quarta-feira, 14 de novembro de 2018

AS ESTATÍSTICAS...


Pensei algumas vezes se deveria escrever este post ou não, mas terminei me convencendo de que seria importante. Na semana passada, lancei no canal da minha pequena produtora de cinema independente Mar de Ideias, no You Tube, o curta-metragem “A Prateleira” e, embora a recepção, de modo geral, tenha sido muito boa, vieram algumas críticas negativas também. Normal para quem está nesse meio, mas talvez seja o momento de lavar essa roupa suja, aqui mesmo.

O curta está BEM AQUI, ou abaixo do post. “A Prateleira” é o meu quarto curta-metragem e conta a história de um rapaz que está sozinho em casa e o cunhado pede para ele colocar uma prateleira, no quarto da filha. Bom, nesta hora, algo inesperado acontece. O filme trata de um tema bastante sério e delicado: estupro. Segundo dados recentes, a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Só 10% desses casos chegam a polícia. Não dá pra ignorar isso, não é mesmo? 

Ao optarmos por uma linguagem que fugisse de filmes institucionais fofos, porque acreditamos que a garotada precisa, sim!, de um choque de realidade, desagradamos algumas pessoas e fomos criticados, até mesmo por pessoas da nossa equipe e que participaram de todo o processo do filme. Quanto a isso, apenas lamento. Em nossa defesa, posso dizer que, em momento algum, erotizamos a cena do estupro, aliás, essa foi a nossa maior preocupação. E, se não fomos didáticos o suficiente, é porque acreditamos num cinema que não subestima a inteligência das pessoas. 

Nessas críticas, me chamaram atenção o tom conservador e eu diria até falso moralista, de algumas pessoas. Mas os sinais já estavam bem claros, há algum tempo, também. Exposição queer ganhando noticiários sob o “horror” de uma parcela hipócrita da sociedade que consegue admirar “A Origem do Mundo”, em Paris, mas não tolera ver uma obra chamada “Criança Viada”, no Brasil. E tantos outros retrocessos, sem o menor sentido e que farão cada dez mais parte desse novo momento, “Brasil, ame-o ou deixe-o”. “Deveríamos nos precipitar de vez nas águas”, como disse Drummond, mas vamos seguir em frente. 

Só voltando um pouco ao tema assédio e abusos sexuais, que nortearam a existência do nosso curta, cabe aqui registrar uma cena ridícula protagonizada pelo Silvio Santos, no final de semana passado, durante o Teleton. Vocês já devem ter assistido ao vídeo. De forma grosseira e deselegante, ele recusou um abraço da cantora Claudia Leitte, alegando que ela o deixaria excitado. Pior, com a esposa e uma das  filhas, na plateia. Rindo de nervoso. Sei que muitos vão achar exagero veicular esse episódio lamentável a um texto que começou falando de estupro. Não é. Esse tipo de pensamento machista e vergonhoso, disfarçado de brincadeira, constrange as mulheres. Não é nada engraçado e encoraja outros machistas. 

E o mais absurdo é que estamos assistindo a tudo isso, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Frases como “Você não merece ser estuprada porque é feia”, lembram disso?, “Vou te quebrar ao meio”, “Não vou te abraçar porque você vai me deixar excitado”, são só alguns exemplos. E por mais que se tente alertar as pessoas, como é o nosso caso, ainda podemos ouvir: “ah, tudo agora é tão politicamente incorreto”. Enquanto isso, as estatísticas... 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

UM PIANO CHAMADO "NASCE UMA ESTRELA"



Sim! Estou de volta. Foram dez anos de blog (como o tempo voa!) e ele já estava meio esquecido, né? Pretendo postar com mais frequência, por aqui, até porque estou numa nova fase da minha vida e escrever sempre foi, entre outras coisas, passar a minha vida a limpo, me reconectar comigo mesmo. Então, vamos lá. Se vão ler ou não, é uma outra história. O que importa mesmo é que o prazer de escrever venceu!

E esse retorno traz, de cara, as minhas impressões sobre um filme que acabei de assistir e que ainda está dando o que falar: A Star is Born (Nasce Uma Estrela), com a Lady Gaga no papel principal e o Bradley Cooper dirigindo e atuando. O filme é um carrossel de emoções, nem sempre muito bem conduzido, mas vou tentar resumir o que eu acho que vale a pena e o que não é tão bom, assim. Mas, claro, isso jamais deve tirar o prazer de vocês de conferirem, ok?

Pra começar, não sou o maior fã de musicais. Mesmo! Mas sendo fã de carteirinha da Lady Gaga e pipocando críticas excelentes sobre o filme, não tinha como escapar. O filme é um remake (o primeiro, se não me engano, é de 1937) e mostra a ascensão de uma compositora insegura, meio desengonçada, chamada Ally (Lady Gaga), enquanto o cantor já consagrado, por quem ela se apaixona, Jackson Maine (Bradley Cooper), se afunda no álcool. Dito assim, parece o maior dos clichês. E é. Mas alguém um dia já disse também que clichês só existem porque funcionam, né? Eu acredito muito nisso.

Vou logo avisando, o roteiro é o grande problema do filme. Fraquíssimo. Enquanto os números musicais, especialmente com a Lady Gaga, são emocionantes e poderosos, falta à história de amor dos personagens alguma coisa, química?, talvez. Claro que a Lady Gaga era o grande trunfo e ao mesmo tempo o grande problema da produção. Como convencer as pessoas de que a Lady Gaga não era a Lady Gaga, né? E eles tentaram. E durante boa parte do filme até conseguiram. Ela aparece mais cheinha, o cabelo natural, pouca maquiagem... O visual causa um certo impacto, pra ser bem sincero, mas a personagem não tem carisma. Canta maravilhosamente bem, mas não tem aquilo que é fundamental para uma estrela. Por causa disso, o filme se arrasta.

Por outro lado, embora o roteiro contenha falhas imperdoáveis, gostei bastante do argumento. Não vi ninguém ressaltando isso, mas é nítido que o filme tem um viés feminista importante e eu diria até marqueteiro, depois de todas aquelas denúncias de assédio na indústria do entretenimento, nos Estados Unidos, com o #metoo, etc. Isso se dá da seguinte maneira: quando Ally começa a ganhar status de pop star, Jack se sente diminuído e a humilha, por pura inveja. É apenas, neste tímido embate, que encontramos as melhores cenas do filme. O resto não contribui muito para a evolução do mesmo. Uma pena.

Vou além. O maior buraco é a falta de motivação dos personagens. Jack passa o filme inteiro, por exemplo, com a cabeça baixa. Chega a dar aflição! Mas não é exatamente esse o problema. Apesar do gestual repetitivo, me interessa mesmo saber de onde vem aquele comportamento autodestrutivo. Não fica claro. Outra coisa, Ally não conseguiu decolar, antes, por que tinha apenas “um nariz grande”? Oi??? No mínimo, poderia ter sido ignorada num desses programas tipo American Idol e depois fazer um comeback glorioso, com a ajuda do amado. Seria muito mais convincente, não é mesmo?

Mas a parte boa é que não faltam ótimas canções que distraem o espectador mais atento dos muitos deslizes do filme. Eu mesmo, já estou providenciando a minha trilha. Mas quem espera uma produção à altura do capricho dos trabalhos da cantora, pode se frustrar um pouquinho. No conjunto da obra, soa apressado e se resume numa frase inspirada no próprio filme: Nasce Uma Estrela é o piano nas costas, carregado (felizmente) pela Lady Gaga.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

+ PRÓXIMOS (WEBSÉRIE LGBT+)




Oi pessoal,

Passando por aqui para convidar...

Bom, antes disso, quero primeiro explicar o meu sumiço daqui. Tenho um carinho enorme por esse espaço, aqui registrei os dias mais trágicos (eu exagerando ahah) e os mais bacanas da minha vida também. Comecei com o “Mundo Imaginário”, acho que muita gente se lembra dessa fase, depois fui mudando até chegar ao “Blog do Luis Fabiano”, onde registrei meus dias de uma forma mais leve, meio inocente, com muita literatura, experimentei também, às vezes postava crônicas, contos, enfim, o blog me acompanhou em várias fases, mas a minha saída do Brasil em 2011 coincidiu com um novo momento da minha vida, onde não cabia tanto escrever como eu escrevia. Sim, cada post era feito nos mínimos detalhes, eu cuidava desse espaço como quem cuida de um jardim. E morando na Holanda eu já não tinha mais tempo, a cultura aqui é muito diferente, muito embora sempre vi e acompanhei muitas coisas do Brasil, mas meu ritmo é outro, eu estava envelhecendo também, precisava procurar novas distrações, etc. Mas o que realmente me fez parar de postar aqui foi a morte do meu grande amigo Callebe, em 2013. Nós que nos conhecemos na internet, ele tinha também o blog dele no Blogspot, o fotolog (sim sou velho), Orkut, etc. De uma hora pra outra, soubemos que ele tinha sido internado e semanas depois faleceu. Nunca me recuperei dessa ausência e achei que este espaço me lembrava muito ele e então parei mesmo de postar.

Quando comecei a fazer curtas-metragens, em 2011, também registrei aqui esse começo, mas depois não voltei pra atualizar minha caminhada no audiovisual e ainda me mudei, abri um blog no meu site www.luisfabianoteixeira.com. De lá pra cá, meu amigo Tiago Cardoso e eu montamos uma produtora de cinema, pequena pra começar, a Mar de Ideias Conteúdo Cultural, onde fazemos nossos filmes, fomos pra vários festivais, fomos premiados no Brasil e fora dele também, estamos no nosso filho de número 7 e por isso achei que voltar aqui fazia todo sentido, afinal, o protagonista da nossa websérie + Próximos, esta que estou promovendo agora, escreve num blog e essa memória veio exatamente daqui, de quando eu escrevia para este blog.

+ Próximos é uma websérie de ficção, de 5 episódios (aproximadamente 6 minutos cada), produzida e dirigida por mim e pelo Tiago, e estará disponível no YouTube, a partir do dia 01/12 (Dia mundial de combate à AIDS).

Daniel (Lucas Onofre) e Antônio (Renato Almeida) se amam, mas a condição do primeiro, que é soropositivo, coloca em xeque o futuro da relação. Entre os dois está Karina, melhor amiga de Daniel e também amiga de Antônio.

Tudo é abordado de forma respeitosa e direta, misturando suspense, drama, romance e uma pitada de comédia. E, claro, uma contrapartida social também: uso de camisinha, teste de hiv e relacionamento entre casais sorodiferentes. Aliás, uma das preocupações do roteirista era não escrever diálogos que evocassem culpa ou algum tipo de julgamento dos personagens.


Ao invés de ficar escrevendo e escrevendo, convido vocês para conhecer o nosso canal do Youtube/produtoramardeideias e ter um gostinho do nosso trabalho que estreia no dia 1/12. Depois, por favor, me digam o que acharam. Eu não sei se a maioria, aqui, continua com os seus blogs, provavelmente não, mas ficaria muito feliz, se alguém me dissesse que me conheceu naquela época, entre 2007 e 2011. 

O nosso trailer está aqui embaixo. Quem puder ajudar a divulgar eu agradeço muito, afinal este é um projeto coletivo, com uma causa superbacana e estou cada vez mais empolgado em propagar uma nova forma de ativismo que é usar a internet pra fazer o bem. Estou fazendo a minha parte e espero que você também faça a sua. Um mundo melhor só depende de nossas atitudes, não é mesmo? Abração e até a próxima!


terça-feira, 7 de abril de 2015

UM MILAGRE PARA A ESTRELA AZUL



In Memoriam de Callebe Garcia

"As estrelas eram um símbolo de pureza, qualquer coisa inatingível que a mão dos homens não havia ainda conseguido poluir. As criaturas que chafurdavam na lama podiam salvar-se se ainda tivessem olhos para ver as estrelas". Érico Verissimo

Saguão de hospital. Tudo muito claro e frio. Ali perto, Heitor entre a vida e a morte. Paula se distrai com um horizonte imaginário, quando Cauê se aproxima.


Cauê (tocando no ombro da amiga)

...Paula? E aí, como é que ele tá?


Paula
...Muito mal. Não sei se o Heitor vai conseguir sair dessa.

Cauê (otimista)
...Temos que ter fé. Agora, é ter fé, minha querida. Ter fé.

Paula
...Ele tinha tanta fé, Cauê. Era sempre o primeiro a invocar o nome de Deus.

Cauê (sentando-se)
...Ele vai ficar bem. Caramba, não é justo!

Paula
...Fizemos tantos planos. Lembra?

Cauê
...Lembro.

Paula
...Uma das últimas coisas que ele me disse foi que queria viajar. Correr o mundo com uma mochila nas costas. Começaria pela Patagônia, vê se pode.

Cauê
...Isso era bem a cara dele. Essas aventuras turísticas sem um tostão no bolso. Nunca esqueço aquela viagem que fizemos a Paraty...

Paula
...Nós tínhamos combinado de fazer um curso de teatro juntos. Fomos até a escola ver como funcionava o lance da matrícula. Eu falei pra ele que ele já era um ator e dos bons. Ele riu como se fosse uma criança.

Cauê

...Adorava passar trotes pelo telefone, lembra? Eu mesmo caí em, pelo menos, uns cinco.

Paula
...Eu não me conformo. Não me conformo, Cauê! Olha, se o Heitor... Se ele morrer, aí é que eu vou pirar de vez mesmo.



Cauê

...Pelo amor de Deus, não vamos pensar no pior. Você já falou com a família dele?

Paula
...Só com uma das irmãs. A mãe dele me detesta.

Cauê
...Eu avisei ao João. Ele ficou tão chocado, mas daquele jeito dele, sabe?

Paula
...Espero que ele consiga passar por cima daquele orgulho besta e faça, pelo menos, uma oração para o Heitor.

Cauê
...Há quanto tempo eles não se falam?

Paula
...Acho que há uns seis meses, sei lá. 

Cauê
...Pra quem andava sempre grudado...

Paula
...Eu não sei direito o que houve. Aliás, eu não sei o que houve com todos nós. Quando nos conhecemos, era tudo tão bom, fazíamos tudo juntos... De uns tempos pra cá, cada um foi ficando na sua...

Cauê
...Tantas cobranças, ciúmes, isolamentos. Para algumas pessoas, a amizade virou até uma espécie de obrigação.

Paula

...Se nós pudéssemos começar tudo de novo...


Cauê
...Você acha que seria diferente?

Paula
...O João e o Heitor, por exemplo. Eles não se largavam, lembra?

Cauê
...Eu tenho quase certeza de que o rompimento deles foi por puro excesso de intimidade.



Paula

...Amigo que é amigo suporta essas coisinhas bobas, Cauê.

Cauê
...Mas um momento de silêncio também é bom. É até necessário.

Paula
...Eu já tenho medo do silêncio. Tenho medo de mim mesma, no silêncio.

Cauê
...Eu nunca me senti, assim, Paula.

Paula
...Assim como?

Cauê
...Assim, com essa sensação de vazio, de ter um buraco aqui dentro, sabe? Eu acho que eu também era dependente do amor dele.

Paula
...Todos nós éramos.

Cauê
...Um amor que beirava até o infantil, né?

Paula
...Ele sempre teve mesmo uma certa pureza.

Cauê

...Pra você deve ter sido difícil se apaixonar por ele daquela forma, não é?


Paula
...Sabe que não? Quando eu descobri que estava apaixonada por ele, eu era muito novinha, imatura. Nem sabia direito o que estava sentindo. Foi mais um impulso, eu acho. Ele também nunca me disse verbalmente que não queria nada comigo. Talvez não quisesse me machucar também. Mas eu logo entendi e segui o meu caminho. Também nunca o vi machucando ninguém, mesmo que a pessoa merecesse.

Cauê
...É verdade.


Paula

...Ele sempre queria o melhor para nós. Quando não podia fazer isso, simplesmente desaparecia. Era como um código. A gente logo sabia que ele estava exilado em algum lugar.

Cauê
...E ninguém conseguia tirá-lo de lá.



Paula

...E quanto mais perguntas, mais silêncio.

Cauê
...Ah, mas com o João ele sempre se abria. O João, por exemplo, foi o primeiro a saber que ele tinha comprado aquela maldita moto.

Paula
...Pois é... E, depois, deu no que deu.

João se aproxima.

João
...Oi pessoal.

Cauê
...Você não morre mais. Estávamos falando justamente de como você e o Heitor eram amigos.

João (sentando-se)
...E como é que ele tá?

Cauê
...Mal, né? Muito mal.

João
...Se eu soubesse...

Paula (num rompante)
...Se nós soubéssemos, tudo seria diferente. Teríamos feito uma festa pra ele.

João
...Na verdade, eu poderia mesmo ter passado por cima do meu orgulho, ter dito a ele: “Cara, vamos começar tudo de novo. Vamos esquecer essas besteiras”.



Cauê

...Agora é um pouco tarde para arrependimentos, você não acha?

João
...Ele não quis entender a minha imperfeição também. Eu errei. Todos erram, não é? Olha, vocês podem achar estranho eu dizer isso só agora, mas eu ainda o amo. Amo.

Paula
...Agora que ele não pode ouvir?

João
...O que vocês querem que eu faça? Eu já admiti que errei.

Cauê
...Mas não basta.

Paula
...Por favor, estamos num hospital.

João
...Dane-se o hospital! Não fui eu que provoquei o acidente.

Cauê
...Mas depois que vocês romperam ele nunca mais foi o mesmo.

João
...Eu faço qualquer coisa por ele... Ele não está precisando de sangue? O que ele está precisando?

Paula
...Não seja ridículo, João!

João
...Eu tentei me reaproximar dele. Enviei um e-mail, mas ele não me respondeu.

Cauê
...Ele me falou desse e-mail.

João
...O que ele te disse? Fala, Cauê!!!

Cauê
...Disse que você precisaria de muito mais alegria para saber que a vida dói.


João

...Não entendi.


Cauê

...É simples...


Paula (interrompendo-o)
...O João quis dizer que você só reconheceria o valor da amizade dele, depois que quebrasse a cara. Pronto, falei.

João
...Vocês acham que se ele ficar bom pode ainda me perdoar?

Cauê
...Não sabemos nem se ele vai ficar bom.

Paula
...Eu tenho por dever acreditar em milagres.

João
...Foi tão grave assim?

Cauê
...A moto entrou debaixo de um caminhão.

João
...Merda!

Paula
...Agora só resta mesmo rezar.

Cauê
...Preciso dar um pulo em casa, tomar banho e comer alguma coisa. Estou na rua desde cedo. Vocês vão ficar?

Paula
...Eu tenho ainda que passar, na faculdade dele. Não sei se eles já sabem. Quanto mais pessoas torcendo pela sua recuperação, melhor.

Cauê
...Eu te dou uma carona.


João fica parado ali mesmo, sem saber o que fazer, como agir, sem poder mudar o tempo. Apenas sentindo aquela dor que agora se transformou em culpa.


Texto escrito em 22/12/2010.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

PELO MUNDO DAS TVS - AMSTERDAM



Só hoje consegui assistir à matéria do Video Show sobre Amsterdam, dentro da série Pelo Mundo das TVs, apresentada pelo Zeca Camargo. Tive o prazer de indicar a maior parte das locações que aparece no video e acompanhar a equipe num dia intenso de trabalho, em dezembro do ano passado. O resultado ficou incrível! ADOREI. Amsterdam em todo o seu charme e beleza. Quem não assistiu é só clicar no link e dar play. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

ANO BOM



É a segunda vez que faço isso. Saio de casa meia hora antes da virada e vou me aventurar pelas ruas estreitas e repletas de turistas de Amsterdam, para cruzar aqueles canais maravilhosos, enquanto um filme, com o perdão do trocadilho, passa na minha cabeça, rememorando o ano que se passou. Este ano foi ainda melhor, tudo pareceu ainda mais belo e encantador ou teria sido 2014 um ano espetacular? Fazendo, assim, uma análise geral, o ano passado não foi exatamente incrível, mas foi perfeito. Devo a esse ano a força que me manteve firme para continuar com meus projetos artísticos, não ter morrido de amor (como fui tolo) e seguir com os meus planos de viagem ao Brasil, depois de quase quatro anos, fora de casa. Finalmente chegarei lá, me aguardem. Por tudo isso e mais algumas agradáveis surpresas de última hora, posso dizer que foi um ano muito bom.
Não fiz exposições, mas pude avançar nas pesquisas do meu trabalho e produzir mais de dez quadros, exatamente como eu os imaginei, fora outros tantos que estão inacabados, no ateliê, e que devem aparecer em breve. Ano em que pude escrever mais um novo roteiro, que agora se soma aos outros três engavetados e que, pelo menos, um deles pretendo filmar ainda este ano, no Brasil. Sem contar o projeto de um site cultural e mais a minha adesão ao mundo dos vloggers, que resultou na criação do Fixação, programa de dicas culturais e afins do meu canal do You Tube e que vai melhorar (e muito!), nas próximas edições.
Ano em que abandonei de vez a TV e apenas me dediquei a assistir a poucos e bons filmes, e muito deles nacionais. Claro, está cada vez mais difícil encontrar boas produções brasileiras, mas como não se emocionar com “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” ou dar boas risadas com o desbunde de “Tatuagem” e até mesmo se decepcionar com “Praia do Futuro”. No quesito músicas do ano, eu que já não sou uma pessoa cheia de trilhas favoritas, qual não foi a minha surpresa e prazer ao descobrir, já no final do ano, o talentosíssimo Johnny Hooker, cuja canção “Volta”, do já citado “Tatuagem”, foi uma das que mais escutei junto com “Alma Sebosa”. Depois baixei o CD “Roquestar” e os meus treinos na academia ficaram bem mais interessantes e suportáveis. Viva esse talento pernambucano! Pude ainda realizar o sonho de conhecer, aqui em Amsterdam, a cantora  Daniela Mercury, de quem sou fã confesso e que me fez mergulhar nas minhas raízes baianas, num show memorável com o Olodum, numa das casas de espetáculos mais bacanas da Holanda e ainda pude presenteá-la com um trabalho meu, inspirado no barroco brasileiro e ela se mostrou satisfeita no Twitter e ainda me agradeceu pessoalmente pelo mesmo. Quase morri do coração nesse dia!
O ano que li muitas e variadas biografias. Não é tão fácil encontrar livros em português por aqui e o meu inglês ainda não é uma Brastemp, logo ler um bom romance ou livro de contos é bem complicado. E ainda estou me acostumando com os livros digitais. Fui então emendando uma biografia na outra e quando vi já tinha lido “Daniela Mercury e Malu – Uma história de Amor”, “O Som e a Fúria de Tim Maia”, “Dolores Duran – A noite e as canções de uma mulher fascinante” e, finalmente, “50, Eu?”, que mereceu até uma resenha aqui, no post anterior. Já quase no final do ano, o querido Benjamin Moser autografou a minha biografia da Clarice Lispector, “Clarice,”, e de quebra ainda assistimos a um ótimo documentário sobre Susan Sontag, num prestigiado festival de documentários, aqui de Amsterdam.
A exposição que me marcou profundamente foi, sem dúvida, “Marlene Dumas – The Image As Burden”, no Stedelijk Museum. Por tudo. Pela excelente e indiscutível qualidade do trabalho da artista sul-africana, pela montagem que é precisa e competente, pela companhia especial naquela linda manhã ensolarada de domingo e, sobretudo, pela atmosfera poética e de encantamento que esta exposição nos presenteia. Não é à toa que foi um sucesso de crítica e público. Não posso deixar de falar também no acervo de tirar o fôlego do maravilhoso Centre Georges Pompidou, em Paris, mais até do que a exposição sobre o início da carreira do Marcel Duchamp, que também vi, sem grande entusiasmo, lá mesmo. Ver de perto todas aquelas maravilhas modernas e contemporâneas foi uma experiência inesquecível!
E por falar em Paris... A minha viagem pra lá, mais uma vez, foi maravilhosa. Pela primeira vez, sozinho, pude andar e me perder por aquelas ruas charmosas, no comecinho do outono. Só essa viagem mereceria um post à parte, porque foi muito especial e aproveitei bastante. Logo no primeiro dia, estava acontecendo uma espécie de Virada Cultural chamada “Nuit Blanche”, com várias e inusitadas atrações, que conferi na companhia de um francezinho de alma brasileira que, entre outras coisas, estava lendo Oswald de Andrade em português. Pode uma coisa dessas? Lá também encontrei o meu amigo Rodrigo Fauor e, com outro amigo dele, passamos uma tarde muito divertida juntos. Já em Amsterdam, tive o prazer de receber a minha grande amiga, desde os tempos do colegial, Fernanda Matos e passamos momentos lindos na cidade. Recebi a visita do meu primo Felipe, vindo de Budapeste, e foi ótimo recebê-lo também por aqui.
Nas redes sociais, o ano foi, de longe, do Instagram, com destaque para a nossa sede voraz por selfies (melhor não falarmos do controverso pau da selfie rs), enquanto o Facebook se mostrou cada vez mais autoritário e invasivo, chegando às raias do insuportável com a disputa presidencial, com as pessoas se digladiando em defesas inflamadas por um ou outro candidato. E o que falar do Brasil, nesse sentido, hein? O ano do retrocesso, da inflação voltando, do escândalo da Petrobras, dos crimes homofóbicos, da fraca abertura da Copa... E o que foi aquele terrível 7x1 da Alemanha contra a fraca seleção brasileira? Bom, melhor pararmos por aqui e mentalizarmos um 2015 com mais motivos para a gente se orgulhar. Que não nos falte trabalho e, sobretudo, vontade de superar os desafios. Seja bem-vindo ano bom!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

50 E ZEN


Muitos vão torcer o nariz, mas o livro mais interessante que li neste ano foi “50, Eu?”, o e-book do jornalista e apresentador de TV, Zeca Camargo. Antes que você possa me chamar de louco ou deslumbrado com o mundo das celebridades, sugiro acompanhar o post até o final. Não, não quero convencer você de absolutamente nada, apenas mostrar que esse livro, talvez por questões de mercado ou por puro preconceito, foi promovido de forma errada e muitas pessoas não sabem o quanto ele é bem elaborado, o quanto o texto é saboroso e inteligente. 
Difícil escolher apenas um trecho para deixá-los com água na boca, seguem então três que selecionei ao acaso: “Sei que tenho que aceitar que um dia tudo vai cair mesmo – uma involuntária vingança do corpo feminino, que tenho certeza de que as mulheres comemoram secretamente toda vez que veem o marido sessentão sair do banho”, “Somos um gênero naturalmente competitivo – e, na impossibilidade de competir em outras características físicas mais ocultas (e que, embora menos ainda admitam, é a única competição que realmente conta), é na linha da cintura que secretamente dizemos a nós mesmos: “Estou melhor que ele”, “Sou o brinquedo favorito do filho de 2 anos de um casal de amigos. Aliás, eu não – meu rosto. Mais especificamente a pele do meu rosto. Toda vez que encontro esse garoto, ele avança sobre minhas bochechas com a fome de quem encontrou um balde de massinha de modelar”.
Estava finalizando as pesquisas de um projeto chamado “O Rosto Objeto”, inspirado num artigo do Roland Barthes, onde desconstruo rostos especialmente de ídolos ou ícones do passado, negando essa necessidade voraz que temos de forjar a aceitação inconteste da beleza como algo fundamental (quem não se lembra do espanto com o novo rosto da atriz Renée Zellweger, nas redes sociais, dia desses?), para mostrar que mesmo aparentemente transfigurados, “monstruosos”, a beleza deles está ali, uma vez que reconhecemos neles, imediatamente, o que eles representam culturalmente e isso é o que de fato importa (ou deveria). Li muitas coisas e, nesse contexto, cheguei ao livro do Zeca Camargo. Sim, foi a última leitura. Não esperava um livro muito “sério”, é verdade, e logo no primeiro capítulo levei aquele susto.  “Será que ele escreveu isso mesmo?” – me questionei, ainda desconfiado. E bastou alguns parágrafos para saber que o livro é mesmo muito bom.
Chegar aos 50 anos, gozando de boa saúde e prestígio profissional, não é exatamente uma novidade e muito menos privilégio de alguém famoso, por isso já considero o primeiro grande acerto do autor: registrar a chegada da nova idade  de forma pouco óbvia (fazendo um raio-x do próprio corpo e suas mudanças) e sem se perder no caminho fácil da vaidade extrema. Talvez isso explique a presença constante do humor, ou da “autossacanagem”, como costumo dizer. Desde a ótima foto de capa, onde o rosto do jornalista aparece todo esticado, o que logo me fez lembrar alguns trabalhos do fotógrafo Wes Naman, até o bem sacado capítulo final que traz um dos discursos mais bonitos que já li sobre generosidade e amor, o humor está presente. Brincar com o que viu no espelho, depois de uma comemoração intensa em Istambul, uma de suas cidades favoritas, mas sem protagonizar um dramalhão do tipo: “Em que espelho ficou perdida a minha face?” – só pra lembrar um dos meus poemas favoritos da Cecília Meireles – trouxe uma leveza esperta e, sobretudo, cumplicidade com o leitor. E, cá entre nós, nesses tempos de exposição excessiva, em todos os sentidos, o discurso do livro, apesar do lugar-comum, é bastante pertinente: “envelhecer faz parte do processo”. Não tem jeito.
Não posso dizer que a mídia especializada ignorou o livro, mas todo material que li sobre ele ou vídeos a que assisti e até mesmo entrevistas do jornalista falando desse trabalho, na minha modesta opinião, não destacam a qualidade que me impressionou, a maioria termina sempre refém do perigoso e precipitado julgamento: “Um artista da Globo escreveu, então vamos boicotar”. Aliás, não basta ser apenas da Globo, basta ter um pezinho no pop para sofrer desse mal e na literatura não é diferente. O escritor paulistano Santiago Nazarian que o diga. Fernanda Young também. Mas, pra  felicidade de quem admira um bom texto, as coisas estão começando a mudar e nomes como Fernanda Torres e Gregorio Duvivier estão aí pra marcar território.
No próprio livro (“cada um que descubra as coisas por si”) e em algumas entrevistas de promoção do mesmo, o jornalista se apressa em dizer que não se trata de um livro de autoajuda. De fato, não é, mas é inegável que ele seja “vendido” como tal, o que é uma pena, porque simplifica a mensagem e o ótimo tratamento do texto. Não há fórmulas prontas, dicas para perder peso ou coisas do gênero, apenas o relato honesto de quem chegou aos 50 anos, consciente das mudanças do próprio corpo e feliz por se deixar ser, daquela maneira. É ou não é uma ótima inspiração (a palavra adequada) para quem ainda se sente desconfortável em, digamos, viver mais, com tudo que isso possa trazer de bom ou ruim? E se é pra viver mais, que seja com alegria e entusiasmo, como Zeca Camargo tem feito e tão “zen”.