sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O ESTILO CLARICE




Se estivesse viva, a escritora Clarice Lispector completaria hoje 90 anos! Ontem, fez 33 que ela morreu. 2010 foi um ano praticamente todo dedicado a ela, com muitas homenagens, discussões em torno da sua obra (que são inesgotáveis!), os lançamentos de uma ótima biografia e fotobiografia, peça de teatro, a notícia de um filme que deve ser lançado no ano que vem, um certo oportunismo aqui e ali também, claro, mas o mais importante é que ela foi bastante reverenciada e tenho certeza de que conseguiu arrebatar muitos novos leitores. Pra mim, o resultado foi bastante positivo. Clarice é a minha escritora brasileira favorita (“Eu, enfim, sou brasileira, pronto e ponto”), o que não é nenhuma novidade para quem me conhece ou me lê, mas o que me motivou a escrever o post de hoje foi menos a data em si do que uma informação até banal: a importância da moda na sua vida. A motivação veio de uma entrevista do seu mais novo biógrafo, o norte-americano Benjamin Moser: “A coisa mais engraçada foi que uma loja de moda, J. Crew, batizou um sapato desta estação com o nome de Clarice!”.

Um sapato com o nome de Clarice? Convenhamos, é bastante curioso, não? Já li várias reportagens que dão conta do poder da imagem dela sobre as pessoas. Não raro, esses privilegiados se referem a esse momento como uma espécie de “acontecimento”. A artista plástica Maria Bonomi, por exemplo, que em 1971 Clarice a definiu numa crônica como sua “gêmea de vida” e que tive a oportunidade de conhecer, no ano passado, justifica essa impressão: “Clarice era uma mulher linda. A gente entrava no restaurante e não havia quem não quisesse pagar o almoço”. O editor Pedro Paulo de Sena Madureira concorda: “Quando ela entrava num ambiente, mudava a direção do ar”. E não eram apenas os seus traços exóticos que provocavam esse “reboliço”, mas também a sua permanente elegância. Vaidosa, Clarice provocou ao dizer que preferia que saísse um bom retrato seu no jornal do que os elogios. Quanto a isso, ela não poderia se queixar, afinal sempre se apresentava de forma impecável e as suas imagens nunca deixaram de reforçar o mito. No entanto, a ausência do sorriso em praticamente todas elas tinha uma razão especial. Quem me contou essa história foi a própria escritora Lygia Fagundes Telles, amiga de Clarice. Ambas conversavam também sobre cosméticos e moda: “Clarice uma vez me disse (imitando a língua presa da amiga): Lygia, não sorria nas fotos!, as escritoras precisam ser levadas a sério”.

Investigando essas fotografias, percebemos um gosto especial pela maquiagem pesada (cílios postiços, delineador, batom vermelho), o que seria a maior marca do seu estilo. Destacam-se também os vestidos estampados e as camisas listradas (como a da famosa entrevista à TV Cultura em 1977) ou de poá ou gola rulê. A foto mais dissonante é talvez uma em que ela aparece com um casaco de pele, na capa de um livro de textos seus selecionados e que, ao invés de se parecer com uma diva, ficou com cara de vamp. Não podemos esquecer também os acessórios: pérolas, bijuterias e óculos escuros. Os cabelos estâo sempre bem penteados. Enfim, uma referência de moda e bom gosto. Em muitas dessas imagens, Clarice está com um inseparável cigarro (da marca Hollywood). Aliás, foi um cigarro que, de certa forma, provocou também uma ruptura no seu visual. Na década de 60, depois de dormir com um deles aceso e ter o quarto incendiado e o próprio corpo gravemente ferido, Clarice passou maus momentos num hospital, onde fez cirurgias plásticas numa das mãos, mas, a partir daí, nunca mais foi a mesma. Desde então, ficou mais recolhida e adotaria também uma forma de se vestir mais “sombria”.

É inegável que tamanha vaidade vinha de sua própria natureza. No conto “Restos de Carnaval”, por exemplo, é emblemático o motivo que leva a menina (Clarice?) a querer se fantasiar de rosa: “ser outra que não eu mesma”. Não posso afirmar, mas suponho que o modo como ela se vestiu, ao longo da vida, talvez tivesse a mesma intensão. Considero oportuna também uma de suas frases, extraída de algum suplemento feminino, onde ela ataca a vulgaridade com sofisticação: “A mulher elegante não salta aos olhos de quem passa. Elegância não é acompanhar a última moda, mas estar sempre usando aquilo que lhe cai bem”. Muito moderno para um tempo em que a moda brasileira estava apenas engatinhando. Sugiro também a um de nossos estilistas que traduza o estilo da escritora em alguma coleção e não tenho a menor dúvida de que não há ninguém melhor para fazê-lo do que Ronaldo Fraga. O sucesso será garantido. Parabéns, pelo seu dia, exuberante Clarice!

4 comentários:

Paulo Braccini disse...

Vivas e mais vivas a Clarice ... referência maior no pensamento brasileiro ...

;-)

Richard Mathenhauer disse...

Oi, Luis.

As fotografias de Clarice seduzem, imagine-se pessoalmente como deveria ser esta pessoa com "espírito e movimentos". Vi uma entrevista reprisada na TV Cultura, ela fumando muito, um ar pesado, triste... Fiquei fascinado por ela.

90 anos não é lá tanta idade assim... Ela poderia ter chegado mais perto. Mas, certamente chegou perto do Coração Selvagem (como Joyce e seu personagem).

Abraços,

Dêco disse...

Clarice, Clarice! Eu ontem estava lendo "Felicidade Clandestina e Outros Contos". Não canso de ler.
E a forma como vc a descreve me encanta mais ainda. E o amor que tenho só aumenta. Viva Clarice.
Bjs

H A R R Y G O A Z disse...

Great article!