domingo, 6 de dezembro de 2009

NATAL AMARGO


"Tem gente que não sabe viver com felicidade"
Ontem assisti ao tão esperado “Feliz Natal”, o primeiro longa dirigido pelo ator Selton Mello. Embora o filme não tenha me entusiasmado muito, também não posso dizer que tudo que vi não gostei. Desde que soube dessa sua nova empreitada no cinema, fiquei cheio de curiosidade. Em frente às câmeras, Selton não precisa nos provar mais nada, mas atrás delas ainda está se descobrindo. “Este não é o filme da minha vida, é apenas o meu filme de estreia” – esta foi a sua declaração, no ano passado, durante o lançamento desse seu primeiro “filho”. E é exatamente assim que o vejo, como o seu début na direção, com direito a todas as influências e erros a que estreantes estão vulneráveis.

Não esperem por uma história linear, comercial, pelo contrário, para compreendê-la é preciso embarcar nas suas sutilezas e ironias, a começar pelo título. O perturbado Caio, muito bem interpretado pelo ator Leonardo Medeiros, é aquele filho que não deu certo na vida, o máximo que conseguiu foi um ferro velho pra chamar de seu, enquanto o irmão Theo, vivido por Paulo Guarnieri, financeiramente não tem por que se queixar, mas o seu casamento com Fabiana, uma ótima Graziella Moretto em versão dramática, está em crise. Para completar o clima “todos já pro divã”, o seu pai Miguel, o veterano Lucio Mauro, se separou da sua mãe Mércia, a sensacional Darlene Glória, e não o admite como a personificação do fracasso. Os sobrinhos, que dão uma leveza ao filme, criança sempre dá, né?, aparecem como as maiores vítimas dessa família desestruturada, cheia de vícios. Caio faz apenas uma aparição relâmpago, na noite de Natal, para visitá-los, mas é o suficiente para atingi-los no seu íntimo.

Como vocês já devem ter notado, há um excesso de componentes trágicos, mas o pior nem é isso, o roteiro é que não segura até o fim. Em alguns momentos, desgasta-se, torna-se lento demais. Uma pena, porque a fotografia é maravilhosa, a trilha é marcante, a maior parte das interpretações também. O ator Emiliano Queiroz, por exemplo, faz uma pontinha como zelador de um cemitério e arrebenta. Mas o destaque desse filme pra mim, sem sombra de dúvida, é a atriz Darlene Glória, caricatural ou não. E não sei por que ela anda afastada da TV e do cinema. Não dá para não se emocionar numa cena em que, depois de tomar um coquetel psicotrópico, ela entra em transe, começa a se pintar (ou borrar?) desajeitadamente e a se imaginar dançando com o Caio. Seria esta a razão dos seus infortúnios? Uma espécie de amor incestuoso? Só o Selton para nos responder.

“Feliz Natal” é um filme diferente, que privilegia as sensações, as vivências dos personagens, mais do que qualquer outra coisa. Quem curte a literatura de escritores como Clarice Lispector, Tchecov ou Dostoievski vai estar mais acostumado a ele, porque a pegada é bem parecida, mas o melhor é cada um assistir e tirar as suas próprias conclusões. E, se quiser dividir comigo o que achou, melhor ainda. E, depois dessa prova de fogo que é colocar no mundo um rebento e já receber vários bofetões, Selton Mello está preparado para novos desafios. E eu torço muito por ele.

E, neste final de semana, uma nota bem triste, né?, o dramaturgo Mário Bortolotto foi baleado, no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, onde estive há pouco mais de um mês, nas Satyrianas. Estou torcendo pela sua recuperação e tenho certeza de que ele vai sair dessa. Fica aqui a minha solidariedade à família e aos amigos dele e também ao Ivam, ao Rodolfo, enfim, a todo pessoal dos Satyros que foi tão vítima dessa violência absurda quanto o próprio dramaturgo. Aliás, quem está imune a ela, hoje em dia, não é mesmo? Infelizmente. Força, aí! Abração a todos e uma semana cheia de paz, para todos nós.

6 comentários:

Gilson disse...

Fabiano

O Selton tem o poder de transformar tudo o que faz em arte, concordo plenamente, esse é só o início de um grande diretor.
Quanto ao Mário, fico ainda chocado com esses fatos........

Abraço forte.

Jay e Alê disse...

Olá meu amigo,
Vou te confessar uma coisa, eu nem sabia que o excelente ator Selton estava se arriscando pelo mundo da direção, como não lhe falta profissionalismo e talento na arte de interpretar, acredito que o tempo o fará tb um grande diretor.
Sobre a violência, infelizmente todos nós nos encontramos as vizes aprisionados e vítimas. Podemos culpar um monte de gente por um sistema falho e corrupto, por termos políticos que nos envergonham... tudo isso, falta de cultura, falta de investir em educação e vida digna, acho que o caminho para nos livrar de tanta violência passa por esse viés.
Grande abraço meu querido e feliz semana e fim de ano tb.
Jay

Arthur Alter L. disse...

E ae Luis,

Muito tempo que não passo por aqui. Eu pretendo conferir o filme do Selton. Gostei de sua crítica coerente e ponderada.
e sobre violência eu concordo com a opinião do Jay.
Abraço meu camarada.
Excelente semana.

Larita disse...

Oiii Little Sheep of my ♥!

O Selton diretor?! oO'
só vc mesmo pra me informar disso! haha

Bom, se ele mesmo disse: “Este não é o filme da minha vida, é apenas o meu filme de estreia”, não podemos esperar GRAAANDES coisas, né?! Ele mesmo soube reconhecer *rs.
Se pintar por aqui, assistirei e contarei o que achei ;D

É, violência que só cresce =(
nossa solidariedade a todos os atingidos por ela!
=*

Beijoos
AMO VC!

Reflexo d Alma disse...

Ei!
Passando pra conhecer e ja encantada.
Volto com calma pra comentar.
Vou adorar que conheça meu canto
Bjins entre sonhos e delírios

Jay e Alê disse...

Hey,

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