terça-feira, 6 de novembro de 2018

UM PIANO CHAMADO "NASCE UMA ESTRELA"



Sim! Estou de volta. Foram dez anos de blog (como o tempo voa!) e ele já estava meio esquecido, né? Pretendo postar com mais frequência, por aqui, até porque estou numa nova fase da minha vida e escrever sempre foi, entre outras coisas, passar a minha vida a limpo, me reconectar comigo mesmo. Então, vamos lá. Se vão ler ou não, é uma outra história. O que importa mesmo é que o prazer de escrever venceu!

E esse retorno traz, de cara, as minhas impressões sobre um filme que acabei de assistir e que ainda está dando o que falar: A Star is Born (Nasce Uma Estrela), com a Lady Gaga no papel principal e o Bradley Cooper dirigindo e atuando. O filme é um carrossel de emoções, nem sempre muito bem conduzido, mas vou tentar resumir o que eu acho que vale a pena e o que não é tão bom, assim. Mas, claro, isso jamais deve tirar o prazer de vocês de conferirem, ok?

Pra começar, não sou o maior fã de musicais. Mesmo! Mas sendo fã de carteirinha da Lady Gaga e pipocando críticas excelentes sobre o filme, não tinha como escapar. O filme é um remake (o primeiro, se não me engano, é de 1937) e mostra a ascensão de uma compositora insegura, meio desengonçada, chamada Ally (Lady Gaga), enquanto o cantor já consagrado, por quem ela se apaixona, Jackson Maine (Bradley Cooper), se afunda no álcool. Dito assim, parece o maior dos clichês. E é. Mas alguém um dia já disse também que clichês só existem porque funcionam, né? Eu acredito muito nisso.

Vou logo avisando, o roteiro é o grande problema do filme. Fraquíssimo. Enquanto os números musicais, especialmente com a Lady Gaga, são emocionantes e poderosos, falta à história de amor dos personagens alguma coisa, química?, talvez. Claro que a Lady Gaga era o grande trunfo e ao mesmo tempo o grande problema da produção. Como convencer as pessoas de que a Lady Gaga não era a Lady Gaga, né? E eles tentaram. E durante boa parte do filme até conseguiram. Ela aparece mais cheinha, o cabelo natural, pouca maquiagem... O visual causa um certo impacto, pra ser bem sincero, mas a personagem não tem carisma. Canta maravilhosamente bem, mas não tem aquilo que é fundamental para uma estrela. Por causa disso, o filme se arrasta.

Por outro lado, embora o roteiro contenha falhas imperdoáveis, gostei bastante do argumento. Não vi ninguém ressaltando isso, mas é nítido que o filme tem um viés feminista importante e eu diria até marqueteiro, depois de todas aquelas denúncias de assédio na indústria do entretenimento, nos Estados Unidos, com o #metoo, etc. Isso se dá da seguinte maneira: quando Ally começa a ganhar status de pop star, Jack se sente diminuído e a humilha, por pura inveja. É apenas, neste tímido embate, que encontramos as melhores cenas do filme. O resto não contribui muito para a evolução do mesmo. Uma pena.

Vou além. O maior buraco é a falta de motivação dos personagens. Jack passa o filme inteiro, por exemplo, com a cabeça baixa. Chega a dar aflição! Mas não é exatamente esse o problema. Apesar do gestual repetitivo, me interessa mesmo saber de onde vem aquele comportamento autodestrutivo. Não fica claro. Outra coisa, Ally não conseguiu decolar, antes, por que tinha apenas “um nariz grande”? Oi??? No mínimo, poderia ter sido ignorada num desses programas tipo American Idol e depois fazer um comeback glorioso, com a ajuda do amado. Seria muito mais convincente, não é mesmo?

Mas a parte boa é que não faltam ótimas canções que distraem o espectador mais atento dos muitos deslizes do filme. Eu mesmo, já estou providenciando a minha trilha. Mas quem espera uma produção à altura do capricho dos trabalhos da cantora, pode se frustrar um pouquinho. No conjunto da obra, soa apressado e se resume numa frase inspirada no próprio filme: Nasce Uma Estrela é o piano nas costas, carregado (felizmente) pela Lady Gaga.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

+ PRÓXIMOS (WEBSÉRIE LGBT+)




Oi pessoal,

Passando por aqui para convidar...

Bom, antes disso, quero primeiro explicar o meu sumiço daqui. Tenho um carinho enorme por esse espaço, aqui registrei os dias mais trágicos (eu exagerando ahah) e os mais bacanas da minha vida também. Comecei com o “Mundo Imaginário”, acho que muita gente se lembra dessa fase, depois fui mudando até chegar ao “Blog do Luis Fabiano”, onde registrei meus dias de uma forma mais leve, meio inocente, com muita literatura, experimentei também, às vezes postava crônicas, contos, enfim, o blog me acompanhou em várias fases, mas a minha saída do Brasil em 2011 coincidiu com um novo momento da minha vida, onde não cabia tanto escrever como eu escrevia. Sim, cada post era feito nos mínimos detalhes, eu cuidava desse espaço como quem cuida de um jardim. E morando na Holanda eu já não tinha mais tempo, a cultura aqui é muito diferente, muito embora sempre vi e acompanhei muitas coisas do Brasil, mas meu ritmo é outro, eu estava envelhecendo também, precisava procurar novas distrações, etc. Mas o que realmente me fez parar de postar aqui foi a morte do meu grande amigo Callebe, em 2013. Nós que nos conhecemos na internet, ele tinha também o blog dele no Blogspot, o fotolog (sim sou velho), Orkut, etc. De uma hora pra outra, soubemos que ele tinha sido internado e semanas depois faleceu. Nunca me recuperei dessa ausência e achei que este espaço me lembrava muito ele e então parei mesmo de postar.

Quando comecei a fazer curtas-metragens, em 2011, também registrei aqui esse começo, mas depois não voltei pra atualizar minha caminhada no audiovisual e ainda me mudei, abri um blog no meu site www.luisfabianoteixeira.com. De lá pra cá, meu amigo Tiago Cardoso e eu montamos uma produtora de cinema, pequena pra começar, a Mar de Ideias Conteúdo Cultural, onde fazemos nossos filmes, fomos pra vários festivais, fomos premiados no Brasil e fora dele também, estamos no nosso filho de número 7 e por isso achei que voltar aqui fazia todo sentido, afinal, o protagonista da nossa websérie + Próximos, esta que estou promovendo agora, escreve num blog e essa memória veio exatamente daqui, de quando eu escrevia para este blog.

+ Próximos é uma websérie de ficção, de 5 episódios (aproximadamente 6 minutos cada), produzida e dirigida por mim e pelo Tiago, e estará disponível no YouTube, a partir do dia 01/12 (Dia mundial de combate à AIDS).

Daniel (Lucas Onofre) e Antônio (Renato Almeida) se amam, mas a condição do primeiro, que é soropositivo, coloca em xeque o futuro da relação. Entre os dois está Karina, melhor amiga de Daniel e também amiga de Antônio.

Tudo é abordado de forma respeitosa e direta, misturando suspense, drama, romance e uma pitada de comédia. E, claro, uma contrapartida social também: uso de camisinha, teste de hiv e relacionamento entre casais sorodiferentes. Aliás, uma das preocupações do roteirista era não escrever diálogos que evocassem culpa ou algum tipo de julgamento dos personagens.


Ao invés de ficar escrevendo e escrevendo, convido vocês para conhecer o nosso canal do Youtube/produtoramardeideias e ter um gostinho do nosso trabalho que estreia no dia 1/12. Depois, por favor, me digam o que acharam. Eu não sei se a maioria, aqui, continua com os seus blogs, provavelmente não, mas ficaria muito feliz, se alguém me dissesse que me conheceu naquela época, entre 2007 e 2011. 

O nosso trailer está aqui embaixo. Quem puder ajudar a divulgar eu agradeço muito, afinal este é um projeto coletivo, com uma causa superbacana e estou cada vez mais empolgado em propagar uma nova forma de ativismo que é usar a internet pra fazer o bem. Estou fazendo a minha parte e espero que você também faça a sua. Um mundo melhor só depende de nossas atitudes, não é mesmo? Abração e até a próxima!


segunda-feira, 27 de março de 2017

SOB O SIGNO DE ÁRIES









Olá
Como vocês já devem ter percebido, já estão aqui alguns trabalhos novos da série Sereiou. Um mês intenso de trabalho, mas que me deixou muito feliz com o resultado obtido, aliás, em tudo, absolutamente tudo que fiz e pensei e cantei e refiz. Foram dias incansáveis, tendo que abrir mão de muitas coisas, mas não me queixo e sim celebro tudo isso (ariano, então já viu). Até os quadros que não se realizaram como planejei, tiveram seu destaque, afinal como já nos ensinou Clarice Lispector, "não sabemos qual defeito sustenta o nosso prédio inteiro", não é mores? Cabe aqui uma observação importante. Muitos artistas passam anos e anos numa luta inglória, em busca de um estilo, uma linguagem, uma marca que os diferencie dos demais artistas, nesse vasto mar de galerias, bienais, muros e afins, desse mundo de meu Deus. O meu estilo, essa colagem "barroca" que eles chamam por aqui, tal minha paixão por imagens carregadas e floreadas, com um toque de rebeldia, pois bem, isso se deve a tentativa e, principalmente, aos erros! Assumo. Só quando resolvi me libertar da colagem clássica e misturar tinta acrílica e spray e cobrir as imagens com muitas e muitas camadas é que, realmente, encontrei o meu caminho. Flerto com todas as outras formas, surrealista, cubista, geométrica, mas a minha paixão é pelo que chamo de "samba do crioulo doido visual". Tem muito a ver com o meu DNA mutante e é por isso que gosto cada vez mais dessas novas colagens. Entra aqui outro aspecto importante da arte e que muitas pessoas desprezam ou se confunde com exibicionismo: a observação. Sou absolutamente obsessivo, quando se trata de um trabalho. Fico horas naquela batalha que é deixá-la no ponto em que meus olhos fatigados apenas me dizem: é isso! CHEGA! Então, se um dia me pedirem algum conselho, nesse sentido, apenas direi: sente-se em frente a sua tela e observe. Observe muito. Um duelo, mesmo. Faço isso e quase sempre saio vencedor. Quero dizer, fico satisfeito.
Esses trabalhos novos foram produzidos em pleno inferno astral e tenho também que agradecer aos astros por tanta energia boa! Saturno foi bem amigo, minha gente! Tudo alinhado para que eu não pirasse, porque sou desses cujas pequenas coisas negativas tem o poder de me colocar pra baixo. Daí entra em cena satanÁries, com ajuda de Marte, e me dá um soco na cara e me coloca de pé em dois segundos. Temos essa vantagem, desculpa rs. Provocações à parte, só para vocês terem uma noção: roubaram a minha bike, a minha querida e inesquecível Beatriz, companheira fiel há 3 anos, ouvi o não de uma galeria que já expus aqui, quase perdi minha luva favorita e outras coisas tristes que não vale nem a pena citar, mas, mesmo assim, continuei firme e forte. Num dia desses, estava tão melancólico, tão borocoxô, que isso até se refletiu num quadro que chamei de "Sereia com balão e uma rosa". Esse quadro sou eu! Aquela melancolia que inspira compaixão, aquele cinza inquieto em volta e aqueles olhos muito infantis, para dizer que ainda sonha. E não falta afeto também, o balão tremulando num céu de incertezas e "eu" firme, lá, sentado com a minha rosa, com o meu coração em azul. Cheio de gratidão e afeto. Bom, agora está tudo muito mais calmo, meu aniversário já passou, já descansei um pouco (em parte), já enchi o saco do Tiago mil vezes, então só tenho uma dúvida: será que os próximos meses serão sempre assim? Ou porque é primavera lá fora, será primavera também em mim? Volto pra contar. Até mais!

terça-feira, 21 de março de 2017

VACA PROFANA



Olá

Acho que eu nunca dividi isso com vocês. Como se dá o processo de criar uma série de colagens, como escolho o tema, o que me inspira e, principalmente, o que me motiva a fazer isso, afinal não vivo exclusivamente de arte e muitas vezes sou até cobrado por isso. Bom, não sou um Vik Muniz, mas me orgulho muito do que faço e tenho vendido alguns bons trabalhos por aqui, embora nem sempre com a frequência que gostaria. O assunto de hoje é sobre um movimento (artístico e cultural) que me influenciou muito esteticamente, desde que comecei a pintar (profissionalmente), em 2009: a Tropicália. Não, isso não é  papo pra impressionar leitor, eu realmente gosto e posso dizer que neste momento a influência desse movimento que surgiu, no final dos 60, faz todo sentido pra mim. O que me fascina no Tropicalismo é justamente o fato de ser uma mistura improvável, de tomar pra si ou dialogar com, desde artes plásticas (o próprio nome veio de uma instalação do Hélio Oiticica e a música Lindonéia é inspirada num quadro do Rubens Gerchman), passando por músicas bem populares (tipo rádio AM, mesmo), e acrescente ainda rumba cubana e coisas mais sofisticadas também. Tudo é permitido. É proibido proibir, literalmente. Não tem aquele radicalismo que o Modernismo tinha, por exemplo. Abominava arte acadêmica. E pra mim isso tudo é a cara do Brasil: o antigo e o novo e o popularesco, o pitoresco, o kitsch, o pop, as cores, as texturas, as frutas na feira... E é a cara do que eu faço também. Colagens barrocas (como chamam aqui), mas jamais me prendo a isso e estou sempre aberto a novidades.
De onde vem o meu gosto pela Tropicália? Senta que lá vem história... Meu pai promovia festas como uma atividade paralela, na Bahia, numa cidade bem pequena chamada Brejões, onde passei a minha primeira infância, então cresci cercado de capas de discos e imagens de artistas populares dos anos 80. A minha primeira lembrança de uma imagem dessas e que realmente me impressionou foi a capa de Gal Profana. Uma Gal Costa selvagem, vamp, retocando o batom vermelho sangue, de cara para o público. Puro poder! É engraçado como essas coisas ficam pra sempre. O meu pai sempre foi muito fã do Caetano Veloso, mas eu só vim saber o que foi, realmente, a Tropicália como movimento, quando Caetano e Gil lançaram o Tropicália 2, nos anos 90. Teve um show em São Paulo, com transmissão pela TV (TV Cultura talvez) e o meu querido pai me explicou o que significou a música dos dois, na juventude dele. De lá pra cá fui colecionando informações, assistindo a documentários e terminei lendo Verdade Tropical, do Caetano, em 2008 (recomendo de tão bom). O disco Tropicália está inteirinho no meu ipod e a cada nova execução descubro novas leituras, fico pirando tentando imaginar o que cada letra queria dizer, as metáforas todas, enfim, é definitivamente uma inspiração pro resto da vida. Todo esse trelêlê é só pra dizer que músicas me inspiram muito na hora de fazer arte e dessa vez não foi diferente, mas escolhi uma outra música do Ceatano que eu adoro e considero emblemática para falar de minhas mulheres fortes: Vaca Profana. Dia desses, coloquei a música no YouTube e, enquanto Gal era sublime na sua interpretação (atemporal, thanks God), eu me sentava na varanda de casa e me deliciava com aquele som e criava a minha versão visual dessa música e vibrava com o verso: "De perto ninguém é normal". Saiu um quadro lindo (modéstia à parte), uma mulher gravidíssima de divinas tetas, com uma cabeleira a la Clara Nunes, jorrando leite bom e que deu o tom do discurso de todos os outros. Bom, nada normal, é bem verdade. Pra afrontar a família tradicional brasileira, como brincou um amigo rs. Porque devoto a loucura, mesmo! E foram anos pra me libertar e me render ao diferente. E que me faz tanto bem. Que assim seja. Até a próxima!

segunda-feira, 13 de março de 2017

SEREIOU

Olá
Estou indo pra Heiloo e no caminho escrevo sobre a série nova que tem o título provisório de Sereiou. Já faz quinze dias ou um pouco mais que comecei essa série de colagens novas, então posso falar com mais consciência sobre o que estou criando, apenas agora. O tema é basicamente o que temos acompanhado na mídia, de uns tempos pra cá: empoderamento das mulheres, negros e gays. O básico é isso. Resolvi usar como imagem de desconstrução, dessa vez, a sereia. Por quê? Não tem nada a ver com a nova novela da Globo. Já adianto. Quando eu tinha uns 11 ou 12 anos, me lembro de ter visto uma imagem de uma sereia linda num gibi da Mônica. Reproduzi esse desenho num trabalho de escola e essa imagem nunca me saiu da cabeça. Outro dia, estava passeando em torno da feira da Waterlooplein, no Centro de Amsterdam, e na vitrine de uma loja de chocolates, vi a imagem pueril de uma sereia sendo levada nos braços por um marinheiro. Fiquei encantado e passei ali alguns minutos admirando aquela belezura. Me senti a própria Holly na vitrine da Tiffany kkk. Era a confirmação. Fazia um ano que não pintava ou colava, pois bem, a hora chegou. Estou divagando, mas o fato é que essa necessidade bateu fundo e veio como uma forma de me salvar de toda loucura e todo o resto que tem sido morar em Amsterdam, ter a minha âncora aqui e meu coração e minhas emoções no Brasil. Mas voltando... A sereia é pra mim uma imagem de poder incrível, me remete à liberdade, ao mesmo tempo em que simboliza a diferença. Por que não desconstruir essa imagem pra falar de mulheres que querem apenas o seu espaço reconhecido na sociedade? Comecei os trabalhos de forma bem tradicional como sempre faço, fazendo a colagem clássica, as cores e temas básicos, tudo pequeno, porque nao tenho espaço em casa... e fui pirando, pirando... No meio disso tudo, veio o Carnaval e acompanhei algumas discussões que resolvi trazer para as telas: Anitta acusada de apropriação cultural por usar tranças, Daniela Mercury de fazer blackface (oi?) no seu trio, Pabllo Vittar estourando com o hit que diz (Não espero o carnaval chegar pra ser vadia) e por aí vai... Daí eu me pergunto se se apropriar de algo historicamente reconhecido por pertencer a uma determinada cultura é errado? Pra mim, não. Fazendo com respeito e conhecendo de onde aquilo vem que mal tem? As minhas sereias vão ter, sim, cabelos coloridos e rostos multicores. É a minha forma de dizer, o mundo é diferente e faço parte dele. A mulherada vai aprovar, tenho certeza. Acompanhem os próximos posts e saiba mais sobre os bastidores dessa empreitada artística com uma pegada política. Vamos ver aonde vou chegar. Beijão

terça-feira, 7 de abril de 2015

UM MILAGRE PARA A ESTRELA AZUL



In Memoriam de Callebe Garcia

"As estrelas eram um símbolo de pureza, qualquer coisa inatingível que a mão dos homens não havia ainda conseguido poluir. As criaturas que chafurdavam na lama podiam salvar-se se ainda tivessem olhos para ver as estrelas". Érico Verissimo

Saguão de hospital. Tudo muito claro e frio. Ali perto, Heitor entre a vida e a morte. Paula se distrai com um horizonte imaginário, quando Cauê se aproxima.


Cauê (tocando no ombro da amiga)

...Paula? E aí, como é que ele tá?


Paula
...Muito mal. Não sei se o Heitor vai conseguir sair dessa.

Cauê (otimista)
...Temos que ter fé. Agora, é ter fé, minha querida. Ter fé.

Paula
...Ele tinha tanta fé, Cauê. Era sempre o primeiro a invocar o nome de Deus.

Cauê (sentando-se)
...Ele vai ficar bem. Caramba, não é justo!

Paula
...Fizemos tantos planos. Lembra?

Cauê
...Lembro.

Paula
...Uma das últimas coisas que ele me disse foi que queria viajar. Correr o mundo com uma mochila nas costas. Começaria pela Patagônia, vê se pode.

Cauê
...Isso era bem a cara dele. Essas aventuras turísticas sem um tostão no bolso. Nunca esqueço aquela viagem que fizemos a Paraty...

Paula
...Nós tínhamos combinado de fazer um curso de teatro juntos. Fomos até a escola ver como funcionava o lance da matrícula. Eu falei pra ele que ele já era um ator e dos bons. Ele riu como se fosse uma criança.

Cauê

...Adorava passar trotes pelo telefone, lembra? Eu mesmo caí em, pelo menos, uns cinco.

Paula
...Eu não me conformo. Não me conformo, Cauê! Olha, se o Heitor... Se ele morrer, aí é que eu vou pirar de vez mesmo.



Cauê

...Pelo amor de Deus, não vamos pensar no pior. Você já falou com a família dele?

Paula
...Só com uma das irmãs. A mãe dele me detesta.

Cauê
...Eu avisei ao João. Ele ficou tão chocado, mas daquele jeito dele, sabe?

Paula
...Espero que ele consiga passar por cima daquele orgulho besta e faça, pelo menos, uma oração para o Heitor.

Cauê
...Há quanto tempo eles não se falam?

Paula
...Acho que há uns seis meses, sei lá. 

Cauê
...Pra quem andava sempre grudado...

Paula
...Eu não sei direito o que houve. Aliás, eu não sei o que houve com todos nós. Quando nos conhecemos, era tudo tão bom, fazíamos tudo juntos... De uns tempos pra cá, cada um foi ficando na sua...

Cauê
...Tantas cobranças, ciúmes, isolamentos. Para algumas pessoas, a amizade virou até uma espécie de obrigação.

Paula

...Se nós pudéssemos começar tudo de novo...


Cauê
...Você acha que seria diferente?

Paula
...O João e o Heitor, por exemplo. Eles não se largavam, lembra?

Cauê
...Eu tenho quase certeza de que o rompimento deles foi por puro excesso de intimidade.



Paula

...Amigo que é amigo suporta essas coisinhas bobas, Cauê.

Cauê
...Mas um momento de silêncio também é bom. É até necessário.

Paula
...Eu já tenho medo do silêncio. Tenho medo de mim mesma, no silêncio.

Cauê
...Eu nunca me senti, assim, Paula.

Paula
...Assim como?

Cauê
...Assim, com essa sensação de vazio, de ter um buraco aqui dentro, sabe? Eu acho que eu também era dependente do amor dele.

Paula
...Todos nós éramos.

Cauê
...Um amor que beirava até o infantil, né?

Paula
...Ele sempre teve mesmo uma certa pureza.

Cauê

...Pra você deve ter sido difícil se apaixonar por ele daquela forma, não é?


Paula
...Sabe que não? Quando eu descobri que estava apaixonada por ele, eu era muito novinha, imatura. Nem sabia direito o que estava sentindo. Foi mais um impulso, eu acho. Ele também nunca me disse verbalmente que não queria nada comigo. Talvez não quisesse me machucar também. Mas eu logo entendi e segui o meu caminho. Também nunca o vi machucando ninguém, mesmo que a pessoa merecesse.

Cauê
...É verdade.


Paula

...Ele sempre queria o melhor para nós. Quando não podia fazer isso, simplesmente desaparecia. Era como um código. A gente logo sabia que ele estava exilado em algum lugar.

Cauê
...E ninguém conseguia tirá-lo de lá.



Paula

...E quanto mais perguntas, mais silêncio.

Cauê
...Ah, mas com o João ele sempre se abria. O João, por exemplo, foi o primeiro a saber que ele tinha comprado aquela maldita moto.

Paula
...Pois é... E, depois, deu no que deu.

João se aproxima.

João
...Oi pessoal.

Cauê
...Você não morre mais. Estávamos falando justamente de como você e o Heitor eram amigos.

João (sentando-se)
...E como é que ele tá?

Cauê
...Mal, né? Muito mal.

João
...Se eu soubesse...

Paula (num rompante)
...Se nós soubéssemos, tudo seria diferente. Teríamos feito uma festa pra ele.

João
...Na verdade, eu poderia mesmo ter passado por cima do meu orgulho, ter dito a ele: “Cara, vamos começar tudo de novo. Vamos esquecer essas besteiras”.



Cauê

...Agora é um pouco tarde para arrependimentos, você não acha?

João
...Ele não quis entender a minha imperfeição também. Eu errei. Todos erram, não é? Olha, vocês podem achar estranho eu dizer isso só agora, mas eu ainda o amo. Amo.

Paula
...Agora que ele não pode ouvir?

João
...O que vocês querem que eu faça? Eu já admiti que errei.

Cauê
...Mas não basta.

Paula
...Por favor, estamos num hospital.

João
...Dane-se o hospital! Não fui eu que provoquei o acidente.

Cauê
...Mas depois que vocês romperam ele nunca mais foi o mesmo.

João
...Eu faço qualquer coisa por ele... Ele não está precisando de sangue? O que ele está precisando?

Paula
...Não seja ridículo, João!

João
...Eu tentei me reaproximar dele. Enviei um e-mail, mas ele não me respondeu.

Cauê
...Ele me falou desse e-mail.

João
...O que ele te disse? Fala, Cauê!!!

Cauê
...Disse que você precisaria de muito mais alegria para saber que a vida dói.


João

...Não entendi.


Cauê

...É simples...


Paula (interrompendo-o)
...O João quis dizer que você só reconheceria o valor da amizade dele, depois que quebrasse a cara. Pronto, falei.

João
...Vocês acham que se ele ficar bom pode ainda me perdoar?

Cauê
...Não sabemos nem se ele vai ficar bom.

Paula
...Eu tenho por dever acreditar em milagres.

João
...Foi tão grave assim?

Cauê
...A moto entrou debaixo de um caminhão.

João
...Merda!

Paula
...Agora só resta mesmo rezar.

Cauê
...Preciso dar um pulo em casa, tomar banho e comer alguma coisa. Estou na rua desde cedo. Vocês vão ficar?

Paula
...Eu tenho ainda que passar, na faculdade dele. Não sei se eles já sabem. Quanto mais pessoas torcendo pela sua recuperação, melhor.

Cauê
...Eu te dou uma carona.


João fica parado ali mesmo, sem saber o que fazer, como agir, sem poder mudar o tempo. Apenas sentindo aquela dor que agora se transformou em culpa.


Texto escrito em 22/12/2010.