sexta-feira, 11 de junho de 2010

CORNETADAS NA COPA





E a bola da vez, com o perdão do trocadilho, é mesmo o futebol. Em todos os lugares, é o assunto predileto das pessoas. Por conta da Copa do Mundo, claro. Num país como o nosso, cuja paixão pelo esporte já é uma espécie de devoção, não esperava nada diferente. Ontem foi o show de abertura e acompanhei tudo dando os últimos retoques numa série de quadros que se transformou numa pequena exposição chamada “Vestiário”, que mostrarei aqui depois. Há muito tempo, não assistia a uma abertura do evento tão bacana, contrariando boa parte dos twiteiros que resmungava sem parar. Adorei aquela confusão musical, gostei do cenário simples e multicolorido, de boa parte dos figurinos, das coreografias tribais, apenas a luz não me agradou muito, mas fora isso, pra mim, foi tudo OK. Fiquei bastante emocionado com o discurso do Prêmio Nobel da Paz de 1984, o arcebispo Desmond Tutu: “Estou sonhando um sonho maravilhoso, onde o nosso povo era um bicho feio e hoje somos lindas borboletas, mostrando ao mundo que somos capazez”. Acho honestamente que, se existe alguma vantagem em sediar uma Copa do Mundo num país como a África do Sul ou o Brasil, por exemplo, é essa, a de resgatar o calor humano. Mas será que a Copa vai servir apenas pra isso, para que os sul-africanos recuperem o seu orgulho? E só por isso já terá valido a pena?


Já nos 45 do segundo tempo, para usar um jargão futebolístico, às quatro e meia da manhã, coloquei no SporTV e estava começando um documentário muito interessante, Fahrenheit 2010 - Aquecendo para a Copa, do australiano Craig Tanner. Ele não só ajudou a responder a essas duas perguntas, como mudou a minha visão, até então otimista, sobre a realização do evento. Dividido por temas e ilustrado com frases sobre futebol, o documentário é importante principalmente por investigar os bastidores das construções dos caríssimos estádios e a péssima utilização de recursos nas obras. Para vocês terem uma ideia, foi exigência da FIFA que nenhum estádio ficasse próximo a favelas e uma escola teve até que ser demolida para dar lugar a um estacionamento, o que causou uma insurreição dos moradores locais. Um crítico incansável que denunciava todas essas barbaridades foi assassinado, no ano passado. Um país com trezentos anos de opressão racial, com a AIDS ceifando milhões de vidas por ano, com problemas étnicos de toda sorte, expectativa de vida cada vez menor, violência gritante, enfim, com tantos problemas, sequer pôde participar da bolada de mais de 25 bilhões de dólares que a FIFA lucrou só com a venda dos direitos de transmissão para as TVs. Informações, assim, que fogem à euforia da maior parte da cobertura jornalística, só vi mesmo no Jornal da Globo, feita pelo jornalista William Waack. Que isso tudo sirva de exemplo para o Brasil. Ah, já ia esquecendo, claro que tinha uma turma muito animada lá também, que achava importante ser vista pelo mundo inteiro, durante um mês, loucos por futebol, mas para convencê-los da importância de um investimento financeiro “cego” foi usado o argumento de que naqueles estádios os Bafana Bafana poderiam jogar com... Isso mesmo, o Brasil. E mesmo que depois da Copa os estádios se tornem imensos “elefantes brancos”, eles podem ser utilizados para realizar cerimônias coletivas de casamento. Só rindo mesmo. Mas vou torcer para que o camaronês Roger Milla esteja certo quando ele diz que “o futebol pode tornar grande um país pequeno”. A minha cornetada mais urgente vai mesmo é para as vuvuzelas, porque ninguém merece aquele barulho ensurdecedor.


Aqui em casa já estamos no clima da Copa, que começou há um mês com aquela escalação preocupante do Dunga. A partir daí, iniciei uma série de quadros chamada “Vestiário” e que de tão variada, leve e cheia de humor ultrapassou a marca de trinta trabalhos e já a considero uma pequena exposição. Um fato curioso é que futebol é tão apaixonante que até a minha mãe fez o seu pedido, queria um quadro de um belo Kaká. Pedido devidamente atendido. Devo postar algumas imagens desses trabalhos, na semana que vem. E para quem vai curtir o dia dos namorados, amanhã, muito amor! E para quem ainda não encontrou a sua cara-metade, a dica é a mesma de todos os anos: "Acreditar e amar até o fim". O meu coração continua nas alturas rs. Abração!!!

P.S. Resposta ao André: Que bom que você gostou do meu texto, a peça é incrível, o texto da Clarice a que você se refere está lá, sim, na primeira parte do espertáculo.

15 comentários:

Marcos disse...

Luis, Muito bom seu post e comentários do país da copa.. e sabe que eu fiquei aqui me perguntando, o que vão fazer com esses estádios? Olha, dá até medo de pensar...

Agora, vc imagine, entregar milhões de cornetas nas mãos de um povo festivo como o africano, eles vão assoprar aquele negócio até os pulmões estourarem, porque os ouvidos já se foram.

Eu vi que o organizador pediu ao o "povo" para com as cornetas para não atrapalhar o show.... OMG!

Abçs e espero o vernissage.

Marcos disse...

Eu curto toda expressão de arte! Espero que vc goste da "novela" trem da morte...

abçs

Caio Lima disse...

Hm.....interessante essa análise.
Mas se por um lado a FIFA está arrecadando muuuito com a Copa, por outro, a África do Sul tbm está. Apesar de todos os problemas que eles enfrentam, eles conseguiram organizar com competencia o mundial. E quando a Copa acabar, o legado de infra-estrutura (não apenas estádios, como vc falou ai) e de uma economia mais forte, vai ficar pra eles. Copa do Mundo, quando organizada direito, gera empregos e oportunidades pra mta gente.

Não resolve TODOS os problemas do país, que fique bem claro. Aliás, nem chega perto disso. Mas já ajuda muito.


E adorei os seus quadros. Vai postando aí pra gente ver ;)

abraço

Serginho Tavares disse...

Até agora o que eu mais gostei foi do Desmond Tutu, da alegria dos africanos... Foi lindo!

Adorei seus quadros!
Abração

marcio_LG disse...

Ô rapaz! Obrigado por passar por lá. E essa foto do coração preso no varal já é um quadro, e dos mais significativos. Digo isso no caso de você ter tirado a foto de um quadro seu secando. Ou será que é uma instalação?
E agora?
(hehehe)

Visão disse...

Eu sempre me pergunto se vale a pena gastar tanto dinheiro para sediar uma copa enquanto temos políticas públicas falidas - a saúde um caos, a educação de péssima qualidade, entre outros. O governo poderia investir todo este dinheiro para melhorar. MAs enfim, o povo gosta do circo, então vamos fazer um belo espetáculo.
Eu quero comprar um quadro. Aceita encomenda? rsrsr

Richard Mathenhauer disse...

Aqui vai um azedo sem-namoro:
1. Não gosto de futebol.
2. Considero um empreendimento econômico-financeiro.
3. Mascara a realidade local para deleite (alienado) de quem vai ou aocmpanha à distância (lembram-se da China, os moradores de rua sendo escondidos e deportados para o interior, casas sendo demolidas e famílias recebendo orientações oficiais de como ser feliz?)

Conclusão (de azedo sem namoro): há certas coisas que, mesmo visando o bem, não compensam o mal que produzem.

Athila Goyaz disse...

Eu jamais te deixaria sozinho se você
e morasse do meu lado.
Sobre o investimento dos estádios, eu realmente não sabia disso, foi preciso mesmo demolir uma escola e tudo mais pra que realizassem as normas da FIFA eu hein!?

Meu dia dos namorados foi assim como o seu dia dos namorados... solteiro! rs

abraços!

Andrea Pagano disse...

Oi Luis,

Vc parece aquelas pessoas que a gente torce para voltar logo de uma viagem, mesmo que a viagem esteja sendo ótima (sua arte), só para contar como foi...Porque no fundo vc vai contar dos becos, do cheiro ruim, do lado negro e obscuro que todos omitem, (para parecer que não tem se não estragar a magia)mas que quando contadas por vc são postas exatamente como devem ser, sem mais nem menos, na dose certa!!!

Como falar da indústria do futebol, como da fome e da seca em um país que simplesmente colocam as faixas nos olhos e agora verdes e amarelas, tão patriotas e convenientes, não é??

Mas vc sempre fala assim com a assinatura de um lorde...rsrsr

Obrigada por ter passado por lá...
Espero que volte logo da viagem e nos traga as telas de presente...

Bjs,
(Só não entendi o Playlist que se referiu...O coração achei lindo mesmo! Pode roubar..eu também o roubei...Tava ai judiado pela net...)

S.A.M disse...

Demais teu post!

E sim, as pessoas são cegas a essas reflexões quanto a real importancia de um evento como esse.

Será justo por exemplo o lance da escola e as exigencias da Fifa?

Se eles aplicarem as mesmas exigencias no Brasil, onde serão os estádios?

Bem, uma pena.

Abração! ^^

S.A.M disse...

Ódio as vuvzelas, ô artigo infame!

Mel Redi disse...

PARABÉNS LUIS! EXCELENTE TEXTO! Ab , Mel

Mel Redi disse...

PARABÉNS LUIS! EXCELENTE TEXTO! Ab , Mel

Löre Satin disse...

amei o da "Realidade"!!!!!!!

=*****
Löre

Petro disse...

Meu caro e nobre artista, poeta, pintor, cronista e pensador... li outro dia este post, ri, pensei, refleti e fui direto ler mais sobre pontos que vc levanta aqui, sobretudo a crítica feita sobre o futebol cuja expressão "futebol marrom" me irritou muito contra o estúpido que a usou contra os latinos como nós.
Sempre que posso venho aqui ler, e pensar. Saio renovado. Queria muito ter a oportunidade de conhecer de perto teu trabalho. Quem sabe um dia? Mas daí te add no twitter (@palatus) que nem sempre uso, mas fico informado por email.
Um abraço forte e bom FDS!