quarta-feira, 1 de setembro de 2010

APOCALIPSE COLORIDO




Corram. Fica só até esta semana, em São Paulo, no Conjunto Nacional, a ótima Selected Works, de Keith Haring. Fui três vezes. É uma exposição compacta, mas nos apresenta muito bem esse artista norte-americano talentoso e carismático. Embora Haring não seja totalmente desconhecido nosso – ele já participou da Bienal de 83, em São Paulo, e pintou painéis em Ilhéus, na Bahia –, é a primeira vez que ganhamos uma retrospectiva de sua obra. A curadora Sharon Battat teve ainda a feliz ideia de presentear os visitantes com um livrinho charmoso chamado “The book of life”, sobre o qual falarei depois. A exposição, que já percorreu vários países, está tendo uma excelente repercussão de público e chega ao Rio, no final do mês.

Keith Haring nasceu em 1958, na Pensilvânia, e começou a desenhar muito cedo, incentivado pelo pai e inspirado em desenhos muito populares na época (lê-se Walt Disney). Mas foi em Nova York que a sua carreira de fato começou. Lá, conheceu e ficou amigo de uma série de artistas, entre eles Andy Warhol e Basquiat. Também influenciado por eles, direcionou o seu trabalho para uma pintura baseada principalmente na importância do traço. Em 1980, sua carreira ganhou um impulso inusitado e providencial. Ao desenhar em painéis publicitários cobertos por um papel preto e fosco, no metrô de Nova York, encontrou um público ávido por novidades e bastante receptivo à sua arte. Aliás, arte que iria se popularizar nas ruas de diversas cidades do mundo e faria escola, tempos depois. Nos anos 80, ganhou reconhecimento internacional e participou de várias exposições individuais e coletivas. Mesmo sob críticas, inaugurou a sua Pop Shop, no Soho, uma loja que vendia camisetas, brinquedos, pôsteres, bottons e ímãs de geladeira ilustrados com as suas imagens. Lamentavelmente, morreu de AIDS, aos 31 anos, em 1990.

Acredito que, por não haver espaço suficiente para abrigar boa parte do seu acervo, vieram para o Brasil apenas os trabalhos mais significativos, além de alguns objetos pessoais do artista que ajudam a contar um pouco a sua breve, mas inspiradora trajetória de vida. A série “Apocalypse” (1988), o primeiro trabalho feito em parceria com o escritor beat William Burroughs, é a minha favorita. Com imagens de santos ou obras renascentistas, convivendo no mesmo espaço com desenhos absurdos e irreverentes, as telas apresentam uma estética “suja”, própria da arte urbana e bastante comum nos anos 80. Outra série interessante e que agrada em cheio ao público infantil é “The story of red and blue”, com desenhos originais feitos para os filhos do galerista Hans Mayer. Para Haring, as crianças sabem uma coisa que a maioria das pessoas esqueceu: "Elas tem uma fascinação pelo seu dia a dia que é muito especial e que pode ser muito útil aos adultos se eles aprenderem a entendê-la e respeitá-la”.

Sua paleta de cores é bastante variada, com destaque para os fluorescentes que estavam em moda na época. Essas cores vibrantes preenchem traços grossos de figuras humanas, em situações engraçadas ou mesmo expressando alguma espécie de denúncia. Para descansar um pouco o olhar, mas também provocar outros sentidos, a série “The Blueprint Drawings”, bastante erótica e em preto e branco, chama atenção para aqueles loucos anos 80 de liberdade sexual e ameaçados pela AIDS. Ceifado pela doença, numa época em que não existia o coquetel de remédios que permite aos soropositivos ter mais qualidade de vida, Haring, se estivesse vivo, veria o quanto contribuiu para tornar a street art aceita pelo exigente e controverso mercado de arte. Como brinde, os visitantes podem ainda levar para casa o “Livro da vida”, ao invés de um catálogo convencional. Nele há uma breve biografia do artista, depoimentos encorajadores de soropositivos e como se prevenir da doença. Os mais animados podem ainda sair da exposição com camisinhas, distribuídas gratuitamente pelo Ministério da Saúde. Vale a pena também ir ao mezanino para ver de perto as anotações dele, as polaroids, o seu tênis Nike e assistir aos dois vídeos, um deles feito aqui no Brasil. Quem curte os anos 80, como eu, deve ficar fascinado. Tudo nos remete a essa época deliciosamente exagerada. Ah, a entrada é franca. Então, divirtam-se!

5 comentários:

Paulo Braccini disse...

Que saco morar na roça ... aff ... mais um evento imperdível e eu aqui atarracado nesta joça ...

mas enfim ...

bjux

;-)

Dan disse...

Que saco morar na roça[2].
:(

Rodrigo Teixeira disse...

pior que morar na roça (como os guris ai acima) é morar na província, por que não chega nem em sonho esse tipo de coisa...


besos

Richard Mathenhauer disse...

Minhas todas as palavras supracitadas!

:-(

Abraços,

M. disse...

Cara, eu vi essa exposição na Caixa Cultural e é fantástica.

Os desenhos dele também ilustraram o backdrop da musica Into The Groove da Madonna na turnê Sticky & Sweet (vide Youtube).

Grande abraço!