
Já foi o tempo em que fazia questão de assistir a todos os filmes indicados ao Oscar e no dia da cerimônia grudava na TV para torcer freneticamente pelos meus favoritos. De uns anos pra cá, a minha relação com o prêmio foi esfriando, passei a achar tudo muito previsível e até sem graça. “Aplaudir o sucesso alheio não pode cair na rotina” – repetia a mim mesmo, já me prevenindo de um possível remorso. Neste ano, no entanto, resolvi fazer as pazes com a Academia e, tirando um bocejo ou outro, valeu muito a pena. Não estou só falando da vitoriosa Kathryn Bigelow, mas principalmente do comovente “Preciosa”, uma espécie de Davi contra Golias e que também por isso mereceu a minha torcida.
A primeira coisa que me chamou atenção no filme, quando ainda era promovido exaustivamente no programa da Oprah, no ano passado, foi Gabourey Sidibe, a protagonista. Não exatamente por estar fora dos padrões estéticos a que estamos acostumados, mas por concentrar no seu olhar o impressionante sofrimento da sua personagem, Clareece Precious Jones. Na ocasião, anotei mentalmente que queria muito vê-lo, mas logo pipocaram notícias na imprensa de que a cantora Mariah Carey estava no elenco e fiquei com um pé atrás. Quem sobreviveu a “Glitter – O Brilho de Uma Estrela” (2001) sabe do que estou falando. Mas as seis indicações ao Oscar sinalizaram para uma surpresa, não se tratava apenas de um drama patrocinado pela Oprah, valia muito a pena conferi-lo.
“Preciosa” é uma adaptação do livro “Push”, da poetisa Sapphire, que trabalhou como assistente social e educadora em bairros pobres de Nova York, nos anos 80. O drama não poderia ser mais pesado (não se trata de um trocadilho, juro): Precious é uma jovem de 16 anos, negra, pobre, obesa, analfabeta, grávida pela segunda vez do próprio pai e ainda sofre abusos constantes da mãe, brilhantemente interpretada por Mo'Nique (vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante). Uma tragédia que parece interminável, mas não se intimidem com a overdose de sofrimento da protagonista, afinal o subtítulo do filme é também “Uma História de Esperança”. E essa esperança, embora delicada, encontra-se na escola alternativa onde Precious passa a frequentar e também a receber apoio da solícita professora Blu Rain.
Sobre o roteiro é importante ressaltar o trabalho de equilíbrio entre momentos de fortes tensões e o humor debochado dos adolescentes da escola (uma ótima sacada para o espectador ir até o final). Os diálogos, por exemplo, impressionam pela crueza: “Uma mulher de verdade se sacrifica. Quando você nasceu, eu deveria ter abortado” – vocifera a mãe, num dos momentos mais dramáticos do filme. Precious, por sua vez, não a perdoa: “Minha mãe é como uma baleia no sofá. Diz que não paro de comer, mas é ela quem me força”. E, enquanto as cenas de “barraco” entre as duas se sucedem, o espectador logo sai em defesa da sua pobre heroína. Outro aspecto que chama atenção pela poética e finalmente beleza, mas também outro recurso para não nos levar ao limite emocional, é a forma como Precious sublima o seu sofrimento. Em momentos de extrema covardia e violência, ela recorre à imaginação para suportar os maus tratos. Nessas cenas, surge no tapete vermelho (olha a vida imitando a arte!), paparicada por um lindo namorado, num programa de TV, etc.
A fotografia não tem nada de especial, pelo contrário, lembra muito a de filmes feitos para o canal a cabo HBO, mas a primeira direção em longas de Lee Daniels é bastante segura, até mesmo ousada. As interpretações são bem minimalistas e complexas, mas todos dão conta do recado, inclusive Mariah. “Preciosa” chega num momento pra lá de oportuno, porque convivemos com essa carência de afeto generalizada, com o culto exagerado a padrões de beleza inalcançáveis, com falhas absurdas de caráter, no sistema de ensino (e não é só no Brasil), a pedofilia se alastrando como erva daninha, enfim, mas, apesar de tudo isso, não estamos sozinhos, podemos também ser a esperança para muitas pessoas (e isso não é um discurso messiânico barato). Quem quiser pode dividir conosco as suas impressões sobre o filme e, pra quem ainda não o assistiu, fica aqui a minha dica.
E eu não poderia deixar de registrar também o meu repúdio, a minha indignação ao assassinato covarde do cartunista Glauco e de seu filho Raoni, na porta de sua casa, em Osasco, na semana passada. Infelizmente, esse foi mais um daqueles crimes que fazem com que a gente se pergunte, em vão: “Até quando?”. Fica aqui a minha solidariedade à viúva dele e aos seus parentes e amigos. Aproveito também para agradecer publicamente ao querido Clênio Viegas, do blog “Um Filme por Dia”, que indicou este humilde espaço para o selo “Blog VIP”. Achei o gesto bem simpático, é o segundo que recebo. Obrigado, Clênio! Recomendo o blog dele também, há ótimas resenhas sobre filmes lá, bem construídas e cheias de detalhes. É isso. A última semana foi bem estranha, pra mim, dizem que já estou no meu inferno astral. Então, por favor, atendam a minha súplica mais urgente: me façam sorrir rs. Abração!!!