Só hoje consegui assistir à matéria do Video Show sobre Amsterdam, dentro da série Pelo Mundo das TVs, apresentada pelo Zeca Camargo. Tive o prazer de indicar a maior parte das locações que aparece no video e acompanhar a equipe num dia intenso de trabalho, em dezembro do ano passado. O resultado ficou incrível! ADOREI. Amsterdam em todo o seu charme e beleza. Quem não assistiu é só clicar no link e dar play.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
ANO BOM
É a segunda vez que faço isso. Saio de casa
meia hora antes da virada e vou me aventurar pelas ruas estreitas e repletas de
turistas de Amsterdam, para cruzar aqueles canais maravilhosos, enquanto um filme,
com o perdão do trocadilho, passa na minha cabeça, rememorando o ano que se
passou. Este ano foi ainda melhor, tudo pareceu ainda mais belo e encantador ou
teria sido 2014 um ano espetacular? Fazendo, assim, uma análise geral, o ano
passado não foi exatamente incrível, mas foi perfeito. Devo a esse ano a força
que me manteve firme para continuar com meus projetos artísticos, não ter
morrido de amor (como fui tolo) e seguir com os meus planos de viagem ao Brasil,
depois de quase quatro anos, fora de casa. Finalmente chegarei lá, me aguardem. Por tudo isso e mais algumas agradáveis surpresas de última hora, posso
dizer que foi um ano muito bom.
Não fiz exposições, mas pude avançar nas
pesquisas do meu trabalho e produzir mais de dez quadros, exatamente como eu os
imaginei, fora outros tantos que estão inacabados, no ateliê, e que devem
aparecer em breve. Ano em que pude escrever mais um novo roteiro, que agora se
soma aos outros três engavetados e que, pelo menos, um deles pretendo filmar ainda
este ano, no Brasil. Sem contar o projeto de um site cultural e mais a minha
adesão ao mundo dos vloggers, que resultou na criação do Fixação, programa de
dicas culturais e afins do meu canal do You Tube e que vai melhorar (e muito!),
nas próximas edições.
Ano em que abandonei de vez a TV e apenas me
dediquei a assistir a poucos e bons filmes, e muito deles nacionais. Claro,
está cada vez mais difícil encontrar boas produções brasileiras, mas como não
se emocionar com “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” ou dar boas risadas com o
desbunde de “Tatuagem” e até mesmo se decepcionar com “Praia do Futuro”. No quesito músicas do ano, eu que já não sou uma pessoa cheia de
trilhas favoritas, qual não foi a minha surpresa e prazer ao descobrir, já no
final do ano, o talentosíssimo Johnny Hooker, cuja canção “Volta”, do já citado
“Tatuagem”, foi uma das que mais escutei junto com “Alma Sebosa”. Depois baixei
o CD “Roquestar” e os meus treinos na academia ficaram bem mais interessantes e
suportáveis. Viva esse talento pernambucano! Pude ainda realizar o sonho de
conhecer, aqui em Amsterdam, a cantora Daniela
Mercury, de quem sou fã confesso e que me fez mergulhar nas minhas raízes baianas, num show memorável
com o Olodum, numa das casas de espetáculos mais bacanas da Holanda e ainda
pude presenteá-la com um trabalho meu, inspirado no barroco brasileiro e ela se
mostrou satisfeita no Twitter e ainda me agradeceu pessoalmente pelo mesmo.
Quase morri do coração nesse dia!
O ano
que li muitas e variadas biografias. Não é tão fácil encontrar livros em
português por aqui e o meu inglês ainda não é uma Brastemp, logo ler um bom
romance ou livro de contos é bem complicado. E ainda estou me acostumando com os
livros digitais. Fui então emendando uma biografia na outra e quando vi já
tinha lido “Daniela Mercury e Malu – Uma história de Amor”, “O Som e a Fúria de
Tim Maia”, “Dolores Duran – A noite e as canções de uma mulher fascinante” e,
finalmente, “50, Eu?”, que mereceu até uma resenha aqui, no post anterior. Já
quase no final do ano, o querido Benjamin Moser autografou a minha biografia da
Clarice Lispector, “Clarice,”, e de quebra ainda assistimos a um ótimo
documentário sobre Susan Sontag, num prestigiado festival de documentários,
aqui de Amsterdam.
A exposição que me marcou profundamente foi,
sem dúvida, “Marlene Dumas – The Image As Burden”, no Stedelijk Museum. Por
tudo. Pela excelente e indiscutível qualidade do trabalho da artista
sul-africana, pela montagem que é precisa e competente, pela companhia especial
naquela linda manhã ensolarada de domingo e, sobretudo, pela atmosfera poética
e de encantamento que esta exposição nos presenteia. Não é à toa que foi um
sucesso de crítica e público. Não posso deixar de falar também no acervo de tirar o fôlego do
maravilhoso Centre Georges Pompidou, em Paris, mais até do que a exposição sobre o
início da carreira do Marcel Duchamp, que também vi, sem grande entusiasmo, lá
mesmo. Ver de perto todas aquelas maravilhas modernas e contemporâneas foi uma experiência inesquecível!
E por falar em Paris... A minha viagem pra lá,
mais uma vez, foi maravilhosa. Pela primeira vez, sozinho, pude andar e me
perder por aquelas ruas charmosas, no comecinho do outono. Só essa viagem
mereceria um post à parte, porque foi muito especial e aproveitei bastante.
Logo no primeiro dia, estava acontecendo uma espécie de Virada Cultural chamada
“Nuit Blanche”, com várias e inusitadas atrações, que conferi na companhia de um
francezinho de alma brasileira que, entre outras coisas, estava lendo Oswald de
Andrade em português. Pode uma coisa dessas? Lá também encontrei o meu amigo
Rodrigo Fauor e, com outro amigo dele, passamos uma tarde muito divertida
juntos. Já em Amsterdam, tive o prazer de receber a minha grande amiga, desde
os tempos do colegial, Fernanda Matos e passamos momentos lindos na cidade.
Recebi a visita do meu primo Felipe, vindo de Budapeste, e foi ótimo recebê-lo
também por aqui.
Nas redes sociais, o ano foi, de longe, do
Instagram, com destaque para a nossa sede voraz por selfies (melhor não
falarmos do controverso pau da selfie rs), enquanto o Facebook se mostrou cada
vez mais autoritário e invasivo, chegando às raias do insuportável com a
disputa presidencial, com as pessoas se digladiando em defesas inflamadas por
um ou outro candidato. E o que falar do Brasil, nesse sentido, hein? O ano do
retrocesso, da inflação voltando, do escândalo da Petrobras, dos crimes
homofóbicos, da fraca abertura da Copa... E o que foi aquele terrível 7x1 da
Alemanha contra a fraca seleção brasileira? Bom, melhor pararmos por aqui e
mentalizarmos um 2015 com mais motivos para a gente se orgulhar. Que não nos
falte trabalho e, sobretudo, vontade de superar os desafios. Seja bem-vindo ano
bom!
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
50 E ZEN
Muitos vão torcer o nariz, mas o livro mais
interessante que li neste ano foi “50, Eu?”, o e-book do jornalista e
apresentador de TV, Zeca Camargo. Antes que você possa me chamar de louco ou
deslumbrado com o mundo das celebridades, sugiro acompanhar o post até o final.
Não, não quero convencer você de absolutamente nada, apenas mostrar que esse
livro, talvez por questões de mercado ou por puro preconceito, foi promovido de
forma errada e muitas pessoas não sabem o quanto ele é bem elaborado, o quanto
o texto é saboroso e inteligente.
Difícil escolher apenas um trecho para deixá-los com água na boca, seguem então três que selecionei ao acaso: “Sei que tenho que aceitar que um dia tudo vai cair mesmo – uma involuntária vingança do corpo feminino, que tenho certeza de que as mulheres comemoram secretamente toda vez que veem o marido sessentão sair do banho”, “Somos um gênero naturalmente competitivo – e, na impossibilidade de competir em outras características físicas mais ocultas (e que, embora menos ainda admitam, é a única competição que realmente conta), é na linha da cintura que secretamente dizemos a nós mesmos: “Estou melhor que ele”, “Sou o brinquedo favorito do filho de 2 anos de um casal de amigos. Aliás, eu não – meu rosto. Mais especificamente a pele do meu rosto. Toda vez que encontro esse garoto, ele avança sobre minhas bochechas com a fome de quem encontrou um balde de massinha de modelar”.
Difícil escolher apenas um trecho para deixá-los com água na boca, seguem então três que selecionei ao acaso: “Sei que tenho que aceitar que um dia tudo vai cair mesmo – uma involuntária vingança do corpo feminino, que tenho certeza de que as mulheres comemoram secretamente toda vez que veem o marido sessentão sair do banho”, “Somos um gênero naturalmente competitivo – e, na impossibilidade de competir em outras características físicas mais ocultas (e que, embora menos ainda admitam, é a única competição que realmente conta), é na linha da cintura que secretamente dizemos a nós mesmos: “Estou melhor que ele”, “Sou o brinquedo favorito do filho de 2 anos de um casal de amigos. Aliás, eu não – meu rosto. Mais especificamente a pele do meu rosto. Toda vez que encontro esse garoto, ele avança sobre minhas bochechas com a fome de quem encontrou um balde de massinha de modelar”.
Estava finalizando as pesquisas de um projeto
chamado “O Rosto Objeto”, inspirado num artigo do Roland Barthes, onde
desconstruo rostos especialmente de ídolos ou ícones do passado, negando essa
necessidade voraz que temos de forjar a aceitação inconteste da beleza como algo fundamental (quem não
se lembra do espanto com o “novo” rosto da atriz Renée Zellweger, nas redes
sociais, dia desses?), para mostrar que mesmo aparentemente transfigurados, “monstruosos”,
a beleza deles está ali, uma vez que reconhecemos neles, imediatamente, o que
eles representam culturalmente e isso é o que de fato importa (ou deveria). Li
muitas coisas e, nesse contexto, cheguei ao livro do Zeca Camargo. Sim, foi a
última leitura. Não esperava um livro muito “sério”, é verdade, e logo no
primeiro capítulo levei aquele susto. “Será
que ele escreveu isso mesmo?” – me questionei, ainda desconfiado. E bastou
alguns parágrafos para saber que o livro é mesmo muito bom.
Chegar aos 50 anos, gozando de boa saúde e
prestígio profissional, não é exatamente uma novidade e muito menos privilégio
de alguém famoso, por isso já considero o primeiro grande acerto do autor:
registrar a chegada da nova idade de
forma pouco óbvia (fazendo um raio-x do próprio corpo e suas mudanças) e sem se
perder no caminho fácil da vaidade extrema. Talvez isso explique a presença
constante do humor, ou da “autossacanagem”, como costumo dizer. Desde a ótima
foto de capa, onde o rosto do jornalista aparece todo esticado, o que logo me
fez lembrar alguns trabalhos do fotógrafo Wes Naman, até o bem sacado capítulo
final que traz um dos discursos mais bonitos que já li sobre generosidade e
amor, o humor está presente. Brincar com o que viu no espelho, depois de uma
comemoração intensa em Istambul, uma de suas cidades favoritas, mas sem
protagonizar um dramalhão do tipo: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”
– só pra lembrar um dos meus poemas favoritos da Cecília Meireles – trouxe uma leveza
esperta e, sobretudo, cumplicidade com o leitor. E, cá entre nós, nesses tempos
de exposição excessiva, em todos os sentidos, o discurso do livro, apesar do
lugar-comum, é bastante pertinente: “envelhecer faz parte do processo”. Não tem
jeito.
Não posso dizer que a mídia especializada
ignorou o livro, mas todo material que li sobre ele ou vídeos a que assisti e
até mesmo entrevistas do jornalista falando desse trabalho, na minha modesta
opinião, não destacam a qualidade que me impressionou, a maioria termina sempre refém do
perigoso e precipitado julgamento: “Um artista da Globo escreveu, então vamos
boicotar”. Aliás, não basta ser apenas da Globo, basta ter um pezinho no pop
para sofrer desse mal e na literatura não é diferente. O escritor paulistano Santiago Nazarian que o
diga. Fernanda Young também. Mas, pra
felicidade de quem admira um bom texto, as coisas estão começando a
mudar e nomes como Fernanda Torres e Gregorio Duvivier estão aí pra marcar
território.
No próprio livro (“cada um que descubra as coisas por si”) e em algumas entrevistas de promoção do mesmo, o jornalista se apressa em dizer que não se trata de um livro de autoajuda. De fato, não é, mas é inegável que ele seja “vendido” como tal, o que é uma pena, porque simplifica a mensagem e o ótimo tratamento do texto. Não há fórmulas prontas, dicas para perder peso ou coisas do gênero, apenas o relato honesto de quem chegou aos 50 anos, consciente das mudanças do próprio corpo e feliz por se deixar ser, daquela maneira. É ou não é uma ótima inspiração (a palavra adequada) para quem ainda se sente desconfortável em, digamos, “viver mais”, com tudo que isso possa trazer de bom ou ruim? E se é pra viver mais, que seja com alegria e entusiasmo, como Zeca Camargo tem feito e tão “zen”.
No próprio livro (“cada um que descubra as coisas por si”) e em algumas entrevistas de promoção do mesmo, o jornalista se apressa em dizer que não se trata de um livro de autoajuda. De fato, não é, mas é inegável que ele seja “vendido” como tal, o que é uma pena, porque simplifica a mensagem e o ótimo tratamento do texto. Não há fórmulas prontas, dicas para perder peso ou coisas do gênero, apenas o relato honesto de quem chegou aos 50 anos, consciente das mudanças do próprio corpo e feliz por se deixar ser, daquela maneira. É ou não é uma ótima inspiração (a palavra adequada) para quem ainda se sente desconfortável em, digamos, “viver mais”, com tudo que isso possa trazer de bom ou ruim? E se é pra viver mais, que seja com alegria e entusiasmo, como Zeca Camargo tem feito e tão “zen”.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
BRASIL, JÁ DEIXEI DE TE ENTENDER
Com a correria da minha exposição, terminei só agora lendo o discurso do escritor Luiz Ruffato, na feira do livro de Frankfurt, deste ano, onde o Brasil foi o país homenageado e também as declarações de Paula Lavigne, que representa o cantor Caetano Veloso e outros artistas nessa tentativa ridícula de proibir que biografias não autorizadas sejam lançadas. Vamos por partes. Primeiro o discurso do Ruffato. Fui pegando uma coisa aqui e outra ali, no Facebook, uns contra, outros a favor, mas me mantive em silêncio até ler o discurso dele na íntegra. Bom, pra quem não leu, vou fazer um resumão, mas o melhor mesmo é que cada um leia e tire as suas próprias conclusões. O escritor, bastante premiado, com uma obra traduzida em vários países (nunca li nada dele, tá?), foi um dos poucos escritores brasileiros selecionados para o maior evento literário do mundo e pegou todos de surpresa ao fazer um discurso falando da desigualdade social do Brasil e de como é ser escritor num país, "situado na periferia do mundo", e, cá entre nós, sem leitores. A saia justa foi geral. Aplaudido por muitos e, segundo o próprio escritor, "quase agredido por brasileiros", depois do discurso, o que ficou pra mim desse episódio foi: independente de gostarem ou não, de respeitarem ou não a posição dele, alguém precisava dizer aquilo.
Essa experiência de morar fora, por dois anos, me fez ver que a imagem que a gente passa do Brasil pro mundo, de modo geral, não reflete a nossa realidade e isso ultrapassa aquele pretenso oportunismo com fins econômicos do tipo "vamos maquiar a pobreza do Brasil, para atrair mais turistas". Isso a gente já está cansado de saber e o resto do mundo faz a mesma coisa. Uma vez dentro do país, salve-se quem puder. O que eu acho um erro grave, por exemplo, é essa manutenção descarada da hipocrisia, a qual ele criticou muito bem. Destaco duas coisas interessantes do discurso: a complexa miscigenação do Brasil, que aos olhos do mundo é maravilhosa, mas que na prática resultou em racismo e exclusão social. Eu ainda entendo a nossa mistura de raças com alguma alegria, porque ela nos favoreceu bastante em termos de aspectos culturais, o único ponto em que discordo do escritor porque, segundo ele, ela foi fruto de um "estupro". OK, a metáfora foi impactante, mas, ainda que os colonizadores tenham apenas se aproveitado de índias e escravas, o resultado desse "estupro", pra mim, foi maravilhoso: um país sem cara definida. Por outro lado, o mesmo negro que samba pra divertir o gringo no carnaval é aquele que é rejeitado em uma vaga de emprego, depois da quarta-feira de cinzas. É ou não é? O x da questão é uma mudança de mentalidade. Mas como isso pode ser possível se o próprio modelo de educação do país é falho, insuficiente e não é prioridade do Governo Federal? Muita, muita contradição.
Outra coisa interessante é quando ele termina o discurso falando que, apesar de todos os problemas, acredita no poder transformador da literatura. Muita gente achou ingênuo da parte dele, utópico, etc, outros até não se sentiram representados, embora me pareceu, sim, um discurso em primeira pessoa. Então alguém me diga qual escritor brasileiro, exceto Paulo Coelho, pode se dar ao luxo de parar de escrever, se quiser, porque seus livros venderam ou continuarão vendendo como pão quente? Num país de sem leitores, pessoal? Eis o desafio. Aqueles que dão a cara a tapa e produzem cultura, no Brasil, sobretudo de forma independente, o fazem por amor ao seu ofício, porque são tantos os entraves no meio do caminho, burocracia, caceteação, que se aquilo não for realmente importante pra si mesmo, ninguém consegue fazer. E depois implicar porque o escritor falou da sua infância pobre… Se ele ascendeu socialmente com o fruto do próprio trabalho, qual o problema? Pior foi o presidente que se elegeu usando e abusando de um discurso populista muito do sem-vergonha e que tinha tudo para promover uma revolução na educação do país e não o fez. Enfim, tenho um pouco mais de esperança, quando vejo atitudes corajosas como essa do Ruffato.
Agora vem o prato indigesto do dia… Paula Lavigne foi à gravação do programa Saia Justa do GNT falar sobre a polêmica em torno da associação Procure Saber que representa medalhões da nossa música como Gil, Caetano, Chico, etc, na tentativa de impedir que biografias não autorizadas (só deles?) sejam lançadas no mercado editorial, a exemplo de um ato claro de censura protagonizado, tempos atrás, pelo cantor Roberto Carlos que conseguiu tirar de circulação uma biografia sua. Pois bem, lá pelas tantas, ela vira pra uma das apresentadoras e diz, assim: Bárbara Gancia, você é gay assumida? querendo provocar um certo constrangimento, para justificar o injustificável. "Então, na prática estamos defendendo isso, o direito do artista não se constranger, não ser pego em flagrante"… A interpretação é por minha conta e risco. Acho um absurdo esses artistas (todos meus ídolos), figuras que assumiram o papel de pessoas públicas, a maioria censurada, exilada pelo governo militar, se prestar a uma atitude mesquinha dessas. E a porcentagem sobre o valor dos livros vendidos que querem pra eles? Tenho amigos biógrafos que passam meses ou anos trabalhando arduamente, pendurados em telefones, viajando atrás de uma única informação, enfurnados em bibliotecas… Tenho certeza de que não o fazem por vaidade e todos são respeitados e admirados no meio artístico. A minha imaginação, que não conhece limites, me fez pensar agora que até a divisão do lucro com os artistas abriria precedente pra um certo sensacionalismo, já que estamos no terreno arenoso das contradições… "Fulano, se você contar que comeu Fulano, vai vender mais, pense bem"… Estou ironizando, tão-somente, porque o assunto me parece uma grande piada.
Se a Justiça já tem os seus próprios mecanismos de punição para aqueles que usam de má fé, que difamam alguém, famoso ou não, por que temerem tanto os biógrafos? Não me lembro de nenhum biógrafo da longa Coleção Aplauso ter sido processado, por exemplo. Ou será que ninguém está vendendo tanto assim e quer ganhar mais dinheiro? Ou será que tudo não passa de uma tentativa de chamar atenção para ser notícia no New York Times? Ou será que divago? A impressão que eu tenho é que esses artistas estão dando as costas a própria história que eles mesmos construíram. Uma pena. Um retrocesso. O próprio Caetano Veloso que escreveu um livro brilhante como Verdade Tropical o escreveria, hoje, nessas condições que ele agora defende? Responda, gentilmente, Caetano. Brasil, são tantas as suas contradições, que eu já deixei de te entender. Juro.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
ORGULHO PRÓPRIO
Ter muito dinheiro ou apenas ser feliz? Terminei me deparando com essa questão, no último final de semana, quando um amigo holandês me sugeriu que eu copiasse o estilo de um artista famoso qualquer e só depois, quando tivesse muita grana, investisse em um trabalho mais autoral. Estávamos numa abertura de exposição, numa galeria de Amsterdam, talvez a única autorizada a vender Picasso na Holanda. A mostra intitulada Homenagem a Picasso tinha lá uma série de gravuras do grande artista e também trabalhos de um outro pintor (que o imita descaradamente), cujos quadros estão à venda acima de 10.000 euros. Achei que fosse uma brincadeira dele, embalada por duas ou três taças de vinho branco, mas ele continuou insistindo naquela conversa e até forjou que uma amiga sua concordasse com ele. Como artista, me senti um tanto ofendido e apenas respondi: "Prefiro seguir fazendo o meu trabalho, que embora não seja genial, é o que me orgulha e me faz feliz".
Achei que tinha encerrado aquela discussão ali mesmo, mas no fundo algo estava me incomodando, principalmente porque acabei uma série nova de trabalhos e vou expor alguns deles junto com mais 13 artistas locais, no próximo sábado. Não foi um trabalho fácil por várias razões, desde o fim de um namorinho (desculpa, sou romântico), passando por mudança de casa, a falta de um atelier e uma dor na coluna que vinha e voltava me fazendo parar por várias vezes. Ainda assim, não fiquei me lamentando, não fiquei chorando pelos cantos, tentei driblar os meus limites e fazer o meu trabalho de forma honesta e do jeito que foi possível, porque eu acho, sinceramente, que o mais importante é fazer, insistir, o ato criador exige essa disciplina. Quem tenta tem mais chances de acertar do que quem fica de braços cruzados. Simples assim. E, se eu ficasse pensando em tendências artísticas ou em quem está bombando nas feiras de arte mundo afora, meu trabalho perderia completamente a sua essência, a sua identidade. E olha que ele já é cheio de referências e intertextualidades. Todas propositais.
Quantos artistas já não fizeram uma releitura da Mona Lisa, por exemplo? E isso não quer dizer que eles perderam subitamente o seu talento ou que esses trabalhos sejam apenas cópias. Em O Rosto-Objeto eu também trato sobre isso. Não quero me apoiar no trabalho maravilhoso dos mestres e muito menos deturpar essas obras famosas, quero apenas mostrar que essas imagens (especificamente rostos) são tão imperativas que atravessaram séculos ou décadas e, mesmo quando eu as trago para um espaço confuso, esquisito, às vezes até sombrio, cheio de pequenos símbolos, onde tinta e papel convivem livremente sobre a tela, elas mantêm a sua força enquanto imagem. E tudo isso tanto pode perturbar o espectador quanto promover uma reação de puro encantamento. O próprio título eu tirei daquele belo ensaio do Roland Barthes sobre o rosto da atriz Greta Garbo. E depois tem a exposição nossa de cada dia nas redes sociais, o rosto assumindo essa função de nos identificar globalmente, para o bem e para o mal… Teve até aquele episódio na Itália, da dona Cecília, uma senhora que sem querer transformou uma tosca "restauração" do rosto de Cristo em piada e… "arte". Por que não? Então como posso jogar todas essas minhas inquietações no lixo para copiar alguém? Faz sentido?
Ser artista não é fácil em nenhum lugar do mundo e essa questão de dinheiro x realização profissional também não é nenhuma novidade. E, depois, seria muita ingenuidade minha buscar uma aprovação das pessoas para legitimar o que eu faço. Pretendo tão-somente continuar fazendo o que me realiza, enquanto eu puder, até quando for possível me expressar e isso me fizer bem. Se atingir as pessoas, melhor. Se não atingir, não tinha que ser. Não vou me lamentar por isso.
Faz pouco tempo que assisti a uma entrevista do artista plástico brasileiro Alex Fleming, que mora em Berlim e de quem sou grande fã, onde lá pelas tantas ele diz uma coisa que já se tornou uma espécie de segundo Cântigo Negro, pra mim: "O importante é que eu fiz aquela obra, aquela obra é importante pra mim. Se as outras pessoas vão gostar, não vão gostar, não me interessa". E quer saber? Tudo na vida deveria ser desse jeito. Não se trata de egoísmo ou autoconfiança, apenas autenticidade e um pouco de orgulho próprio. E orgulho próprio, claro, é bem melhor que orgulho ferido.
Faz pouco tempo que assisti a uma entrevista do artista plástico brasileiro Alex Fleming, que mora em Berlim e de quem sou grande fã, onde lá pelas tantas ele diz uma coisa que já se tornou uma espécie de segundo Cântigo Negro, pra mim: "O importante é que eu fiz aquela obra, aquela obra é importante pra mim. Se as outras pessoas vão gostar, não vão gostar, não me interessa". E quer saber? Tudo na vida deveria ser desse jeito. Não se trata de egoísmo ou autoconfiança, apenas autenticidade e um pouco de orgulho próprio. E orgulho próprio, claro, é bem melhor que orgulho ferido.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
ACORDAMOS, MAS ATÉ QUANDO?
A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Vinicius de Moraes
Protestar é legítimo, mas o vandalismo (provocado por um grupo isolado de oportunistas e baderneiros, ontem em São Paulo) não pode também esvaziar o sentido dessa mobilização que é, antes de qualquer coisa, democrática. Essas pessoas são criminosas e se infiltraram no movimento para desviar a atenção do que realmente importa ou até mesmo com fins políticos desconhecidos (por que não?). A passeata do dia anterior, que começou no Largo da Batata, foi pacífica e nos encheu de orgulho e alegria. Quem saqueou, ontem, bancas, lojas e lanchonetes, no centro da cidade, realmente merece ser punido. Li coisas do tipo "vandalismo é meu filho morrer na fila do hospital ou com bala perdida", isso vindo de dois jornalistas bem sérios e respeitados. OK, mas vamos separar as coisas pra não cairmos no simples discurso da falta de discurso. Está mais que comprovado que uma parcela enorme da população está descontente com a corrupção e o mau uso do dinheiro público, a situação caótica da educação, a falta de segurança, o transporte público ruim e caro e por aí vai… Li em posts do meu Facebook, por pessoas que admiro, que os manifestantes estão "atirando pra tudo quanto é lado". Mas isso também é legítimo e, pra mim, não expressa um individualismo alienado. Cada um é livre para expressar a sua indignação de forma pacífica. Achei um barato, por exemplo, ver naquela multidão um cartaz em que se lia "Meu c… é laico". À primeira vista pode parecer uma frase de extremo mau gosto, mas ontem mesmo o babacão Marco Feliciano conseguiu aprovar o seu tão sonhado projeto de "cura gay", na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, da qual preside, a contragosto de milhares de brasileiros e militantes do movimento gay, mas que se mantém lá, imóvel, por ter sido o único que fez a campanha da presidente Dilma em São Paulo. Nada me convence do contrário.
As pessoas estão acordando e não adianta a imprensa tentar vender para a população que se trata simplesmente de um protesto da classe média, como se a insatisfação não doesse no bolso de todo mundo. Até então, o governo petista enchia o peito de orgulho pra dizer que seus programas assistencialistas revolucionaram a distribuição de renda no país, trazendo mais dignidade a pessoas da periferia, etc. Sempre o mesmo papo furado. Ajuda? Ajuda, mas não é preciso ser nenhum gênio da economia também pra saber que programas como o Bolsa Família estão maquiando uma realidade indisfarçável: só comer não basta. Sinceramente, não quero saber se as pessoas que recebem esses benefícios do governo estavam nas ruas ou não (provavelmente não), mas eu me orgulho, sim, de ver o povo brasileiro se mobilizando e mostrando ao mundo que a gente não é só samba, mulata e futebol. E por falar nisso a minha opinião sobre a Copa no Brasil é a seguinte: sempre achei uma escolha errada (quem quiser pode ler meu post de 3 anos atrás), porque o Brasil não tem estrutura mesmo, os estádios custaram bem mais do que o preço estimado, não acho que vá reverter em propaganda turística sem precedentes e resumindo bem foi apenas um capricho, uma vaidade do ex-presidente Lula. Pra quê gastar tanto dinheiro com a Copa se a nossa educação, por exemplo, é uma das piores do mundo? Não vou participar do coro do boicote porque isso não vai resolver nada nos 45 do segundo tempo, os estádios já estão aí, os elefantes brancos vão ficar, mas pode ter certeza de que eu não estarei lá aplaudindo. Se pudesse, estaria vaiando os políticos corruptos, isso sim.
Que nós acordamos é fato, mas até quando? Será que toda essa revolta vai chegar às urnas, no ano que vem? Estou pagando pra ver. 0,20 centavos.
Que nós acordamos é fato, mas até quando? Será que toda essa revolta vai chegar às urnas, no ano que vem? Estou pagando pra ver. 0,20 centavos.
VENCEMOS!
Em tempo: Vencemos o festival BIBLIOFILMES 2013, de Portugal, na categoria Júri. A votação de todos vocês foi muito importante, mas conquistamos o prêmio em uma categoria ainda melhor, que nos encheu de orgulho e também responsabilidade para continuarmos na batalha por um cinema independente de qualidade. Sem apoio público, muitas vezes sem condições técnicas, mas com muita criatividade e dedicação. Obrigado Portugal, obrigado a todos que acreditaram no nosso trabalho.
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