segunda-feira, 13 de julho de 2009

POPCORN


Passada mais que rápida para postar o release da minha exposição e pincelar um assunto ou outro, para não ficar tão em dívida por aqui. Continuo trabalhando a todo vapor, para tudo dar certo no dia 04/08. Mas não está sendo muito fácil com esse frio todo. Há momentos em que só penso em dormir, dormir e dormir. Mas, enquanto o dia da expo não chega, sigo com a minha deliciosa rotina de operário padrão.

Assisti, na semana passada, a um filme excelente, “Morte em Veneza”, de Luchino Visconti, baseado no livro homônimo de Thomas Mann. Gostei tanto que pretendo assisti-lo mais vezes. Sem estragar a surpresa de quem pretende fazer o mesmo, o filme gira em torno da “força destruidora da beleza”. Artistas, em geral, devem se identificar bastante com ele.

Como adoro revistas, não poderia deixar de indicar também dois títulos bem diferentes que chegaram às minhas mãos, “Brasileiros” e “+Soma”. A primeira lembra um pouco a “Senhor”, com aquelas entrevistas intermináveis, imagens sofisticadas, etc. Para ser completa, bastaria um espaço dedicado à ficção. A segunda é mais underground, porém muito bem cuidada, com entrevistas bem interessantes, muita arte urbana e provocações. Há também um espaço para quem quiser colaborar com a sua arte. Consegui a minha na Galeria Mônica Filgueiras, a distribuição é gratuita. Aliás, lá, está acontecendo uma ótima exposição de esculturas do Florian Raiss, que conheci momentos antes, num athelier de cerâmica em Pinheiros.

“Som e Fúria” ainda não me pegou, mas vamos aguardar os próximos capítulos.

Segue o release, para vocês irem se inteirando com a minha exposição, depois volto com algumas imagens dos quadros também. Abração!!! E a vida segue gelada por aqui.
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POPCORN
Exposição de Luis Fabiano Teixeira, de 04 a 23 de agosto de 2009.
Abertura: terça feira, 04 de agosto de 2009, às 19h30.
Pizzaria Piola
Rua Timbiras, 17
Gonzaga - Santos

O livro “Mitologias” do semiólogo francês Roland Barthes foi a inspiração para POPCORN, a primeira individual do versátil artista Luis Fabiano Teixeira.

A exposição apresenta clássicos da iconografia pop, como James Dean, Marilyn Monroe, Audrey Hepburn, Pelé e Gisele Bündchen, mas não se atém apenas a eles, há também referências às obras de Clarice Lispector, Cartola, Vicente de Carvalho, entre outros. Vinte obras que nos convidam a pensar na forma imperativa de significação da imagem.

“O que me fascina na Pop Art e na arte urbana, de modo geral, é o apelo imediato de identificação, é a verdadeira arte para todos” – explica o artista.

Destacam-se também os quadros provocativos e bem humorados sobre o universo das celebridades. “Não dá pra imaginar Pop Art sem humor”, argumenta. Ele também confirma o seu olhar atento a questões sociais, ao ilustrar na obra “No Racism” uma homenagem a Lorraine Nesane, garota sul-africana que foi pintada de branco, aos 15 anos, depois de ser acusada de furto em loja de Louis Trichardt, cidade ao norte da África do Sul, em agosto de 2000. “Não quis usar o branco, que é tão marcante em meu trabalho, em sinal de protesto mesmo. A diversidade de cores simboliza pra mim um mundo sem intolerância e no qual eu acredito”, conclui.

POPCORN é uma alegria para os olhos, mas não é só isso, basta conferir.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

ADEUS, MICHAEL


Neste exato momento, uma reportagem sobre Michael Jackson está sendo exibida na TV brasileira, centenas de TVs pelo mundo devem estar fazendo o mesmo e os jornais de hoje estampam na primeira página a manchete mais dolorosa sobre o ídolo, a sua morte. Antes mesmo da confirmação oficial, a CNN recebeu cerca de 40 mil comentários em seu site, isso sem contar na avalanche que tomou conta do Twitter: desde notas mornas de pêsames até comentários engraçadinhos e outros tantos bem bizarros. Confesso que nada disso me surpreendeu, afinal tudo na vida de Michael Jackson adquiria esse tom de gigantismo.

Cresci ouvindo e vendo Michael Jackson, por conta do meu irmão Luciano, que é fã do cantor e até adiou a sua vinda ao Brasil, para poder assistir a um dos shows que Michael faria em Londres. O primeiro CD que entrou em nossa casa foi “Dangerous” e depois vieram fitas de vídeo, centenas de imagens e até preciosidades gentilmente doadas por uma querida professora. Todos nós aprendemos a gostar do artista Michael Jackson, por causa dele. Aos quinze anos, dirigi um musical na escola chamado “100 Anos de Emoções” sobre o centenário do cinema e, claro, Michael estava lá. Eu sei que ele apenas flertava com o cinema, mas eu era o diretor e queria ver o meu irmão em cima do palco imitando-o. Era um ato de amor, evidente.

Um dia antes da sua morte, passei numa dessas lojas de departamento e vi um DVD dele a preço de banana. Em segundos, revivi alguns dos melhores momentos da minha adolescência e devolvi o objeto na gôndola pensando: “Quem diria, hein, Michael? Seus DVDs já chegaram a custar uma pequena fortuna”. Quando assisti à notícia pela TV, estava finalizando um quadro sobre Cartola, a apresentadora falava apenas num ataque cardíaco. Corri a um portal de notícias da Internet e estava lá, à queima roupa: “Morre Michael Jackson, aos 50 anos”. Fiquei chocado, não queria acreditar de forma alguma, só conseguia pensar no meu irmão aos prantos. Minutos depois, entrei em contato com ele e de fato ele estava muito abalado. Tentei consolá-lo, prestei a minha solidariedade, mas, no fundo, sabia que nem mesmo eu acreditava naquelas palavras.

De tudo que vi, achei pobre a cobertura da MTV brasileira, apenas clipes no LAB Clássicos. Isso porque Michael Jackson foi quem de fato fez decolar a MTV. Dispensável a entrevista apaixonada da cantora Paula Lima, no “Entre Aspas”, bem como o comentário disfarçadamente maldoso do João Marcelo Bôscoli, no “Arquivo N”: “O Michael é como uma tia que você ama, mas que mora num manicômio e que você vai visitar, de vez em quando”. É preciso ter um certo distanciamento, quando se avalia a passagem de uma dessas figuras brilhantes pela terra. Não quero dizer que ele era acima de qualquer suspeita, pelo contrário, mas prefiro me ater apenas ao trabalho do artista.

Michael Jackson marcou uma época, eu me arriscaria até a dizer que um certo romantismo na cultura pop. Lembro exatamente quando meu pai comprou entusiasmado o LP "Bad", na década de 80, o clipe estourando no “Fantástico”, aquele visual andrógino, aqueles penduricalhos todos, aquele cabelo rebelde... E o Renato Aragão o imitando em “Os Trapalhões”? Hilário. Com exceção de “Invencible”, todos os outros álbuns dele tem pelo menos um hit, uma imagem inesquecível, uma dancinha absurda que gerações inteiras tentaram copiar.

Talvez o seu pior erro tenha sido o de querer sempre se superar. O crítico Arthur Dapieve tão bem o comparou a Truman Capote, que, depois de “A Sangue Frio”, virou uma réplica mal acabada de si mesmo, na tentativa de recuperar o prestígio conseguido com uma única obra-prima. Na peça “Começar a Terminar”, de Antônio Abujamra sobre a obra de Samuel Beckett, ouvi uma frase que é perfeita para este momento: “Artista é aquele que ousa fracassar”. Claro que ela não se aplica, literalmente, a Michael Jackson, mas, mesmo assim, ele continuará na nossa memória como um grande artista.

Mas a vida segue, agora com uma notinha de tristeza. E estou finalizando meus quadros, no final de semana dou uma passada nos blogs amigos. Abração!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

ENQUANTO O AMOR NÃO VEM

"Imaginar é muito melhor que qualquer coisa que eu escreva"

Hoje acordei com vontade de me presentear com um dia totalmente sabático. O frio também ajudou bastante e dormi até mais tarde. Estava mesmo precisando descansar da correria que tem sido minha vida ultimamente. Prometo que o post vai ser mais tranquilo, até porque pretendo postar as novidades e clipagem da peça, só depois. E também porque não quero parecer mais cabotino do que já sou rs.

Ontem fechei a data da minha exposição, a abertura vai ser no dia 04 de AGOSTO, na Piola, em Santos. Foi impossível adiantar para o mês que vem, porque julho é culturalmente morto por aqui. Confesso que no começo não curti a idéia, não porque seja supersticioso, mas depois, pensando bem, até que achei a data legal. Vou ter pela frente pouco mais de um mês para poder me programar, divulgar, etc. Batizei a exposição de POPCORN, porque o tema é a imagem como objeto de consumo, aproveitando um pouco essa vantagem da pop art de ter esse apelo de identificação imediato e inesgotável. A idéia surgiu depois que li um livro do Roland Barthes chamado “Mitologias”, aliás, o recomendo. Tem uma frase dele que eu acho ótima: “A imagem é certamente mais imperativa do que a escrita, impondo a significação de uma só vez, sem analisá-la e dispersá-la”. Hoje em dia tudo é imagem, para o bem ou para o mal. É uma forma também de propor uma reflexão sobre o assunto. E esperem coisas bem diferentes, vai ter desde um quadro com ursinho de pelúcia até uma homenagem a Clarice Lispector, porque arte e preconceito são coisas que nunca combinaram.

Fiz imagens lindas em P&B, na Praia das Pitangueiras, na semana passada. Espero que vocês gostem. Continuo buscando na fotografia a relação das pessoas com o seu espaço. O resultado me surpreendeu bastante, as fotos adquiriram um tom levemente dramático, melancólico, contrastando com a exuberância e a violência do mar, neste fim de outono. Uma curiosidade: na hora em que fazia uma das fotos, uma pomba resolveu dar o ar da graça e a flagrei em pleno voo, a imagem ficou inusitada, linda.

E o dia dos namorados está aí, né? Não vejo a hora de aquietar o meu coração também, mas, enquanto o amor não vem, vou lendo o meu livro “Cem Anos de Solidão”, aliás, dica preciosa da minha amiga Angélica e que estou adorando.

Estou muito feliz com os novos seguidores do blog. Aos poucos, vou conhecendo e visitando cada um. E a vida segue tranquila. \o/

GASTANDO O MAR





segunda-feira, 25 de maio de 2009

NA ILHA, NA VILA, NO MAR: NUNCA DEIXE DE VOAR

Do Livro...

...Para o Palco

Prometi que voltava voando e voltei mesmo. Como já havia deixado no ar, estava escrevendo uma peça, mas não dei muitos detalhes sobre ela. Agora que já começou a sua divulgação, que a realização é oficial, posso falar um pouco mais. Trata-se de uma peça infantil chamada “Na Ilha, Na Vila, No Mar: Nunca Deixe de Voar, com estreia prevista para 06 de junho, no Teatro Commune, Rua da Consolação, 1.218 (ao lado do Mackenzie e do TRT, sentido centro-paulista), em São Paulo. Aos sábados às 11:00 h e aos domingos às 15:00 h. Espero todos vocês lá!

Confesso que nunca havia pensado em escrever para crianças, mas acabei descobrindo o quanto é prazeroso criar histórias para elas. Não há aquela cobrança exagerada em acertar, basta escrever com o coração e tudo flui e termina dando muito certo. O convite surgiu através do Alexandre Acquiste, diretor da peça, que eu já conhecia há algum tempo, mas havia perdido o contato. A concepção do espetáculo, no entanto, já existia e, embora isso seja mais arriscado para quem costuma direcionar seus próprios projetos, aceitei a empreitada. Um risco também porque já estava com os quadros da minha exposição em andamento. Temi não dar conta do recado, mas optei por dar um tempo nas telas e pincéis, o que foi bom também, e mergulhei de cabeça no universo dos pássaros, os bichinhos que emprestam suas vidas aos personagens.

A peça é inspirada no livro “Meu Amigo Jim”, da escritora Kitty Crowther, e conta a história da amizade entre dois pássaros, Jack e Jim, um melro e uma gaivota respectivamente, sob o olhar atento de duas vizinhas bem fofoqueiras. Optamos por tratar de forma sensível, poética, com naturalidade, assuntos ainda hoje tabus como preconceito racial e homossexualidade. O incentivo à leitura também aparece com destaque. Sou suspeito, claro, mas não posso deixar de falar que o texto me emocionou bastante e tenho certeza de que vai acontecer o mesmo com quem for assisti-la.

Escolhi um trecho para vocês ficarem com água na boca, o momento em que Jack realiza o seu sonho de conhecer o mar.


JIM
...Chegamos. Que tal, hein? Não é bonito como eu falei?

JACK
...É lindo, Jim!...

JIM
...Você não viu nada ainda. Com bastante sol, o mar fica azulzinho, azulzinho.

JACK
...Quanta água!!!!

JIM
...É, é água que não acaba mais!!!

JACK
...Ainda bem porque eu adoro tomar banho.

JIM
...Mas no outono as águas são geladas, Jack.

JACK
...Eu não me importo.

JIM
...Eu gosto mesmo é desse pôr-do-sol. O céu fica tão bonito com esse tom de laranja e rosa. Parece até que Deus está pintando uma aquarela.

JACK
...E se vem a noite é porque Ele não gostou e escureceu tudo, não é?

JIM
...(num meio sorriso) Isso mesmo.

JACK
...E, no dia seguinte, é como se Ele começasse a pintar tudo de novo.

JIM
...(outro meio sorriso) É verdade. (tom) Você é muito inteligente, Jack.

Quem nunca trabalhou com teatro, não deve saber que a melhor definição pra ele é “um parto”. No caso específico de "Na Ilha...", uma cesariana, sem anestesia. Dias e dias discutindo os detalhes, buscando soluções cênicas e criativas para passagens inteiras do texto, enfim, enfrentando problemas também, porque todo trabalho coletivo não está imune a isso, mas, assim que coloquei o ponto final no texto, fui preenchido com aquela sensação gostosa de que valeu muito a pena. E a vida segue voando. Abração!

terça-feira, 12 de maio de 2009

VOANDO, VOANDO

"Pés, para quê os quero, se tenho asas para voar".

Na bagunça do meu "coração"

Boneco de cera do Madame Trussard rs

Já faz algum tempinho que queria "pousar" aqui, mas ultimamente tenho feito tantas coisas que o meu pouco tempo livre tenho usado pra ler ou dormir. Não tenho encontrado os amigos, zero de vida sexual, totalmente entregue a esse momento criativo da minha vida. Espero que vocês desculpem a minha ausência. Quero também agradecer os comentários do último post, muitas pessoas gostaram de “Um Milagre Para a Estrela Azul” e isso me deixou bastante feliz. Aos poucos, vou comentando nos blogs amigos. Estou adaptando um texto para teatro, superbonitinho, com o mesmo tema. Teatro é sempre uma caixinha de surpresas, mas espero poder postar, em breve, novidades concretas sobre ele aqui.

A praticamente dois meses da minha primeira exposição, a ansiedade começa a dar sinais claros, mas tenho tentado me manter tranqüilo, focado. Pra dar uma animada, ouço o novo CD ao vivo da Vanessa da Mata e também o delicioso “Tropicália”. Recomendo os dois e mais a balada “Agora Eu Já Sei”, da Ivete Sangalo, que promete ser o hit do dia dos namorados. Sem contar que a biografia da Clarice Lispector, escrita por Nádia Gotlib, presente de aniversário da minha querida amiga Fernanda, está sempre ali ao meu lado, me ajudando a desvendar alguns dos mistérios de Clarice e me inspirando sempre.

Num rasante por São Paulo, vi algumas exposições excelentes, mas que já saíram de cartaz, por isso não as comentarei, também não tive tempo de ver ainda “Vik”, no Masp, nem Legér, na Pinacoteca. Mas essas duas eu faço questão de comentar depois. Quero muito assistir também ao filme “Do Começo ao Fim”. Não viu o trailler ainda? Vá correndo ao Youtube e depois me conta o que achou.

Não posso esquecer de fazer uma homenagem ao meu irmão Luis Gustavo que ganhou a Medalha do Mérito do Trabalho, concedida pela Câmara Municipal, no dia 30 de abril. A cerimônia foi no Teatro Procópio Ferreira e foi bem emocionante para nós, familiares e amigos. Parabéns, meu irmão, você é muito especial para nós todos!

Vou ficando por aqui, mas volto voando, eu sempre volto. Beijos e abraços alados!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

UM MILAGRE PARA A ESTRELA AZUL


O texto, a seguir, faz parte de uma trilogia de histórias que escrevi sobre amizade. Já postei aqui "A Ponte e o Abraço". Agora é a vez de "Um Milagre Para a Estrela Azul", aproveito também para homenagear o Shiro, o cão da minha família, que acaba de se recuperar de uma doença bem séria. E, claro, a escritora Lygia Fagundes Telles, que fez aniversário no último dia 19. O texto é longo, por isso quem não curte literatura não se sinta obrigado a prosseguir, mas a mensagem vale muito a pena. É isso.

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"As estrelas eram um símbolo de pureza, qualquer coisa inatingível que a mão dos homens não havia ainda conseguido poluir. As criaturas que chafurdavam na lama podiam salvar-se se ainda tivessem olhos para ver as estrelas". Érico Verissimo

Saguão de hospital. Tudo muito claro e frio. Ali perto, Heitor está entre a vida e a morte. Paula está sentada olhando um horizonte imaginário, quando Cauê se aproxima.

Cauê (tocando no ombro da amiga)
...Paula? E aí, como é que ele tá?

Paula
...Muito mal. Não sei se o Heitor vai conseguir sair dessa.

Cauê (otimista)
...Temos que ter fé. Agora, é ter fé, minha querida. Ter fé.

Paula
...Ele tinha tanta fé, Cauê. Era sempre o primeiro a invocar o nome de Deus.

Cauê (sentando-se)
...Ele vai ficar bem. Caramba, não é justo!

Paula
...Fizemos tantos planos. Lembra?

Cauê
...Lembro.

Paula
...Uma das últimas coisas que ele me disse foi que queria viajar. Correr o mundo com uma mochila nas costas. Começaria pela Patagônia, vê se pode.

Cauê
...Isso era bem a cara dele. Essas aventuras turísticas sem um tostão no bolso. Nunca esqueço aquela viagem que fizemos a Paraty...

Paula
...Nós tínhamos combinado de fazer um curso de teatro juntos. Fomos até a escola ver como funcionava o lance da matrícula. Eu falei pra ele que ele já era um ator e dos bons. Ele riu como se fosse uma criança.


Cauê
...Adorava passar trotes pelo telefone, lembra? Eu mesmo caí em, pelo menos, uns cinco.

Paula
...Eu não me conformo. Não me conformo, Cauê! Olha, se o Heitor... Se ele morrer, aí é que eu vou pirar de vez mesmo.

Cauê
...Pelo amor de Deus, não vamos pensar no pior. Você já falou com a família dele?

Paula
...Só com uma das irmãs. A mãe dele me detesta.

Cauê
...Eu avisei ao João. Ele ficou tão chocado, mas daquele jeito dele, sabe?

Paula
...Espero que ele consiga passar por cima daquele orgulho besta e faça, pelo menos, uma oração para Heitor.

Cauê
...Há quanto tempo eles não se falam?

Paula
...Acho que há uns seis meses, sei lá.

Cauê
...Pra quem andava sempre grudado...

Paula
...Eu não sei direito o que houve. Aliás, eu não sei o que houve com todos nós. Quando nos conhecemos, era tudo tão bom, fazíamos tudo juntos... De uns tempos pra cá, cada um foi ficando na sua...

Cauê
...Tantas cobranças, ciúmes, isolamentos. Para algumas pessoas, a amizade virou até uma espécie de obrigação.


Paula
...Se nós pudéssemos começar tudo de novo...

Cauê
...Você acha que seria diferente?

Paula
...O João e o Heitor, por exemplo. Eles não se largavam, lembra?

Cauê
...Eu tenho quase certeza de que o rompimento deles foi por puro excesso de intimidade.

Paula
...Amigo que é amigo suporta essas coisinhas bobas, Cauê.

Cauê
...Mas um momento de silêncio também é bom. É até necessário.

Paula
...Eu já tenho medo do silêncio. Tenho medo de mim mesma, no silêncio.

Cauê
...Eu nunca me senti, assim, Paula.

Paula
...Assim como?

Cauê
...Assim, com essa sensação de vazio, de ter um buraco aqui dentro, sabe? Eu acho que eu também era dependente do amor dele.

Paula
...Todos nós éramos.

Cauê
...Um amor que beirava até o infantil, né?

Paula
...Ele sempre teve mesmo uma certa pureza.


Cauê
...Pra você deve ter sido difícil se apaixonar por ele daquela forma, não é?

Paula
...Sabe que não? Quando eu descobri que estava apaixonada por ele, eu era muito novinha, imatura. Nem sabia direito o que estava sentindo. Foi mais um impulso, eu acho. Ele também nunca me disse verbalmente que não queria nada comigo. Talvez não quisesse me machucar também. Mas eu logo entendi e segui o meu caminho. Também nunca o vi machucando ninguém, mesmo que a pessoa merecesse.

Cauê

...É verdade.

Paula
...Ele sempre queria o melhor para nós. Quando não podia fazer isso, simplesmente desaparecia. Era como um código. A gente logo sabia que ele estava exilado em algum lugar.

Cauê
...E ninguém conseguia tirá-lo de lá.

Paula
...E quanto mais perguntas, mais silêncio.

Cauê
...Ah, mas com o João ele sempre se abria. O João, por exemplo, foi o primeiro a saber que ele tinha comprado aquela maldita moto.

Paula
...Pois é... E, depois, deu no que deu.

João se aproxima.

João
...Oi pessoal.

Cauê
...Você não morre mais. Estávamos falando justamente de como você e o Heitor eram amigos.

João (sentando-se)
...E como é que ele tá?

Cauê
...Mal, né? Muito mal.

João
...Se eu soubesse...

Paula (num rompante)
...Se nós soubéssemos, tudo seria diferente. Teríamos feito uma festa pra ele.

João
... Na verdade, eu poderia mesmo ter passado por cima do meu orgulho, ter dito a ele: “Cara, vamos começar tudo de novo. Vamos esquecer essas besteiras”.

Cauê
...Agora é um pouco tarde para arrependimentos, você não acha?

João
...Ele não quis entender a minha imperfeição também. Eu errei. Todos erram, não é? Olha, vocês podem achar estranho eu dizer isso só agora, mas eu ainda o amo. Amo.

Paula
...Agora que ele não pode ouvir?

João
...O que vocês querem que eu faça? Eu já admiti que errei.

Cauê
...Mas não basta.

Paula
...Por favor, estamos num hospital.

João
...Dane-se o hospital! Não fui eu que provoquei o acidente.

Cauê
...Mas depois que vocês romperam ele nunca mais foi o mesmo.

João
...Eu faço qualquer coisa por ele... Ele não está precisando de sangue? O que ele está precisando?

Paula
...Não seja ridículo, João!

João
...Eu tentei me reaproximar dele. Enviei um e-mail, mas ele não me respondeu.

Cauê
...Ele me falou desse e-mail.

João
...O que ele te disse? Fala, Cauê!!!

Cauê
...Disse que você precisaria de muito mais alegria para saber que a vida dói.


João
...Não entendi.


Cauê
...É simples...

Paula (interrompendo-o)
...O João quis dizer que você só reconheceria o valor da amizade dele, depois que quebrasse a cara. Pronto, falei.

João
...Vocês acham que se ele ficar bom pode ainda me perdoar?

Cauê
...Não sabemos nem se ele vai ficar bom.

Paula
...Eu tenho por dever acreditar em milagres.

João
...Foi tão grave assim?

Cauê
...A moto entrou debaixo de um caminhão.

João
...Merda!

Paula
...Agora só resta mesmo rezar.

Cauê
...Preciso ir em casa tomar banho e comer alguma coisa. Estou na rua desde cedo. Vocês vão ficar?

Paula
...Eu tenho ainda que passar, na faculdade dele. Não sei se eles já sabem. Quanto mais pessoas torcendo pela recuperação dele, melhor.

Cauê
...Eu te dou uma carona.

João
...Peraí, gente, vocês vão me deixar aqui sozinho?

Paula
...Vamos, Cauê?

João
...Espera aí...

Paula e Cauê deixam o hospital. João leva as duas mãos ao rosto, num gesto de impaciência. Quem sabe ainda chore.