sexta-feira, 7 de maio de 2010

INVESTIGANDO LADY GAGA


A economia grega agonizando na Europa, alerta de terror e desastre ambiental, nos Estados Unidos, o Ministro da Saúde recomendando doses diárias de sexo e eu ainda pensando na lista da Times, na Lady Gaga como artista mais influente do mundo. Seduzido pela novidade, quis descobrir o que está por trás do sucesso da cantora e o quanto há de exagero no que se fala sobre ela. Na mesma lista, que é bastante suspeita, também aparecem dois brasileiros, o presidente Lula e o ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner. Embora a imprensa brasileira tenha feito um alvoroço em torno disso, a própria revista fez questão de ressaltar que não se trata de um ranking. Aliás, não tenho a menor ideia quais foram os critérios para a escolha dos nomes. Soube apenas que contou também a quantidade de seguidores no Twitter, o que não deixa de ser questionável.

Quem assina o texto que explica a ascensão meteórica de Lady Gaga é a cantora Cyndi Lauper, que nos anos 80 já teve os seus dias de glória, mas por insistirem tanto numa rivalidade entre ela e Madonna, nunca conseguiu alçar maiores voos. Lauper, que é também parceira de Gaga numa campanha de cosméticos, cuja renda é voltada para vítimas da AIDS, resumiu o trabalho da colega de forma precisa: A arte de Lady Gaga retrata o período que vivemos agora”. E ela está certa. O que me chama atenção na cultura pop é justamente a sua capacidade infinita de lançar modismos, de criar linguagens, de não se levar a sério, de se reinventar, independente da qualidade e da durabilidade do produto. Adoro citar uma frase do escritor Marcel Proust que tem tudo a ver com isso: “Destestem a música ruim, não a desprezem”. Não há realmente por que ignorá-la. Gostar já é bem diferente.

Vaticinei aqui, no ano passado, que depois de Michael Jackson não haverá outro artista pop com tamanho talento. Lady Gaga em nada me fez mudar de ideia, mas a compreendo dentro deste momento atual, que se traduz em explosão de imagens, hedonismo e necessidade urgente de fama, no desejo de revelar identidades, num escapismo que pode estar tanto na moda quanto num filme em 3D. Num mundo tão cheio de possibilidades, cada vez mais plural, onde as pessoas pouco se conhecem, mas se conectam, como traduzir tudo isso em música e imagem? Lady Gaga soube entender esse momento e nos livrou da monotonia que reinava na música pop. Ainda me incomoda a banalização do sexo nos clipes, mas digo isso de modo geral. Fica a impressão de que para ser aceito é preciso ser exatamente daquela forma, lindos e sexies. Por falar nisso, achei uma ótima sacada aquela propaganda de desodorante que usava o slogan: “Recupere as mulheres que os astros da música roubaram de você”. Mas quanto aos cantores desnudos não tenho a menor esperança. Desde que Salomé fez aquele “strip-tease” bíblico que custou a cabeça do pobre João Batista, a prática de tirar a roupa para conseguir alguma coisa em troca tem funcionado bastante. E com a venda de CDs em queda livre, vai faturar mais quem souber aliar algum talento com um punhado de oportunismo.

Lady Gaga declarou que Andy Warhol é uma fonte de inspiração para suas performances malucas que misturam arte, moda, tecnologia e tudo que passar pela sua cabeça. Talvez por isso o nome do seu disco de estreia seja “The Fame”. “No jogo do amor, você quer amor ou fama?”, ela provoca em uma das letras e que nos remete àquela máxima de Warhol: “No futuro, todos terão seus 15 minutos de fama. Isso sem falar nas deliciosas “Paparazzi” e “Bad Romance”. No final do ano passado, assisti a uma entrevista dela, num programa de TV americano, onde o mais interessante foi ver a sua forma de trabalho. Ela passa o dia inteiro com uma equipe bolando aqueles figurinos extravagantes, make-ups, ideias para performances absurdas, enfim, captando “o momento”. Como bem resumiu uma garota em resposta a um blogueiro que execrava a cantora na web: Ela é quem manda no seu próprio circo, coisa rara no mundo pop de robôs em lingerie. Pesquise um pouco mais e você vai ver que a coisa é séria”. Só não concordo com o segundo argumento, porque no universo da música pop o aparentemente sério pode não passar de uma grande piada. Então podemos rir sem culpa.

Com um quadro gigante para entregar até o final do mês, em São Paulo, quase não tenho aparecido por aqui, mas ficam os meus sinceros agradecimentos a todos que comentaram sobre o texto da Clarice, vou respondendo aos poucos. Aliás, o texto foi destaque na página "Why This World: A Biography of Clarice Lispector", no Facebook, moderada pelo autor Benjamin Moser. Ele o classificou como “um artigo interessante de Luis Fabiano Teixeira”. E como vocês sabem que eu sou facilmente corrompido por elogios e bombons... rs. Sério, achei bacana porque escrevi aquele texto num momento bem difícil e esse reconhecimento veio como “um sopro de vida”. Também aproveito para agradecer ao Clênio Viegas e ao Petro pelo selo Prêmio Dardos, que ambos concederam a este humilde espaço. Os dois tem blogs superbacanas também, valem a pena conferir. Obrigado mesmo, meninos, já o coloquei na minha estante. E hoje é aniversário do meu irmão Luis Gustavo. Parabéns e muitos anos de vida pra ele! É isso. Vou nessa, em ritmo de Just Dance! Abração!

17 comentários:

Paulo Braccini disse...

Adoro as pessoas confessas ... rs ... então vai lá ...

Realmente adorável, super inteligente esta sua contextualização sobre a pop art da atualidade ... Lady Gaga é tão somente um exemplar desta geração ... Tão boa sua argumentação que estou enviando em anexo uma caixa de bombons de licor [que adoro diga-se de passagem] ...

bjux

;-)

Richard Mathenhauer disse...

Eu não detesto menos ainda desprezo Lady Gaga. Eu ouço Lady Gaga. Mas sei que é um fenômeno, ou, um epifenômeno. Nâo importa. Está aí. No meu carro vão Lady Gaga e Vivaldi sem problema algum.

Bom texto!

Athila Goyaz disse...

Hunnnnn, quadro enorme? Quero ver isso!

Falando em Lady Gaga.... falei dela no meu blog na ultima postagem (que alias tá com teia de aranha já.. faltando inspiração).

Eu conheci esse SER na televisão. No começo achei horrível, mas como diz a frase aí to detestanto, mas não desprezando. Vamos ver até onde essa mulher vai chegar, de certa forma eu torço para o artista se superar, e geralmente quando começa assim "por cima" o tombo é maior.(urucubaca)

Abraços!

Petro disse...

Sempre odiei a música desta Gaga como odiava a da Shakira. Mas não é que com o tempo comecei a gostar?

bem, quero agradecer por suas palavras e por citar o "mémoires". Seus textos e sua forma de escrever me trazem sempre aqui. Foi bem no momento certo o elogio do Benjamim. Vc merece e Lispector também.
xero

Marluce Moura disse...

Passei por aqui,sou artista plastica e tbm tenho um blog www.m3fsa.blogspot.com

Angelo A. P. Nascimento disse...

Lady Gaga... Sei pouquíssima coisa sobre. Talvez aqui tenha sido o lugar que mais me esclareceu, sem exaltar ou denegrir.
rs
Abração

S.A.M disse...

Acho que o lance da Lady Gaga é esse mesmo, foi legal que aqui voce certamente escreveu uma restrospectiva dela das mais imparciais que eu já vi.

Alias, passarei mais aqui, adorei teu blog!

Abração! ^^

Visão disse...

No início eu a achava tosca, e odiava aquelas palhaçadas dela, mas depois fui ouvindo as músicas e gostando das batidas e quando eu menos esperava já estava cantarolando "Boys, Boys, Boys". Isso é contagiante, minha gente, mas eu ainda prefiro outros cantores.

GilsonBicudo disse...

Luis,

Ótimo texto, muito informativo mesmo.

Uma lista em que figuram Lula e Jaime Lerner como pessoas mais influentes do mundo já fica meio desacreditada logo de saída.

A notoriedade de Lula vem mais por conta de sua trajetória de menino pobre, etc e seu pomposo índice de popularidade por aqui do que por qualquer idéia que possa ter eventualmente saído da cabeça dele. O Jaime Lerner (quem??) não influencia nem SP, o mundo então ...

A Lady Gaga acredito que sim, um pouco. Não saberia dizer se consegue influenciar idéias ou atitudes. Acredito até que não muito. Mas com certeza consegue chegar nos cantos mais escondidos do planeta.

Acho difícil avaliar a qualidade musical dela, mas é inegável que tenha, como você colocou tão bem, sacudido a música pop. Também é difícil avaliar o resuldado de suas músicas sem todo aquele visual bizarro. Um ficou muito dentro do outro.

De qualquer forma, um pessoa não chega a ter um sucesso tão grande só com marketing, tem de ter alguma qualidade pessoal, sem dúvida.

Pessoalmente, eu adoro as músicas, não gosto dos figurinos e detesto os clips.

Vamos ter de esperar para ver se ela veio pra ficar ou se tudo isso de hoje será só um momento do cenário pop.

O tempo vai dizer.

Lembro que em 1985 Madonna era vista como um fenômeno passageiro. E lembro também que Mozart era tido como "comercial demais" por seus contemporâneos.

So ... let`s wait and see.
abs,

GB
Gilson Bicudo

Joel Vieira disse...

Olá.

é realmente Lady Gaga é o que a de melhor no mundo pop atual. Todas as tribos já dançaram ao som de Pocker face e Bad romance! Sem contar no interesse que as pessoas tem em saber quem realmente está por tras de todo aquele figurino bizarro e maquiagem extravagante.
Quanto ao seu imã da Clarice se tivesse conhecido vc antes e já q deu a uma amiga mesmo, ia pedir pra mim
haha

to seguindo
abraço

Andrea Pagano disse...

Luis,
Parabéns pelo Blog!
Conheci através do "Meu Pitado", sou amiga o Andrino e achei seus textos interessantes e tal como vc, adoro a Clarice Lispector...
Respondi a um Meme hoje, indicada pelo nosso amigo em comum e resolvi te convidar para faze-lo também (http://devaneioseinstintosdissonantes.blogspot.com/2010/05/respondendo-ao-meme.html)
Caso queira..OK?
Fique a vontade
Bjs

Flávia Batista disse...

Cara, Lady Gaga é um ser que me intriga. Não sei se gosto ou não dela.
na verdade, não tenho razão para não gostar. Só não gosto de olhar pra ela. POr mim, só ouço a voz dela que é linda e as músicas que são muito legais. Fora isso, não dá pra mim não.

Eu até postei sobre ela semana passada lá no meu blog: http://digoporai.blogspot.com/2010/05/lady-mad-gaga.html

enfim, primeeira vez que vim por aqui e gostei muito do que li...

bjsss

Robson Schneider disse...

Eu Na verdade custei a me interessar em conhece-la.Acho que o nome "Lady Gaga" sempre me soou estranho, talvez ciumes queenianos hahaha
Mas acho que ela é corajosa,lembrando que pra geração a qual faz parte, ela é sim o que foi a Madonna nos anos 80 e 90,talvez melhor acessorada.Tomara que consiga amadurecer sem surtos de boa menina-que-foi-obrigada-a-ser-malvadinha e escreva um livro infantil.
Bem a seriedade do universo pop é diretamente ligada as capas de revistas teen e afins hehehe

Ps; Belo texto Luis (pra variar)

@Raspante disse...

Desde a primeira vez que eu vi a Lady Gaga eu já simpatizei com ela, e virei fã de suas músicas, apresentações e seu jeito doido de levar a vida. Agora o 'porque' do sucesso da Gaga é simples, ela veio em um momento totalmente oportuno na onde ninguém reinava ou tentava algo novo, e veio Gaga e mostrou que ainda tem espaço para a 'reinventação', e nessa altura do campeonato acredito que ela veio pra ficar.
E hoje foi a primeira vez que vejo um texto inteligente, falando da Gaga !
Ótimooo texto!
Abs.
cinemapublico.blogspot.com

Rosane Marega disse...

Oie, gostei muito do seu blog e gostaria de convida-lo para conhecer o meu.
Beijos

Athila Goyaz disse...

Tá sumido hein?

Veronique d'Angoulême disse...

Oi Luis,

Muito bons seus argumentos sobre Lady Gaga! A moçoila há muito chama a minha atenção, especialmente no aspecto visual e tenho muito interesse em investigar o seu trabalho mais a fundo, desde que ouvi, num programa musical, uma pequena análise dizendo que suas músicas não eram uma mera banalidade. Ainda não empreendi a investigação por pura preguiça, confesso. Mas seu post já me foi bem interessante.

Um abraço,