sábado, 8 de dezembro de 2018

A BELEZA ESTRANHA DE TINTA BRUTA


Está rolando em Amsterdam, nesta semana, o International Queer & Migrant Film Festival, um dos festivais mais interessantes de reflexão sobre a cultura queer, ativismo e migração, o qual tive a honra de participar, no ano passado, com o meu curta “Sábado de Carnaval”, como parte do programa de residência. Lá, conheci muitos jovens diretores do mundo todo, durante uma semana inesquecível! A programação é bastante variada, com debates muito interessantes e tudo coordenado por uma equipe jovem e criativa. Vou citar apenas quatro deles: Chris Belloni, Antoni Karadzoski, Eero Nurmi e Lara Nuberg (pessoas por quem tenho o maior carinho, pelas causas que defendem e pelo modo como nos trataram, no ano passado). 

Tão logo saiu a programação deste ano, fiquei de olho nos filmes e selecionei alguns para assistir, sobretudo os brasileiros (quatro, se não me engano), mas como a minha vida está cheia de sobressaltos emocionais, ultimamente, cogitei a possibilidade de não ir à abertura, com a exibição do filme “Tinta Bruta” (Hard Paint), de Marcio Reolon e Filipi Matzembacher. Por sorte, me obriguei a ir. Estava exausto, física e emocionalmente, mas fui. Cheguei em cima da hora, não tinha mais ingressos, mas houve alguma desistência e consegui o meu. A abertura oficial teve apresentações da equipe e júri e até uma fala para explicar a vitória do #elenão. Desnecessário dizer que, nessa hora, morri de vergonha.

Depois de assistir ao filme, saí da sala bastante emocionado. Vou tentar resumir o que é esse filme, a minha percepção sobre o mesmo e por que, na minha opinião, ele é um divisor de águas, dentro do seguimento de filmes LGBTQI+ nacionais. Em linhas gerais, é a história de Pedro, um jovem que faz performances eróticas na webcam, com o corpo coberto de tinta neon, enquanto a sua vida pessoal está desmoronando: processado criminalmente, pessoas próximas e queridas se afastando, sem dinheiro pra pagar o aluguel do apartamento onde mora, etc. Um filme envolto numa atmosfera de niilismo, de descrença no outro, onde tudo parece dar errado, ambientado numa sociedade voraz por querer encaixar as pessoas em rótulos e padrões. 

Apesar de ser um filme nacional, a linguagem é totalmente europeia e digo isso sem o menor preconceito. Quem assistiu "Beira-Mar", também da dupla, percebe que eles adoram diálogos longos, um ritmo bem lento, paisagens melancólicas e narrativas existencialistas. "Tinta Bruta" não foge muito do que talvez já seja uma linguagem de trabalho deles, mas o roteiro em três atos, focado em três personagens, trouxe uma bossa ali. Os diálogos são bem feitos, com ótimas tiradas, mas o que me chamou atenção, mesmo, foram as cenas de violência: muito bem dirigidas. Chega a dar um certo calafrio, tamanho realismo. As atuações, no geral, são muito boas, com destaque pro ator Shico Menegat (Pedro/GarotoNeon), mas nada tão extraordinário. A fotografia também é bastante bonita e a trilha é excelente.

Imagino que algumas pessoas podem questionar sobre um certo radicalismo, no filme. Bobagem. Tudo se resolve dentro do contexto e o resultado é ótimo, nada gratuito ou exibicionista. As cenas de nu explícito são justificadas e bonitas. E, nesse aspecto, ele não está sozinho também, "Festa da Menina Morta" e "Boi Neon", por exemplo, já se valeram do mesmo artifício. Espero que ninguém deixe de assistir por causa disso.

Mas, fora tudo isso que já escrevi (e não foi pouco), o que mais me surpreendeu, sem dúvida, foi o fato de ser um filme pretensamente queer, para além das questões de gênero e sexualidade, o que, pra mim, é quase inédito entre os filmes desse gênero, no Brasil. Pedro é o que se pode chamar de gay desconstruído, para usar um termo da moda. E as cenas de sexo, que tem motivações diversas, não tem um peso maior que a própria complexidade dele em existir (ou seria resistir?). Um filme totalmente fora da casinha, mas que veio em boa hora. Torço muito para que muitas pessoas possam perceber também a sua beleza, digamos... estranha. 

sábado, 1 de dezembro de 2018

POR QUE BOHEMIAN RHAPSODY É TÃO BOM


Faz alguns dias que estou ensaiando voltar a postar, mas a correria por aqui foi tão grande e alguns momentos tensos de ansiedade me impediram também. Mas tive uma folguinha, hoje, e vim correndo contar um pouquinho o que achei sobre o filme “Bohemian Rhapsody”, mais conhecido como o filme da banda Queen, e sobre a importância do dia de hoje, “Dia Mundial de Combate à AIDS”.

Estava cheio de expectativa, mas com um certo pé atrás também, porque durante o ano assisti a vários filmes musicais ou documentários sobre astros da música e meio que as histórias se repetem, né? Sempre um grande talento batalhando por um lugar ao sol, chega lá, mas depois não suporta as pressões da indústria ou a solidão e se enche de drogas, etc e, quase sempre, morre de forma dramática. Dificilmente, um diretor consegue fugir dessa fórmula e o espectador termina de assistir ao filme, com aquele sentimento de pesar, se indagando: “Mais um? Que tristeza”. 

Bohemian Rhapsody não foge muito a essa regra, mas os diretores (Bryan Singer e Dexter Fletcher) foram tão ousados em não se prenderem tanto aos fatos reais que resultou numa obra muito mais interessante e emocionante. O primeiro destaque, pra mim, é o roteiro (repleto dessas frases de efeito que eu brinco dizendo que o roteirista já escreveu pensando no trailer). Todo centrado na trajetória da banda e não apenas nas tragédias particulares do líder Freddie Mercury. Embora tudo gravite em torno dele, para o bem ou para o mal, não existe a possibilidade de um integrante eclipsar o outro, é a história da banda. Ponto. Por outro lado, não tem como não se render ao talento do ator Rami Malek, que interpreta muito bem o cantor Freddie Mercury. Já apostam nele como candidato ao Oscar e não é exagero. 

Apesar dele ter dito que o trabalho foi baseado muito mais em improvisos e que não houve a intenção de reproduzir com tamanha fidelidade as apresentações da banda, basta ver as apresentações originais para notar a incrível semelhança. Ele conseguiu resgatar o mesmo carisma do cantor, os trejeitos, usar aquela prótese nos dentes que não deve ter sido nada fácil e tudo isso sem parecer caricato. Pra mim, é uma das melhores atuações, em anos! O mérito é tanto do ator quanto da direção, claro, mas sobretudo do bom roteiro. Apostar num Freddie Mercury solitário, fora dos palcos, fisgou o coração das pessoas.

Achei ótimo o filme não focar na homossexualidade e muito menos no calvário que era a descoberta do HIV, naquela época. Isso tudo, invariavelmente, roubaria a atenção para o que, de fato, importa: o talento dele e da banda como um todo. Porém, eu particularmente elegi a cena emocionante do resultado positivo do teste de HIV dele, como uma das minhas favoritas. Exatamente, por sintetizar em apenas alguns segundos, com bastante humanidade, aquela angústia que devorava, sobretudo, os gays. Ele descobre o diagnóstico sem fazer escândalos e ao sair do consultório, num desses corredores gelados de hospital, está sentado um paciente em estágio já avançado da doença. Este paciente o reconhece e balbucia um refrão de uma das músicas do Queen. Freddie Mercury, então, para e completa o refrão, como quem diz “Estamos no mesmo barco”. Simples, tocante, muito provavelmente não aconteceu de fato, mas que serve como exemplo de liberdades poéticas que eles souberam usar muito bem. 

A partir daí, o filme ganha muito em emoção e é impossível não se entregar à história. O reencontro com os outros componentes da banda, depois do rompimento, vem logo em seguida e fecha com o histórico show do Live Aid, em 1985. Resumo da ópera: é um filme excelente, nostálgico, emocionante, pra quem curte rock ou não. A crítica e o público aclamaram, com toda razão. E é, óbvio, que vale também como reflexão para o dia de hoje, que se comemora o dia mundial de combate à AIDS. Não podemos esquecer que ainda não vencemos à batalha e que é importante se cuidar. Mas sobretudo dar um basta ao preconceito e acolher aqueles que vivem com HIV. Artistas com HIV, felizmente, não agonizam mais em praça pública e isso já é um grande alívio! 

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

AS ESTATÍSTICAS...


Pensei algumas vezes se deveria escrever este post ou não, mas terminei me convencendo de que seria importante. Na semana passada, lancei no canal da minha pequena produtora de cinema independente Mar de Ideias, no You Tube, o curta-metragem “A Prateleira” e, embora a recepção, de modo geral, tenha sido muito boa, vieram algumas críticas negativas também. Normal para quem está nesse meio, mas talvez seja o momento de lavar essa roupa suja, aqui mesmo.

O curta está BEM AQUI, ou abaixo do post. “A Prateleira” é o meu quarto curta-metragem e conta a história de um rapaz que está sozinho em casa e o cunhado pede para ele colocar uma prateleira, no quarto da filha. Bom, nesta hora, algo inesperado acontece. O filme trata de um tema bastante sério e delicado: estupro. Segundo dados recentes, a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Só 10% desses casos chegam a polícia. Não dá pra ignorar isso, não é mesmo? 

Ao optarmos por uma linguagem que fugisse de filmes institucionais fofos, porque acreditamos que a garotada precisa, sim!, de um choque de realidade, desagradamos algumas pessoas e fomos criticados, até mesmo por pessoas da nossa equipe e que participaram de todo o processo do filme. Quanto a isso, apenas lamento. Em nossa defesa, posso dizer que, em momento algum, erotizamos a cena do estupro, aliás, essa foi a nossa maior preocupação. E, se não fomos didáticos o suficiente, é porque acreditamos num cinema que não subestima a inteligência das pessoas. 

Nessas críticas, me chamaram atenção o tom conservador e eu diria até falso moralista, de algumas pessoas. Mas os sinais já estavam bem claros, há algum tempo, também. Exposição queer ganhando noticiários sob o “horror” de uma parcela hipócrita da sociedade que consegue admirar “A Origem do Mundo”, em Paris, mas não tolera ver uma obra chamada “Criança Viada”, no Brasil. E tantos outros retrocessos, sem o menor sentido e que farão cada dez mais parte desse novo momento, “Brasil, ame-o ou deixe-o”. “Deveríamos nos precipitar de vez nas águas”, como disse Drummond, mas vamos seguir em frente. 

Só voltando um pouco ao tema assédio e abusos sexuais, que nortearam a existência do nosso curta, cabe aqui registrar uma cena ridícula protagonizada pelo Silvio Santos, no final de semana passado, durante o Teleton. Vocês já devem ter assistido ao vídeo. De forma grosseira e deselegante, ele recusou um abraço da cantora Claudia Leitte, alegando que ela o deixaria excitado. Pior, com a esposa e uma das  filhas, na plateia. Rindo de nervoso. Sei que muitos vão achar exagero veicular esse episódio lamentável a um texto que começou falando de estupro. Não é. Esse tipo de pensamento machista e vergonhoso, disfarçado de brincadeira, constrange as mulheres. Não é nada engraçado e encoraja outros machistas. 

E o mais absurdo é que estamos assistindo a tudo isso, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Frases como “Você não merece ser estuprada porque é feia”, lembram disso?, “Vou te quebrar ao meio”, “Não vou te abraçar porque você vai me deixar excitado”, são só alguns exemplos. E por mais que se tente alertar as pessoas, como é o nosso caso, ainda podemos ouvir: “ah, tudo agora é tão politicamente incorreto”. Enquanto isso, as estatísticas... 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

UM PIANO CHAMADO "NASCE UMA ESTRELA"



Sim! Estou de volta. Foram dez anos de blog (como o tempo voa!) e ele já estava meio esquecido, né? Pretendo postar com mais frequência, por aqui, até porque estou numa nova fase da minha vida e escrever sempre foi, entre outras coisas, passar a minha vida a limpo, me reconectar comigo mesmo. Então, vamos lá. Se vão ler ou não, é uma outra história. O que importa mesmo é que o prazer de escrever venceu!

E esse retorno traz, de cara, as minhas impressões sobre um filme que acabei de assistir e que ainda está dando o que falar: A Star is Born (Nasce Uma Estrela), com a Lady Gaga no papel principal e o Bradley Cooper dirigindo e atuando. O filme é um carrossel de emoções, nem sempre muito bem conduzido, mas vou tentar resumir o que eu acho que vale a pena e o que não é tão bom, assim. Mas, claro, isso jamais deve tirar o prazer de vocês de conferirem, ok?

Pra começar, não sou o maior fã de musicais. Mesmo! Mas sendo fã de carteirinha da Lady Gaga e pipocando críticas excelentes sobre o filme, não tinha como escapar. O filme é um remake (o primeiro, se não me engano, é de 1937) e mostra a ascensão de uma compositora insegura, meio desengonçada, chamada Ally (Lady Gaga), enquanto o cantor já consagrado, por quem ela se apaixona, Jackson Maine (Bradley Cooper), se afunda no álcool. Dito assim, parece o maior dos clichês. E é. Mas alguém um dia já disse também que clichês só existem porque funcionam, né? Eu acredito muito nisso.

Vou logo avisando, o roteiro é o grande problema do filme. Fraquíssimo. Enquanto os números musicais, especialmente com a Lady Gaga, são emocionantes e poderosos, falta à história de amor dos personagens alguma coisa, química?, talvez. Claro que a Lady Gaga era o grande trunfo e ao mesmo tempo o grande problema da produção. Como convencer as pessoas de que a Lady Gaga não era a Lady Gaga, né? E eles tentaram. E durante boa parte do filme até conseguiram. Ela aparece mais cheinha, o cabelo natural, pouca maquiagem... O visual causa um certo impacto, pra ser bem sincero, mas a personagem não tem carisma. Canta maravilhosamente bem, mas não tem aquilo que é fundamental para uma estrela. Por causa disso, o filme se arrasta.

Por outro lado, embora o roteiro contenha falhas imperdoáveis, gostei bastante do argumento. Não vi ninguém ressaltando isso, mas é nítido que o filme tem um viés feminista importante e eu diria até marqueteiro, depois de todas aquelas denúncias de assédio na indústria do entretenimento, nos Estados Unidos, com o #metoo, etc. Isso se dá da seguinte maneira: quando Ally começa a ganhar status de pop star, Jack se sente diminuído e a humilha, por pura inveja. É apenas, neste tímido embate, que encontramos as melhores cenas do filme. O resto não contribui muito para a evolução do mesmo. Uma pena.

Vou além. O maior buraco é a falta de motivação dos personagens. Jack passa o filme inteiro, por exemplo, com a cabeça baixa. Chega a dar aflição! Mas não é exatamente esse o problema. Apesar do gestual repetitivo, me interessa mesmo saber de onde vem aquele comportamento autodestrutivo. Não fica claro. Outra coisa, Ally não conseguiu decolar, antes, por que tinha apenas “um nariz grande”? Oi??? No mínimo, poderia ter sido ignorada num desses programas tipo American Idol e depois fazer um comeback glorioso, com a ajuda do amado. Seria muito mais convincente, não é mesmo?

Mas a parte boa é que não faltam ótimas canções que distraem o espectador mais atento dos muitos deslizes do filme. Eu mesmo, já estou providenciando a minha trilha. Mas quem espera uma produção à altura do capricho dos trabalhos da cantora, pode se frustrar um pouquinho. No conjunto da obra, soa apressado e se resume numa frase inspirada no próprio filme: Nasce Uma Estrela é o piano nas costas, carregado (felizmente) pela Lady Gaga.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

+ PRÓXIMOS (WEBSÉRIE LGBT+)




Oi pessoal,

Passando por aqui para convidar...

Bom, antes disso, quero primeiro explicar o meu sumiço daqui. Tenho um carinho enorme por esse espaço, aqui registrei os dias mais trágicos (eu exagerando ahah) e os mais bacanas da minha vida também. Comecei com o “Mundo Imaginário”, acho que muita gente se lembra dessa fase, depois fui mudando até chegar ao “Blog do Luis Fabiano”, onde registrei meus dias de uma forma mais leve, meio inocente, com muita literatura, experimentei também, às vezes postava crônicas, contos, enfim, o blog me acompanhou em várias fases, mas a minha saída do Brasil em 2011 coincidiu com um novo momento da minha vida, onde não cabia tanto escrever como eu escrevia. Sim, cada post era feito nos mínimos detalhes, eu cuidava desse espaço como quem cuida de um jardim. E morando na Holanda eu já não tinha mais tempo, a cultura aqui é muito diferente, muito embora sempre vi e acompanhei muitas coisas do Brasil, mas meu ritmo é outro, eu estava envelhecendo também, precisava procurar novas distrações, etc. Mas o que realmente me fez parar de postar aqui foi a morte do meu grande amigo Callebe, em 2013. Nós que nos conhecemos na internet, ele tinha também o blog dele no Blogspot, o fotolog (sim sou velho), Orkut, etc. De uma hora pra outra, soubemos que ele tinha sido internado e semanas depois faleceu. Nunca me recuperei dessa ausência e achei que este espaço me lembrava muito ele e então parei mesmo de postar.

Quando comecei a fazer curtas-metragens, em 2011, também registrei aqui esse começo, mas depois não voltei pra atualizar minha caminhada no audiovisual e ainda me mudei, abri um blog no meu site www.luisfabianoteixeira.com. De lá pra cá, meu amigo Tiago Cardoso e eu montamos uma produtora de cinema, pequena pra começar, a Mar de Ideias Conteúdo Cultural, onde fazemos nossos filmes, fomos pra vários festivais, fomos premiados no Brasil e fora dele também, estamos no nosso filho de número 7 e por isso achei que voltar aqui fazia todo sentido, afinal, o protagonista da nossa websérie + Próximos, esta que estou promovendo agora, escreve num blog e essa memória veio exatamente daqui, de quando eu escrevia para este blog.

+ Próximos é uma websérie de ficção, de 5 episódios (aproximadamente 6 minutos cada), produzida e dirigida por mim e pelo Tiago, e estará disponível no YouTube, a partir do dia 01/12 (Dia mundial de combate à AIDS).

Daniel (Lucas Onofre) e Antônio (Renato Almeida) se amam, mas a condição do primeiro, que é soropositivo, coloca em xeque o futuro da relação. Entre os dois está Karina, melhor amiga de Daniel e também amiga de Antônio.

Tudo é abordado de forma respeitosa e direta, misturando suspense, drama, romance e uma pitada de comédia. E, claro, uma contrapartida social também: uso de camisinha, teste de hiv e relacionamento entre casais sorodiferentes. Aliás, uma das preocupações do roteirista era não escrever diálogos que evocassem culpa ou algum tipo de julgamento dos personagens.


Ao invés de ficar escrevendo e escrevendo, convido vocês para conhecer o nosso canal do Youtube/produtoramardeideias e ter um gostinho do nosso trabalho que estreia no dia 1/12. Depois, por favor, me digam o que acharam. Eu não sei se a maioria, aqui, continua com os seus blogs, provavelmente não, mas ficaria muito feliz, se alguém me dissesse que me conheceu naquela época, entre 2007 e 2011. 

O nosso trailer está aqui embaixo. Quem puder ajudar a divulgar eu agradeço muito, afinal este é um projeto coletivo, com uma causa superbacana e estou cada vez mais empolgado em propagar uma nova forma de ativismo que é usar a internet pra fazer o bem. Estou fazendo a minha parte e espero que você também faça a sua. Um mundo melhor só depende de nossas atitudes, não é mesmo? Abração e até a próxima!


segunda-feira, 13 de março de 2017

SEREIOU

Olá
Estou indo pra Heiloo e no caminho escrevo sobre a série nova que tem o título provisório de Sereiou. Já faz quinze dias ou um pouco mais que comecei essa série de colagens novas, então posso falar com mais consciência sobre o que estou criando, apenas agora. O tema é basicamente o que temos acompanhado na mídia, de uns tempos pra cá: empoderamento das mulheres, negros e gays. O básico é isso. Resolvi usar como imagem de desconstrução, dessa vez, a sereia. Por quê? Não tem nada a ver com a nova novela da Globo. Já adianto. Quando eu tinha uns 11 ou 12 anos, me lembro de ter visto uma imagem de uma sereia linda num gibi da Mônica. Reproduzi esse desenho num trabalho de escola e essa imagem nunca me saiu da cabeça. Outro dia, estava passeando em torno da feira da Waterlooplein, no Centro de Amsterdam, e na vitrine de uma loja de chocolates, vi a imagem pueril de uma sereia sendo levada nos braços por um marinheiro. Fiquei encantado e passei ali alguns minutos admirando aquela belezura. Me senti a própria Holly na vitrine da Tiffany kkk. Era a confirmação. Fazia um ano que não pintava ou colava, pois bem, a hora chegou. Estou divagando, mas o fato é que essa necessidade bateu fundo e veio como uma forma de me salvar de toda loucura e todo o resto que tem sido morar em Amsterdam, ter a minha âncora aqui e meu coração e minhas emoções no Brasil. Mas voltando... A sereia é pra mim uma imagem de poder incrível, me remete à liberdade, ao mesmo tempo em que simboliza a diferença. Por que não desconstruir essa imagem pra falar de mulheres que querem apenas o seu espaço reconhecido na sociedade? Comecei os trabalhos de forma bem tradicional como sempre faço, fazendo a colagem clássica, as cores e temas básicos, tudo pequeno, porque nao tenho espaço em casa... e fui pirando, pirando... No meio disso tudo, veio o Carnaval e acompanhei algumas discussões que resolvi trazer para as telas: Anitta acusada de apropriação cultural por usar tranças, Daniela Mercury de fazer blackface (oi?) no seu trio, Pabllo Vittar estourando com o hit que diz (Não espero o carnaval chegar pra ser vadia) e por aí vai... Daí eu me pergunto se se apropriar de algo historicamente reconhecido por pertencer a uma determinada cultura é errado? Pra mim, não. Fazendo com respeito e conhecendo de onde aquilo vem que mal tem? As minhas sereias vão ter, sim, cabelos coloridos e rostos multicores. É a minha forma de dizer, o mundo é diferente e faço parte dele. A mulherada vai aprovar, tenho certeza. Acompanhem os próximos posts e saiba mais sobre os bastidores dessa empreitada artística com uma pegada política. Vamos ver aonde vou chegar. Beijão

terça-feira, 7 de abril de 2015

UM MILAGRE PARA A ESTRELA AZUL



In Memoriam de Callebe Garcia

"As estrelas eram um símbolo de pureza, qualquer coisa inatingível que a mão dos homens não havia ainda conseguido poluir. As criaturas que chafurdavam na lama podiam salvar-se se ainda tivessem olhos para ver as estrelas". Érico Verissimo

Saguão de hospital. Tudo muito claro e frio. Ali perto, Heitor entre a vida e a morte. Paula se distrai com um horizonte imaginário, quando Cauê se aproxima.


Cauê (tocando no ombro da amiga)

...Paula? E aí, como é que ele tá?


Paula
...Muito mal. Não sei se o Heitor vai conseguir sair dessa.

Cauê (otimista)
...Temos que ter fé. Agora, é ter fé, minha querida. Ter fé.

Paula
...Ele tinha tanta fé, Cauê. Era sempre o primeiro a invocar o nome de Deus.

Cauê (sentando-se)
...Ele vai ficar bem. Caramba, não é justo!

Paula
...Fizemos tantos planos. Lembra?

Cauê
...Lembro.

Paula
...Uma das últimas coisas que ele me disse foi que queria viajar. Correr o mundo com uma mochila nas costas. Começaria pela Patagônia, vê se pode.

Cauê
...Isso era bem a cara dele. Essas aventuras turísticas sem um tostão no bolso. Nunca esqueço aquela viagem que fizemos a Paraty...

Paula
...Nós tínhamos combinado de fazer um curso de teatro juntos. Fomos até a escola ver como funcionava o lance da matrícula. Eu falei pra ele que ele já era um ator e dos bons. Ele riu como se fosse uma criança.

Cauê

...Adorava passar trotes pelo telefone, lembra? Eu mesmo caí em, pelo menos, uns cinco.

Paula
...Eu não me conformo. Não me conformo, Cauê! Olha, se o Heitor... Se ele morrer, aí é que eu vou pirar de vez mesmo.



Cauê

...Pelo amor de Deus, não vamos pensar no pior. Você já falou com a família dele?

Paula
...Só com uma das irmãs. A mãe dele me detesta.

Cauê
...Eu avisei ao João. Ele ficou tão chocado, mas daquele jeito dele, sabe?

Paula
...Espero que ele consiga passar por cima daquele orgulho besta e faça, pelo menos, uma oração para o Heitor.

Cauê
...Há quanto tempo eles não se falam?

Paula
...Acho que há uns seis meses, sei lá. 

Cauê
...Pra quem andava sempre grudado...

Paula
...Eu não sei direito o que houve. Aliás, eu não sei o que houve com todos nós. Quando nos conhecemos, era tudo tão bom, fazíamos tudo juntos... De uns tempos pra cá, cada um foi ficando na sua...

Cauê
...Tantas cobranças, ciúmes, isolamentos. Para algumas pessoas, a amizade virou até uma espécie de obrigação.

Paula

...Se nós pudéssemos começar tudo de novo...


Cauê
...Você acha que seria diferente?

Paula
...O João e o Heitor, por exemplo. Eles não se largavam, lembra?

Cauê
...Eu tenho quase certeza de que o rompimento deles foi por puro excesso de intimidade.



Paula

...Amigo que é amigo suporta essas coisinhas bobas, Cauê.

Cauê
...Mas um momento de silêncio também é bom. É até necessário.

Paula
...Eu já tenho medo do silêncio. Tenho medo de mim mesma, no silêncio.

Cauê
...Eu nunca me senti, assim, Paula.

Paula
...Assim como?

Cauê
...Assim, com essa sensação de vazio, de ter um buraco aqui dentro, sabe? Eu acho que eu também era dependente do amor dele.

Paula
...Todos nós éramos.

Cauê
...Um amor que beirava até o infantil, né?

Paula
...Ele sempre teve mesmo uma certa pureza.

Cauê

...Pra você deve ter sido difícil se apaixonar por ele daquela forma, não é?


Paula
...Sabe que não? Quando eu descobri que estava apaixonada por ele, eu era muito novinha, imatura. Nem sabia direito o que estava sentindo. Foi mais um impulso, eu acho. Ele também nunca me disse verbalmente que não queria nada comigo. Talvez não quisesse me machucar também. Mas eu logo entendi e segui o meu caminho. Também nunca o vi machucando ninguém, mesmo que a pessoa merecesse.

Cauê
...É verdade.


Paula

...Ele sempre queria o melhor para nós. Quando não podia fazer isso, simplesmente desaparecia. Era como um código. A gente logo sabia que ele estava exilado em algum lugar.

Cauê
...E ninguém conseguia tirá-lo de lá.



Paula

...E quanto mais perguntas, mais silêncio.

Cauê
...Ah, mas com o João ele sempre se abria. O João, por exemplo, foi o primeiro a saber que ele tinha comprado aquela maldita moto.

Paula
...Pois é... E, depois, deu no que deu.

João se aproxima.

João
...Oi pessoal.

Cauê
...Você não morre mais. Estávamos falando justamente de como você e o Heitor eram amigos.

João (sentando-se)
...E como é que ele tá?

Cauê
...Mal, né? Muito mal.

João
...Se eu soubesse...

Paula (num rompante)
...Se nós soubéssemos, tudo seria diferente. Teríamos feito uma festa pra ele.

João
...Na verdade, eu poderia mesmo ter passado por cima do meu orgulho, ter dito a ele: “Cara, vamos começar tudo de novo. Vamos esquecer essas besteiras”.



Cauê

...Agora é um pouco tarde para arrependimentos, você não acha?

João
...Ele não quis entender a minha imperfeição também. Eu errei. Todos erram, não é? Olha, vocês podem achar estranho eu dizer isso só agora, mas eu ainda o amo. Amo.

Paula
...Agora que ele não pode ouvir?

João
...O que vocês querem que eu faça? Eu já admiti que errei.

Cauê
...Mas não basta.

Paula
...Por favor, estamos num hospital.

João
...Dane-se o hospital! Não fui eu que provoquei o acidente.

Cauê
...Mas depois que vocês romperam ele nunca mais foi o mesmo.

João
...Eu faço qualquer coisa por ele... Ele não está precisando de sangue? O que ele está precisando?

Paula
...Não seja ridículo, João!

João
...Eu tentei me reaproximar dele. Enviei um e-mail, mas ele não me respondeu.

Cauê
...Ele me falou desse e-mail.

João
...O que ele te disse? Fala, Cauê!!!

Cauê
...Disse que você precisaria de muito mais alegria para saber que a vida dói.


João

...Não entendi.


Cauê

...É simples...


Paula (interrompendo-o)
...O João quis dizer que você só reconheceria o valor da amizade dele, depois que quebrasse a cara. Pronto, falei.

João
...Vocês acham que se ele ficar bom pode ainda me perdoar?

Cauê
...Não sabemos nem se ele vai ficar bom.

Paula
...Eu tenho por dever acreditar em milagres.

João
...Foi tão grave assim?

Cauê
...A moto entrou debaixo de um caminhão.

João
...Merda!

Paula
...Agora só resta mesmo rezar.

Cauê
...Preciso dar um pulo em casa, tomar banho e comer alguma coisa. Estou na rua desde cedo. Vocês vão ficar?

Paula
...Eu tenho ainda que passar, na faculdade dele. Não sei se eles já sabem. Quanto mais pessoas torcendo pela sua recuperação, melhor.

Cauê
...Eu te dou uma carona.


João fica parado ali mesmo, sem saber o que fazer, como agir, sem poder mudar o tempo. Apenas sentindo aquela dor que agora se transformou em culpa.


Texto escrito em 22/12/2010.