tudo. Uma pena. Outra coisa que tem me irritado é o comportamento do Dunga. Ele, volta e meia, reclama de perseguição da imprensa e sai xingando aqueles palavrões hediondos, mesmo fora de campo, como se isso fosse demonstração explícita de poder. O cara escolhe a pior profissão do mundo, está sempre mal-humorado e ainda fica enchendo o saco, quando alguém discorda dele? Pelo amor de Deus, né? Na Bahia, tem uma expressão ótima pra isso: “Se não aguenta, pra que veio?”.
Ainda que o Hexa seja uma incógnita, como tudo nesta Copa, estou otimista, moderado, mas estou. E orgulhoso do meu xará que bateu um bolão, ontem. Fez até um gol “mensalão”, como disse o hilário Marcelo Madureira. Vocês não tem noção de quantas mensagens eu recebo no Twitter por causa dele, o meu é @luisfabiano, então já viu. Aliás, ele é um dos homenageados da exposição, assim como o Kaká e o Robinho. Bem, eu fiz a minha parte, ou melhor, o Brasil inteiro está fazendo a sua, agora é com eles a missão de trazer o caneco. Pronto, pendurei as chuteiras. Abração a todos e uma ótima semana!

14 comentários:

Marcos disse...

Você está de parabéns, seus trabalhos são otimos, realmente bastante inspirados, inteligentes e feitos com muito talento.

Não vou mencionar todos os seu comentários pois foram varios, mas concordo com o seu ponto de vista, principalmente relativo ao Dunga e aquele americano preconceituoso.

Abçs

Andrea Pagano disse...

Olá Luis, bom dia!
Realmente o seu trabalho é muito bom, moderno, de linguagem simples e direta, com acesso à pessoas entendidas e não entendidas de arte!
Parabéns, pelo jeito o acervo é grande e ainda bem bacana a forma com que vai expor...despojado como as telas são!

Bem além de ver seu trabalho, eu fiz uma indicação para o selinho PREMIO DARDOS, um carinho entre os blogueiros, caso aceite, esta na pagina do meu blog SELOS E INDICAÇÕES, coluna direita do blog, acima...

Bjs e um ótimo dia para vcs! Sucesso com a exposição... Caso pudesse, realmente iria prestigia-lo!

Pequeno peixe disse...

Gostaria de ser um pouco mais original e elogiar o seu trabalho de maneira mais criativa... afinal, criatividade faz parte da sua vida...!
Mas... naum sou tão bom quanto vc nas artes e tão pouco comas palavras, portanto, deixo vou deixar aki palavras pequenas e elogiosas ...rsrs
Lindo trabalho.... de verdade...!

Athila Goyaz disse...

Adorei os trabalhos.... e também gostaria de ver, tocar rsrs

Quero ir em uma exposição sua!!!

Abraços!

Fábio disse...

Olá gostaria de convidar a conhecer meu trabalho através do blog Ecos do Teleco Teço (WWW.ECOSDOTELECOTECO.BLOGSPOT.COM) . Grande abraço e sucesso com sua proposta !! Axé

Richard Mathenhauer disse...

Olá, Luis Fabiano!
Que bom que partilha com a gente seu trabalho. Todos muito bons. Chamou-me a atenção o último. Acho que ficaria por uns bons minutos de frente a ele...

Parabéns!

Cássia Valéria disse...

Luis,
Vc é um artista de uma inteligência ímpar no que nos transmite.
Já faz alguns minutos que estou aqui olhando e realmente é muito expressivo!
Parabéns!!!

Beijo,
Valéria

Ps: Os americanos tem uma tendência incrível a menosprezar tudo aquilo em que outros são melhores do que eles...
Eles 'se acham' mas pelo jeito nós é que 'nos encontramo'!rs.

Junnior disse...

Luis Fabiano, obrigado pela visita e desculpa pela bagunça (de ter comentado no post errado).
Irei acompanhar as atualizações do seu blog pelo painel do meu, ok?
Valeu, abraços.
Junior.

GilsonBicudo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
GilsonBicudo disse...

Luis. Distanciado em viagem, vou aos pouquinhos retomando os textos dos meus blogueiros prediletos e não posso deixar de comentar alguns.

Uma perda mesmo o Saramago ter-se ido, mas já está eternizado. É um monumento da literatura em língua portuguesa. Vai demorar muito pra surgir outro que, como ele, consiga meticulosamente manipular o idioma e contar uma boa estória ao mesmo tempo. Nada nele é raso, previsível ou vulgar. “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” é um dos melhores livros que já li, daquele tipo que fica dentro da gente para sempre. Recomendaria também “A Jangada de Pedra” e “Memorial do Convento”. Contudo, como dramaturgo já tenho restrições. Li duas peças dele (“A Noite” e “Don Giovanni”) que achei literárias demais, sem jogo cênico.

Vou, de cara, confessando (e me desculpando), mas futebol realmente não é um tema que eu me apaixona ou me detenha. Sou aquele tipo de torcedor tímido. Mas na Copa fica impossível não se envolver um pouco. Seu post me levou a ler o artigo de Patrícia Campos Mello e ela, por sua vez, me levou a assistir no youtube o chatíssimo Glenn Beck, que é um “jerk” perfeito, e nem de longe representa o pensamento dominante nos EU. Na verdade, a popularidade do futebol está em crescimento contínuo por lá e os índices de audiência dessa Copa estão batendo recordes. É inegável que o “soccer” ainda seja visto como algo um tanto alienígena e incompreensível. Entre meus amigos, acostumados ao “football” e ao basquete, o maior obstáculo é a pouca pontuação, o que dá a eles a impressão de um esporte um tanto “lento”. Mas isso está mudando.

Agora, cá entre nós, essa febre aqui no Brasil é despropositada. Acho um exagero de paixão e envolvimento. E um tanto triste também. É f*da um país ter como seu ponto forte e fonte única de orgulho um esporte. Isso escancara nossa indigência em outros campos importantes como a literatura, a produção científica, as artes, a economia, etc.

Além do Dunga, que apesar de tosco, está conseguindo enfrentar a Globo, a outra coisa boa dessa Copa são seus quadros. Que liiiindos! São de uma criatividade ímpar e uma distribuição de formas e cores na medida perfeita, sem peso nas mãos e nos olhos.

Muuuuuuito bom!

Abs,
GB
(Gilson Bicudo)

Cleyton Cabral disse...

LINDOS.

Rodrigo Teixeira disse...

Belo trabalho!

Bom fim de semana.

Robson Schneider disse...

Bem um comentario quase pós copa do mundo mas enfim...
O tema Vestiário, sugere bastidores né? fico pensando nas revelações que são feitas sobre tudo aquilo que só vemos em 45 minutos,prorrogações e penaltis...talvez pudessemos entender melhor o futebol conhecendo seu avesso.

Abração Luis!

Joel Vieira disse...

Lindo trabalho. Me prendeu a atenção vários deles.
Abraços