
Só hoje me dei conta de que tenho assistido a uma infinidade de dramas. Pra mim, filmes com histórias tristes rendem roteiros mais elaborados, o que nem sempre é verdade, mas por ter inventado essa teoria maluca e, como seu único adepto (creio eu), tenho que honrá-la de alguma maneira. E haja lencinhos de papel! Sim porque, no final de cada um deles, quase sempre, me pego chorando. E não tenho o menor pudor em confessar isso. Vejam bem, apenas confessar rs. Foi assim com “Philadelphia”, “Dançando no Escuro”, “Antes que Anoiteça”, “Gia”, “Frida”, “Mar Adentro” e muito recentemente “Cinema Paradiso”, “Vermelho Como o Céu” e o ótimo “O Escafandro e a Borboleta”, este último a motivação deste post. Lembro-me de uma vez, na faculdade, a professora de Literatura Inglesa ter passado o filme “Uma Lição de Vida”, com a ótima Emma Tompson. A história mexeu tanto comigo que precisei sair de fininho, no meio da sessão. Por pura vergonha de ser flagrado chorando. Com o excelente “O Escafandro e a Borboleta”, de Julian Schnabel, a experiência foi bem parecida. Embora não tenha derramado uma única lágrima, parei de assisti-lo diversas vezes e me questionei se, realmente, deveria fazê-lo. Tudo por conta do sofrimento extenuante do seu protagonista. Depois, cheguei à conclusão de que um filme que me faça ter esse tipo de questionamento já é um candidato natural a merecer a minha atenção, ainda que de forma indisciplinada. Então resisti e fui até o final.
O começo do filme é um desafio ao espectador e logo vocês entenderão por que. Antes, porém, vamos ao roteiro, que, aliás, não é muito diferente de qualquer outro sobre doenças devastadoras ou pacientes em fase terminal. Jean-Dominique Bauby, interpretado por Mathieu Amalric, é editor da ELLE francesa e bastante apaixonado pela vida. Enquanto dirige seu carro, ao lado de um de seus filhos, sofre um AVC (acidente vascular cerebral). Apesar de manter-se lúcido, é acometido por uma terrível paralisia. Seu único movimento vem do olho esquerdo, o qual, através de piscadas, passará a se comunicar com as pessoas. Uma piscada corresponde a “sim” e duas a “não” (a câmera subjetiva também abre e fecha, nesses momentos. A mim causou muito incômodo). Esse simples método evoluirá para a indicação de letras, que por sua vez constituirão as palavras com as quais ele irá se comunicar melhor. O final nos reserva uma linda surpresa que tem a ver com o título do filme. Se você, assim como eu, também não sabia o que é um escafandro, vou facilitar a sua vida. Escafandro é uma espécie de armadura usada por mergulhadores. Nas forçosas alucinações de Jean-Do, ele se vê no fundo do mar paramentado com essa armadura, símbolo do seu imobilismo. Já a borboleta representa a sua imaginação que, como sabemos, já nasceu sem limites e pode ser tão bela quanto desejarmos. Mas o filme não tem só sofrimento, há também um pouco de humor nos gracejos em off do protagonista, o que lhe confere momentos pontuais de leveza.
Sendo o diretor Julian Schnabel também artista plástico, a fotografia só poderia ser bela e bem cuidada. As imagens tanto em flashback quanto das fantasias de Jean-Do são maravilhosas. Com o perdão do trocadilho, verdadeiras pinturas. A trilha sonora também é tocante, sem parecer piegas. Tem uma música na voz do Bono Vox que me instiga garimpá-la, desde então. No entanto, o que mais me arrebatou foram as cenas que demonstram a relação afetuosa do protagonista com o seu pai. Quando ele termina de fazer a barba do pai, por exemplo, que é bastante idoso e está debilitado, o velhinho de 92 anos lhe confessa que sente muito orgulho dele. Essa lembrança irá confortá-lo, tempos depois, quando ele se encontra numa situação irrecuperável, prisioneiro do próprio corpo. “O reconhecimento do meu pai foi tão confortante e agora é ainda mais. Todos somos crianças. Todos precisamos de reconhecimento” – diz ele, em off. O telefonema do pai para ele, no hospital, interrompido às lagrimas, é também outro momento de forte emoção.
Fazer um filme desses deve ser muito arriscado. Um salto sem rede e no escuro. Qualquer descuido pode levá-lo ao sentimentalismo barato. Embora esses temas comovam plateias, não dão garantias de que vão atingir o coração das pessoas. Muitas vão tirar lições preciosas, outras não verão nada demais, o que não quer dizer que sejam também insensíveis. A minha leitura, por exemplo, também não é das mais apaixonadas. Mas gostei bastante da ousadia do diretor, das interpretações dos atores e, sobretudo, da ideia de que uma imaginação inquieta é realmente uma força salvadora. É isso. Fiquem à vontade para revelar quais são os seus dramas favoritos. Vou dar um pulo em São Paulo. Então, deixo para fazer a ronda na bloguesfera, na volta. Abração!!!