segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

ESBOÇOS DA CIDADE

Fala-se de "Clarice," a biografia de Benjamin Moser

"De Dentro pra Fora, De Fora pra Dentro", exposição de forte apelo popular

A Bahia sob o olhar de Lita Cerqueira

"Cerco", a ousada arte do português João Sarmento

Onde está "Wally" em frente à Galeria do Rock?

Estive em São Paulo durante a última semana, mas não foi possível postar de lá as novidades, por isso o faço agora. Antes de qualquer coisa, fica aqui a minha solidariedade ao povo do Haiti. Soube do terremoto, na terça-feira, de madrugada, quando fui fazer um lanche com amigos, na Bella Paulista, uma casa de pães que funciona 24 h, perto do hotel onde estava hospedado. Fiquei bastante comovido e me impressionou aquela imagem de uma menina, se não me engano com uniforme escolar, chorando em desespero. Infelizmente, teve ainda a morte de Zilda Arns, uma pessoa tão generosa, que pensava sempre no próximo. Enfim, foi realmente muito triste. Até ontem, no desfile da Cavalera, no centro de São Paulo, os fotógrafos ainda comentavam entre eles quem tinha sido escalado para cobrir a tragédia e o medo de estar lá e acontecer um novo terremoto. Resta agora torcermos para que o país, que já era exemplo ímpar de miséria nas Américas, consiga se reerguer e que outros países como Brasil, França e Estados Unidos também o ajudem na reconstrução. Sim, porque as perdas humanas são irreparáveis, mas a vida tem que continuar, né?

A minha prioridade era acompanhar o circuito cultural e me divertir um pouco, vindo de dias preciosos de ócio aqui no Guarujá. Com mais tempo, pude ir aos lugares com mais calma, passando mais tempo e registrando, sempre que possível, tudo o que me interessava. A minha primeira parada cultural foi no MASP. O museu está com ótimas exposições, uma de retratos, outra de esculturas no vão, fora aquele acervo maravilhoso, mas a que chama atenção mesmo é “De Dentro pra Fora, De Fora pra Dentro”, expo de street art, no lindo e, enfim, bem aproveitado subsolo. Tirei algumas fotos, embora não fosse permitido. As pessoas estavam loucas pra registrar. Aliás, a cidade está tomada de street art e pichação. Há uma intervenção urbana com a frase “Mais amor, por favor” que vi em vários lugares, a caminho do hotel.

Passar um sábado no centro é um programa imperdível e, se o tempo estiver ensolarado, melhor ainda. Na Pinacoteca, a exposição que me encantou mesmo foi “A Fotografia como Eu Sou”, de Lita Cerqueira. Imagens extraordinárias de moradores da cidade de Cachoeira – BA, com destaque para seus ricos personagens pitorescos e folclóricos. Um gringo, que tirou a minha foto, estava fascinado! Atravessando a rua, no Museu da Língua Portuguesa, a exposição era sobre a poetisa Cora Coralina. Simples e tocante. Um pouco mais à frente, na Estação Pinacoteca, vale a pena conferir “Elegância em Tensão”, do português João Sarmento. As imagens podem chocar os mais puritanos, mas eu ainda vejo alguma delicadeza na forma como ele explora a nudez.

Fui praticamente a quase todos os sebos do centro da cidade e pude constatar que quem está em alta é a escritora Clarice Lispector, tudo por conta da excelente biografia “Clarice,”, de Benjamin Moser (que estava esgotada na Fenac da Paulista e já é meu presente de aniversário rs). Tudo que diz respeito a ela está inflacionado. Fuçando muito, consegui comprar duas edições raras de seus livros. Num sebo próximo à Sé, garimpei uma Bravo!, de 97, com uma extensa matéria de capa sobre ela, por conta dos 20 anos de sua morte. Outros achados foram obras do artista plástico Beto Guilger. Ele pinta pequenas aquarelas e deixa em locais públicos para que as pessoas levem pra casa. Trouxe três, uma pra minha amiga Fernanda. Outro dia, saiu até uma matéria sobre ele, no Urbano, aquele programa de cultura urbana do canal a cabo Multishow.

E, pra fechar a semana com um certo entusiasmo, fui à The Week, que eu ainda não conhecia. Ouvi dizer que a casa vai fechar. Será??? Bem, achei bonita, as pessoas idem, mas precisa tanto “carão”?, a música é ótima também, mas de tão lotada fica quase impossível dançar sem ser incomodado. “Bad Romance”, de Lady Gaga, ajudou bastante a compor a atmosfera de ilusão, a que, sem prejuízo, nos permitimos nessas noites. Quando estava lá, me lembrei logo de um filme argentino chamado “Mentiras y Gordas”, que sintetiza muito bem a forma como muitos jovens se “divertem” nas baladas, com a falsa sensação de que estão preenchendo um vazio.

No outro dia, pela manhã, ainda teve o desfile da Cavalera, o primeiro da SPFW, no centro, na Galeria do Rock. Cheguei cedo e cansado por conta da noitada, mas queria ver a querida Aline, uma linda atendente de uma loja de tattoos da própria Galeria, que conheci no dia anterior e que fazia parte do casting. Roubei uma foto do site OnSpeed que mostra exatamente onde eu estava, antes da abertura. Não vou dar dicas, quem descobrir primeiro ganha um presente surpresa.

Os filmes a que assisti vou postando depois, separadamente, para este post não ficar mais bagunçado do que já está. Agora é voltar ao batente cheio de inspiração, porque a vida segue sorrindo. Abração!!!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

ANDAR COM FÉ


Olá, pessoal! Feliz 2010! De volta, depois de uma curta temporada longe do Blog. Ah, antes que eu me esqueça, obrigado pelos lindos comentários, no último post. E este ano promete, né? As revistas e jornais não se cansam de dizer que 2010 será o ano das oportunidades, no Brasil. Tomara. É bacana já começar um novo ciclo com esse entusiasmo todo, com essa energia boa. Mantenho os meus pés firmes no chão, mas não vou me render ao coro dos pessimistas, também acho que este ano vai render e muito.




Sei que o post vai adquirir um tom de redação escolar como “Minhas Férias”, mas é só o esquenta para o que vem de bom por aí. Não se preocupem, vou fazer um resumão. Na hora da virada, aconteceu algo bem inusitado. Nos perdemos antes de chegarmos ao calçadão, isso faltando 20 minutos para a meia noite. A minha família se dividiu e eu fiquei numa esquina, exatamente no meio. Comecei a ligar desesperadamente para o meu irmão mais velho e nada. O relógio correndo. Os fogos já estourando no céu. Aquele empurra-empurra. A faixa de areia completamente tomada de gente. Faltando 1 minuto para o novo ano, todos se reencontraram misteriosamente ali na esquina e nos cumprimentamos. Foi emocionante. Como faço todos os anos, fiz os meus pedidos de sempre e mentalizei só coisas boas.


Choveu muito depois da queima de fogos e nos dias seguintes também. Apesar de ter frustrado muitos de nossos amigos paulistanos que recebemos em nossa casa, também serviu para criar um clima de aconchego. Pudemos conversar mais, rir bastante com o DVD da "absoluta" Stefhany (aliás, nunca vi nada tão tosco em toda a minha vida), comer guloseimas deliciosas preparadas pelo meu pai e, como ninguém é de ferro, também ir a uma balada na Ilha Porchat, em São Vicente, com direito a um after hours, no quarto do meu irmão, ao som da nostálgica “Alone”, da Maya. Às 7 da manhã, cruzávamos Santos com a orla coberta por uma chuva bem fininha, ninguém estava cansado, pelo contrário, vínhamos cantando, todos felizes. Lu, Celi, Wagner e Alex, obrigado por esse dia inesquecível!


Também tive a felicidade de receber por aqui o meu amigo Flávio Michelazzo, que mora em São João da Boa Vista e estava passando férias em Santos. Fazia um tempão que eu não o via e foi ótimo matar a saudade e ciceroneá-lo pelas praias do Guarujá. Ele modera várias comunidades de novelas no Orkut e é superantenado com tudo que acontece no meio artístico e os nossos papos rendiam muito. Fomos até o Pernambuco, um bairro bem distante da cidade, na praia onde foram gravadas as cenas de abertura de “Vende-se um Véu de Noiva”, uma novela que termina amanhã no SBT. Lá, fiz uma imagem linda ao final da tarde, exatamente quando uma moça se banhava. Pra mim, já é a imagem mais bacana que fotografei até hoje.

E, para deixar as minhas férias ainda melhores, ganhei um livro lindo de poesias do meu amigo Paulo Henrique, do blog “Tenho opinião, logo existo”, que eu adorei. Depois quero escrever sobre ele aqui, chama-se “Aos Vivos”, de Bento Nascimento, um poeta que eu não conhecia. E é com “Amanhã é Sábado” que me disperso de vocês, mas já reafirmando o meu compromisso de tornar esse espaço, em 2010, cada vez mais agradável, informativo, interativo e, claro, divertido. “Hoje me alegro, descanso e me solto, o mundo dá voltas e volta a mexer comigo. /.../ Não mudei, continuo o mesmo da semana passada, com os mesmos pensamentos, os mesmos discos e quadros na parede”. Abração e a vida segue solar!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

SAIDEIRA


Me dá um abraço?


Pessoal, já estou em clima de saideira também. Passei aqui rapidinho só para agradecer a vocês pela companhia, durante o ano, e fazer um brevíssimo retrospecto do ano que passou. Ontem, dei um rasante em São Paulo e não poderia deixar de falar que o famigerado espírito natalino tomou conta de mim. A Paulista estava toda enfeitada, iluminada, as pessoas indo de um lado a outro com as suas compras, as crianças encantadas com o Papai Noel... Enfim, senti exatamente o que a Cecília Meireles tão bem sintetizou em uma das suas belas crônicas de “Escolha o seu Sonho”, “esses dons da infância que o tempo nos vai roubando cruelmente e que todos os dias precisamos energicamente recuperar”. Fica aqui a minha primeira resolução de ano novo, dias com mais leveza, com um olhar mais puro e infantil, mesmo que a realidade e a violência sejam brutais.

Na volta pra casa, uma carreta que vinha um pouco mais à frente do ônibus onde eu estava bateu em dois caminhões. Fiquei umas 4 horas dentro do ônibus esperando liberarem a pista. Aproveitei esse tempo para refletir o quanto é importante “gastar o presente”, viver com intensidade, perdoar, dizer ao outro o que se tem vontade, tudo em vida. Muitas pessoas acham isso uma babaquice, um clichê sem tamanho, mas, por muitas vezes ignorarmos essas coisas tão simples, nos arrependemos depois.


2009 foi um ano muito bom pra mim, graças a Deus. Pude realizar a minha primeira exposição, escrever e encenar a minha primeira peça infantil, ter um lugar maior para trabalhar e, claro, fazer novos e preciosos amigos. Um deles foi o Vitor, que conheci na segunda-feira, em sua rápida passagem por Santos. Eu já tinha feito pra ele uma ilustração (foto), por conta de sua viagem a NY, em setembro, mas só agora pude lhe entregar o presente. Ele gostou tanto que dava pra ver em seus olhos cinza azulados. O bacana de presentear é justamente esse, proporcionar às pessoas esses pequenos momentos de alegria. Ganhei dele várias imagens do que há de mais “in” em termos de arte em solo americano. Obrigadão, meu amigo. Vamos tentar nos ver mais vezes, sim. Foi uma tarde muito divertida.

Neste ano, o Natal aqui em casa vai ser muito especial, porque o meu irmão Luciano, que mora na Holanda, veio passar as férias conosco. Estou muito feliz, as melhores lembranças dessa época do ano, pra mim, sempre estiveram ligadas à família reunida, mais do que presentes, comida farta, essas coisas. E a família Teixeira é enorme! Para vocês terem uma ideia, temos até uma comunidade no Orkut. Entre parentes e agregados somam-se mais de 45 pessoas (basicamente só daqui de São Paulo). E é tradição todos se reunirem no Natal, na casa da minha tia Gessi. O amigo secreto adentra a madrugada e dura horas. Mas é uma família abençoada, unida, eu amo muito todos eles.

E já estou cheio de planos para o ano que vem. Pretendo viajar mais, pintar mais, escrever mais, ler mais, fazer mais amigos, ouvir mais música, ir mais ao cinema, estar mais presente aqui no Blog... Ser mais feliz resume tudo, né? Que todos nós sejamos muito felizes, em 2010, é o que desejo a todos, de coração! Estou saindo para umas breves férias, mas voltarei logo cheio de novidades. Abraços e beijos!!! Fui.

sábado, 19 de dezembro de 2009

MUSIC AND ME

"O mundo é um moinho..." Cartola, sempre!

Do retrô ao contemporâneo

Já fazia algum tempo que eu queria postar aqui sobre música. Na semana passada, um amigo meu me visitou e viu no meu ateliê um rádio bem antigo e o meu walkman azul da Sony. Imediatamente nos reportamos aos nossos tempos de colégio, numa época pré-ipod, e começamos a falar do que ouvíamos, das matinês que frequentávamos, enfim, deu logo vontade de escrever sobre o assunto. Coincidentemente, um dia depois, recebi aqui no Blog um convite do Jay, do Ká entre Nós, para participar de uma postagem coletiva sobre música e topei na hora.

A música está presente na minha vida, desde a minha primeira infância, porque o meu pai tinha uma empresa chamada SuperStar Som, que colocava som em festas na cidade, promovia bailes de formatura, etc. A minha casa vivia cheia de LPs e fitas cassete e eu adorava ficar mexendo nos bolachões, ver os encartes, aquelas imagens bem coloridas, os figurinos espalhafatosos, tudo aquilo me fascinava. Ao invés de ouvirmos Balão Mágico e cia., ouvíamos tudo que estivesse em voga no momento, basicamente muita MPB e música regional baiana. Mas essa fase nem conta muito porque a música não tinha o sentido que ela só viria a ter pra mim, na adolescência. Quem não teve uma trilha sonora do primeiro amor, né? Hoje, com as facilidades da internet, o normal é baixar a música na hora, mas eu ainda peguei a época da rádio FM. As melhores músicas pop só se ouviam na Jovem Pan e Transamérica. Faz tempo que não ouço rádio, então não sei se elas ainda tem o mesmo impacto que antes, mas suponho que não, parece que se resumem ao hit parade e às notícias do trânsito, pelo menos em cidades maiores como São Paulo.




No auge da minha puberdade, depois de toda a melancolia das músicas sertanejas que tomou conta do país, conheci a música da cantora Daniela Mercury e passei a ser seu fã, com direito a ir a todos os shows, pedir autógrafo e outras loucurinhas, como gastar a minha mesada em CDs e revistas e jornais em que ela aparecia. Na verdade, eu ainda gosto das músicas dela. Ela soube direcionar bem a sua carreira e não se tornou refém do ritmo que a consagrou, “mesmo que erre, é para o futuro”. Daniela já cantou com Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano, Gil, entre outros, mas também vive flertando com a música eletrônica, samba e agora está numa onda de retomar a Tropicália, que eu adoro. É dessa fase também a leitura de “O Jovem Lennon”, de Jordi Sierra i Fabra, uma biografia juvenil de John Lennon que li no colegial e da qual nunca me esqueci.

Minha primeira sleeveface

Depois dessa fase macaco de auditório, já na faculdade, descobri Maria Bethânia, Ana Carolina, Adriana Calcanhotto, Vanessa da Mata, Marisa Monte, Marina Lima, Cartola (que eu amo), Paulinho da Viola, Caetano Veloso, U2, muita música dos anos 80, gospel, pop, hip hop, enfim, não tenho o menor preconceito, ouço tudo e vou selecionando naturalmente o que me agrada. Fica quem tem maior empatia com o que estou sentindo, no momento, se tem bom gosto, etc. Proust tem uma frase que eu acho ótima: “Detestem a música ruim, não a desprezem”. Concordo plenamente. Não consigo imaginar um churrasco de domingo ao som de Beethoven, por exemplo. E depois, por mais que gêneros como funk, pagode, música sertaneja, forró e axé se deixaram banalizar, existe algo louvável em todos eles: a inegável capacidade de (re)invenção dos seus compositores. Não pensem nas letras fáceis, no excesso de vogais, palavras de duplo sentido, etc, mas, sim, na inventividade desses caras, no ritmo dessas músicas que quase sempre é contagiante. Não se trata de um elogio à música ruim, mas pensem bem: dentro desse nosso país que é enorme, onde cada estado é tão diferente um do outro, com tamanha disparidade sociocultural, “a música ruim pode não ter o seu lugar na história da Arte, mas é imenso na história sentimental dele”.

Não vou me arriscar a fazer uma lista das mais mais do meu i-pod, porque inevitavelmente faltaria com algum cantor ou cantora, mas vou lançar a vocês uma pergunta. Qual o verso de uma canção que vocês mais curtem? O poeta Manuel Bandeira achava lindo “Tu pisavas nos astros distraída”. O meu é “O canto do negro veio lá do alto. É belo como a íris dos olhos de Deus”. Toda vez que ouço isso me emociono. Ah, tenho curtido também uma série chamada Glee, da FOX, não sei se vocês conhecem. Ela mistura comédia, drama, musical. É bem interessante. Outro dia, morri de rir quando vi um time inteiro de baseball dançando “Single Ladies”, da Beyoncé. E também estou doido pra ler “Morangos Mofados”, do Ramon Mello. Pelo que andei lendo sobre o livro dele, tem tudo a ver com o tema de hoje. E já ia me esquecendo, só canto mesmo no chuveiro rs. Bem, é isso, pessoal. Obrigadão, de verdade, pelos belos comentários sobre o meu trabalho, no post anterior. Vou visitar todos os blogs esta semana, estou em dívida com vocês. Volto ainda com uma mensagem de Natal. Abração!!!

RARIDADES MUSICAIS





Algumas raridades que garimpei na discoteca da minha casa. Na ordem: toda a bossa da juventude dos anos 60; em seguida, quem não compraria um disco de boleros com o título "El bigote se pone romantico"? rs, eu acho essa capa engraçadíssima; tem também os vovôs dos Backstreet Boys e cia., Os Menudos, cujo hit "Não se reprima" virou "mania" entre as meninas nos anos 80 e, por fim, o disco mais vendido de todos os tempos, "Triller", do inesquecível Michael Jackson.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

RELICÁRIO






Prometi postar alguns trabalhos novos com colagens e aqui estou para pagar a minha dívida. Muito também impulsionado por uma espécie de “teste” que fiz agora pouco, no Messenger, onde coloquei no meu display uma foto em que estou, pasmem!, de cueca boxer branca, dorso nu, sentado de frente, uma perna tocando o chão e a outra dobrada sobre a minha cama, olhos levemente fechados, numa atmosfera bem onírica. Não tem nada de escandaloso, pornográfico, etc. Talvez não passe de uma foto “sexy”. Bem, houve um certo reboliço, algumas pessoas pediram insistentemente a imagem, que é em preto e branco e muito inspirada nos belos trabalhos do fotógrafo Bruce Weber. Lá pelas tantas, houve uma reação do tipo: “Mudei os meus conceitos em relação a você”. Não vou fazer aqui uma tese sobre moralismo ou o que faço ou deixo de fazer com a minha própria imagem, mas cabe apenas uma explicação. Quando procuro me autorretratar dessa forma mais “artística” é tão-somente para “brincar” com referências do universo da moda, porque tem muito a ver com arte. E isso também nem é um desabafo, porque quem me conhece de verdade sabe que eu não sou um sex symbol ou algo do gênero. Guardem apenas esse acontecimento, pois vou retomar o assunto na conclusão do post e vocês logo entenderão o porquê.

No ano passado, o calendário dos padres sexies esteve ali, lado a lado com o da Pirelli, em termos de audiência. Neste ano, a bola da vez são os mórmons “descamisados”. Então eu me questiono onde foi parar aquele velho discurso dessas religiões sobre a exposição do nosso corpo e tudo mais. Vejam bem, não sou contra esse tipo de exposição, apenas me incomoda quando há um certo exagero. E fica aqui até uma espécie de mea culpa, porque já tive também a minha fase hedonista, no passado, mas falo agora de modo geral, porque o excesso sempre banaliza. Também me irrita a incoerência dessas religiões que todos nós sabemos que costumam, sim, segregar muitas pessoas, usando ou não a Bíblia como parâmetro.

A série de imagens que criei dei o nome de “Relicário” e as razões já foram citadas, no post do dia 1º de dezembro, só quero acrescentar que não faz muito tempo que li um texto muito interessante em “O Crepúsculo dos Ídolos”, de Nietzche, em que ele aparece como um destruidor de ídolos e entrega-se à tarefa de livrar o homem de suas crenças religiosas. Não partilho dessa posição radical, claro, mas me interesso também em mostrar que tanto o paganismo quanto o cristianismo se serviram de múltiplas possibilidades de divinização da existência. Por isso esse novo trabalho une sagrado e profano, mostrando que essas imagens tanto ocultam como revelam, tanto assustam como seduzem. E isso não é nada original, este ano mesmo foi até "tendencinha". Vários fotógrafos como David LaChapelle e a dupla Pierre e Gilles trabalham esse tema do simulacro muito melhor, com recursos modernosos de computador e todo um aparato de direção de arte. Preferi uma técnica bem mais simples, que todo o seu conceito lembrasse a nossa cultura popular com o seu colorido, que tivesse um charme kitsch, humor, enfim, o resultado me agradou bastante. Postei só um "aperitivo", mas espero que vocês curtam.

Só pra finalizar o assunto “minha foto de cueca” e já linkar com tudo que escrevi depois: tenho a impressão de que estamos vivendo um momento bem confuso, onde há um forte desejo indiscriminado de “desnudar” o outro, mas, ao mesmo tempo, não sabemos se nos sentimos culpados por isso, se comemoramos, se nos penitenciamos ou se fazemos tudo isso junto, como no já clássico episódio do vestido curto daquela estudante que foi execrada pelos estudantes da UNIBAN e saudada por muitas mulheres como uma “mártir” feminista, dos novos tempos. Bem, vou ficando por aqui, porque tenho que entregar encomendas de quadros pro Natal, no próximo finde, em São Paulo. E na sexta ainda quero postar sobre música. Então, abração a todos! Fui.

domingo, 6 de dezembro de 2009

NATAL AMARGO


"Tem gente que não sabe viver com felicidade"
Ontem assisti ao tão esperado “Feliz Natal”, o primeiro longa dirigido pelo ator Selton Mello. Embora o filme não tenha me entusiasmado muito, também não posso dizer que tudo que vi não gostei. Desde que soube dessa sua nova empreitada no cinema, fiquei cheio de curiosidade. Em frente às câmeras, Selton não precisa nos provar mais nada, mas atrás delas ainda está se descobrindo. “Este não é o filme da minha vida, é apenas o meu filme de estreia” – esta foi a sua declaração, no ano passado, durante o lançamento desse seu primeiro “filho”. E é exatamente assim que o vejo, como o seu début na direção, com direito a todas as influências e erros a que estreantes estão vulneráveis.

Não esperem por uma história linear, comercial, pelo contrário, para compreendê-la é preciso embarcar nas suas sutilezas e ironias, a começar pelo título. O perturbado Caio, muito bem interpretado pelo ator Leonardo Medeiros, é aquele filho que não deu certo na vida, o máximo que conseguiu foi um ferro velho pra chamar de seu, enquanto o irmão Theo, vivido por Paulo Guarnieri, financeiramente não tem por que se queixar, mas o seu casamento com Fabiana, uma ótima Graziella Moretto em versão dramática, está em crise. Para completar o clima “todos já pro divã”, o seu pai Miguel, o veterano Lucio Mauro, se separou da sua mãe Mércia, a sensacional Darlene Glória, e não o admite como a personificação do fracasso. Os sobrinhos, que dão uma leveza ao filme, criança sempre dá, né?, aparecem como as maiores vítimas dessa família desestruturada, cheia de vícios. Caio faz apenas uma aparição relâmpago, na noite de Natal, para visitá-los, mas é o suficiente para atingi-los no seu íntimo.

Como vocês já devem ter notado, há um excesso de componentes trágicos, mas o pior nem é isso, o roteiro é que não segura até o fim. Em alguns momentos, desgasta-se, torna-se lento demais. Uma pena, porque a fotografia é maravilhosa, a trilha é marcante, a maior parte das interpretações também. O ator Emiliano Queiroz, por exemplo, faz uma pontinha como zelador de um cemitério e arrebenta. Mas o destaque desse filme pra mim, sem sombra de dúvida, é a atriz Darlene Glória, caricatural ou não. E não sei por que ela anda afastada da TV e do cinema. Não dá para não se emocionar numa cena em que, depois de tomar um coquetel psicotrópico, ela entra em transe, começa a se pintar (ou borrar?) desajeitadamente e a se imaginar dançando com o Caio. Seria esta a razão dos seus infortúnios? Uma espécie de amor incestuoso? Só o Selton para nos responder.

“Feliz Natal” é um filme diferente, que privilegia as sensações, as vivências dos personagens, mais do que qualquer outra coisa. Quem curte a literatura de escritores como Clarice Lispector, Tchecov ou Dostoievski vai estar mais acostumado a ele, porque a pegada é bem parecida, mas o melhor é cada um assistir e tirar as suas próprias conclusões. E, se quiser dividir comigo o que achou, melhor ainda. E, depois dessa prova de fogo que é colocar no mundo um rebento e já receber vários bofetões, Selton Mello está preparado para novos desafios. E eu torço muito por ele.

E, neste final de semana, uma nota bem triste, né?, o dramaturgo Mário Bortolotto foi baleado, no Espaço Parlapatões, na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, onde estive há pouco mais de um mês, nas Satyrianas. Estou torcendo pela sua recuperação e tenho certeza de que ele vai sair dessa. Fica aqui a minha solidariedade à família e aos amigos dele e também ao Ivam, ao Rodolfo, enfim, a todo pessoal dos Satyros que foi tão vítima dessa violência absurda quanto o próprio dramaturgo. Aliás, quem está imune a ela, hoje em dia, não é mesmo? Infelizmente. Força, aí! Abração a todos e uma semana cheia de paz, para todos nós.